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sábado, 16 de maio de 2026

TRANSGRESSÃO

 


Sei não...

Ao que parece carregamos um senso do que é justo, bom e correto. Aristóteles diz que somos atraídos por esses atributos. Talvez por isso há em nós um espírito contraventor, que às vezes nos faz sair em busca destes atributos, quando sentimos sua falta.

Não é à toa que a figura de Lúcifer, mesmo como personagem produzido pela mente humana, exista e atraia nossa atenção. Se for ente existente como ser real conforme está descrito como aquele que ousou voltar-se contra seu criador, evidencia o quão os seres são afeitos à transgressão.

Assim, como o senso de bondade, justiça, beleza, etc..., nos atrai, a transgressão também nos fascina.

Eduardo Galeano narra que no princípio dos tempos dois pares de pés deixavam rastros na areia de uma praia. Em um determinado momento os pares de pés se separam. Um desses pares sobe por uma duna alta e desaparece. As pegadas voltam a se encontrar adiante. Significa que um dos andantes transgrediu o caminho, ousou sair da trilha para ver o que havia além da duna.

É a versão de Galeano para a bíblica história de Adão e Eva. A mulher havia ousado desobedecer o criador. Para a tradição judaíca-cristã uma afronta, para o gnosticismo, um ato de coragem. Como podemos ver, já em seu início, a Bíblia Sagrada, conta um ato de transgressão. O próprio Deus transgrediu seu solitário mundo através do "faça-se".

A cultura grega também apresenta o gesto da transgressão como causa dos males do mundo. A curiosidade de Pandora a fez desobedecer Zeus e abrir a ânfora, o que lhe fora terminantemente proibido fazer. Ali estavam as doenças e todo o tipo de mal, espalhando-se pelo mundo. Antes, o próprio Zeus havia sobrevivido ao pai por conta de uma transgressão da mãe, que o escondeu para não ser devorado.

Eva desobedeceu a Deus, Pandora a Zeus, a mãe de Zeus a Cronos... Figuras femininas com espíritos libertários ou desobedientes?

O escritor gaúcho Roberto Axe diz que "a transgressão é uma espécie de segundo nascimento", transmitindo a ideia de que a vida é feita de ressurgimentos e estes sempre acontecem através de eventos transgressores. 

Sem transgressão não há movimentos. A vida surge por eles.

O poeta Cacaso, por sua vez, nos premia com o poema "O Lugar da Transgressão":


"Encontrei um sapo cochilando

Dentro minha botina

Nunca me meti em botina de sapo

Que liberdades são essas?"


Às vezes um cochilo é uma forma de transgressão.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

RENATO RUSSO E A POLÍTICA

 Já vimos na postagem anterior (Russell e Russo) que Renato Russo atuava politicamente em cima de causas. Do ponto de vista ideológico manifestava aversão ao Fascismo e a ditaduras, falando sobretudo da ditadura militar no Brasil. Na transição política do início dos anos 1980, houve a anistia, um combinado entre oposição e governo militar, onde os exilados políticos podiam voltar ao país e os militares não responderiam por suas ações praticadas durante o governo. Renato Russo se colocava contra esta anistia, pensava que os crimes e torturas não deveriam ser esquecidos. Esta ideia contra a anistia aparece em La Maison Dieu com a frase "eu não anistiei ninguém". Aparece também em entrevistas quando tocou no assunto. O Brasil nunca fez uma revisão séria quanto a isto e o futuro mostrou que Renato tinha razão. Em 08 de janeiro de 2023, após Jair Bolsonaro não conseguir se reeleger, seus apoiadores mais ferrenhos, inconformados com a derrota, invadiram a praça dos três poderes vandalizando o que encontravam pela frente, sob o argumento de que as eleições haviam sido fraldadas. Não sem antes por dois meses seguidos agruparem-se em frente aos quartéis pedindo intervenção militar. No decorrer destes meses, entre a eleição e a posse do eleito Lula, muitos eventos ocorreram, tal como a colocação de bombas em um caminhão deixado no aeroporto de Brasília, estradas trancadas e depredações. Pediam intervenção militar para impedir a posse de Lula. A anistia de 40 anos atrás davam uma certa autorização a certos saudosistas do governo militar de proclamar novamente o desejo de ter o país sob comando de uma ditadura. Em 13 de novembro de 2024 um homem jogou bombas contra o prédio do STF e depois se atirou sobre uma delas, explodindo a si mesmo. A sanha golpista continuava no discurso dos derrotados na eleição e arregimentavam pessoas para tais ações. Sobre a anistia, que, como vimos, teve repercussão futura, Renato Russo escreveu em "La Maison Dieu"

"...Eu sou a Pátria que lhe esqueceu
O carrasco que lhe torturou
General que lhe arrancou os olhos
O sangue inocente de todos os desaparecidos
O choque elétrico e os gritos
Parem por favor, isso dói...
...Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não, nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém"


Os anos de chumbo eram assunto recorrente de Renato Russo. "1965 (Duas Tribos)" é uma referência ao golpe civico-militar. O Brasil estava definitivamente nas mãos dos ditadores fardados que usavam o argumento de  estar salvando o país do comunismo. A música remete a um tempo em que Renato era ainda criança e como a propaganda oficial funcionava em favor dos comandantes, pois qualquer crítica era passível de torturas. O ufanismo pátrio não permitia que algo fosse dito contra o governo, pois seria o mesmo que se colocar contra a pátria, o que era passível de tortura, prisão e, aos mais influentes, exílio. Duas Tribos representa este momento:

"...Cortaram meus braçosCortaram minhas mãosCortaram minhas pernasNum dia de verão..."

