AGATÃO: Este banquete tem como
tema a questão ética e proporei como texto de estudo a música Faroeste caboclo,
para que, a partir das situações vividas pelos personagens, possamos debater
segundo vossas convicções.
(Os pensadores ouviram a música)
ROUSSEAU:
Encontro minha filosofia nesta narrativa. Acredito que o homem nasce bom e a
vivência em sociedade o corrompe, porque desperta um desejo de competição que o
leva a atitudes mesquinhas e pequenas. O primeiro verso deixa claro esta
condição primitiva de bondade, pois não ter medo significa, nesta situação, não
conhecer o mal. A morte do pai despertou em João de Santo Cristo um ódio pela
vida e a visão de que todos eram seus inimigos. Esta inimizade, na humanidade,
começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu!” e
não houve ninguém com suficiente clareza para arrancar aquelas cercas. A partir
daí cada qual passou a defender o que é seu, vizinhos se desentenderam, países
guerrearam...
HOBBES: Falas,
caro Rousseau, como se esta competição foi induzida por um fator externo, como
o tiro que matou o pai do rapaz, por exemplo. Negativo! Estes sentimentos
nascem conosco, pois não diferimos dos outros animais nesta questão. Digo que o
homem é lobo do homem! Ao contrário do que dizes, o homem é naturalmente mau e
a sociedade é quem cria mecanismos para educá-lo na virtude. João de Santo Cristo
teve chances, quando criança e quando adulto, mas teimou sempre em ser lobo.
SÊNECA: Tudo
seria muito mais tranquilo se João de Santo Cristo não lutasse tanto contra o
seu destino. Ele viveria muito mais feliz se deixasse as coisas acontecerem
naturalmente. A aceitação de sua condição, no mínimo, lhe traria paz para viver
decentemente, trabalhando e, talvez, formando uma família.
AGOSTINHO:
Faltou a todos os personagens a opção por Deus. A boa ação é aquela que nos
aproxima de Deus e a má ação aquela que nos afasta Dele. Onde falta Deus brota
o mal.
SARTRE: Penso
que Rousseau e Hobbes erram quando falam em essência humana, pois primeiro
existimos e a nossa essência - aquilo que somos - se forma a partir de nossas
escolhas, o que quer dizer que não temos nenhuma natureza pré-existente, boa ou
má. Também não existe destino como diz Sêneca, nós é quem o fizemos. E Deus,
mesmo que existisse, não interferiria em nossas ações, porque somos condenados
a ser livres. Sozinho fiz o mal, sozinho
inventei o bem. Não temos a quem culpar por nossas ações, pois somos pautados
pela liberdade. Os personagens da história em questão agiram livremente,
fizeram suas escolhas e suas ações não podem ser atribuídas a fatores externos,
pois estes podem influenciar, mas jamais determinar as decisões pessoais.
AGOSTINHO: É o
que chamo de livre-arbítrio...
SARTRE: É um
contrassenso o que dizes. Uma liberdade pautada por uma força superior não é
liberdade. Como posso ser livre se tenho que fazer a vontade desta força? Não
existe meia liberdade. Não se pode ser meio livre, como não se pode ser meio
morto.
NIETSCHE: E
nem é a vontade deste Deus inventado, mas a vontade da Igreja de Agostinho que,
influenciado pelas ideias racionalistas de Platão, teorizou um modo de amarrar
as pessoas às normas e regras de conduta que atentam contra a natureza humana.
Passaram a tudo proibir. Estamos condenando os personagens desta história sob a
batuta destas regras estúpidas. Devo admitir que Maria Lúcia é a personalidade
mais fraca, não pelas razões anteriormente expostas pelos colegas de banca, mas
pelo fato de que ela vivia ao sabor dos desígnios dos outros personagens, não
tinha amor próprio. Por outro lado, era justo o ódio de João de Santo Cristo e
ele viveu intensamente até conhecê-la, entregando-se aos ditames da sociedade
moralista, como formar família, com empreguinho e casamento.
HOBBES: O que
estás a propor é a barbárie! Como disse
anteriormente, nascemos maus e se não houvesse uma lei que regulasse as ações,
cada qual agiria conforme seu bem entender sem qualquer controle.
NIETZSCHE: O
problema é justamente o controle. A única lei a ser seguida, deveria ser a lei
natural, a lei do bem viver.
