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sexta-feira, 22 de maio de 2026

A BELEZA DA ETERNIDADE

 



Sei não...

Há algo de poético na ideia de liberdade, de que não existe uma essência que nos prende e nos tolhe em seus ditames. Há beleza na ideia de constantes mudanças e de átomos que eternamente vagueiam pelos vazios existentes sem se fixarem e serem parte de algo como integrante seu para sempre.

É belo ver cada amanhecer, com suas nuances, as mudanças das cores, as flores novas que brotam. Gostamos do que move.

Mas igualmente belo é o eterno! Aquilo que permanece, convivendo entre as mudanças e as coisas passageiras.

A ideia do eterno nos mostra que mais belo que as flores das árvores está o fato de que elas sempre voltam. Não valoriza uma flor em particular, mas o fato de que elas existem. 

Valoriza o que une (essência), não o que separa (diferença)!

Vê um ser humano, onde os olhos da mudança alcançam um índio, um branco, um negro, um amarelo... Vê uma flor onde se pode ver apenas a rosa, a tulipa, o girassol... Vê as raízes de uma árvore, onde são mais apreciáveis as folhas e flores, porque sabe que no inverno estas se vão, enquanto as raízes resistem, escondidas, para que as folhas e flores possam voltar na primavera, pois como dizia Parmênides, "tudo volta ao início".

Se reinventar é algo poderoso e bom. É revigorante. Mas se reinventar sem uma base sólida pode ser desastroso. Não existem flores e folhas na primevera sem uma raiz que tenha sobrevivido ao inverno, empresa sem trabalhador, aprendizagem sem experiências.

Toda reinvenção ou mudança traz em si a ideia de eternidade, pois se exerce sobre algo existente e fruto do ser que existe em si mesmo para sempre.


sábado, 16 de maio de 2026

TRANSGRESSÃO

 


Sei não...

Ao que parece carregamos um senso do que é justo, bom e correto. Aristóteles diz que somos atraídos por esses atributos. Talvez por isso há em nós um espírito contraventor, que às vezes nos faz sair em busca destes atributos, quando sentimos sua falta.

Não é à toa que a figura de Lúcifer, mesmo como personagem produzido pela mente humana, exista e atraia nossa atenção. Se for ente existente como ser real conforme está descrito como aquele que ousou voltar-se contra seu criador, evidencia o quão os seres são afeitos à transgressão.

Assim, como o senso de bondade, justiça, beleza, etc..., nos atrai, a transgressão também nos fascina.

Eduardo Galeano narra que no princípio dos tempos dois pares de pés deixavam rastros na areia de uma praia. Em um determinado momento os pares de pés se separam. Um desses pares sobe por uma duna alta e desaparece. As pegadas voltam a se encontrar adiante. Significa que um dos andantes transgrediu o caminho, ousou sair da trilha para ver o que havia além da duna.

É a versão de Galeano para a bíblica história de Adão e Eva. A mulher havia ousado desobedecer o criador. Para a tradição judaíca-cristã uma afronta, para o gnosticismo, um ato de coragem. Como podemos ver, já em seu início, a Bíblia Sagrada, conta um ato de transgressão. O próprio Deus transgrediu seu solitário mundo através do "faça-se".

A cultura grega também apresenta o gesto da transgressão como causa dos males do mundo. A curiosidade de Pandora a fez desobedecer Zeus e abrir a ânfora, o que lhe fora terminantemente proibido fazer. Ali estavam as doenças e todo o tipo de mal, espalhando-se pelo mundo. Antes, o próprio Zeus havia sobrevivido ao pai por conta de uma transgressão da mãe, que o escondeu para não ser devorado.

Eva desobedeceu a Deus, Pandora a Zeus, a mãe de Zeus a Cronos... Figuras femininas com espíritos libertários ou desobedientes?

O escritor gaúcho Roberto Axe diz que "a transgressão é uma espécie de segundo nascimento", transmitindo a ideia de que a vida é feita de ressurgimentos e estes sempre acontecem através de eventos transgressores. 

