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sexta-feira, 22 de maio de 2026

A BELEZA DA ETERNIDADE

 



Sei não...

Há algo de poético na ideia de liberdade, de que não existe uma essência que nos prende e nos tolhe em seus ditames. Há beleza na ideia de constantes mudanças e de átomos que eternamente vagueiam pelos vazios existentes sem se fixarem e serem parte de algo como integrante seu para sempre.

É belo ver cada amanhecer, com suas nuances, as mudanças das cores, as flores novas que brotam. Gostamos do que move.

Mas igualmente belo é o eterno! Aquilo que permanece, convivendo entre as mudanças e as coisas passageiras.

A ideia do eterno nos mostra que mais belo que as flores das árvores está o fato de que elas sempre voltam. Não valoriza uma flor em particular, mas o fato de que elas existem. 

Valoriza o que une (essência), não o que separa (diferença)!

Vê um ser humano, onde os olhos da mudança alcançam um índio, um branco, um negro, um amarelo... Vê uma flor onde se pode ver apenas a rosa, a tulipa, o girassol... Vê as raízes de uma árvore, onde são mais apreciáveis as folhas e flores, porque sabe que no inverno estas se vão, enquanto as raízes resistem, escondidas, para que as folhas e flores possam voltar na primavera, pois como dizia Parmênides, "tudo volta ao início".

Se reinventar é algo poderoso e bom. É revigorante. Mas se reinventar sem uma base sólida pode ser desastroso. Não existem flores e folhas na primevera sem uma raiz que tenha sobrevivido ao inverno, empresa sem trabalhador, aprendizagem sem experiências.

Toda reinvenção ou mudança traz em si a ideia de eternidade, pois se exerce sobre algo existente e fruto do ser que existe em si mesmo para sempre.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

FILOSOFIA DO DIA: 08 DE JANEIRO



08 DE JANEIRO

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É muito fácil nos deixar enganar pelos brilhos que nossos sentidos captam, pois somos por demais epidérmicos e propensos ao prazer. A relfexão, por ser menos prazeirosa e, às vezes, incômoda, é por nós negligenciada.

Parmênides dizia que os sentidos nos enganam por nos apresentar um mundo transitório e passageiro, quando as coisas que importam são as eternas. Realmente, ao observar um pássaro, por exemplo, chama-nos atenção a plumagem e o seu canto; no entanto, não paramos para refletir sobre a sua existência. Aquele ser se resume, para nós, à plumagem e canto.

Atraem-nos as primeiras impressões, o que nossos sentidos captam, esquecendo-nos da totalidade e da essência. Focamos naquilo que difere e esquecemos o que une. A beleza, como vemos os pássaros, está no exterior do ser, como a plumagem e o canto, assim, valoramos o ser por aquilo que apresenta aos olhos e não pelo que é em si. Infelizmente, este é o critério que normalmente usamos para dizer se gostamos mais de um pássaro que outro.

Dizemos: “que criança linda”, quando o que importa é o fato dela existir.


DICA DO DIA: Não olhe o mundo com os olhos da face, observe-o com os olhos da alma.

terça-feira, 24 de maio de 2016

PARMÊNIDES E O BEM VIVER



Viver é Eternizar

 


           
“Não te trago ouro
Porque ele não entra no céu 
E nenhuma riqueza deste mundo 
Não te trago flores
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples 
Mas que fiz de coração“
(Chimarruts)





PARMÊNIDES

“O ser é e o não-ser não é”

"Pois pensar e ser é o mesmo"

“Não importa por onde eu comecei, pois para lá eu voltarei sempre.”



         Acrone estava defronte ao espelho que ganhara de Heráclito há cinquenta anos. Ficara viúva e agora estava só, novamente só. O espelho é uma lembrança muito forte, pois foi o primeiro presente que ganhara de Heráclito, justamente no dia em que aceitou o seu cortejo. Cinquenta anos se passaram e o espelho permanecia com ela, ao contrário dos ramalhetes de flores que Heráclito trazia em suas inúmeras e primordiais tentativas de namoro; e do próprio Heráclito que há um tempo se fora. As lembranças também continuavam presentes a ponto de Acrone ter vivas as palavras de Heráclito de que o espelho era para que ela lembrasse todos os dias da existência da beleza… e… da feiúra, pensava agora.