Nos versos acima podemos observar uma alusão às torturas aos que se levantavam contra o regime. O que legitimava tais castigos era o discurso representado nos versos abaixo:

"Quando querem transformarDignidade em doençaQuando querem transformarInteligência em traiçãoQuando querem transformarEstupidez em recompensaQuando querem transformarE esperar sem maldição"

Como podemos ver a inversão sobre o que é virtude e o que é vício, bem típico da ideologia fascista, estava presente. Já os versos abaixo mostram como este discurso era usado. Os que se deixavam levar por ele não se importavam com o que acontecia aos que não se conformavam com a situação. Tal como crianças ficam alheias enquanto brincam, os conformados repetiam o Junior (Renato Manfredini) criança que, com 4 anos, era realmente inocente e aprendera estar diante do maior presidente do mundo.

"Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Tenho Autorama
Tenho Hanna-Barbera
Tenho pera, uva e maçã
Tenho Guanabara
E modelos Revell"

Enquanto uns morrem por conta do regime por não  serem bons filhos da pátria mãe gentil, outros são beneficiados por ela e ensinados a admirarem como a melhor das mães. Renato afirmou em entrevista como as crianças eram estimuladas a fazer redações sobre as virtudes do presidente... Por fim, a música termina com a frase ufanista da época:

"O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo pra cima
Pra cima
Pra cima"


FASCISMO

O fascismo foi a posição ideológica mais combatida por Renato Russo. Sempre que tinha oportunidade marcava sua posição. Nas músicas os atos fascistas normalmente não aparecem acompanhados do nome, mas eram facilmente identificados nas referências feitas às chacinas, no desrespeito às mulheres, na exploração... 

Por causa da frase "disciplina é liberdade" em Há Tempos, Renato foi acusado de fascista, imagine... o verso lido isoladamente pode dar  sentido tal acusação, mas dentro do contexto da música não se sustenta, passa a ser, como diz a gíria, forçar a barra. O próprio Renato explicou que não se trata de um ser humano ou grupo impor limite a outro, isso sim seria um fascismo, mas sobre autodisciplina, do auto-controle para alcançar a autonomia e ser verdadeiramente livre. Os indisciplinados são escravos de suas indisciplinas, pois não conseguem se auto-determinar e se autogerir. O compositor disse que se inspirou em Orson Wells, escritor do livro 1984.
Esta ideia de que a disciplina não é exatamente o que tolhe a liberdade já vem dos tempos dos gregos clássicos... Aristóteles diz que o equilíbrio é o melhor caminho pois a sabedoria está no meio. Não se pode agir com extremismos, como é o caso do Fascismo. Para uma comida ficar boa não pode ser insonsa nem demasiadamente temperada, os temperos devem ser equilibradamente postos para harmonizar os  sabores. Para Aristóteles, existe a virtude, que está no meio, e dois vícios, suas extremidades. Como exemplo, citamos a coragem, que é uma virtude que aparece na canção. Seus vícios são a covardia (por falta) e a temeridade (por excesso). Toda virtude tem um vício por falta e outro por excesso. Autocontrole, para um temeroso, o faz chegar à coragem, que a virtude correspondente. Ser temeroso, o faz ir para um caminho não virtuoso, por estar escravo de seus impulsos. Assim, controlar estes impulsos e chegar ao ponto virtuoso, ao equilíbrio, que é a coragem, se faz através da disciplina. Então, disciplina como liberdade, tal como aparece na música Há Tempos está colocada neste contexto.

Epicuro, outro filósofo da antiga Grécia, tem esta mesma linha de pensamento. Ele sustentava que toda ação deveria procurar o prazer. Este sentimento, no entanto, tinha em Epicuro um sentido diverso do "vida louca" que possui hoje. Está ligado ao auto-controle como obtenção de um prazer prolongado, em estar mais contente com o que se tem do que com o que e poderia ter, uma vez que isto poderia trazer mais dissabores que alegrias. Fugir do sofrimento é a melhor forma de sentir prazer e esta fuga significaria fugir dos excessos. Se você ganha uma barra enorme de chocolate é melhor comer um pedaço por dia, por um tempo estendendo o prazer, ou se impanturrar de uma só vez? Para Epicuro a primeira opção, pois além de alongar o prazer você pode estar evitando uma tremenda dor de barriga. Para este processo acontecer precisaria usar a autodisciplina. Ou seja, a disciplina liberta quando se dá por opção. 




terça-feira, 8 de outubro de 2024

A Cura

 Sei não... Diz-se que a escuridão é tão somente a ausência de luz, que as trevas em si não existem. Este é um princípio em que Santo Agostinho se baseou para explicar a presença do mal no mundo, uma vez que Deus, sendo bom, não poderia ser criador do mal.

Santo Agostinho explicou que o mal seria resultado da escolha pelo afastamento das coisas de Deus, tal e qual a luz se afasta de um ambiente. Sempre que nos afastamos do que Deus quer o mal aparece. Por exemplo: Deus criou o amor... Sempre que praticamos algo que contrarie um ato de amor, estamos na verdade nos afastando de Deus e daquilo que ele criou, que é bom, tal como a luz e seu efeito na escuridão.

Assim, um ato de violência nos afasta da paz,

O ódio nos afasta do perdão,

A discórdia nos afasta da concórdia...

E quanto aos males que independem de nossas ações, tal como uma doença?

Isto também seria um afastamento, uma vez que a normalidade estaria na saúde e não na doença, que seria uma anomalia. A volta à normalidade, portanto, seria a cura através do tratamento específico para esta doença.

O certo é que não queremos o mal... Isto é uma convenção universal. E serve também como princípio norteador àquelas pessoas que julgamos más segundo nossos princípios. Mesmo a pessoa que pratica o mal tem seus conceitos morais e os seguem.

