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terça-feira, 8 de outubro de 2024

A Cura

 Sei não... Diz-se que a escuridão é tão somente a ausência de luz, que as trevas em si não existem. Este é um princípio em que Santo Agostinho se baseou para explicar a presença do mal no mundo, uma vez que Deus, sendo bom, não poderia ser criador do mal.

Santo Agostinho explicou que o mal seria resultado da escolha pelo afastamento das coisas de Deus, tal e qual a luz se afasta de um ambiente. Sempre que nos afastamos do que Deus quer o mal aparece. Por exemplo: Deus criou o amor... Sempre que praticamos algo que contrarie um ato de amor, estamos na verdade nos afastando de Deus e daquilo que ele criou, que é bom, tal como a luz e seu efeito na escuridão.

Assim, um ato de violência nos afasta da paz,

O ódio nos afasta do perdão,

A discórdia nos afasta da concórdia...

E quanto aos males que independem de nossas ações, tal como uma doença?

Isto também seria um afastamento, uma vez que a normalidade estaria na saúde e não na doença, que seria uma anomalia. A volta à normalidade, portanto, seria a cura através do tratamento específico para esta doença.

O certo é que não queremos o mal... Isto é uma convenção universal. E serve também como princípio norteador àquelas pessoas que julgamos más segundo nossos princípios. Mesmo a pessoa que pratica o mal tem seus conceitos morais e os seguem.

A ideia do bem nos persegue, como ensinou Aristóteles, pois todos guardamos conosco e somos atraídos pelo que é bom e justo, ainda que estas concepções difiram de pessoa para pessoa. Para Platão, esse anseio vem da alma.

A cura é a volta à luz para as doenças da alma, e a volta à saúde para as doenças do corpo.

A cura é, portanto, um caminho de volta.

domingo, 7 de janeiro de 2018

FILOSOFIA DO DIA: 07 DE JANEIRO



07 DE JANEIRO



Resultado de imagem para FRASES DE PLATÃO        Vivemos atualmente em alta velocidade e não demos tempo a nós mesmos para contemplar as coisas boas que nos cercam. Nossa vida é correr! E a vida passa… Existe um salmo que diz:

“A setenta anos vai a duração de nossa vida
 É feliz quem chega aos oitenta.
A maior parte, porém, sofrimento e vaidade,
Os anos passam depressa
E a gente fica…”

Não paramos para observar a beleza do mundo real, pois estamos muito conectados ao mundo virtual. Com os olhos grudados nos smartphones, não olhamos o que se passa ao nosso redor. 

Platão dizia que em sua época os gregos viviam como se estivessem numa caverna, vendo apenas sombra da realidade e, hoje, mais do que nunca, se vê a humanidade presa ao mundo virtual. Uma caverna ao sol…


DICA DO DIA: Tire os olhos do smartphone por um tempo e observe o mundo. Ouça seus sons e observe suas maravilhas.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

PLATÃO E O BEM VIVER










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          Viver é Idealizar


“Vamos fugir deste lugar, baby!
Vamos fugir…
… Pra onde eu só veja você
Você veja a mim só…
… Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer…
… Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu…
… Vamos fugir
Pra onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue…”
(Gilberto Gil)


Na pista: Os que são capazes de sonhar.



PLATÃO


“Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama.”

“O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê...”

“O corpo humano é a carruagem. Eu, o homem que a conduz. O pensamento, as rédeas. Os sentimentos, os cavalos.”

"O corpo é o cárcere da alma, que anseia em se libertar dele"


           Platão havia chorado a morte de seu mestre Sócrates com desconsolo e tristeza imensuráveis. Em uma das mãos segurava uma adaga e no coração uma vontade de jogar-se sobre ela a fim de dar cabo também de sua vida, que agora parecia não mais fazer sentido, tamanho seu desprezo pela injúria social sofrida por seu educador. O que fez com que não tomasse a decisão de matar-se foram os ensinamentos do mestre, pois aprendera que não poderia ser injusto com os deuses que lhe deram a vida de presente. Então, pensou que dali por diante haveria de dar sentido a esta sua vida. Haveria de escrever para a posteridade o que aprendera de Sócrates, um propósito bem maior que o suicídio pensado até há pouco e uma forma mais honrosa de lidar com tamanha dor. As palavras finais do velho mestre, pautadas pela certeza do justo julgamento dos deuses, antes de morrer, serviam de alento ao coração do jovem Platão.

