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sábado, 2 de maio de 2026

Meus Livros: RENATO RUSSO - CANÇÃO E FILOSOFIA

 


É uma reflexão da obra de Renato Russo com enfoque na Filosofia, nas correntes filosóficas e seus pensadores. Neste livro se encontra, por exemplo, a conexão de Renato com a filosofia de Rousseau sobre a bondade humana. Encontra a relação existente com a filosofia de Bertrand Russell, trazendo temas tais como o pacifismo e o ecocentrismo. Há ainda a reflexão sobre a verve mais frequente na obra de renato Russo, que é o platonismo, além do movimento estoico presente nas canções de amor. Também trata sobre a forma como o cantor lidou com a questão da homossexualidade nas composições, em que se percebe duas fases distintas de abordagem. Estas e outras reflexões trazidas neste livro ambicionam despertar no leitor uma nova forma de entender e experimentar as sensações que as canções  de Renato Russo produzem, sob uma ótica diferente a que está acostumado, para além do cancioneiro.

Links:

Digital

https://www.amazon.com.br/dp/B0FK35GSX5


Impresso

https://loja.uiclap.com/titulo/ua158195 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

FILÓSOFOS DEBATEM FAROESTE CABOCLO

AGATÃO: Este banquete tem como tema a questão ética e proporei como texto de estudo a música Faroeste caboclo, para que, a partir das situações vividas pelos personagens, possamos debater segundo vossas convicções.
(Os pensadores ouviram a música) 

ROUSSEAU: Encontro minha filosofia nesta narrativa. Acredito que o homem nasce bom e a vivência em sociedade o corrompe, porque desperta um desejo de competição que o leva a atitudes mesquinhas e pequenas. O primeiro verso deixa claro esta condição primitiva de bondade, pois não ter medo significa, nesta situação, não conhecer o mal. A morte do pai despertou em João de Santo Cristo um ódio pela vida e a visão de que todos eram seus inimigos. Esta inimizade, na humanidade, começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu!” e não houve ninguém com suficiente clareza para arrancar aquelas cercas. A partir daí cada qual passou a defender o que é seu, vizinhos se desentenderam, países guerrearam...

HOBBES: Falas, caro Rousseau, como se esta competição foi induzida por um fator externo, como o tiro que matou o pai do rapaz, por exemplo. Negativo! Estes sentimentos nascem conosco, pois não diferimos dos outros animais nesta questão. Digo que o homem é lobo do homem! Ao contrário do que dizes, o homem é naturalmente mau e a sociedade é quem cria mecanismos para educá-lo na virtude. João de Santo Cristo teve chances, quando criança e quando adulto, mas teimou sempre em ser lobo.

SÊNECA: Tudo seria muito mais tranquilo se João de Santo Cristo não lutasse tanto contra o seu destino. Ele viveria muito mais feliz se deixasse as coisas acontecerem naturalmente. A aceitação de sua condição, no mínimo, lhe traria paz para viver decentemente, trabalhando e, talvez, formando uma família.

AGOSTINHO: Faltou a todos os personagens a opção por Deus. A boa ação é aquela que nos aproxima de Deus e a má ação aquela que nos afasta Dele. Onde falta Deus brota o mal.

SARTRE: Penso que Rousseau e Hobbes erram quando falam em essência humana, pois primeiro existimos e a nossa essência - aquilo que somos - se forma a partir de nossas escolhas, o que quer dizer que não temos nenhuma natureza pré-existente, boa ou má. Também não existe destino como diz Sêneca, nós é quem o fizemos. E Deus, mesmo que existisse, não interferiria em nossas ações, porque somos condenados a ser livres.  Sozinho fiz o mal, sozinho inventei o bem. Não temos a quem culpar por nossas ações, pois somos pautados pela liberdade. Os personagens da história em questão agiram livremente, fizeram suas escolhas e suas ações não podem ser atribuídas a fatores externos, pois estes podem influenciar, mas jamais determinar as decisões pessoais.

