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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O DESESPERO


Sei não...


Sêneca afirmou: "Devemos ir buscar coragem ao nosso próprio desespero".

A coragem é de fato um remédio eficaz à maioria dos males da alma, mas como usá-la quando o mal que nos aflige é justamente a sua falta? É como buscar remédio em um frasco vazio.

Quem nunca passou por esta sensação em algum momento da vida, em que o desespero foi tanto diante de uma expectativa, tão grande, a ponto de não se importar para o que pudesse acontecer consigo naquele momento?

Certa manhã um garoto encontrou dois filhotes de um pássaros ainda no ninho, mas já crescidinhos, quase a ponto de alçar voo, pois já havia bastante plumagem. Aprisionou-os na gaiola e armou alçapão para pegar os pais. Primeiro veio a mãe e caiu na armadilha. Foi posta junto com os filhotes. Depois foi aprisionado o pai. O menino colocou todos numa mesma gaiola para que os filhotes continuassem a ser alimentados pelos pais. Entretanto, no entardecer, percebeu que a fêmea estava, como se dizia, jururu... Ela havia entrado em tal fase de desespero que se punha letárgica no poleiro, com a plumagem arrepiada (sintoma de doença, tristeza, abatimento). O macho, então, passou a  alimentar os filhotes e a própria fêmea como se ela fosse um de seus filhotes, dada a situação de desesperança inerte enfrentada pela companheira.

Na manhã seguinte a fêmea já estava recuperada, o gesto do macho a havia salvo. Talvez acontecesse o contrário, mas não vem ao caso. O fato é que a fêmea voltou a alimentar-se por si só e alimentar seus filhotes. Por fim, o garoto acabou por soltar a todos, após alguns dias. 

Nestes momentos, talvez o que precisamos é apenas apoio e uma noite...

terça-feira, 19 de novembro de 2024

RENATO RUSSO, CANÇÕES DE AMOR E O ESTOICISMO

 O Estoicismo é uma escola filosófica que prega a serenidade nas situações para estabelecer harmonia a fim de chegar a uma situação de bem estar. A aceitação do que não se pode mudar ou que não se tem o poder de intervir é um dos processos para se chegar a este equilíbrio. Num relacionamento amoroso, você tem poder sobre seu agir diante do que sente, mas não tem poder sobre o sentimento e a vontade do outro, num dia ele está ao seu lado e no outro pode não mais estar. Tampouco pode infruir no que pode acontecer. A morte da pessoa amada, por exemplo, é um fator da qual não se tem o controle. Por isso é preciso ter serenidade para passar pelo processo da aceitação. Isto é perfeitamente descrito, por exemplo, na música Esquadros, de Adriana Calcanhoto com quem, inclusive, Renato gravou dueto em programa de TV:

"Meu amor cadê você

Eu acordei 

Não tem ninguém ao lado..."

Nesta música Adriana usa o termo remoto controle, uma alusão ao controle remoto, um aparelho que permite controlar de longe. Esta inversão para remoto controle inverte também a possibilidade de controle do sujeito, uma vez que a vida está ligada a fatores que fogem de nossa alçada. Esquadros é uma música síntese do pensamento estoico. Adriana fez para seu irmão cego, refletindo sobre a impossibilidade de agir sobre isso. A partir desta reflexão dobre a cegueira do irmão, vem ao pensamento uma série de outras situações das quais não tem o poder de agir ou modificar, sendo, portanto, remoto o controle sobre elas. Uma dessas situações é sobre a vontade do outro nas questões do amor, pois um dia a pessoa pode amanhecer contigo e nos outros seguintes não mais...  Por diversos motivos que fogem ao seu controle. E a melhor forma de agir sobre isso é aceitar.

Inúmeras outras canções vêm carregadas deste conceito, nos diversos aspectos da vida, principalmente através de compositores como Oswaldo Montenegro e Renato Teixeira.  Tal conceito está  presente em diversos ritmos, como o expressado pelo eu-lírico de "Não Deixe o Samba Morrer". O sujeito já não consegue mais fazer o que fazia antes e agora tem que se contentar em buscar novas formas de participar do processo. Neste caso ele não pode mais sambar, então deixa a sucessor a missão de continuar a tradição. Neste caso, o movimento estoico se dá não apenas pela continuidade da tradição, já que é provocada, mas sobretudo pela situação do personagem que, não podendo mais exercer aquilo que gostava, arruma outra forma de continuar participando. O interessante é que para continuar participando, o evento não pode acabar e ele fica nas mãos da vontade de um sucessor que vai lhe substituir.