Resultado de imagem para imagem de idoso no espelho           Com certeza um galanteador – pensou Acrone consigo – Agora a imagem que via no espelho não condizia com as palavras de Heráclito e, ironicamente, condizia com sua filosofia de que tudo muda, tudo passa… Talvez Heráclito estivesse aplicando sua teoria à ela, quando lhe deu o espelho. Agora a imagem que Acrone via mostrava uma pele flácida e enrugada, cabelos maltratados e tristeza no olhar, muito diferente da imagem jovial de quando ganhara o espelho, exceto pela tristeza no olhar, que continuava a mesma do dia em que foi presenteada, pois o lugar que Heráclito supunha preencher na verdade ocupava um lugar ao lado. A alegria de um novo amor não estava inversamente proporcional à tristeza que ainda sentia. Irritada com a atual opinião do espelho sobre ela, Acrone o virou para a parede a fim de não mais ouvi-lo, pois sua voz soava estrondosamente dolorosa.

           Nem percebeu, em sua ira, que postado em frente à porta aberta estava um homem de mais ou menos setenta anos. Ao virar-se levou um susto:

           - Quem é você? – Quis saber Acrone

           Avançando dois passos, o homem lhe falou:

           - Um velho amigo...Não me reconhece?

          Acrone levou a mão ao peito ao reconhecer o homem que estava à sua frente, espantada com a aparição, mal conseguia balbuciar palavra alguma.

            - Parmênides!?

           Como era possível Parmênides estar ali se, segundo lhe informaram, havia morrido a mais de cinquenta anos na Macedônia? Depois de muito tempo estava à frente de Acrone seu primeiro e grande amor. O mundo dera um giro e voltara ao ponto inicial. Como pode? – pensou.

           - Por onde andou? Por que sumiu? Por que me abandonou? – Conseguiu finalmente falar Acrone, fazendo com que as perguntas saíssem automaticamente.

  - Calma – pediu Permênides – Eu explicarei o que aconteceu! – Falou, pegando nas mãos de Acrone.

           Parmênides recuperou o fôlego, olhou nos olhos de Acrone e começou a esclarecer sobre seu sumiço por tantos anos.
           - Assim que cheguei na Macedônia, caí preso, confundido com um inimigo do reino. Fiquei incomunicável por dois anos, por isso não consegui contato contigo. Depois que me libertaram, ao se darem conta do engano, voltei, mas soube que você não me esperou, já se encontrava casada com Heráclito…

           Acrone esbouçou interromper Parmênides, mas ele fez um gesto com as mãos de que iria continuar falando:

            - Não a culpo, Acrone, afinal, eu havia desaparecido. Você precisava seguir em frente. Então, resolvi não aparecer novamente, deixar sua vida fluir, como dizia Heráclito.

            - A informação que tínhamos é de que você havia morrido – esclareceu Acrone – prestei luto por um ano inteiro. Se eu soubesse, haveria de te esperar.

           Então Parmênides e Acrone não seguraram seus impulsos, se abraçaram e, quando menos esperavam, os lábios se encontraram mais de cinquenta anos depois do primeiro beijo. A textura dos lábios se modificara, mas o sabor permanecia o mesmo.

            - Agora que estou velha – falou Acrone, depois que os lábios se desgrudaram – tenho a oportunidade de gozar da sua companhia. Parece injusto, já que temos tão pouco tempo!

            - O tempo, como tudo que existe, é eterno e imutável – Filosofou Parmênides – Tal como permaneceu eterno e imutável o nosso amor.

            Então Acrone foi até o espelho que ganhara de Heráclito e novamente o virou, desta vez para si.

            - Quando Heráclito me deu este espelho eu conseguia ver através dele alguém jovem e bela… - Lamentou Acrone, mostrando a Parmênides que ela não era mais a mesma de antigamente.

            - E o que vê agora? – Interrompeu Parmênides.