A ideia do bem nos persegue, como ensinou Aristóteles, pois todos guardamos conosco e somos atraídos pelo que é bom e justo, ainda que estas concepções difiram de pessoa para pessoa. Para Platão, esse anseio vem da alma.

A cura é a volta à luz para as doenças da alma, e a volta à saúde para as doenças do corpo.

A cura é, portanto, um caminho de volta.

sábado, 5 de outubro de 2024

O valor do ócio

 Sei não... Dizem que as pessoas sempre estão em busca da felicidade. Dos gregos antigos a Betham a felicidade é vista como o objetivo último a ser alcançado. 

Talvez o que precisamos mesmo é do ócio. 

Bom, Aristóteles, um dos pregadores da felicidade como fim último da vida, determinaria o ócio como caminho possível para chegar a este objetivo.  Nesse caso, o ócio seria um mero instrumento para um bem maior, a felicidade. 

O ócio em si, mesmo sendo caminho para outros fins, por vezes é o próprio objetivo, como é o caso do trabalhador que anseia pela aposentadoria. Qual trabalhador não espera pela aposentadoria? Poder descansar, brincar com os netos, sem a angústia de ter que trabalhar para conseguir o sustento.

O ócio não é apenas um meio para se chegar à felicidade. Ele também nos leva ao prazer, a tranquilidade, à convivência familiar, aos amigos...

Muito se tem demonizado o ócio como causador de males, sendo a "oficina do diabo".

No ócio podemos encontrar muito o que fazer. Talvez seja ele aquilo que nos possibilita encontrar alegrias.

Para o bem ou para o mal, não há nada que proporcione mais ação do que o ócio.

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

PLATÃO E O BEM VIVER










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          Viver é Idealizar


“Vamos fugir deste lugar, baby!
Vamos fugir…
… Pra onde eu só veja você
Você veja a mim só…
… Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer…
… Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu…
… Vamos fugir
Pra onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue…”
(Gilberto Gil)


Na pista: Os que são capazes de sonhar.



PLATÃO


“Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama.”

“O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê...”

“O corpo humano é a carruagem. Eu, o homem que a conduz. O pensamento, as rédeas. Os sentimentos, os cavalos.”

"O corpo é o cárcere da alma, que anseia em se libertar dele"


           Platão havia chorado a morte de seu mestre Sócrates com desconsolo e tristeza imensuráveis. Em uma das mãos segurava uma adaga e no coração uma vontade de jogar-se sobre ela a fim de dar cabo também de sua vida, que agora parecia não mais fazer sentido, tamanho seu desprezo pela injúria social sofrida por seu educador. O que fez com que não tomasse a decisão de matar-se foram os ensinamentos do mestre, pois aprendera que não poderia ser injusto com os deuses que lhe deram a vida de presente. Então, pensou que dali por diante haveria de dar sentido a esta sua vida. Haveria de escrever para a posteridade o que aprendera de Sócrates, um propósito bem maior que o suicídio pensado até há pouco e uma forma mais honrosa de lidar com tamanha dor. As palavras finais do velho mestre, pautadas pela certeza do justo julgamento dos deuses, antes de morrer, serviam de alento ao coração do jovem Platão.

           Tempos depois estava a ensinar em seu educandário sobre o espaço da razão como timoneira de nossas decisões, suprimindo os enganos dos sentidos. Contava aos alunos sobre um homem que fugira das cavernas, lugar onde ele os demais prisioneiros só conheciam as sombras dos seres que eram projetadas em seu fundo. Vencera o poder do medo do mito que se espalhara de que quem deixasse a caverna ficaria louco, não podendo mais retornar, pois a loucura era contagiosa. O destemido homem, sem dar ouvidos a este mito, partiu rumo ao desconhecido e descobriu um mundo novo fora da caverna, cheio de luz. Ansioso por contar a novidade aos outros habitantes da caverna, correu de volta para ela a fim de libertar aquelas pessoas do mundo das sombras. Chegando lá, eles o receberam como um louco e, precavidos pelo medo de se contagiarem com tal loucura, o mataram.

              - Este homem, meus jovens, era Sócrates, que tentou mostrar a todos um caminho de luz; no entanto, Atenas preferiu matá-lo à seguí-lo. – Discursou Platão.

              Os alunos ainda continuavam embevecidos com a história contada, então Platão continuou a falar de sua tese da existência de dois mundos distintos: o Mundo das Ideias, de onde se origina a alma e o Mundo dos Sentidos, próprio do corpo. Segundo sua tese, para cada ser existente no Mundo Sensível existe eternamente um ser perfeito no Mundo das Ideias, ou seja, os seres existentes no Mundo Sensível são cópias imperfeitas do Mundo das Ideias. A alma ao descer para o corpo esquece das coisas belas e no decorrer da vida passar por um processo de reminiscência, pois vendo as cópias vai relembrando dos seres perfeitos existentes no Mundo das Ideias. Enquanto isso, o corpo seria a prisão da alma, que anseia em voltar para o mundo das ideias. Em outras palavras, só se pode ser feliz nesta outra dimensão, num mundo idealizado, onde só a razão, assim como a alma, pode alcançar.

Resultado de imagem para imagens de sonhos realizados              - As sombras da caverna representam os sentidos. Não devemos nos deixar guiar por eles porque não são confiáveis, não são reais... São como as sombras projetadas e, portanto, não podem ser fontes do conhecimento. Em outras palavras, não devem ser leme para a direção de nossas decisões; antes, devem estar pautadas pelo leme da razão.