"... O meu anel de bamba eu deixo

A quem mereça usar.

Eu vou estar no meio do povo espiando 

Minha escola perdendo ou ganhando

Mais um Carnaval"

Também podemos citar o pai de Marvin, da canção do Titãs, que vaticina: "O seu destino eu sei de cor". Há coisas que não podem ser mudadas e não temos o controle sobre elas, seja nas questões do tempo, das escolhas que se repetem, das condições sócio-econômicas e, no caso do eu-lírico que Renato Russo trouxe do Manfredini, por amor.

E este processo é preponderante no eu-lírico de Renato Russo nas canções de amor. Geralmente, um sujeito sem sorte nas questões do coração que precisa lidar com a rejeição ou a perda de alguém. Embora seja hegemônico falar de si, não fica apenas em situações retratadas na primeira pessoa. São diversas canções e variadas as situações, às vezes sobre os seus próprios relacionamentos, às vezes sobre outros casais, às vezes fala de um relacionamento homossexual, às vezes heterossexual. Nesta postagem vou me ater mais nos relacionamentos amorosos em que ele se insere. A primeira característica é que trata o amor como uma questão ética, pois desde cedo percebeu que não existe amor fora da ética. Todo amor é uma questão ética. A segunda questão é que transmite para a composição o movimento de seus próprios sentimentos, navegando entre o real e o ideal. Este movimento acaba em aceitação de que o real se sobrepõe ao ideal, como pregam os estoicos, tal como está descrito em Os Barcos:

"Eu vejo você se apaixonando outra vez

Eu fico com a saudade 

Você com outro alguém 

E você diz que tudo terminou

Mas qualquer um pode ver

Só terminou pra você..."

Estoicamente aceita sua falta de sorte com as questões do amor. Os filósofos estoicos veem na aceitação das coisas daquilo que não podemos mudar como a melhor forma de lidar com elas e evitar um sofrimento maior. Assim se comporta o eu-lírico de Renato Russo frente ao amor. Já se pode perceber isto em "Acrilic an Canvas", onde o eu-lírico ora "pinta" em sua mente o amor "mais perfeito que se fez", ora volta para a realidade por ser "sempre, sempre o mesmo, a mesma traição..." Nesta canção, interessante notar, usa um recurso literário que coaduna com o próprio movimento que faz entre o real e o ideal, imaginário, chamado de fuga da realidade. Assim como o amor não acontece como deseja, o eu-lírico busca na idealização uma história de amor que lhe conforte. Pinta no quadro uma imagem que não existe na realidade. Se conforma com o que inventa por ser algo mais belo do que aquilo que enfrenta. 

Esta aceitação e resiliência também se faz presente em canções que não são idealizações suas, mas que lida com ausências reais, tal como em "Love in The Afternoon" ou em "Vento no Litoral". O indivíduo busca na velha sabedoria estoica o remédio para curar as feridas de alguém que partiu:

"Já que você não está aqui

O que posso fazer 

É cuidar de mim..."


O eu-lírico daqui está no mesmo lugar daquele da música Esquadros. Fazer o possível diante das situações se torna a melhor forma para afastar a decepção e a frustração. Era assim que o eu-lírico de Renato Russo lidava com as questões do amor. Contudo, não só de frustrações e decepções vivem as canções de amor do compositor. Gostava de mostrar histórias de amor comparáveis com as histórias de verdade, como a do casal Eduardo e Mônica, que de tão próxima das histórias que as pessoas vivem, se tornou filme. Por falar em filme, embora não dê nomes aos personagens, a canção "Vamos Fazer um Filme" tem essa conotação de vida que se constrói junto, com a simplicidade dos dias que passam. Nesta mesma linha seguem as canções "O Mundo Anda Tão Complicado" e "Quem inventou o Amor", com frases do tipo "gosto de ver você dormir, que nem criança com a boca aberta" ou "depois quero ver se acerto, dos dois quem acorda primeiro". Eram músicas que representam um respiro àquelas mais pesadas, talvez um gesto estoico de amparo a si mesmo.