Sem transgressão não há movimentos. A vida surge por eles.

O poeta Cacaso, por sua vez, nos premia com o poema "O Lugar da Transgressão":


"Encontrei um sapo cochilando

Dentro minha botina

Nunca me meti em botina de sapo

Que liberdades são essas?"


Às vezes um cochilo é uma forma de transgressão.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

FILOSOFIA DO DIA: 15 DE JANEIRO





15 DE JANEIRO



Resultado de imagem para frases de SartreDizem que não existe destino ou sorte no que fizemos, existe consequência; pois como diz o ditado: a gente colhe o que planta. 

As pessoas que sabem o que plantaram sabem o que vão colher, muito embora tempestades aconteçam e secas podem sobrevir. No entanto, tempestades e secas não determinam nada, o que determina a essência é o ser que se planta. O destino se constrói…

Sartre afirma que somos livres e isto nos coloca toda a responsabilidade, pois se somos livres, somos responsáveis pelo que nos vier acontecer, uma vez que abrimos o caminho a seguir. O caminho não está posto, somos nós quem o abrimos e pavimentamos, escolhemos o material usado e se queremos ou não acostamento e árvores em sua margem.

Nós somos o que fizermos de nossa vida.

sábado, 13 de janeiro de 2018

FILOSOFIA DO DIA: 13 DE JANEIRO



13 DE JANEIRO



Resultado de imagem para frases de diógenes de sínopeVocê já parou para pensar na forma como a sociedade foi construída, com seus hábitos e costumes?

Os cínicos, grupo de filósofos, diziam que havíamos perdido a naturalidade e nos prostituído em troca do comodismo. Vivemos como um pássaro em uma gaiola. Ali ele tem comida e água, não precisa sair para buscar o alimento, lutar pela vida... Sua posição na gaiola é cômoda.

No entanto, este pássaro perdeu duas coisas essenciais: A naturalidade e a liberdade. Com elas perdeu também a noção de que vive cativo.

Assim se construiu a sociedade atual com seus usos e costumes. Se hoje há uma festa para ir, a primeira coisa que nos vêm à cabeça é a dúvida sobre o que vestir e se o traje que temos no guarda-roupa é adequado. Caso não seja, saímos para comprar um que atenda às expectativas.


DICA DO DIA: Reflita sobre quais escravidões você serve.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ROSA DE LUXEMBURGO E O BEM VIVER

Viver é Lutar


“Nosso dia vai chegar
teremos nossa vez
não é pedir demais
quero justiça
quero trabalhar em paz
não é muito o que lhe peço
eu quero trabalho honesto...”

Fábrica – Legião Urbana





ROSA DE LUXEMBURGO


“Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”



              Rosa estava reunida com um grupo de militantes da causa operária avaliando os efeitos da greve quando adentrou no recinto um grupo de mulheres elegantes, vestindo roupas finas, diferente do grupo que comumente se reunia naquele espaço. O espanto tomou conta da reunião, não apenas por que as mulheres que acabaram de chegar pertenciam visivelmente à outra classe social, mas também por tão poucas mulheres participarem daquele espaço, em que uma das poucas era justamente Rosa.

              Catarina, a líder do grupo que chegara pediu a palavra:

              - Gostaríamos de conversar com Rosa – falou, demonstrando altivez na postura de quem impunha liderança.

              - Eis-me aqui... – Apresentou-se Rosa – O que desejam?

              - Queremos uma reunião apenas com as mulheres – Falou Catarina olhando ao redor como quem pedisse aos homens que se retirassem, no que foi atendida prontamente, não sem antes terem visto o aceno positivo de Rosa para que assim procedessem.

              - Pois bem, qual o motivo da reunião? – Perguntou Rosa, intrigada, já que aquelas mulheres não pareciam exatamente com as que normalmente se reúnem para lutar por uma causa.