           Tempos depois estava a ensinar em seu educandário sobre o espaço da razão como timoneira de nossas decisões, suprimindo os enganos dos sentidos. Contava aos alunos sobre um homem que fugira das cavernas, lugar onde ele os demais prisioneiros só conheciam as sombras dos seres que eram projetadas em seu fundo. Vencera o poder do medo do mito que se espalhara de que quem deixasse a caverna ficaria louco, não podendo mais retornar, pois a loucura era contagiosa. O destemido homem, sem dar ouvidos a este mito, partiu rumo ao desconhecido e descobriu um mundo novo fora da caverna, cheio de luz. Ansioso por contar a novidade aos outros habitantes da caverna, correu de volta para ela a fim de libertar aquelas pessoas do mundo das sombras. Chegando lá, eles o receberam como um louco e, precavidos pelo medo de se contagiarem com tal loucura, o mataram.

              - Este homem, meus jovens, era Sócrates, que tentou mostrar a todos um caminho de luz; no entanto, Atenas preferiu matá-lo à seguí-lo. – Discursou Platão.

              Os alunos ainda continuavam embevecidos com a história contada, então Platão continuou a falar de sua tese da existência de dois mundos distintos: o Mundo das Ideias, de onde se origina a alma e o Mundo dos Sentidos, próprio do corpo. Segundo sua tese, para cada ser existente no Mundo Sensível existe eternamente um ser perfeito no Mundo das Ideias, ou seja, os seres existentes no Mundo Sensível são cópias imperfeitas do Mundo das Ideias. A alma ao descer para o corpo esquece das coisas belas e no decorrer da vida passar por um processo de reminiscência, pois vendo as cópias vai relembrando dos seres perfeitos existentes no Mundo das Ideias. Enquanto isso, o corpo seria a prisão da alma, que anseia em voltar para o mundo das ideias. Em outras palavras, só se pode ser feliz nesta outra dimensão, num mundo idealizado, onde só a razão, assim como a alma, pode alcançar.

Resultado de imagem para imagens de sonhos realizados              - As sombras da caverna representam os sentidos. Não devemos nos deixar guiar por eles porque não são confiáveis, não são reais... São como as sombras projetadas e, portanto, não podem ser fontes do conhecimento. Em outras palavras, não devem ser leme para a direção de nossas decisões; antes, devem estar pautadas pelo leme da razão.

              Um de seus alunos, porém, não estava convencido por completo do que Platão acabara de falar e arriscou contrariá-lo:

              - Mestre, amo-o, bem sabes... – tomou a palavra Aristóteles – Mas como você próprio nos ensinou, devo amar mais a verdade. Não consigo fazer esta separação entre corpo e alma, pois somos um todo. É certo de que a razão deve ser a condutora de nossas ações, pois é sua tarefa controlar os instintos e as paixões. No entanto, não há nada da qual conhecemos que não tenha passado pela experiência dos sentidos.

              - Você concorda que todo conhecimento, para ser tratado como tal, deva ser verdadeiro? – Perguntou Platão.

               - Com certeza mestre, todo conhecimento só pode ser visto como tal se for reconhecidamente verdadeiro e bem fundamentado. – Respondeu Aristóteles.

               - Então, entras em contradição, pois confias nos sentidos como meio de conhecimento, mas não confias neles para guiar sua vida. Pois bem, faço uma pergunta à turma – propôs Platão – quantos aqui gostam mais do inverno que do verão?

                A turma se dividiu mediante as alternativas, uns preferindo o verão e outros o inverno, cada qual alegando o motivo da preferência. Então, Platão voltou a perguntar:

                - Quantos preferem maçãs a uvas?

                Uma nova divisão de opiniões se estabeleceu.

                - Como podem observar, os sentidos não são um meio seguro de se estabelecer uma verdade, já que eles se tornaram fonte de distintas opiniões;  portanto, não podem ser visto como meios de conhecimento irrefutável. Os sentidos nos dão recursos para uma opinião tão somente, não mais do que isto.