Então, Renato traz as relações amorosas das mais diversas formas, de casais que constroem suas vidas lado a lado, até suas próprias desilusões amorosas, passando pela própria confusão na adolescência entre o que sentia e o conflito gerado por este sentir das canções dos primeiros discos.

"Soul Parsiful" (alma tranquila), tal como sugere o título, surge como um resumo de tudo isto, por coincidência, ou nem tanto, no último disco com Renato vivo. Aqui o eu-lírico está numa posição de quem encontrou o seu lugar. Está vivendo um amor sereno e a canção de amor agora é para ele próprio. Aprendeu que a melhor forma de sentir o amor do outro é amar a si mesmo, amando aquilo que está vivendo. A serenidade deste amor traz a força necessária para enfrentar os desafios que se apresentam a ponto de transformá-los em meras situações corriqueiras. O elemento religioso que antes aparecia como elemento de expurgo da culpa, agora aparece como uma oração, elemento integrante do relacionamento, pois tudo está integrado.

Tenho anis, tenho hortelã, 

Tenho um cesto de flores

Eu tenho um jardim

E uma canção 

Vivo feliz, tenho amor

Tenho coragem, sei quem eu sou

Eu tenho um segredo

E uma oração...

As coisas simples e naturais se misturam aos sentimentos mais profundos e a elementos de fé. O segredo que aparecia em Daniel na Cova dos Leões e Se Fiquei Esperando meu Amor Passar, que o angustiava,  já não o atormenta mais. Agora alcançou a serenidade estoica, livre da culpa. Agora é capaz de fazer uma canção a partir do seu sentir, dando ao sentir do outro o merecido papel. Assim, já não sofre pela expectativa criada e não fica a mercê do amor do outro, por isso começa a canção afirmando "ninguém vai me dizer o que sentir" e termina com "eu vou fazer uma canção de amor pra mim". Fazer uma canção de amor para si é a melhor forma de fazer uma canção para o outro. Amar o que vive com o outro passa a ser a melhor forma de amá-lo.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ACEITAÇÃO E FÉ




A religião me apresentou Deus, que eu não vejo…
A Ciência me apresentou o átomo, que não vejo…
E o corpo me apresentou o amor, que não mensuro.
Só me resta acreditar
E aceitar…
Sou feito de aceitação e fé!

domingo, 3 de novembro de 2013

Adriana Calcanhoto, Titãs, Jesus e o Estoicismo.

"Eu vejo tudo enquadrado
remoto controle..."
 Veja no link http://letras.mus.br/adriana-calcanhotto/43856/ - Esquadros - Adriana Calcanhoto

A frase escrita acima, da música "Esquadros", de Adriana Calcanhoto, resume o teor da letra, voltada para a filosofia estoicista. 
Os estoicistas acreditavam que tudo no mundo estava perfeitamente posto, "tudo enquadrado", cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos.
Devíamos aceitar as coisas como elas são porque nada pode mudar, ou seja, acreditavam em destino.
Em resumo, temos um "remoto controle" sobre nosso futuro. Assim sendo, o melhor para viver bem é aceitar as condições que nos são apresentadas, pois lutar contra o destino é sofrer à toa.
Aliás, "remoto controle" é uma magnífica inversão de "controle remoto". Com este aparelho nós podemos escolher a que canal assistir; na vida não, pois os acontecimentos surgem independente de nossas vontades.


Romanticamente, ou talvez nem tanto, a letra acrescenta:
"...Meu amor, cadê você 
eu acordei
não vi ninguém ao lado..."
Diz que você não tem o controle do amor de ninguém, ou pior, da vida, pois você nunca sabe se a pessoa que dorme contigo estará viva na noite seguinte para você amanhecer com ela. Neste caso surge como um lamento.

Também é um exemplo estoicista a morte de Jesus em cumprimento às escrituras.


 
A Lança do Destino, aquela que o soldado romano espetou Jesus na cruz é a imagem do ápice da morte de Jesus que, segundo o próprio, deveria se cumprir, conforme as escrituras sagradas apontavam.

Também possui esta verve estoicista a música “Marvin”, da banda paulista Titãs.

Ao morrer o pai diz ao filho:
“Marvin, eu fiz o meu melhor
e o seu destino eu sei de cor...”
A sabedoria e a vivência do pai revela o futuro do filho como fato consumado e, por mais que Marvin lutasse contra este mesmo destino, não adiantava, o rumo do filho era seguir os passos do pai, repetindo sua história de dificuldades.