            - Flacidez, rugas… Como Heráclito dizia: tudo muda, tudo se transforma…

Resultado de imagem para imagem de idoso no espelho            - Menos a opinião dele e… para ser justo, a minha… Ainda lembro de nossos embates sobre o assunto. Heráclito olhava o mundo como o público olha a atuação de um mágico e não percebia os truques da natureza. Tudo no mundo físico é transitório e passageiro porque são observados pelos sentidos. Não confie nos sentidos, Acrone! Eles nos enganam. O ser é e o não ser não é, pelo simples fato de que a essência de algo é eterna e imutável, como o ser é sua própria essência, também o ser, qualquer ser, é eterno e imutável.

        - Mas o espelho me diz o contrário… - Falou ironicamente Acrone, um tanto contrariada com a imagem refletida.

           - Olhe novamente, encare-o – Falou Parmênides segurando os ombros de Acrone – Não observe a imagem com olhos da face, eles nos enganam… Observe com os olhos da alma. Assim, chegará a conclusão de que a Acrone jovem e a Acrone de hoje são exatamente a mesma pessoa. As opiniões, a maturidade, não transformaram este ser chamado Acrone numa outra pessoa, pois a essência permanece inalterada desde seu nascimento. Olhe sempre o mundo com os olhos da alma… Ponha alma nas coisas para que façam sentido, senão sua vida não será mais que um truque de mágica. Não há sentido em confiar nos sentidos! – Falou Parmênides sem se conter em fazer o trocadilho – Se você der importância ao que é transitório, como as rugas, por exemplo, realmente não poderá ser feliz, porque estará ressaltando a finitude, a morte; se por outro lado, der mais importância ao que está dentro de você, o infinito será revelado por sua alma e a fará feliz. Não dê importância ao existencial, que se apresenta e some, dê importância ao essencial e se tornará eterna.

Resultado de imagem para imagem de casal de idosos           Então Acrone percebeu que Parmênides ainda a amava com o mesmo fervor de antes e que ela sentia o mesmo em relação a ele. A alegria voltou a habitar seus olhos como se fosse um passe da mágica, desta feita uma mágica eterna. Virou-se para Parmênides e novamente se beijaram. Então, como antigamente, se amaram ali mesmo, em pleno assoalho onde tudo começou… E foi como se o tempo não tivesse passado.


LIÇÕES DO MESTRE:


Parmênides contrapôs Heráclito em sua visão mobilista, afirmando que as transformações não passam de enganos dos sentidos, pois o ser é eterno enquanto ente existente, mesmo que seja finito em si mesmo, pois ele começa e termina exatamente com os mesmos atributos, ou seja, cada ser é o que é, sem nada ser acrescentado ou modificado, pois do contrário deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa. Em outras palavras, afirma que não podemos confiar nos sentidos. Não importa quantas vezes uma pessoa entra num mesmo rio, ambos serão sempre os mesmos, pois rio é rio e pessoa é pessoa e sempre assim serão, os sentimentos brotados em cada banho não passam de momentos passageiros.
Se levarmos esse pensamento para a questão do ser humano, veremos que Parmênides valoriza a essência, o interior, a introspecção e o pensamento. Se, por exemplo, colocarmos lado a lado um indígena e um asiático e analisarmos à luz da filosofia de Heráclito, diremos que ali estão um indígena e um asiático, ressaltando as diferenças, um essencialmente indígena, outro essencialmente asiático. Se a mesma análise for feita à luz da filosofia de Parmênides diremos que estamos diante de dois seres humanos, ressaltando o que os une, a sua essência primordial, e não o que os divide.
Assim, cultivar a essência e se importar com as coisas duráveis é a grande lição do mestre Parmênides para nossa vida. Que seja verdadeiro cada amor, cada ato, cada beijo, cada toque... Não há espaço para momentos efêmeros e desprovidos de sentidos. Ensina ainda que somos todos iguais e, se assim somos, temos a capacidade de ser o que o outro é, sem deixar que nos façam diminuídos ou derrotados. Assim, cada vez que o abatimento se aproximar, saiba que a força está em seu interior e é ali que estará a solução, por mais ou menos rugas que o espelho lhe mostre.



Na Pista de Parmênides

O Dj Parmênides traz à pista um momento de introspecção e monotonia.

Pode começar com “Por enquanto” da Legião Urbana que, embora traga em seu título a volatilidade das coisas passageiras e faça um jogo constante entre o efêmero e o eterno, termina por afirmar: “estamos indo de volta pra casa”, pois como afirma Parmênides, tudo volta ao início.