                - Mas os sentidos são os instrumentos que nos levam a conhecer os cheiros, os sabores, os odores... - Continuou Aristóteles.

                - Os sentidos apenas reproduzem um conhecimento que já temos dentro de nós através da alma. Nós já conhecemos tudo através dela e cada coisa que experimentamos é apenas uma forma de relembrá-la do bem, da beleza, da justiça, do amor e tantos outros valores que nascem com a gente. - Explicou Platão.

                - Pois eu penso, apesar de crer que há atributos essenciais a cada ser, que precisamos ser educados para a virtude, pois não somos virtuosos por natureza, mas aprendemos a sê-lo através da educação. Nossa alma precisa, assim como nosso corpo, passar pelos mecanismos da educação para tornar-se também ela virtuosa.

                Aproveitando que a aula era ao ar livre, Platão, como de costume, usou elemento ali presente para defender sua tese:

Resultado de imagem para imagens de barcos                - Estão vendo aquele barco navegando? Pois bem... Se confiarmos apenas nos nossos sentidos, neste caso os nossos olhos, diríamos que é a vela quem empurra o barco e o faz mover. Entretanto, sabemos que é o vento, que não vemos, o elemento propulsor que verdadeiramente move o barco. E quem me informa sobre este conhecimento? É a razão!

                - Professor, está boa a discussão, mas eu preciso fazer as necessidades fisiológicas. Estou autorizado a ir até aqueles arbustos lá embaixo para responder a este chamado da natureza? - Pediu Aristóteles.

                - Claro, vá lá... E aproveite este tempo ocioso para refletir – Falou Platão sorrindo.

                Ao ver Aristóteles se afastar, Platão propôs ao demais educandos pregar uma peça em Aristóteles. Todos deveriam se esconder e esperar ele voltar a fim de deixá-lo indeciso sobre aonde teriam ido. Depois de algum tempo Aristóteles retornou, olhou para um lado, para outro, coçou a cabeça... Depois falou:

            - Ei, vamos lá, apareçam... Eu sei que vocês estão por aí!

            Platão foi o primeiro a sair do esconderijo.

            - Você viu algum de nós escondido entre as pedras e arbustos? - Perguntou.

            - Não. - Respondeu Aristóteles.

            - Sentiu nosso cheiro ou de alguém em particular? - Continuou Platão.

            - Também não – voltou a responder.

            - Alguma vez já fizemos esta brincadeira em aula para depreender que estávamos por aqui ainda? - Insistiu

            - Que eu me lembre, não! 

            - Você, Aristóteles, não nos avistou, tampouco sentiu nosso cheiro, jamais passou por esta experiência de ver toda a turma se esconder e, mesmo assim, afirmou saber nosso paradeiro quando disse: “Eu sei que vocês estão aí”. Como sabia?  Como chegou a esta conclusão?

            - Acredito que tenha sido intuição... Arriscou Aristóteles.

            - Não, não foi a intuição, mas a razão quem lhe disse que estávamos por perto mesmo sem você ter passado por esta experiência anteriormente.Então, se a razão é quem nos dá a sabedoria de enxergar o que os olhos não veem, de sentir o que as narinas não cheiram, de ouvir o que os ouvidos não ouvem, então, é ela quem deve guiar nossas ações, não é?

            - Neste ponto nós nunca discordamos, amado mestre. - Afirmou por fim Aristóteles.

            Platão deu a aula por encerrada e ao avistar Aristóteles saindo com os outros educando, pensou consigo: “Eu também te amo meu discípulo.”