              Um de seus alunos, porém, não estava convencido por completo do que Platão acabara de falar e arriscou contrariá-lo:

              - Mestre, amo-o, bem sabes... – tomou a palavra Aristóteles – Mas como você próprio nos ensinou, devo amar mais a verdade. Não consigo fazer esta separação entre corpo e alma, pois somos um todo. É certo de que a razão deve ser a condutora de nossas ações, pois é sua tarefa controlar os instintos e as paixões. No entanto, não há nada da qual conhecemos que não tenha passado pela experiência dos sentidos.

              - Você concorda que todo conhecimento, para ser tratado como tal, deva ser verdadeiro? – Perguntou Platão.

               - Com certeza mestre, todo conhecimento só pode ser visto como tal se for reconhecidamente verdadeiro e bem fundamentado. – Respondeu Aristóteles.

               - Então, entras em contradição, pois confias nos sentidos como meio de conhecimento, mas não confias neles para guiar sua vida. Pois bem, faço uma pergunta à turma – propôs Platão – quantos aqui gostam mais do inverno que do verão?

                A turma se dividiu mediante as alternativas, uns preferindo o verão e outros o inverno, cada qual alegando o motivo da preferência. Então, Platão voltou a perguntar:

                - Quantos preferem maçãs a uvas?

                Uma nova divisão de opiniões se estabeleceu.

                - Como podem observar, os sentidos não são um meio seguro de se estabelecer uma verdade, já que eles se tornaram fonte de distintas opiniões;  portanto, não podem ser visto como meios de conhecimento irrefutável. Os sentidos nos dão recursos para uma opinião tão somente, não mais do que isto.

                - Mas os sentidos são os instrumentos que nos levam a conhecer os cheiros, os sabores, os odores... - Continuou Aristóteles.

                - Os sentidos apenas reproduzem um conhecimento que já temos dentro de nós através da alma. Nós já conhecemos tudo através dela e cada coisa que experimentamos é apenas uma forma de relembrá-la do bem, da beleza, da justiça, do amor e tantos outros valores que nascem com a gente. - Explicou Platão.

                - Pois eu penso, apesar de crer que há atributos essenciais a cada ser, que precisamos ser educados para a virtude, pois não somos virtuosos por natureza, mas aprendemos a sê-lo através da educação. Nossa alma precisa, assim como nosso corpo, passar pelos mecanismos da educação para tornar-se também ela virtuosa.

                Aproveitando que a aula era ao ar livre, Platão, como de costume, usou elemento ali presente para defender sua tese:

Resultado de imagem para imagens de barcos                - Estão vendo aquele barco navegando? Pois bem... Se confiarmos apenas nos nossos sentidos, neste caso os nossos olhos, diríamos que é a vela quem empurra o barco e o faz mover. Entretanto, sabemos que é o vento, que não vemos, o elemento propulsor que verdadeiramente move o barco. E quem me informa sobre este conhecimento? É a razão!

                - Professor, está boa a discussão, mas eu preciso fazer as necessidades fisiológicas. Estou autorizado a ir até aqueles arbustos lá embaixo para responder a este chamado da natureza? - Pediu Aristóteles.

                - Claro, vá lá... E aproveite este tempo ocioso para refletir – Falou Platão sorrindo.

                Ao ver Aristóteles se afastar, Platão propôs ao demais educandos pregar uma peça em Aristóteles. Todos deveriam se esconder e esperar ele voltar a fim de deixá-lo indeciso sobre aonde teriam ido. Depois de algum tempo Aristóteles retornou, olhou para um lado, para outro, coçou a cabeça... Depois falou:

            - Ei, vamos lá, apareçam... Eu sei que vocês estão por aí!

            Platão foi o primeiro a sair do esconderijo.

            - Você viu algum de nós escondido entre as pedras e arbustos? - Perguntou.

            - Não. - Respondeu Aristóteles.

            - Sentiu nosso cheiro ou de alguém em particular? - Continuou Platão.

            - Também não – voltou a responder.

            - Alguma vez já fizemos esta brincadeira em aula para depreender que estávamos por aqui ainda? - Insistiu

            - Que eu me lembre, não! 

            - Você, Aristóteles, não nos avistou, tampouco sentiu nosso cheiro, jamais passou por esta experiência de ver toda a turma se esconder e, mesmo assim, afirmou saber nosso paradeiro quando disse: “Eu sei que vocês estão aí”. Como sabia?  Como chegou a esta conclusão?

            - Acredito que tenha sido intuição... Arriscou Aristóteles.

            - Não, não foi a intuição, mas a razão quem lhe disse que estávamos por perto mesmo sem você ter passado por esta experiência anteriormente.Então, se a razão é quem nos dá a sabedoria de enxergar o que os olhos não veem, de sentir o que as narinas não cheiram, de ouvir o que os ouvidos não ouvem, então, é ela quem deve guiar nossas ações, não é?

            - Neste ponto nós nunca discordamos, amado mestre. - Afirmou por fim Aristóteles.

            Platão deu a aula por encerrada e ao avistar Aristóteles saindo com os outros educando, pensou consigo: “Eu também te amo meu discípulo.”