Segue tocando “Flores” do Titãs, pois mesmo que morram todas as flores naturais, como afirma a música, a ideia fica, seguindo a máxima de Parmênides de que “pensar e ser são o mesmo” e, como diz a música, “as flores de plástico não morrem”.

Também tem espaço para “Planeta Água” de Guilherme Arantes ao afirmar: “Águas que movem moinhos são as mesmas águas que encharcam o chão e sempre voltam humildes pro fundo da terra”.

O Dj também está atento a um romance que pode pintar na pista, então pode rolar a Sandy cantando: “por ser imortal, não morre no final...” ou “Me leva”, do Tim Maia que diz “com você no verão, primavera, outono ou inverno, nosso caso de amor tem sabor de sonho eterno”.

Ainda rola Cazuza quando fala “amor da minha vida, daqui até a eternidade”.

O som da Banda Catedral será o mais executado com músicas como “Eu amo mais você do que eu” que traz frases do tipo “a verdade é absurda no plural” e “penso infinitamente sem parar, a verdade é transparente no mirar da tua retina, minha menina”; ou como a música “Atemporal” que afirma: “Eterno enquanto dure tem um final, mas meu amor por você é atemporal”, contrapondo-se a famosa frase heraclitiana de Fernando Pessoa sobre o amor ao dizer ser eterno enquanto dura.

A playlist com as músicas internacionais contém My Way (Eu planejei cada caminho do mapa, cada passo, cuidadosamente, no correr do atalho) e One, do U2, merecendo um bis com a versão de Jonnhy Cash.


Nesta pista o som é o da eternidade, que ressalta os sentimentos duradouros, levando-nos a refletir sobre a eternidade e dançar ao rodopio de uma sensação nostálgica que de repente nos acomete: Somos tão jovens...

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 9 : A origem da vida

        AGATÃO: Vamos começar este simpósio refletindo sobre a primeira das indagações: Como surgiu a vida?


    HERÁCLITO: Deve ter havido um elemento primeiro que deu origem a todos os outros. Pitágoras, por exemplo, acreditava ser a água, Demócrito dizia existir partículas indivisíveis denominadas átomos. Outras teses de outros filósofos foram apresentadas e eu acredito ser o FOGO este princípio, porque sua chama é a representação viva da transitoriedade da vida, porque tudo nasce, cresce e morre. Assim é o fogo! Ora está mais aceso, ora mais apagado, até que fenece quando não é mais alimentado. Tudo é transitório, o rio em que você se banhou ontem, já não é mais o mesmo se hoje entrar nele, já não será mais a mesma água.



PARMÊNIDES: Tolice o que dizes! O ser, aquilo que existe, é permanente e imutável.  O ser é e o não ser não é. O ser é desde sempre e sempre será, pois água é água e aspectos como sujeira, cor e temperatura são transitórios e não mudam o fato de que água é agua. O que dá qualidade de existência à água é a sua essência. A água de hoje será a mesma de amanhã, como a água de um copo é a mesma de outro, pois o que importa é sua essência.

          

HERÁCLITO: O mundo existe pela força dos contrários, ora é água quente, ora a água é fria. É o movimento dentro do que permanece.

PARMÊNIDES: Ainda assim será água, eterna e imutável enquanto tal. Quente e frio são atributos passageiros...

 KANT: Sobre o fogo, considero uma teoria interessante, pois suas duas atribuições básicas, luz e calor, são substâncias próprias de uma matéria sutil e elástica uniformemente difusa, que é por onde os corpos agem uns sobre os outros. Deste movimento formou-se a vida.
          

ZENÃO DE CÍTIO: Penso que uma Mente Criadora  fez tudo perfeitamente em seu devido lugar, cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos. Se tudo está perfeitamente posto não há porque agirmos contrariamente a eles. Vamos simplesmente aproveitar as benfeitorias da natureza.


SANTO AGOSTINHO: Pois eu acredito que Este princípio criador é Deus, onipresente e onisciente, Aquele que tudo criou...
          