AGOSTINHO: É o que chamo de livre-arbítrio...

SARTRE: É um contrassenso o que dizes. Uma liberdade pautada por uma força superior não é liberdade. Como posso ser livre se tenho que fazer a vontade desta força? Não existe meia liberdade. Não se pode ser meio livre, como não se pode ser meio morto.

NIETSCHE: E nem é a vontade deste Deus inventado, mas a vontade da Igreja de Agostinho que, influenciado pelas ideias racionalistas de Platão, teorizou um modo de amarrar as pessoas às normas e regras de conduta que atentam contra a natureza humana. Passaram a tudo proibir. Estamos condenando os personagens desta história sob a batuta destas regras estúpidas. Devo admitir que Maria Lúcia é a personalidade mais fraca, não pelas razões anteriormente expostas pelos colegas de banca, mas pelo fato de que ela vivia ao sabor dos desígnios dos outros personagens, não tinha amor próprio. Por outro lado, era justo o ódio de João de Santo Cristo e ele viveu intensamente até conhecê-la, entregando-se aos ditames da sociedade moralista, como formar família, com empreguinho e casamento.

HOBBES: O que estás a propor é a barbárie!  Como disse anteriormente, nascemos maus e se não houvesse uma lei que regulasse as ações, cada qual agiria conforme seu bem entender sem qualquer controle.

NIETZSCHE: O problema é justamente o controle. A única lei a ser seguida, deveria ser a lei natural, a lei do bem viver.

EPICURO: Bem viver é justamente o que faltou aos personagens. Como o fim último da vida é buscar o prazer através da tranquilidade da alma e da serenidade, devo concordar com Sêneca quando diz que João de Santo Cristo deveria esquecer o fato da morte de seu pai, a princípio, através do exercício do perdão. A agonia da cena guardada em seu coração se estendeu por toda a vida. Além do mais, ele desejava demais, quando poderia ser feliz com o que tinha e onde vivia.

NIETZSCHE: Perdão e piedade são para os fracos. O moralmente forte age segundo sua natureza. O ódio de João de Santo Cristo era justificável. Controlar os sentimentos é ir contra a lei natural e fraudar o que é puro e, portanto, bom.

ARISTÓTELES: Pois penso que a função da razão é justamente dominar as inclinações e as paixões. O bem viver é viver com equilíbrio, pois a virtude está no meio. Há duas formas de falhar: por excesso ou falta. Duelar com Jeremias não foi um ato de coragem - que seria a virtude – mas um ato temeroso – o vício por excesso.  João agiu emocionalmente pela ira. Jeremias, por sua vez, praticou a covardia ao atirar pelas costas – o vício por falta.

SÓCRATES: Só se erra por ignorância. O ser moral é o ser de conhecimento. Praticar o conhecimento é o bem agir. Os personagens em questão viveram à sombra de suas crenças, não procuraram a razão e nitidamente sofreram muito durante suas vidas. Seu conhecimento era, portanto, precário de verdade e sabedoria.

PLATÃO: Típico caso, se me permite o mestre interromper, de pessoas que vivem nas sombras da caverna. O medo do desconhecido os impediram de sair para fora e conhecer o verdadeiro mundo. Enquanto a alma era pura, como diz a música, João de Santo Cristo não tinha medo, o que equivale dizer que não conhecia o mal. O corpo, que habita o mundo sensível das aparências e enganos, através das experiências contaminou a alma, até então pura.

PROTÁGORAS: Pois penso que cada qual vivenciou sua experiência, conforme sua ética, seu modo de pensar e sua percepção particular de mundo. Cada qual aqui está julgando segundo o que acredita ser certo ou errado. O mundo existe conforme a visão de cada um e a vida e modo de viver se deu conforme as escolhas dos personagens. Quem disse que João ou Jeremias queriam vida e fim diferentes? Trocariam a curta vida que tiveram por uma vida longa sem emoção?