LIÇÕES DO MESTRE PLATÃO

Platão continuou o discurso racionalista de Sócrates, indo além ao apresentar a teoria da reminiscência. Dizia existir dois mundos distintos: o Mundo das Ideias, onde habita a alma, ligado às coisas racionais, perfeito e imutável; e o Mundo Sensível, próprio do corpo, ligado aos sentidos, imperfeito e passageiro. Para cada coisa existente no Mundo Sensível, existe um exemplar perfeito e eterno no Mundo das ideias, ou seja, as coisas existentes em um não passa de cópias imperfeitas do outro. Segundo a teoria de Platão, a alma vem ao corpo e esquece de tudo o que é perfeito e belo que conhecia no mundo das ideias. Os sentidos ajudam a alma a lembrar das coisas existentes no Mundo das Ideias em cada momento que  vê e sente suas cópias, pois estas, embora cópias imperfeitas, fazem a alma atingir a lembrança. Ao lembrar, a alma volta a conhecer pela força da razão, de onde vem, portanto, o verdadeiro conhecimento. Isto demonstra que Platão não confiava neste mundo como lugar propício para ser feliz, pois como demonstra em seu Mito da Caverna, este é o mundo das sombras e dos enganos, principalmente porque pautamos nossas ações para o contentamento do corpo, das alegrias  transitórias e não para o contentamento da alma, voltadas às alegrias permanentes. Estar na caverna é observar as sombras projetadas ao fundo e tomá-las por verdadeiras, quando o original, belo e verdadeiro mundo está fora desta caverna. Platão nos ensina que não devemos estar presos a sensações que nos aprisionam, que parecem boas, mas nos fazem mal. Fala-nos da liberdade possível, que é aquela que nos conectam com o eterno. Se por um lado, afirma não haver felicidade plena neste mundo, já que o sentimento será sempre cópia dos sentimentos belos e eternos do Mundo das ideias, que procuremos aproximarmos o máximo possível destes sentimentos. Platão vislumbra, então, um outro mundo, diferente daquele que nosso corpo habita, onde não há dor, nem sofrimento. Por isso que existem alguns termos como "amor platônico", que é o amor impossível, idealizado e não realizável, a não ser, é claro, numa outra dimensão, para Platão chamado Mundo das Ideias, para outros, céu. Então, qual a mensagem de Platão para nossa vida? É mensagem de esperança, de que existe algo transcendente. Se, por um lado,  não há como viver plenamente nesta dimensão, aponta para o alto dizendo que os deuses nos farão justiça.



NA PISTA DO Dj PLATÃO

A pista de Platão é própria para os idealistas. Além de “Vamos Fugir”, de Gilberto Gil, apresentado no início do capítulo, está na discoteca de Platão a música “Além do Horizonte”, em que diz haver “um lugar calmo e tranquilo pra gente se amar”, do Roberto Carlos que também representa com a música “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, onde afirma “um dia vou ver você pisando a areia branca, que é seu paraíso.”

Estar na pista do Dj Platão é permitir-se viajar, pois as músicas comparam-se, na literatura, ao que chamamos fuga da realidade, pois vão mostrá-la  dura e sofrida, mas vão também encher a pista de esperança.

A pista vai curtir muita Legião Urbana, pois Renato Russo, o letrista da banda, foi um afamado sofredor, sofrimento retratado por suas palavras ditas à mãe antes de morrer: “mãe, eu não sou daqui”. Várias músicas da banda retratam este sentimento: Em “Clarisse”, aparece o dualismo corpo/alma ao apresentar a depressão de uma jovem: “E Clarisse está sentada no banheiro, e faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete. Seus tornozelos sangram e a dor é menor do que parece, enquanto ela se corta, ela se esquece, que é impossível ter da vida calma e força”. Nessa música, a alma da jovem quer livrar-se do corpo, que lhe traz sofrimento e por isso o agride. Fica mais clara esta ideia nas frases seguintes: “Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola e querem que eu cante como antes”. É a essência (alma/pássaro) presa à existência (corpo/gaiola). Esta visão está presente em outras músicas como “Desesseis” em que Jonhy bate em um caminhão por “culpa de um coração partido”, buscando na morte alívio para a dor. A música “Perfeição” começa com a frase “Vamos celebrar a estupidez humana...”,  seguindo-se à ela diversas outras que desabonam a vivência, mas que termina com a profecia: “Venha, o amor tem sempre a porta aberta e vem chegando a primavera... venha, que o que vem é perfeição”. A música “Natália”, que significa nascimento, começa com “Vamos falar de pesticidas e de tragédias radioativas, de doenças incuráveis, vamos falar de sua vida...”, numa clara desilusão do poeta com o mundo em relação à musa, sendo o mundo indigno de acolhê-la. No entando, termina a música afirmando: “E quem sabe um dia eu escrevo uma canção pra você”, dando a clara sensação de que possa existir um mundo idealizado, onde a musa possa ser plenamente homenageada. Um pouco antes de falecer, escreveu “O Sagrado Coração”, em que inicia perguntando: “Falam de um lugar, mas onde é que está? Onde há virtude e inteligência e as pessoas são sensíveis, e que a luz no coração é que pode me salvar”; e termina com um pedido: “Por isso lhe peço por favor, pense em mim, ore por mim, porque eu preciso de ajuda”.

Na pista do Dj Platão entra quem tem esperança de que um outro mundo é possível.

sábado, 14 de maio de 2016

ARISTÓTELES E O BEM VIVER




Viver é equilibrar



"Viver...
e não ter a vergonha
de ser feliz.
cantar e cantar e cantar
a alegria de ser um eterno aprendiz."

(Gonzaguinha)



Aristóteles


"A educação tem raízes amargas, mas seus frutos são doces"


     Alexandre, o Grande, estava longe demais de casa. Olhou para seu destemido exército, que neste momento se encontrava descontente pelo tempo longe de seus familiares. Veio-lhe à mente o tempo de criança e os ensinamentos de um mestre em particular: o filósofo Aristóteles.

     - Por que eu tenho que ficar aqui, se meus amigos estão lá fora brincando? – Perguntou o pequeno Alexandre, avistando outras crianças pela janela.