LIÇÕES DO MESTRE PLATÃO

Platão continuou o discurso racionalista de Sócrates, indo além ao apresentar a teoria da reminiscência. Dizia existir dois mundos distintos: o Mundo das Ideias, onde habita a alma, ligado às coisas racionais, perfeito e imutável; e o Mundo Sensível, próprio do corpo, ligado aos sentidos, imperfeito e passageiro. Para cada coisa existente no Mundo Sensível, existe um exemplar perfeito e eterno no Mundo das ideias, ou seja, as coisas existentes em um não passa de cópias imperfeitas do outro. Segundo a teoria de Platão, a alma vem ao corpo e esquece de tudo o que é perfeito e belo que conhecia no mundo das ideias. Os sentidos ajudam a alma a lembrar das coisas existentes no Mundo das Ideias em cada momento que  vê e sente suas cópias, pois estas, embora cópias imperfeitas, fazem a alma atingir a lembrança. Ao lembrar, a alma volta a conhecer pela força da razão, de onde vem, portanto, o verdadeiro conhecimento. Isto demonstra que Platão não confiava neste mundo como lugar propício para ser feliz, pois como demonstra em seu Mito da Caverna, este é o mundo das sombras e dos enganos, principalmente porque pautamos nossas ações para o contentamento do corpo, das alegrias  transitórias e não para o contentamento da alma, voltadas às alegrias permanentes. Estar na caverna é observar as sombras projetadas ao fundo e tomá-las por verdadeiras, quando o original, belo e verdadeiro mundo está fora desta caverna. Platão nos ensina que não devemos estar presos a sensações que nos aprisionam, que parecem boas, mas nos fazem mal. Fala-nos da liberdade possível, que é aquela que nos conectam com o eterno. Se por um lado, afirma não haver felicidade plena neste mundo, já que o sentimento será sempre cópia dos sentimentos belos e eternos do Mundo das ideias, que procuremos aproximarmos o máximo possível destes sentimentos. Platão vislumbra, então, um outro mundo, diferente daquele que nosso corpo habita, onde não há dor, nem sofrimento. Por isso que existem alguns termos como "amor platônico", que é o amor impossível, idealizado e não realizável, a não ser, é claro, numa outra dimensão, para Platão chamado Mundo das Ideias, para outros, céu. Então, qual a mensagem de Platão para nossa vida? É mensagem de esperança, de que existe algo transcendente. Se, por um lado,  não há como viver plenamente nesta dimensão, aponta para o alto dizendo que os deuses nos farão justiça.



NA PISTA DO Dj PLATÃO

A pista de Platão é própria para os idealistas. Além de “Vamos Fugir”, de Gilberto Gil, apresentado no início do capítulo, está na discoteca de Platão a música “Além do Horizonte”, em que diz haver “um lugar calmo e tranquilo pra gente se amar”, do Roberto Carlos que também representa com a música “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, onde afirma “um dia vou ver você pisando a areia branca, que é seu paraíso.”

Estar na pista do Dj Platão é permitir-se viajar, pois as músicas comparam-se, na literatura, ao que chamamos fuga da realidade, pois vão mostrá-la  dura e sofrida, mas vão também encher a pista de esperança.

A pista vai curtir muita Legião Urbana, pois Renato Russo, o letrista da banda, foi um afamado sofredor, sofrimento retratado por suas palavras ditas à mãe antes de morrer: “mãe, eu não sou daqui”. Várias músicas da banda retratam este sentimento: Em “Clarisse”, aparece o dualismo corpo/alma ao apresentar a depressão de uma jovem: “E Clarisse está sentada no banheiro, e faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete. Seus tornozelos sangram e a dor é menor do que parece, enquanto ela se corta, ela se esquece, que é impossível ter da vida calma e força”. Nessa música, a alma da jovem quer livrar-se do corpo, que lhe traz sofrimento e por isso o agride. Fica mais clara esta ideia nas frases seguintes: “Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola e querem que eu cante como antes”. É a essência (alma/pássaro) presa à existência (corpo/gaiola). Esta visão está presente em outras músicas como “Desesseis” em que Jonhy bate em um caminhão por “culpa de um coração partido”, buscando na morte alívio para a dor. A música “Perfeição” começa com a frase “Vamos celebrar a estupidez humana...”,  seguindo-se à ela diversas outras que desabonam a vivência, mas que termina com a profecia: “Venha, o amor tem sempre a porta aberta e vem chegando a primavera... venha, que o que vem é perfeição”. A música “Natália”, que significa nascimento, começa com “Vamos falar de pesticidas e de tragédias radioativas, de doenças incuráveis, vamos falar de sua vida...”, numa clara desilusão do poeta com o mundo em relação à musa, sendo o mundo indigno de acolhê-la. No entando, termina a música afirmando: “E quem sabe um dia eu escrevo uma canção pra você”, dando a clara sensação de que possa existir um mundo idealizado, onde a musa possa ser plenamente homenageada. Um pouco antes de falecer, escreveu “O Sagrado Coração”, em que inicia perguntando: “Falam de um lugar, mas onde é que está? Onde há virtude e inteligência e as pessoas são sensíveis, e que a luz no coração é que pode me salvar”; e termina com um pedido: “Por isso lhe peço por favor, pense em mim, ore por mim, porque eu preciso de ajuda”.