JONH STUART MILLS: Toda ação deve culminar em felicidade ao maior número possível de pessoas, mas tem que obrigatoriamente ser útil, pois os fins justificam os meios. Não vejo benefício algum, nem para os personagens, nem para a sociedade as decisões tomadas por eles. O único momento de boa decisão foi quando João de Santo Cristo resolveu trabalhar, constituir família com Maria Lúcia. Eles pareciam felizes e a sociedade ganhou com ele vivendo segundo as regras dela.

IMMANUEL KANT: Penso de forma contrária a Stuart Mills. Para mim não importam os resultados, mas a intenção do agente moral. Sêneca tem razão quando diz que não está em nossas mãos o controle  dos acontecimentos, pois às vezes queremos produzir algo e sai outro diferente. Temos culpa? Respondo que não, porque nossa intenção era boa. O final da música revela a intenção de Santo Cristo e era uma intenção boa, humanitária, que visava o bem social. Durante a música percebe-se que Santo Cristo sempre tenta fazer o melhor, mas algo sempre o desvirtuava do bom caminho.

NIETZSCHE: De boas intenções o inferno está cheio. O “bom caminho” que você se refere é o caminho dos padres, pastores e racionalistas. Gostam do Santo Cristo cordeirinho, enquadrado nos ditames de suas regras estúpidas que fazem as pessoas trocarem o bem viver pela prisão que estas normas e regras impõem.

DESCARTES: Como racionalista devo dizer que as paixões só levam a enganos e torturam a consciência. Concordo com Agostinho quando afirma que Deus e a Sua vontade são o direcionamento, a rota a seguir, pois ele é o Supremo Ser Pensante. Também concordo com Sócrates no que se refere ao conhecimento como elemento guia das ações. 

terça-feira, 12 de novembro de 2024

RUSSELL E RUSSO

 Brethant Russell foi o outro filósofo, além de Rousseau a ser homenageado por Renato Manfredini Júnior quando escolheu incluir o sobrenome Russo em seu nome artístico. Foi um pensador a frente de seu tempo abraçando causas tais como o ECOcentrismo, ideia que coloca o meio-ambiente no lugar do ser humano como centro de tudo, que por sua vez se tornaria apenas parte integrante de algo maior, que lhe supera, o chamado ecosistema. 

Outra característica marcante do filósofo foi o fato de ter sido um PACIFISTA, inclusive rasgando sua carteira do partido trabalhista quando este partido deu aval para a ida de tropas lutar no Vietnã. Além disso, foi contrário às duas guerras mundiais e um opositor da construção da bomba atômica. 

Estas duas característica, porém, não o fizeram tão radical no que se refere a política ideológica. Suas lutas estavam sempre mais ligadas a causas. Algumas de suas participações políticas foram divergentes e até antagônicas em alguns casos, pois foi ora socialista, ora liberal, ora trabalhista, nunca esteve profundamente enraizado em nenhuma destas tendências.  

Com estas características: ecocêntrico, pacifista e volátil em termos de políticas partidárias (sem apego a elas), fica fácil imaginar porque Renato Russo se identificou com este filósofo... Provavelmente não foi pelo fato de Russell ser um grande matemático, uma vez que esta, pelo que se sabe, não fazia parte das matérias preferenciais de Renato.

Letras como "Angra dos Reis" trazem esta preocupação com a natureza, de colocar o ecocentrismo acima dos desvarios humanos e sua ganância. Já o pacifismo é outra característica bem marcante na obra de Renato Russo, aparecendo em canções como "Soldados" e "Canção ao Senhor da Guerra"

Quanto a política, assim como Russel, o Brasileiro era mais ligado a causas e denunciador de injustiças e maus feitos... Não era ligado a grupos partidários. O viés político ativo e não eminentemente partidário aparece em mais de uma dezena de canções, várias delas políticas, tais como "Perfeição", "Que País é Este!", " Metal Contra as  Nuvens" e "Teatro dos Vampiros", para citar alguns. Além disso, sua verve anárquica (sem apego a segmentos ideológicos) aparece em cores vivas em canções como "Gerarão Coca-Cola ". 