              - Somos do Clube das Mulheres Cristãs e viemos conversar no sentido de encontrarmos uma solução para a greve geral que se estende há semanas. A cidade está um caos, lixo para todos os lados, falta de atendimento nos hospitais e repartições públicas, desabastecimento, enfim, uma série de dificuldades que nós, mães de família, estamos enfrentando. Avaliamos que os homens não estão sendo capazes de dar um fim satisfatório e penso que sensibilidade feminina possa resolver melhor esta questão da greve.

              - Antes da greve, para os mais pobres, estas dificuldades por você apontadas, já eram comuns. Aliás, um dos motivos da greve é justamente esta distância em que há entre estes dois mundos. Vocês, abastados, estão sentido na pele o que vive o pobre todos os dias de sua vida. – Discursou Rosa.

              - E estamos aqui justamente para construir um acordo que beneficie não apenas o término da greve, mas também que assegure vantagens aos trabalhadores em geral e suas famílias. Nossos maridos são os proprietários da maioria das fábricas e podemos influenciá-los apresentando o acordo que nós fizermos. – Propôs Catarina.

              - Entendo... – Falou Rosa – O que propõem?

              - Entendemos que os homens, num dado momento, deixam de lado o diálogo, a vaidade deles fala mais alto e o que seria um possível acordo torna-se intransigência de parte a parte. Já não é questão de luta, mas de vaidade masculina. Ficam de lado a família e a justiça social que tanto se busca... – Explicou Catarina.

              - Tudo bem... Mas devo dizer que fogo se combate com fogo e luta se vence com luta... – Falou Rosa.

              - Como assim? O que queres dizer? – Perguntou Catarina – Nosso propósito aqui é buscar a paz que nossos maridos não conseguem.

              - Há várias formas de se lutar – esclareceu Rosa – Numa comédia escrita por Aristófanes, escritor da Grécia antiga, Lisístrata liderou uma greve de sexo entre as mulheres no intuito de dar fim à guerra do Peloponeso e seus maridos chegassem a um acordo, o que deu resultado. Podemos fazer o mesmo...

              A proposta inicialmente chocou as mulheres, mas aos poucos foram se acostumando com a ideia e passaram a aceitar como algo viável. Depois de um tempo de discussão, Rosa perguntou:

              - Então... Estamos de acordo? – Perguntou Rosa, enquanto observava as mulheres acenarem positivamente – Então, as senhoras se encarregam de conversar com suas amigas e nós, do movimento, nos organizaremos para convencer o maior número possível de mulheres a aderirem nossa causa. O acordo que sair daqui será o nosso vetor e a greve de sexo nosso instrumento de luta.

              - Então vamos começar... – Falou Catarina.

              Rosa pediu a uma de suas colegas de luta chamar Gerda, uma amiga sua que morava nas cercanias. Então começaram as discussões na construção do acordo. Quinze minutos depois do início das discussões já haviam chegado a uma conclusão definitiva. Agora, só faltava convencer os homens, de parte a parte, a aceitarem o que foi estabelecido por elas.

              O tempo de discussão das propostas foi o tempo necessário para que Gerda chegasse. As visitantes espantaram-se ao vê-la:

              - Mas... É uma prostituta – Diziam – Elas eram mulheres recatadas, de fino trato social e senhoras devotas da Igreja, mas que conheciam a afamada dama que acabara de chegar.

              Então, Rosa tratou de esclarecer:

              - Se fizermos greve de sexo, a quem vocês pensam que seus maridos procurarão? Aliás, vocês bem sabem que boa parte deles já o faz assim mesmo. Precisamos do apoio delas se quisermos obter sucesso em nossa luta.

              As visitantes aceitaram os argumentos de Rosa e perceberam que a ajuda de Gerda seria de grande valia, além de começarem a ver com outros olhos a figura que estava à frente.

              Então Rosa explicou a situação à Gerda e a deixou a par da greve de sexo que haviam planejado, obtendo dela a promessa de as “casas de tolerância” fechariam por quinze dias, a princípio, ou o tempo que durasse a greve. Gerta era uma líder entre as prostitutas e poderia conseguir a adesão de suas colegas de profissão.