ARISTÓTELES: É uma ideia plausível, a de um Deus único... Tudo o que foi gerado no mundo possui uma causa, pois nada pode existir se algo não lhe causar ou não criar tal existência. Todavia, há que existir uma causa primeira que causou todas as outras sem ser causada, a quem dei o nome de Primeiro Motor Imóvel. Ele é o supremo bem e a suprema beleza e funciona como um imã a atrair todos os outros seres, pois todos os seres são atraídos pela ideia do bem e da beleza. Ele é o ser de Demócrito, eterno e imutável; e talvez seja o Deus de Agostinho. Todas as outras coisas são passageiras como diz Heráclito.


PLATÃO: Meu querido discípulo, sempre mediando conflitos! Acredito que existam dois mundos distintos: o mundos das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias é representado pela alma e o mundo sensível pelo corpo. O primeiro é imutável e permanente, o segundo é transitório e passível de enganos. Para cada ser existente no mundo sensível, há um outro, perfeito e belo, no mundo das ideias. Os seres do mundo sensível são, portanto, cópias imperfeitas do mundo das ideias.
          
HUSSERL: Penso que mais importante que saber a origem das coisas é compreender o mundo.
          
PROTÁGORAS: Concordo com Husserl. Não se discute a existência ou não das coisas, nem sua origem, mas a sua relação com o homem e a forma como este as percebem.
          
SÓCRATES: O importante é conhecermos a essência das coisas...
          
JEAN-PAUL SARTRE: A essência não é tão importante quanto existir, pois nascemos do absurdo, do nada, e para o nada voltaremos. De todos que falaram até agora o mais sensato foi Heráclito, pois a transitoriedade é fato consumado, tudo nasce e morre. Não existe uma força criadora, o ser só é enquanto existe e não há essência pré-determinada nos seres. Se assim fosse, não existiria liberdade, esta sim, nossa única condenação.
          
SÓCRATES: Pode o nada criar algo? O que é o nada? Afirmar que somos gerados do nada, não seria uma forma de misticismo passivo? Acredito que devemos procurar a verdade para encontrar esta essência criadora. Você, Sartre, parece tê-la encontrado, a seu modo, quando afirma que a liberdade é nossa condenação. Talvez seja a liberdade a nossa essência, embora esta afirmação ainda careça uma averiguação mais profunda.
         
SARTRE: Volto a afirmar, não temos uma força criadora e, portanto, não temos uma essência que exista antes de nós. Nossa essência se formará conforme nossas escolhas, somos frutos delas e livres para fazer o que quisermos, estamos aí como obra do acaso. Ela própria, a essência, é mutante; muda por escolha nossa.
          
SÓCRATES: Vou aceitar, para efeitos de raciocínio, que a liberdade seja comum a todos indistintamente e nossa primeira atribuição. Nesse caso, estaria aí a nossa essência?
          
SARTRE: Agora a falácia é sua, parece um sofista! Se há uma essência, estamos presos umbilicalmente a ela. Nesse caso, como pode haver liberdade? Seria uma contradição.
           
ARISTÓTELES: Não há provas, caro Sócrates, de que a liberdade seja universal e que exista plenamente; e mesmo que exista, há outras atribuições comuns a todos os homens que estão em sua essência, como a racionalidade por exemplo.
          
SARTRE: A liberdade só existe se for plena, não se é meio-livre, como não se pode ser meio-morto.
          
SÓCRATES: Então, acabas de aceitar que a liberdade possui como atribuições a universalidade – já que é comum a todos - e a imutabilidade. Estás rejeitando, nesse caso, a transitoriedade de Heráclito, a quem elogiou.
          
SARTRE: Ao contrário, é justamente a liberdade quem nos dá a possibilidade e garantia do transitório, pois através dela escolhemos ser ou deixar de ser.
         
ROUSSEAU: Os homens nasceram livres e por toda a parte estão aguilhoados. A liberdade é parte da essência do ser humano. Foi o próprio homem quem, através de suas ações mesquinhas e egoístas, fez-se preso.
          

SANTO AGOSTINHO: Essa liberdade vem de Deus, que nos deu o livre-arbítrio.
         
NIETZSCHE: Se por todos os lados só existam homens acorrentados, como afirmou Rousseau; e a liberdade vem de Deus, como afirmou Agostinho; onde está a autoridade divina? Como este Deus, que deu a liberdade, deixou que lhe fosse tirada? Um Deus sem autoridade é um Deus fraco e um Deus fraco não sobrevive! Então, devo declarar: Deus está morto!
        