O ECOCENTRISMO

Angra dos Reis foi escrita num período em que a construção de usina nuclear na cidade de Angra do Reis estava em pauta e a discussão sobre os problemas ecológicos que poderiam advir deste tipo de construção para obtenção de energia estava em voga em todo o mundo, pois o desastre de Chernobyl acontecera havia pouco tempo do lançamento da canção. Esta angústia com o tema fez Renato Russo escrever:

"Mesmo que as estrelas começassem a cair

E a luz queimasse tudo ao redor

E fosse o fim chegando cedo

E você visse nosso corpo em chamas

Deixa pra lá"


Em "Fábricas" ele afirma:


"O céu já foi azul, mas agora é cinza 

E o que era verde aqui já não existe mais

Este ar me deixou minha vista cansada

Nada demais"...


Se percebe claramente a denúncia de uma ganância exploratória tanto contra o meio ambiente, quanto em torno da condição de trabalho humano em prejuízo a ambos.

Os versos irônicos "deixa pra lá" (Angra dos Reis) e "nada demais" (Fábricas) demonstram o incômodo de Renato Russo com a postura comodista que as pessoas se colocam diante destas questões que lhe são prejudiciais.

Essas canções são apenas exemplos, dentre muitas outras citações em outras canções desta verve do artista em torno do ecocentrismo e sua preocupação com o meio-ambiente. Também estava presente como lhe preocupava a forma como as pessoas colocavam a ganância acima da preservação do meio-ambiente e da saúde das espécies. 


A POLÍTICA ATIVA APARTIDÁRIA 

Do ponto de vista da política tradicional, afora seu desprezo pelas tendências fascistas, Renato Russo apresentava uma certa distância, mas extremamente político do ponto de vista de defensor de causas e das ações personalisticas, sempre guiado pela ética, ciência que as pessoas costumam relacionar apenas à corrupção monetária.  Em Renato Russo a ética ganha contornos mais abrangentes. Para ele toda ação se torna questão ética e com isso política. As relações amorosas, por exemplo, por mais íntimas que sejam  não deixam de ser políticas, uma vez que ambos os relacionantes são inseridos no meio social e, mesmo entre eles está estabelecido uma espécie de contrato do não engano, do respeito e outras definições próprias dos relacionamentos amorosos, tornando algo que é próprio de duas pessoas em um movimento que não deixa de ser político.

Se não há contradição na exigência da ética nas ações, sendo sua guia mestra, elas aparecem na obra de Renato Russo quando se trata de definições como a tendência política dos agentes políticos e suas idiosincrasias, tal como aconteceu na trajetória de Hussel. Em 1989 Renato manifestou em entrevista seu desejo em votar em Roberto Freire, então comunista (PCB) e se mostrava incomodado com o fato da pregação em voto útil em outros candidatos da mesma tendência de esquerda, uma vez que esses outros possuíam mais chances de vitória sobre os representantes da direita. Ao mesmo tempo em que declarava voto em um comunista, declarava-se capitalista numa outra entrevista, ou seja, o voto estava lincado ao seu gosto pessoal e não quanto a ideologia que o candidato representava. Renato parecia não acreditar muito nos discursos políticos como um indicador sincero das ações dos futuros governantes. De certa forma, ele acertou em termos, pois o candidato vencedor, Collor de Mello, usou entre outros argumentos para vencer a eleição, que seu oponente de segundo turno, Lula, iria bloquear a poupança. No primeiro dia de governo foi ele quem fez isso, o que motivou  Renato Russo escrever "Metal Contra as Nuvens". Aliás, esta visão de não apego a tendências partidárias, mas apegado e compromissado  às causas que julgava mais justas aparecem nos primeiros versos da cancão, que afirma por si próprio saber sobre o que lutar, ao lado de quem, sem ser um simples seguidor de um grupo guiado por alguém, postura que é na forma um gesto fascista, mesmo que o conteúdo não o seja:


"Não sou escravo de ninguém 

Ninguém senhor do meu domínio 

Sei o que devo defender 

Por valor eu tenho e temo

O que agora se defaz".