              - Mesmo que não fosse por uma causa justa, teríamos que aderir à greve por causa dos prejuízos que nos tem causado como cidadãs, além dos prejuízos profissionais, pois sem produção não há dinheiro e, sem dinheiro, nosso rendimento cai muito. – Explicou Gerta.

              Cinco dias depois desta reunião, os homens assinaram o acordo da forma como as mulheres haviam acertado.




LIÇÕES DA MESTRE


              Rosa de Luxemburgo foi uma ativista política de esquerda que, embora tivesse ligação com o marxismo, possuía ideias independentes em relação às lideranças socialistas, como Lênin, por exemplo. Era contra a centralização do poder por parte de uma chamada “administração esclarecida” que conduzisse os ideais socialistas e os trabalhadores, pois como disse: "o ultracentralismo defendido por Lênin aparece-nos como impregnado não mais de um espírito e criador, mas sim do espírito do vigilante noturno". A revolução, portanto, não deve ser algo “fabricada artificialmente” ou “decidida pelo abstrato”, mas como fenômeno histórico baseado numa situação social a partir da necessidade histórica. Em outras palavras, a revolução deve brotar de um sentimento social e não de uma sala de reuniões. Rosa de Luxemburgo ensina que não devemos ficar escravos do pensamento das lideranças que nos cercam e que a luta deve ser primeiro de esclarecimento do sujeito, pois revolução se faz com sujeitos, não com objetos. Defendia a ideia de Marx de que a transformação não deveria partir do meio em que se vive, como queriam os materialistas franceses, nem da consciência das pessoas, como queriam os idealistas alemães, mas da confluência de ambas, em que a consciência de classe transforma o ambiente e o ambiente externo se torna parte de uma nova consciência coletiva que surge a partir da luta. Rosa de Luxemburgo mantinha uma postura crítica à violência revolucionária e defendia a democracia do proletariado nas decisões sobre os rumos a serem tomados, pois defendia, sobretudo, a liberdade em seu mais alto grau, que é a de não apenas decidir, mas participar. Em 1914, seu partido, o Social-Democrata, votou a favor da Alemanha entrar na guerra e Rosa se posicionou contra por ver nesta situação a morte de milhares de trabalhadores em nome da guerra, então escreveu: "A demênica não terá fim, o sangrento pesadelo no inferno não vai parar até que os operários da Alemanha, da França, da Rússia e da Inglaterra despertem de sua embriaguez, se apertem traternalmente as mãos e afoguem o coro brutal dos agitadores belicistas e o grito das hienas capitalistas no poderoso grito do trabalho - 'Proletários de todo mundo, uni-vos!". Neste período, Rosa de Luxemburgo foi presa e, mesmo na prisão, continuou sua luta em nome da liberdade. Em 1918, saiu da prisão e foi lutar junto ao recém fundado Partido Comunista Alemão. Em 1919, foi morta por um grupo paramilitar que agira em nome do governo social-democrata.




Na Pista da DJ Rosa de Luxemburgo


              Além de Fábrica, música exposta no início, outras músicas da Legião Urbana, como “Geração Coca-Cola”, entrariam na coletânea de Rosa de Luxemburgo, pois nesta música está escrito: “...Vamos fazer nosso dever de casa e aí vocês vão ver suas crianças derrubando reis, fazer comédia nos cinemas com as suas leis...”

              Também teria “Rosa de Hiroshima” que casualmente tem Rosa no nome e fala contra a guerra e seus efeitos devastadores, tal como um dia Rosa de Luxemburgo foi contra.

              Músicas de cunho social como “Operário” de Chico Buarque, que seria a atração principal, e “Operário em Construção”, de Vinícius de Morais, seriam constantes na discoteca da DJ Rosa.


              A festa chegaria ao fim com todos cantando: “...Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer...”

domingo, 13 de novembro de 2016

NIETZSCHE E O BEM VIVER


VIVER É SENTIR

"...E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra..."