      - Irás brincar em seguida, meu pequeno senhor – Disse Aristóteles – Primeiro, quero que penses no universo. Veja como cada coisa está em seu devido lugar... Com a sociedade acontece o mesmo. Aqueles meninos e meninas não são Alexandre e por isso não devem se preocupar em se preparar para resolverem assuntos que no futuro Alexandre terá que resolver. No futuro deles não existe um reino para administrar, mas no seu futuro, tal situação é uma imposição do destino. 

       - Então quero um bom reino para governar... O que deve haver para um reino seja bom? – Perguntou Alexandre.

       - Harmonia... Um reino de bons cidadãos formam um bom reino, com cada cidadão fazendo o que lhe cabe dentro da célula social. É por isso que você está aqui, preparando-se para exercer a monarquia, porque será rei, enquanto outros serão soldados, artesãos, comerciantes... Por isso, penso que a Aristocracia seja a melhor forma de governo, pois no governo devem estar os melhores. Reúna os melhores conselheiros em torno de si para tomar as melhores decisões.

       - Para se fazer um bom reinado, o que um monarca precisa? – Perguntou Alexandre.

       - Equilíbrio! O caminho do meio é o caminho da sabedoria, o que chamo de justa medida. Aliás, assim deve acontecer também na vida. Quer um exemplo? O que acontece se salgo por demais a comida? Ficará saborosa?

       - Ficará intragável – Disse Alexandre.

       - E se por acaso eu deixar sem sal... – Continuou Aristóteles.

       - Ficará sem gosto – Completou Alexandre.

       - Pois bem, a comida só ficará boa se for temperada na medida certa e é assim que todos devem viver e, no seu caso, reinar, como futuro monarca. 

       - Como saberei qual a dosagem certa? Eu não sei, por exemplo, temperar a comida... Refletiu Alexandre.

       - É por isso que está se preparando para ser rei – respondeu Aristóteles sorrindo – Daquelas crianças que estão lá fora brincando, provavelmente uma delas será seu cozinheiro, que aprenderá o ofício no momento oportuno. Já a sua educação, pequena majestade, requer mais tempo pela importância da função que irás cumprir, por isso estás aqui a se preparar para tal função. A virtude não é algo que temos por natureza, mas algo que treinamos para ser parte de nosso caráter.

        - E por que tudo isto? Por que é importante praticar a virtude? – Perguntou Alexandre.

        - Tudo o que fizermos em nossa vida será em busca de um único objetivo, a felicidade, pois não há nada além dela, é o fim último de nossas ações. – Respondeu o mestre.

        - Pois eu estaria bem feliz se estivesse lá brincando com os meus amigos. – Falou Alexandre ironicamente. 

        - Isto é prazer, meu pequeno. Momentos de gozo não significam exatamente uma vida feliz; já disse que daqui a pouco estará brincando com eles, pois tudo tem seu tempo. A felicidade plena só chega com a prática da virtude. – Respondeu Aristóteles.

        - Como saber o que é e o que não é virtude? – Quis saber Alexandre.

        - O que você mais admira em um soldado? – Perguntou Aristóteles.

        - A coragem! – Respondeu convicto o educando.

        - Disseste bem, a coragem é uma virtude a todos, mas é primordial para um soldado. É exatamente por isso que o soldado treina para obtê-la. O que acontecerá, majestade, se um soldado bravamente se lançar à frente de sua tropa, sem nenhuma proteção?

        - Com certeza, morrerá! – Sentenciou Alexandre.

       - Neste caso, este soldado não praticou a coragem, mas a temeridade, que não é uma virtude, mas um vício por excesso. Sua ação temerária não foi sábia, pois usou a coragem em excesso e morreu por isso. Agora, façamos um exercício ao contrário. Digamos que um soldado se esconda atrás das tropas e, no momento oportuno, fuja da batalha. É ele um soldado corajoso?

          - Claro que não, é um covarde! – Respondeu Alexandre.

          - Pois bem, a covardia é a falta de coragem. Tanto pecar por excesso, quanto por falta, torna um cidadão sem virtude. 

Alexandre ficou pensativo olhando as crianças pela janela quando foi interrompido pelo seu mestre:

          - E quanto a Alexandre, que tipo de imperador quer ser? – Indagou Aristóteles.
          - Quero ficar na história como o maior de todos os imperadores, maior até que meu pai. Eu quero a glória!

          Conhecendo o espírito bélico de seu pupilo e a cultura da conquista de seu povo, Aristóteles entendeu o que ele quis dizer com “ser grande”…

          - Há várias formas de ser grande, majestade, assim como várias são as formas de ficar grandemente na história. Conquiste o coração do povo, pois talvez esta seja a melhor virtude de um rei.

          - Esta é a minha ambição… Por falar nisto, ambição é uma virtude, não é? – Perguntou Alexandre.



          - A ambição é um desvio por excesso da prudência que, neste caso, é a virtude correspondente, tendo como vício por falta a moleza ou apatia. A realeza não tolera a apatia e, tampouco, a ambição, que pode levar à perdição, então o bom rei, assim como o bom cidadão, deve ser prudente em seus desejos. Não se esqueça disso, meu pequeno... Agora, vá brincar com seus amigos. – Ordenou Aristóteles, enquanto observava o garoto bater a porta.

          Agora, Alexandre, já imperador e ainda jovem, conquistara boa parte das terras conhecidas no mundo. Lembrava-se de que sua ambição desmedida o trouxera até ali e arrastara consigo seu bravo exército, formado por homens que deixaram para trás mães, pais, filhos, esposas..., em busca da glória. Alexandre tornara-se realmente grande para a história, mas agira como aquele soldado que se lança temerariamente contra o inimigo, pois as terras longínquas lhe apresentaram a febre que agora tomava sua vida. Já não havia mais honra em olhar nos olhos de seus comandados. Pensou consigo que talvez precisasse ter dado mais ouvidos sobre o que Aristóteles tinha a dizer quando ainda criança, assim estaria se preparando melhor para a função a qual estava destinado exercer. Seria um monarca mais presente na vida de seu povo e, quem sabe, um cidadão mais feliz.