É bom frisar aqui que o discurso liberal do então candidato vencedor esteve presente nos seus dois anos de governo, o que mostra que a ligação ideológica em regra acompanha o discurso, algo que Renato parecia não confiar. Acontece que um governo na democracia, não raro tem que compor com ideias que diferem um pouco do partido no poder e ceder tem sido uma prática dominante nos governos. Talvez essa volatilidade tenha contribuído para a desilusão de Renato Russo quanto à crença nas ideologias. Sua ideologia era o fazer ético. 

E o que deve ter indignado o autor nesta questão em particular foi o fato do candidato vencedor dizer que o oponente iria fazer algo que ele próprio estava pensando em fazer caso vencesse a eleição. Por ser uma medida extremamente impopular, não teve coragem de colocar sob análise do eleitor, antes, preferiu mentir, afirmando que o outro faria. A mentira ajudou a se eleger e depois de eleito, sem que precisasse mais do voto, implantou a medida. E isto está muito longe da ética pregada por Renato Russo. Aliás, nos tempos vindouros, com as redes sociais, a faikes news se tornaram mecanismos importantes utilizados por muitos políticos antiéticos e têm motivado muitos debates. Assim, podemos perceber, Renato Russo novamente aparece atualíssimo nos assuntos a que se dispunha a defender.

Uma curiosidade se apresenta no instrumental... Fazendo jus ao nome, a canção imita uma dessas tormentas de verão. Começa com um ritmo calmo, como se mostra um céu límpido; depois avança, como se nuvens se aproximassem e, de repente, a pancadaria dos raios e trovões, para depois voltar a calmaria. Imita a vida, seja pessoal ou social, com suas idas e vindas, tormentas e posterior calmaria. Sempre na esperança de que dias melhores melhores virão, tal a sensação deixada por cada calmaria depois das tormentas. Então, surgem os versos finais imbuidos desses sentimentos:

"E nossa história não estará pelo avesso assim

Sem final feliz

Teremos coisas bonitas para contar.

E até lá vamos viver

Temos muito ainda por fazer

Não olhes pra trás 

Apenas começamos 

O mundo começa agora

Apenas começamos..."


Em outras canções aparecem outras características importantes no discurso político de Renato Russo e incluir a todos como responsáveis pelos destinos da sociedade e não somente os agentes políticos é uma dessas características. E assim coloca em "Que País é Este!":

"Nas favelas, no Senado, 

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a constituição"...

A desilusão é geral e apresenta os políticos como uma mera representação ou espelho da sociedade em geral. 

Repete a fórmula em "Perfeição", desta vez de forma mais abrangente, nomeando os diversos maus feitos e delitos sociais em suas diversas camadas, tais como os praticados por estupradores e ladrões, além de apontar sua própria responsabilidade no verso em que pede perdão pela "estupidez de quem cantou esta canção". A diferença de uma canção para outra é que Perfeição termina indicando a  esperança, depois de tantas ironias, talvez uma vazão à sua verve platônica, assunto reservado para um outro tópico adiante. Este final anuncia:

"Venha, o amor tem sempre aberta

E vem chegando a primavera

nosso futuro recomeça

venha que o que vem é perfeição."