(A Cura - Lulu Santos)



              Nietzsche expôs para os alunos uma pequena perereca que havia capturado em um banhado próximo da escola. Alguns alunos próximos levaram um susto ao avistarem o animal saltar, provavelmente em busca de um local onde se sentisse mais confortável.

              - Por que salta e se esconde a perereca? – Perguntou Nietzsche.

              - Está assustada com nossa presença, por certo – Respondeu um dos alunos.

              - A perereca, aqui, está em seu ambiente natural? – Voltou a perguntar.

              - Nãaaaaaaaaao! – Responderam em coro.
       
              - Pois bem, jovens, ouçam o que eu tenho a dizer. – Continuou Nietzsche – Nós somos como esta perereca nesta sala, pois vivemos fora do lugar. Desde que Sócrates impôs ao mundo uma forma de viver invertida é que nós nos pusemos presos a regras e conceitos que nos deixam infelizes, amargos, tristes e diminuídos em nosso potencial. O racionalismo e, sobretudo, o cristianismo, com sua ética torta e virtudes controversas, obrigam a todos a viverem contrariamente à nossa natureza...

              - E o que a perereca tem a ver com isso – Perguntou outro aluno, levantando o braço.

              - Bom, nesta alegoria, eu, ao tirá-la do habitat, sou a moral racionalista e cristã que obriga a perereca a viver num ambiente que não é o seu, as pessoas são a perereca, o banhado é a emoção e, a sala de aula, a razão. A perereca vivia bem no banhado, mas eu a tirei de lá e a trouxe para a sala de aula, um ambiente hostil a ela. Comparando, estou demonstrando que a moral racionalista e cristã obrigam as pessoas a viverem num ambiente que não é seu. Bom seria viver segundo a emoção, que é onde estão as nossas verdadeiras virtudes.

              - Por que dizes que é na emoção que estão as verdadeiras virtudes – Perguntou um terceiro aluno.

              - Por que a emoção não nos obriga a fazer o que não queremos, nem nos culpa quando fazemos algo que queremos. A razão nos impõe culpa quando isto acontece, seja por fazer algo ou deixar de fazer, porque possui regras que limitam nosso potencial humano e nos impõe obrigações...


              Percebendo que os alunos estavam ainda confusos, Nietzsche resolveu contar-lhes uma história.

              - Vou dar-lhes um exemplo: Um homem ia se despedir de um amigo numa outra cidade, porque este partiria para uma terra distante. Acontece que encontra outro homem, conhecido seu, já morto à beira do caminho. A consciência social, ou a norma vigente é a de que o morto deva ser enterrado no túmulo da família que se encontrava em sua cidade e cabia a quem o encontrasse levá-lo até lá. Nosso caminhante se viu num dilema: Cumprir com sua missão junto à sociedade, voltando o percurso e atrasando a viagem, agindo assim conforme manda as normas sociais arriscando nunca mais ver o seu amigo; ou ignorar o homem morto e seguir caminho. Sua consciência fez com que levasse o homem morto nas costas até a família. Isto de fato atrasou a viagem e tirou dele a possibilidade de se despedir do amigo e não mais o veria. O que vocês pensam, agiu com correção o homem?

              Os alunos assentiram afirmativamente meneando a cabeça. Não houve entre eles exceção alguma, então Nietzsche voltou a falar:

              - Nesta história, devo adverti-los, não está registrado o sentimento do homem. A perda da oportunidade de se despedir do amigo causou nele ódio, repulsa, tristeza, amargura... Cumpriu com os valores postos em sua consciência, mas e quanto à sua felicidade? Alguns podem dizer que a felicidade está no fato de ter cumprido sua missão junto ao morto e sua família, mas é uma felicidade falsa, pois não foi uma decisão livre, mas obrigada pela consciência.

              Ao terminar de falar, tocou o sinal de fim de aula. Então liberou os alunos e foi catar a perereca num canto da sala a fim de devolvê-la ao seu habitat. Pensava consigo: “Desculpe amiguinha o medo que lhe impus. Mas não se vitimize tanto, a humanidade vive isso desde que criou normas e regras racionalistas. Não se preocupe, vou devolvê-la ao banhado”.
          