LIÇÕES DO MESTRE


          Contrariando seu mestre Platão, Aristóteles acreditava que a virtude não existe naturalmente em nós, ela deve ser ensinada, treinada e cultivada. Não é algo a ser despertado, mas alcançado através da prática. Assim, tal como um profissional fica melhor em sua área de atuação na medida em que treina o ofício, cada sujeito deve treinar para ser virtuoso, pois praticar o bem continuamente é o caminho para ser bom. E por que praticar a virtude? Para Aristóteles, o fim último da vida, o objetivo final, é alcançar a felicidade que, por sua vez, só pode ser alcançada através da prática da virtude. E o que é virtude? Virtude é a prática do bem, que é o meio-termo, o equilíbrio. A pessoa ambiciosa, por exemplo, perde-se em sua própria ambição, pois passa a viver nela e não para si mesma, perdendo o domínio e o auto-controle, sendo escravo daquilo que ambiciona. Do mesmo modo, esta pessoa não pode viver na moleza ou na apatia, pois não alcança seus objetivos e, com isso, não consegue ser feliz. Os extremos são caminhos tortuosos; então, neste caso, a virtude é a modéstia, o meio-termo entre a ambição e a apatia, pois como nos ensina o mestre: "A sabedoria está no meio".



              Na Pista do DJ Aristóteles


            Se Platão busca a felicidade num outro mundo, Aristóteles quer ser feliz aqui. Então, na pista do Dj Aristóteles as músicas executadas tratam desta busca, sempre de forma equilibrada.

             Então, estarão no repertório músicas sertanejas que falam da vida no campo, tais como "Vida Boa" de Renato Teixeira que diz: "Tenho no quintal, uns pés de fruta e de flor, e no peito por amor plantei alguém..."

               E também muitas das do samba de raiz que tratam desta felicidade, tal como "Não deixe o Samba Morrer", de Edson Conceição e Aloísio Silva, que diz: "Eu vou ficar no meio do povo espiando a minha escola, perdendo ou ganhando, mais um carnaval." 
  
                Pode-se incluir também a música "Quando a Chuva Passar" de Ramon Cruz, lançada por Ivete Sangalo, que diz: "quando a chuva passar, quando o tempo abrir, abra a janela e veja eu sou o sol, eu sou o céu e mar, eu sou céu e fim, e o meu amor é imensidão..."

                O forró não poderia ficar de fora, pois a alegria é uma de suas temáticas. A música "Rindo à toa", da grupo Falamansa, nos convida a procurar a felicidade mesmo em momentos difíceis, quando diz: "toda a mágoa que passei é motivo pra comemorar, pois se não sofresse assim, não teria razões pra cantar...". Em outras palavras, deve-se fazer de um limão, uma gostosa limonada.

                 As estrelas da pista do DJ Aristóteles se dividem entre Renato Teixeira, para os mais reflexivos, e cantoras como Ivete Sangalo e Cláudia Leite, para os mais festeiros, num trio elétrico com grupos de forró e axé. 


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 9 : A origem da vida

        AGATÃO: Vamos começar este simpósio refletindo sobre a primeira das indagações: Como surgiu a vida?


    HERÁCLITO: Deve ter havido um elemento primeiro que deu origem a todos os outros. Pitágoras, por exemplo, acreditava ser a água, Demócrito dizia existir partículas indivisíveis denominadas átomos. Outras teses de outros filósofos foram apresentadas e eu acredito ser o FOGO este princípio, porque sua chama é a representação viva da transitoriedade da vida, porque tudo nasce, cresce e morre. Assim é o fogo! Ora está mais aceso, ora mais apagado, até que fenece quando não é mais alimentado. Tudo é transitório, o rio em que você se banhou ontem, já não é mais o mesmo se hoje entrar nele, já não será mais a mesma água.



PARMÊNIDES: Tolice o que dizes! O ser, aquilo que existe, é permanente e imutável.  O ser é e o não ser não é. O ser é desde sempre e sempre será, pois água é água e aspectos como sujeira, cor e temperatura são transitórios e não mudam o fato de que água é agua. O que dá qualidade de existência à água é a sua essência. A água de hoje será a mesma de amanhã, como a água de um copo é a mesma de outro, pois o que importa é sua essência.

          

HERÁCLITO: O mundo existe pela força dos contrários, ora é água quente, ora a água é fria. É o movimento dentro do que permanece.

PARMÊNIDES: Ainda assim será água, eterna e imutável enquanto tal. Quente e frio são atributos passageiros...

 KANT: Sobre o fogo, considero uma teoria interessante, pois suas duas atribuições básicas, luz e calor, são substâncias próprias de uma matéria sutil e elástica uniformemente difusa, que é por onde os corpos agem uns sobre os outros. Deste movimento formou-se a vida.
          

ZENÃO DE CÍTIO: Penso que uma Mente Criadora  fez tudo perfeitamente em seu devido lugar, cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos. Se tudo está perfeitamente posto não há porque agirmos contrariamente a eles. Vamos simplesmente aproveitar as benfeitorias da natureza.


SANTO AGOSTINHO: Pois eu acredito que Este princípio criador é Deus, onipresente e onisciente, Aquele que tudo criou...
          