DESCARTES: É óbvio que existe Deus, o único e incontestável Ser Perfeito. A primeira prova é a de que temos uma ideia de perfeição e, como seres imperfeitos,  não poderíamos tê-la sem que algo perfeito a impusesse a nós. Outra prova de Sua existência é que se nós - que temos a ideia do que é perfeito - tivéssemos criados a nós mesmos, teríamos nos feito perfeitos. Além do mais, o imperfeito não pode criar algo perfeito, pois não está ao seu alcance. Então, apenas alguém perfeito pode ter criado a tudo perfeitamente e Este Ser é Deus.
          
NIETZSCHE: Não foi Deus quem nos criou, fomos nós quem o criamos. Desde que a razão passou a comandar nossas ações, impondo-nos regras e violentando nossa vontade, houve a necessidade da presença de um Deus forte e opressor, a fim de nos causar medo e garantir que cumpríssemos com as regras estúpidas da razão.
         
HERÁCLITO: Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro tal qual o fogo misturado aos aromas; ele é a força dos contrários, chamado como melhor agradar a cada um.
         
AGATÃO: Este é realmente um tema de complicada resolução, pois possui muitas nuances e questões intransponíveis, como a fé, por exemplo. 












terça-feira, 5 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 6 - Essência Humana

AGATÃO: E a essência humana. Nascemos bons ou maus?


ROUSSEAU: Todos nascemos com princípios inatos de justiça e do bem. Se, por exemplo, formos colocados em uma ilha ao nascer e cuidados por um tutor, permaneceremos livres das necessidades e dos vícios que ela trás. Ao estar na sociedade, a presença de nosso espelho, que é o outro ser humano, cria em nós um sentimento de competição; surgem a vaidade, o egoísmo, o orgulho, a intolelância, o ódio, o medo e outros sentimentos que nos colocam uns contra os outros. Em outras palavras, a sociedade corrompe o indivíduo, disvirtua o que tem de bom. O mal teve início com a criação da sociedade civil, que por sua vez foi criada no instante em que um indivíduo cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu” e faltou alguém que arrancasse aquelas cercas e dissesse para os outros não acreditarem naquele tolo. 



HOBBES: Contrariando Rousseau, penso que o homem nasce mau e a sociedade cria mecanismos para educá-lo na prática do bem. Todo ser humano é egoísta por natureza, um competidor, pois o homem é lobo do homem; e desde a mais tenra idade, primeiro com os pais, depois com a lei, é controlado pela sociedade a não praticar atos maus. Assim, não é por sua vontade natural que busca fazer o bem, mas por necessidade que a sociedade impõe como dever.



SARTRE: Não existe essência humana pré-determinada. A existência precede a essência, ou seja, ao nascer não somos nem bons, nem maus, nem autruístas, nem egoístas. Apenas somos… movidos pela liberdade que temos de escolher, influenciados pela dinâmica psico-social, mas ainda assim responsáveis por aquilo que escolhemos. E não temos a quem culpar, pois se não temos uma natureza humana pré-existente, nada nos determina, seja lá o que fizermos será por nossa conta e risco.



AGOSTINHO: Nossa essência é o Espírito de Deus, pois somos sua imagem e semelhança. Então, somos bons por natureza e esta bondade vem do Divino. Mas também temos responsabilidade por nossas decisões como as apontadas por Sartre: é o livre-arbítrio dado por Deus. Através dele decidimos se aceitamos ou não seguir o que é bom. Deus fez tudo perfeito e bom, nossas decisões erradas é que nos afasta do bem e, consequentemente, da divindade.



SARTRE: Quando eu falo em liberdade, Agostinho, não falo em escolher um caminho, pois se há algo posto para seguir ou meta a cumprir, não há liberdade.



SÓCRATES: Tudo possui essência. A própria liberdade, a bondade, a justiça são dotadas de essências próprias que devam ser descobertas pelo exercício da reflexão e são elas referências esssenciais do ser humano. Todavia, elas precisam ser abstraídas pelo exercício contante da busca do conhecimento de si mesmo fugindo da ignorância, que é o mal. Só se erra por ignorância.