              Foi quando olhou para a porta e viu que seu amigo, Pe. Schuler, entrara na sala carregando sua grande batina preta. Aproximaram-se e o abraço fez Nietzsche ficar escondido dentro da batina e do abraço.

              - Veio se confessar? – Perguntou Nietzsche provocando o amigo.

              - Na verdade sim. Uma paroquiana vem me assediando há tempos e estou propenso a ceder à tentação. Não sei mais o que fazer, pois tenho que cumprir os votos que fiz a Deus.

              - Eu resolveria isto fácil, bem sabes, pois não acredito em Deus. No entanto, tu acreditas e devo respeitar isso. Devo dizer-te algo: teu voto não foi para Deus, foi para a igreja e os homens. Afinal, teu Deus proíbe o sexo? – Perguntou Nietzsche.

              - Lógico que não. – Respondeu o padre

              - Então, se o teu voto de abstinência de sexo foi para Deus e ele não o proíbe, por que proíbes a ti mesmo o que Deus não proíbe, dizendo que o fazes em nome Dele? Não faz sentido algum. O voto é um peso que Deus, caso exista, certamente não quer que carregues, pois um Deus verdadeiro haveria de querer-te feliz e não frustrado. Provavelmente, este Deus não exigiria louvores e obediência, do contrário seria um Deus mau. Já te disse em outras oportunidades: Desconfio de um Deus que não dança. – Concluiu Nietzsche.

              - A velha história do homem que carrega outro já morto nas costas... – Analisou o padre – Ainda a contas aos alunos?

              - Sim. Acabei de contar a eles. – Confessou o professor.

              - vejo que está com a perereca também...

              - Estava agora indo ao banhado devolvê-la ao seu lugar. Lá ela é feliz.

              - Quer saber – respondeu o padre – penso que tens razão...

              - Não – corrigiu Nietzsche brincando – Eu tenho emoção...

              Então, o padre, num gesto teatral e para espanto do incrédulo Nietzsche, tirou a batina e saiu porta afora nu e gritando: “Eu sou livre! Eu sou livre!”




LIÇÃO DO MESTRE


A grande contribuição de Nietzsche foi mostrar as incompatibilidades da moral vigente em sua época e desnudar a hipocrisia. Foi crítico do racionalismo e do cristianismo, por observar em suas normas verdadeiras prisões, pois não via valor nas virtudes idealizadas por estas vertentes, porque elas impediam as pessoas de serem felizes, uma vez que impunham culpa, desespero, mágoa, obrigação... Defendia a volta dos valores dionisíacos, representado pelo deus Dionísio e seus valores vividos na antiga Grécia. Em outras palavras, viver conforme querem os racionalistas e cristãos é podar todo o potencial humano; o controle da emoção, neste caso, é maléfico à felicidade humana. Assim, perde-se a liberdade em nome de uma consciência coletiva, apequena-se em nome de uma bondade falsa e hipócrita. Deixa-se de fazer o que se quer por medo do castigo de um Deus que exige louvores e sacrifícios. A questão não é se existe Deus, como afirmou ao dizer: “Deus está morto”, mas o fato de que este Deus castiga, humilha e cobra louvores. Ao dizer: “Desconfio de um Deus que não dança”, Nietzsche expõe a sua contrariedade. Isto pode nos levar a pensar: Por que Deus iria querer que vivêssemos pesadamente em virtude do outro, compromissado em seguir normas que não se adequam ao bem viver humano? Talvez a resposta esteja na chamada vida eterna, onde o sofrimento aqui geraria recompensa posterior. Neste caso, por que apenas a partir do racionalismo e da vinda de Jesus passou-se a valer tal disposição? Por que depois de milhares de anos é que Deus procuraria o homem para uma aliança, já que antes as civilizações eram politeístas e viviam sem este Deus? A resposta, talvez, seria uma intervenção de Deus na humanidade por conta dos desvios desta, segundo afirmam a Bíblia e os cristãos. Então, porque a intervenção de Deus não resolveu os problemas com estes desvios, já que hoje ainda impera a maldade ou, pelo menos, não menos do que havia antes? Por isso Nietzsche propõe que voltemos a viver livremente, segundo nossas emoções, pois viver segundo a razão é contrariar-se a si mesmo.