ARISTÓTELES: É uma ideia plausível, a de um Deus único... Tudo o que foi gerado no mundo possui uma causa, pois nada pode existir se algo não lhe causar ou não criar tal existência. Todavia, há que existir uma causa primeira que causou todas as outras sem ser causada, a quem dei o nome de Primeiro Motor Imóvel. Ele é o supremo bem e a suprema beleza e funciona como um imã a atrair todos os outros seres, pois todos os seres são atraídos pela ideia do bem e da beleza. Ele é o ser de Demócrito, eterno e imutável; e talvez seja o Deus de Agostinho. Todas as outras coisas são passageiras como diz Heráclito.


PLATÃO: Meu querido discípulo, sempre mediando conflitos! Acredito que existam dois mundos distintos: o mundos das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias é representado pela alma e o mundo sensível pelo corpo. O primeiro é imutável e permanente, o segundo é transitório e passível de enganos. Para cada ser existente no mundo sensível, há um outro, perfeito e belo, no mundo das ideias. Os seres do mundo sensível são, portanto, cópias imperfeitas do mundo das ideias.
          
HUSSERL: Penso que mais importante que saber a origem das coisas é compreender o mundo.
          
PROTÁGORAS: Concordo com Husserl. Não se discute a existência ou não das coisas, nem sua origem, mas a sua relação com o homem e a forma como este as percebem.
          
SÓCRATES: O importante é conhecermos a essência das coisas...
          
JEAN-PAUL SARTRE: A essência não é tão importante quanto existir, pois nascemos do absurdo, do nada, e para o nada voltaremos. De todos que falaram até agora o mais sensato foi Heráclito, pois a transitoriedade é fato consumado, tudo nasce e morre. Não existe uma força criadora, o ser só é enquanto existe e não há essência pré-determinada nos seres. Se assim fosse, não existiria liberdade, esta sim, nossa única condenação.
          
SÓCRATES: Pode o nada criar algo? O que é o nada? Afirmar que somos gerados do nada, não seria uma forma de misticismo passivo? Acredito que devemos procurar a verdade para encontrar esta essência criadora. Você, Sartre, parece tê-la encontrado, a seu modo, quando afirma que a liberdade é nossa condenação. Talvez seja a liberdade a nossa essência, embora esta afirmação ainda careça uma averiguação mais profunda.
         
SARTRE: Volto a afirmar, não temos uma força criadora e, portanto, não temos uma essência que exista antes de nós. Nossa essência se formará conforme nossas escolhas, somos frutos delas e livres para fazer o que quisermos, estamos aí como obra do acaso. Ela própria, a essência, é mutante; muda por escolha nossa.
          
SÓCRATES: Vou aceitar, para efeitos de raciocínio, que a liberdade seja comum a todos indistintamente e nossa primeira atribuição. Nesse caso, estaria aí a nossa essência?
          
SARTRE: Agora a falácia é sua, parece um sofista! Se há uma essência, estamos presos umbilicalmente a ela. Nesse caso, como pode haver liberdade? Seria uma contradição.
           
ARISTÓTELES: Não há provas, caro Sócrates, de que a liberdade seja universal e que exista plenamente; e mesmo que exista, há outras atribuições comuns a todos os homens que estão em sua essência, como a racionalidade por exemplo.
          
SARTRE: A liberdade só existe se for plena, não se é meio-livre, como não se pode ser meio-morto.
          
SÓCRATES: Então, acabas de aceitar que a liberdade possui como atribuições a universalidade – já que é comum a todos - e a imutabilidade. Estás rejeitando, nesse caso, a transitoriedade de Heráclito, a quem elogiou.
          
SARTRE: Ao contrário, é justamente a liberdade quem nos dá a possibilidade e garantia do transitório, pois através dela escolhemos ser ou deixar de ser.
         
ROUSSEAU: Os homens nasceram livres e por toda a parte estão aguilhoados. A liberdade é parte da essência do ser humano. Foi o próprio homem quem, através de suas ações mesquinhas e egoístas, fez-se preso.
          

SANTO AGOSTINHO: Essa liberdade vem de Deus, que nos deu o livre-arbítrio.
         
NIETZSCHE: Se por todos os lados só existam homens acorrentados, como afirmou Rousseau; e a liberdade vem de Deus, como afirmou Agostinho; onde está a autoridade divina? Como este Deus, que deu a liberdade, deixou que lhe fosse tirada? Um Deus sem autoridade é um Deus fraco e um Deus fraco não sobrevive! Então, devo declarar: Deus está morto!
        
DESCARTES: É óbvio que existe Deus, o único e incontestável Ser Perfeito. A primeira prova é a de que temos uma ideia de perfeição e, como seres imperfeitos,  não poderíamos tê-la sem que algo perfeito a impusesse a nós. Outra prova de Sua existência é que se nós - que temos a ideia do que é perfeito - tivéssemos criados a nós mesmos, teríamos nos feito perfeitos. Além do mais, o imperfeito não pode criar algo perfeito, pois não está ao seu alcance. Então, apenas alguém perfeito pode ter criado a tudo perfeitamente e Este Ser é Deus.
          
NIETZSCHE: Não foi Deus quem nos criou, fomos nós quem o criamos. Desde que a razão passou a comandar nossas ações, impondo-nos regras e violentando nossa vontade, houve a necessidade da presença de um Deus forte e opressor, a fim de nos causar medo e garantir que cumpríssemos com as regras estúpidas da razão.
         
HERÁCLITO: Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro tal qual o fogo misturado aos aromas; ele é a força dos contrários, chamado como melhor agradar a cada um.
         
AGATÃO: Este é realmente um tema de complicada resolução, pois possui muitas nuances e questões intransponíveis, como a fé, por exemplo.