PARMÊNIDES: Concordo com Sócrates de que existe essência e acrescento que ela é imutável. Tanto o mal, quanto o bem, são o que são e não mudam. O ser humano é o que é e o mal e o bem que praticam são transitórios, qualificações passageiras, pois ele continua humano independentemente da ação que pratica. Assim, não existe ser humano bom ou ser humano mau, mas existem estas três coisas separadas que são eternas e imutáveis: ser humano, bem e mal.


HERÁCLITO: Não concordo, pois vejo que tudo é movimento, tudo flui. Sartre disse bem quando negou a essência imutável. A essência humana não pode ser classificada como boa ou má, uma vez que a ação praticada, o meu agir, é que vai dar tal conotação. O que é bom hoje, amanhã pode ser mau. Ninguém pode ser bom ou mau o tempo todo.


sábado, 26 de abril de 2014

Por Enquanto (1)

Legião Urbana

Mudaram as estações (1)
E nada mudou (2)
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente (1)
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre (2)
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba (1)
Mas nada vai conseguir mudar
O que ficou (2)
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem  (2)
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa (2)

Esta música faz um jogo em que ora vê as coisas se modificando e ora as vê como permanentes. O eu lírico reflexivo olha a vida passando e se olha, as transformações pelas quais (não) passou, passando...
É a eterna briga entre Heráclito (1) e Parmênides (2), entre o transitório e o permanente.
Até na concepção o autor parece confuso sobre o que acreditar, pois o título, Por Enquanto, é heraclitiano e a última frase, parmenidiana.

Heráclito e Parmênides Numa Discussão Racial

Heráclito, como sabemos, defende que tudo é transitório; já Parmênides, que o ser é permanente e o que muda é apenas aparência.

Se levarmos para a discussão étnica e colocarmos, por exemplo, índios de um lado, e de outro lado, orientais (para fugir da dicotomia negros e brancos), teremos ser humano indígena e ser humano amarelo.
Pois bem, Heráclito neste caso valoriza o transitório, o que muda, ou seja, o fato de serem índios ou orientais.
Parmênides, por sua vez, valoriza o que permanece, ou seja, o fato de serem ambos seres humanos. Índio ou oriental são apenas aparências.

Ponto para Parmênides nesta discussão.

Um fenomenologista diria que ao olharem-se, índio e oriental, transformariam-se, cada qual, com esta esta experiência pegando um pouco de cada um. Neste caso estariam dando razão a Heráclito, mas esta é outra discussão...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

DUELO DE PRÉ-SOCRÁTICOS


Heráclito diz: Tudo é movimento!

O que hoje é, amanhã pode não ser.

Eis o exemplo:

Marina namoradeira era amiga de Vicente
Virou namorada, voltou a ser amiga.
Namorou Tinho, amigo de Vicente
E depois ficou amiga.
Por anos e anos seguiu o fluxo...
Todos passaram; ela, passarinho.

Demócrito contestou:
O ser é e o não ser não é!
E se não é, jamais irá ser.
Marina namoradeira
Veja o exemplo,
Ela é!
E o que é não vou dizer
Para não ofender!


Filosofando: Os filósofos pré-socráticos especularam sobre o arché, um princípio que teria originado todas as outras coisas. Uns diziam ser a água, outros o ar, outros os quatro elementos e assim por diante. No entanto, a discussão mais interessante é sobre a transitoriedade ou permanência das coisas. Heráclito acreditava que tudo era movimento e, segundo ele, ao banhar-se num rio hoje, já não estará banhando-se amanhã no mesmo rio, pois já não serão mais as mesmas águas. Parmênides achou um absurdo esta teoria e disse que "o ser é e o não ser não é", ou seja, não há movimento, há uma permanência daquilo que é. Não se pode dizer que algo existe, deixa de existir e volta a existir novamente.

Simplificando: Se pegarmos um destes balões de festa de criança vazio e perguntarmos a alguém o que é, este alguém provavelmente dirá que é um balão. Ao vê-lo cheio, certamente dirá que é um balão. Mas, ao vê-lo estourado no chão, pode ou não afirmar que é um balão, estou certo?


Para Heráclito, estas variantes indicam movimento e transitoriedade do mesmo, já Parmênides dirá que ele nunca deixou de ser balão. 


Pergunta: Você é um ser transitório ou permanente?