Na pista do Dj Nietzsche


Nietzsche valoriza a emoção e nos convida a destruir o ideário racionalista, então, propõe celebrar a vida através da emoção.

Começaria mostrando as garras com a música “Sereníssima” que diz: “sou um animal sentimental me apego facilmente ao que desperta o meu desejo, tente me obrigar a fazer o que não quero e você vai ver o que acontece...”

Depois haveria a celebração da vida com muita dança. A vez seria dos Menudos cantando “não se reprima, não se reprima...” e do grupo Dominó cantando “Companheiro, companheiro vem, vem no balanço do mar, vem depressa vem, é tão gostoso dançar...”

Madonna seria a atração internacional cantando músicas como “Like a Virgen” e “American Pie” que diz: “Você escreveu o livro do amor? E você tem fé em Deus se a Bíblia mandar? Agora, você acredita em Rock’n’Roll? A música consegue salvar sua alma? E você pode me ensinar a dançar bem devagar?” e finaliza dizendo: “Os bons e velhos rapazes estavam bebendo uísque e rye cantando ‘é neste dia que eu morrerei’... Começamos a cantar.”  

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 4 - Liberdade


AGATÃO: E quanto à liberdade humana, como podemos nos manifestar, caros amigos?


AGOSTINHO: Acredito no livre-arbítrio de Deus. Há alguns preceitos arbitrados por Deus tais como o amor, a justiça e a caridade, que significam como o ser humano deve procurar agir como prática do bem. Por outro lado, Ele entregou a cada qual a liberdade de escolher entre praticar estes preceitos ou não.





SARTRE: Tua tese até teria sentido se houvesse um Deus. Porém, o fato é que não temos nenhuma natureza pré-existente e nem um criador que a impôs a nós, e isto é o que nos torna livres. E, mesmo que este criador existisse, não interferiria em nossa existência com seus ditames, pois seria a negação da liberdade. A existência precede a essência, assim, nada nos condena ou nos obriga; nem a sermos justos, nem caridosos, nem estar preso a qualquer outro mandamento. Nossa única condenação é a de sermos livres. O livre-arbítrio que falas, Agostinho, é a de meia-liberdade, ou seja, você é livre, porém, tem um caminho a seguir. É como se fossêmos um papel com uma lista escrita de tarefas a cumprir; ao contrário, somos como um papel em branco e responsáveis por aquilo que for escrito. Não existe ser meio-livre, como não existe ser meio-morto ou meio-vivo.

ROUSSEAU: Ao nascer, em seu estado natural, a liberdade era própria da essência humana, no momento em que surgiu a desigualdade social. colocou no lugar da liberdade as leis e as aparências de conduta. Os comportamentos tornaram-se fúteis e comuns a todos. Vejam, todo homem nasce livre e por toda a parte encontra-se acorrentado. Então, como reconquistar a liberdade perdida? Buscar o autoconhecimento na natureza humana, num mergulho emocional em busca da bondade natural existente em cada indivíduo.

DESCARTES: Emocional !!? Liberdade é escolha entre uma coisa ou outra, entre fazer e deixar de fazer, e esta função só pode ser exercida pela razão, meu caro Rousseau. Assim como Agostinho, acredito no livre-arbítrio, que é a escolha espontânea e racional sobre o caminho a seguir. O homem pode dizer sim ou não às ordens de Deus, existe maior liberdade que esta? No entanto, para que eu seja livre, não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários; mas, antes, quanto mais eu tender para um, seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram, seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento, tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei.