Já  que Platão está posto para outro momento adiante, por enquanto podemos nos ater a Immanuel Kant, que afirmava existir no ser humano uma consciência imanente do que é certo e errado em se fazer. Deste modo, basta que todos ajam conforme os mandamentos e preceitos estabelecidos por esta razão universal existente na consciência para que tudo funcione como relógio e daí surja a perfeita sociedade. Por exemplo, se uma pessoa sai para caminhar com seu cachorro de estimação e limpa a sujeira que o cachorro vier a fazer e todos os outros cidadãos com seus animais fizerem o mesmo por dever de consciência e respeito para com a cidade e os demais habitantes, passaríamos a viver em uma sociedade perfeita, como sugere o título da canção. Tal e qual Immanuel Kant, Renato apela para esta consciência coletiva como meio de se construir a perfeição, o problema é que esta proposta, como as melhores já lançadoas, necessitam de uma consciência coletiva abrangente em detrimento ao individualismo que as pessoas em geral não estão propensas a seguir, ignorando a máxima "disciplina é liberdade".


O PACIFISMO

Com canções como "Soldados" e "Canção ao Senhor da Guerra", Renato Russo demonstrou todo seu repúdio às guerras, como manifestado em Bertrand Russell. 

Em "Plantas Embaixo do Aquário" termina com a frase "não deixe a guerra começar", repetidas vezes como um mantra. Porém, inicia com "provoque o desempate", numa alusão de que a apatia também não é uma solução viável frente à vida. Todavia, este processo de desempate, além de constante, deve ser um movimento como o das plantas colocadas na parte baixa do aquário, com harmonia e equilíbrio. Você já percebeu como se movimentam estas plantas?

Hegel, filósofo alemão, afirmava que as coisas surgem com a tese, depois a antítese, que é uma tese alternativa, para daí surgir uma síntese. Esta síntese cria uma nova tese, e dela uma nova antítese e, com isso, outra síntese se estabelece... assim sucessivamente. Este conjunto de sínteses, embora nascidos dos conflitos entre tese e antítese, podem ser resolvidos em movimentos harmônicos, tais como o diálogo, por exemplo, e cedências de parte a parte. É como plantas no fundo do aquário. 

A guerra em si, para Renato Russo não é viável como meio de desempate que ele prega na canção... Primeiro porque a guerra já vem com interesses escusos e programados para acontecer. Existe apenas a tese, a antítese é ignorada e a síntese é o massacre de inocentes, geralmente jovens que são convencidos a lutar pelos mais variados motivos, seja patriótico ou religioso, os mais comuns. Quando não convencidos são obrigados. 

Dentro do espectro da conquista pela força, tem a questão do terrorismo, outro tema recorrente nas canções de Renato Russo. Aqui o terror aparece por vezes em sua forma tradicional, como a lembrança de um grupo terrorista da Alemanha dos anos 1970 em Baader-Meinhof Blues, outras vezes, como em A Fonte, vem lembrando as chacinas de crianças e adolescentes, outras ainda através do descaso do Estado para com seus doentes e idosos, tal como aparece em Mais do Mesmo, bem como é lembrado nos ataques a mulheres e homossexuais, duas de suas causas mais caras, em A Dança.

Assim, guerra e terrorismo são ações que fogem do escopo das boas relações humanas e nada os justificam como alternativas. Nem a conquista territorial, nem a religião, nem o patriotismo, nem ideologia... Em nada se assemeham aos movimentos das plantas nos aquários.

Chegamos então aos três conceitos que aproximam Renato Russo de Bertrand Russell: a preocupação com o meio-ambiente, o pacifismo e a forma de encarar a política por meio de causas, tendo por bússula a ética. 

sábado, 2 de novembro de 2024

Renato Russo: canção e filosofia

 Renato Russo e as conexões com a filosofia.

Rousseau disse que Maquiavel,  fingindo dar lições aos príncipes, dava lições ao povo. O intuito desta postagem não tem a mínima pretensão dar lições, mas quer fingir que fala de filosofia, falando de Renato Russo e fingir que fala de Renato Russo falando de filosofia. 