EPICURO: Bem
viver é justamente o que faltou aos personagens. Como o fim último da vida é
buscar o prazer através da tranquilidade da alma e da serenidade, devo
concordar com Sêneca quando diz que João de Santo Cristo deveria esquecer o
fato da morte de seu pai, a princípio, através do exercício do perdão. A agonia
da cena guardada em seu coração se estendeu por toda a vida. Além do mais, ele
desejava demais, quando poderia ser feliz com o que tinha e onde vivia.
NIETZSCHE: Perdão
e piedade são para os fracos. O moralmente forte age segundo sua natureza. O
ódio de João de Santo Cristo era justificável. Controlar os sentimentos é ir
contra a lei natural e fraudar o que é puro e, portanto, bom.
ARISTÓTELES:
Pois penso que a função da razão é justamente dominar as inclinações e as
paixões. O bem viver é viver com equilíbrio, pois a virtude está no meio. Há
duas formas de falhar: por excesso ou falta. Duelar com Jeremias não foi um ato
de coragem - que seria a virtude – mas um ato temeroso – o vício por excesso. João agiu emocionalmente pela ira. Jeremias,
por sua vez, praticou a covardia ao atirar pelas costas – o vício por falta.
SÓCRATES: Só
se erra por ignorância. O ser moral é o ser de conhecimento. Praticar o
conhecimento é o bem agir. Os personagens em questão viveram à sombra de suas
crenças, não procuraram a razão e nitidamente sofreram muito durante suas
vidas. Seu conhecimento era, portanto, precário de verdade e sabedoria.
PLATÃO: Típico
caso, se me permite o mestre interromper, de pessoas que vivem nas sombras da
caverna. O medo do desconhecido os impediram de sair para fora e conhecer o
verdadeiro mundo. Enquanto a alma era pura, como diz a música, João de Santo
Cristo não tinha medo, o que equivale dizer que não conhecia o mal. O corpo,
que habita o mundo sensível das aparências e enganos, através das experiências
contaminou a alma, até então pura.
PROTÁGORAS:
Pois penso que cada qual vivenciou sua experiência, conforme sua ética, seu
modo de pensar e sua percepção particular de mundo. Cada qual aqui está
julgando segundo o que acredita ser certo ou errado. O mundo existe conforme a
visão de cada um e a vida e modo de viver se deu conforme as escolhas dos
personagens. Quem disse que João ou Jeremias queriam vida e fim diferentes?
Trocariam a curta vida que tiveram por uma vida longa sem emoção?
JONH STUART
MILLS: Toda ação deve culminar em felicidade ao maior número possível de
pessoas, mas tem que obrigatoriamente ser útil, pois os fins justificam os
meios. Não vejo benefício algum, nem para os personagens, nem para a sociedade
as decisões tomadas por eles. O único momento de boa decisão foi quando João de
Santo Cristo resolveu trabalhar, constituir família com Maria Lúcia. Eles
pareciam felizes e a sociedade ganhou com ele vivendo segundo as regras dela.
IMMANUEL KANT:
Penso de forma contrária a Stuart Mills. Para mim não importam os resultados,
mas a intenção do agente moral. Sêneca tem razão quando diz que não está em
nossas mãos o controle dos
acontecimentos, pois às vezes queremos produzir algo e sai outro diferente.
Temos culpa? Respondo que não, porque nossa intenção era boa. O final da música
revela a intenção de Santo Cristo e era uma intenção boa, humanitária, que
visava o bem social. Durante a música percebe-se que Santo Cristo sempre tenta
fazer o melhor, mas algo sempre o desvirtuava do bom caminho.
NIETZSCHE: De
boas intenções o inferno está cheio. O “bom caminho” que você se refere é o
caminho dos padres, pastores e racionalistas. Gostam do Santo Cristo
cordeirinho, enquadrado nos ditames de suas regras estúpidas que fazem as
pessoas trocarem o bem viver pela prisão que estas normas e regras impõem.
DESCARTES:
Como racionalista devo dizer que as paixões só levam a enganos e torturam a
consciência. Concordo com Agostinho quando afirma que Deus e a Sua vontade são
o direcionamento, a rota a seguir, pois ele é o Supremo Ser Pensante. Também
concordo com Sócrates no que se refere ao conhecimento como elemento guia das
ações.