DAVID HUME: A liberdade está relacionada ao fato de que devamos vencer a necessidade. Vencendo a necessidade venceremos a vontade e a liberdade se manifesta. Não acredito no livre-arbítrio porque não acredito na capacidade de escolher livremente o caminho a empreender, uma vez que cada pessoa é regida por um determinismo bio-psico-sociológico próprio de cada um que anula o livre-arbítrio. Ou seja, nos adaptamos a cada circunstância, que são muitas, e a escolha se dá nas mais diversas formas possíveis. Não é um simples aceitar ou não cumprir uma obrigação com Deus.

EPICURO: Como eu afirmei anteriormente Hume, a necessidade é um mal, mas não temos a necessidade de vivermos nela, pois quando bastamos a nós mesmos alcançamos a posse desse bem inestimável que é a liberdade. Como atomista, acredito que o constante entrechoque destas partículas seja a prova de nossa existência livre, porque as circunstâncias, como as que Hume apresentou antes, se revezam a todo instante, tal e qual estes átomos. O que de imutável que nos atormente é o fato que carregamos na consciência um peso histórico que nos trás medo e é deste medo que temos que sair para sermos completamente livres. Me refiro, primeiramente, ao medo do destino, o que não faz sentido visto que não existe, depois medo dos deuses, que sequer se importam conosco, além do medo da morte, que não devemos sequer pensar pois quando estamos vivos ela não está presente e quando morremos já não podemos senti-la.

KANT: A liberdade individual está ligada à vivência em sociedade. O indivíduo é antes de tudo um sujeito de direito que convive com outros sujeitos de direito. Então o respeito às leis e ao dever como imperativo categórico torna cada cidadão livre. O Estado Jurídico é a expressão da vontade de cada sujeito e obedecer a esta legislação construída por vontade livre dos cidadãos é o que chamo de liberdade. A coação da sociedade para que force o homem a viver dentro da lei é o que o torna livre, porque acredito que disciplina é liberdade. Se, por exemplo, todos cumprirem a lei de que não se pode roubar, ou matar para roubar, as pessoas poderiam livremente andar pelas ruas sem temer, a qualquer hora do dia ou da noite.

MARX: Pois eu penso que é justamente a sociedade constituída quem aprisiona o homem. Contudo, é nela, através da luta que a liberdade deva ser conquistada. A fala de Kant é formal e abstrata, visto que ele parte de uma sociedade ideal e não real. A sociedade que conhecemos é escravocrata e o capitalismo apresenta uma falsa liberdade, tal e qual o ideal de propriedade de Kant, visto que a única propriedade que o operário tem é a sua força de trabalho, que a acaba vendendo aos donos do capital por muito pouco, tornando-se escravo dele. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Além disto, os poderosos lançam mão de alguns meios de dominação, entre eles, como afirma Epicuro, está o medo dos deuses; a religião é o ópio do povo, prometem ao povo uma libertação futura para que este povo não lute por sua libertação na terra.

HOBBES: Percebo a questão da liberdade como ausência de impedimento, ou seja, podemos fazer tudo aquilo que não há o que nos impeça de fazê-lo, seja a lei, a consciência, a natureza... Porém, devemos cumprir com tudo que nos limita. Isto acontece com todas coisas, um rio, por exemplo, só transita dentro dos limites do seu vazão de água, às vezes mais baixo, às vezes mais alto, mas sempre dentro dos seus limites. Embora o livre-arbítrio esteja dentro deste espaço limitador, já que há mandamentos nele, não o vejo como tese adequada, pois um dos critérios norteadores da liberdade é o senso de justiça. O livre-arbítrio não cobra nada, não castiga quem não cumpre, não há conseqüências... Se não há justiça, não há liberdade, pois ações boas promovem conseqüências boas e ações más promovem conseqüências más. 

AGOSTINHO: Mas Deus cobrará de quem não viveu segundo seus preceitos...


HOBBES: Então neste caso o livre-arbítrio não serve para nada! Ele se torna apenas arbítrio, que é onde não transita a liberdade.