O intuito não é o de simplesmente interpretar canções, mas identificar quais filósofos e concepções filosóficas estão mais presente na obra.

Renato Russo foi um compositor/letrista diferente da maioria, entre outras coisas, por apresentar em sua coleção de canções algumas ideias sistemáticas, ou seja, um discurso coerente em que ideias que surgem numa canção voltam em outras. As músicas (letras) não são obras que acabam em si mesmas, as ideias repetem-se e se sustentam, alimentando uma forma de pensar como base da obra como um todo.

Em vários textos, a partir desta postagem, neste blog, vou trazer algumas destas ideias com olhar filosófico sobre a obra, trazendo quais as fontes alimentadoras e quais aspectos filosóficos são destacados na obra do letrista.

Por enquanto vou explicitar quais são esses aspectos e depois dissertarei sobre cada um separadamente em postagens diferentes, a saber:

- ROUSSEAU e a bondade natural que aparece como base de pensamento em obras como Faroeste Caboclo, Há Tempos, Indios e A Fonte.

- BERTRAND HUSSERL, o ecocentrismo, a política voltada para as causas e o pacifismo.

- NIETZSCHE e desconstrução do apego ao que faz mal, ao que nos aprisiona... Tais ideias aparecem em Sereníssima, Será, Flores do mal...

- A ÉTICA como ponto de partida da obra, sendo foco principal, e a ESTÉTICA como linha auxiliar.

- A ESPIRITUALIDADE como base da vivência. 

- O conformismo ESTÓICO no que diz respeito às coisas do amor, evidenciado na maioria das canções sobre o tema.

- A GUERRA como algo a ser combatido e inexplicável como solução para conflitos entre países. 

- POLÍTICA: o fascismo, o terrorismo, a ditadura e a indiferença social. 

- SOCIAL: a questão das crianças e das mulheres.

- HOMOSSEXUALIDADE: As dificuldades em assumir tal condição e o processo ao fazê-lo.

- PLATONISMO como inspiração mais evidente, apresentando nas canções um mundo com suas confusões e problemas, mas sempre também apresentando uma esperança, uma outra situação possível, não raras vezes buscada em outra dimensão, pois, como disse o Renato Manfredini Júnior à mãe certa vez: "eu não sou daqui".

Estes parecem ser os temas mais trabalhados por Renato Russo e é em cima deles que faremos nossa abordagem, trazendo para o enfoque da filosofia. Há muitos elementos que passam despercebidos quando ouvimos tal  e tal canção, por desconhecermos a fonte inspiradora, por isto o estudo da obra ajuda as pessoas a se conectarem melhor com ela. Com formação em filosofia, pretendo fazer este enlace e auxiliar o leitor do blog a se conectar de forma diferente a que está acostumado e oferecer uma nova forma de experimentar estas canções, com novo enfoque e entendimento. 

Para continuar vá ao próximo tópico "Rousseau e Russo"

sábado, 26 de abril de 2014

Por Enquanto (1)

Legião Urbana

Mudaram as estações (1)
E nada mudou (2)
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente (1)
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre (2)
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba (1)
Mas nada vai conseguir mudar
O que ficou (2)
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem  (2)
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa (2)

Esta música faz um jogo em que ora vê as coisas se modificando e ora as vê como permanentes. O eu lírico reflexivo olha a vida passando e se olha, as transformações pelas quais (não) passou, passando...
É a eterna briga entre Heráclito (1) e Parmênides (2), entre o transitório e o permanente.
Até na concepção o autor parece confuso sobre o que acreditar, pois o título, Por Enquanto, é heraclitiano e a última frase, parmenidiana.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Faroeste Caboclo - Minha Versão

Se alguém quiser ler, basta acessar o tópico http://omarluciano.blogspot.com.br/2013/11/faroeste-caboclo-clarisse.html  deste blog ou acesse a comunidade "Legião Urbana em Cena", no ORKUT
É só seguir as instruções tópico a tópico.