Na pista do Dj Platão entra quem tem esperança de que um outro mundo é possível.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3: Agir Político do Governante




AGATÃO: E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Existe em nossas consciências um dever daquilo que deve ou não ser feito a quem chamo de Imperativo Categórico; um conjunto de normas e prescrições morais a serem cumpridas. O governante também carrega estes deveres em sua consciência, pois ela é comum a todos, já que é a priori e universal. Assim, o governante deve agir obedecendo a esta consciência. Quando ele ou o legislador, por exemplo, criam uma lei proibindo a injúria racial, não é ao racismo que atacam, já que é permissivo que uma pessoa não goste de uma determinada raça, o que está sendo atacado, com esta lei, é o imperativo categórico de que a ofensa deve ser rechaçada por nossa consciência moral, porque ninguém, nem mesmo aquele que pratica a injúria racial, aceita uma ofensa contra si. Ofender ao outro é inaceitável em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo, em qualquer idade, sendo a ofensa criminalizada por nossa consciência. O governante deve preservar a voz de sua consciência, assim estará isento de todo mal que possa ser praticado pelas pessoas que por ventura venham a aproveitar-se dos erros existentes em tal ato ou lei; não será culpa do governante se alguma má ação for praticada por conta de um ato seu que tenha seguido os ditamos de sua consciência moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar tendo por base a boa intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Para agir bem, ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir; portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.

PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 9 : A origem da vida

        AGATÃO: Vamos começar este simpósio refletindo sobre a primeira das indagações: Como surgiu a vida?


    HERÁCLITO: Deve ter havido um elemento primeiro que deu origem a todos os outros. Pitágoras, por exemplo, acreditava ser a água, Demócrito dizia existir partículas indivisíveis denominadas átomos. Outras teses de outros filósofos foram apresentadas e eu acredito ser o FOGO este princípio, porque sua chama é a representação viva da transitoriedade da vida, porque tudo nasce, cresce e morre. Assim é o fogo! Ora está mais aceso, ora mais apagado, até que fenece quando não é mais alimentado. Tudo é transitório, o rio em que você se banhou ontem, já não é mais o mesmo se hoje entrar nele, já não será mais a mesma água.



PARMÊNIDES: Tolice o que dizes! O ser, aquilo que existe, é permanente e imutável.  O ser é e o não ser não é. O ser é desde sempre e sempre será, pois água é água e aspectos como sujeira, cor e temperatura são transitórios e não mudam o fato de que água é agua. O que dá qualidade de existência à água é a sua essência. A água de hoje será a mesma de amanhã, como a água de um copo é a mesma de outro, pois o que importa é sua essência.

          

HERÁCLITO: O mundo existe pela força dos contrários, ora é água quente, ora a água é fria. É o movimento dentro do que permanece.

PARMÊNIDES: Ainda assim será água, eterna e imutável enquanto tal. Quente e frio são atributos passageiros...

 KANT: Sobre o fogo, considero uma teoria interessante, pois suas duas atribuições básicas, luz e calor, são substâncias próprias de uma matéria sutil e elástica uniformemente difusa, que é por onde os corpos agem uns sobre os outros. Deste movimento formou-se a vida.
          

ZENÃO DE CÍTIO: Penso que uma Mente Criadora  fez tudo perfeitamente em seu devido lugar, cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos. Se tudo está perfeitamente posto não há porque agirmos contrariamente a eles. Vamos simplesmente aproveitar as benfeitorias da natureza.


SANTO AGOSTINHO: Pois eu acredito que Este princípio criador é Deus, onipresente e onisciente, Aquele que tudo criou...
          

ARISTÓTELES: É uma ideia plausível, a de um Deus único... Tudo o que foi gerado no mundo possui uma causa, pois nada pode existir se algo não lhe causar ou não criar tal existência. Todavia, há que existir uma causa primeira que causou todas as outras sem ser causada, a quem dei o nome de Primeiro Motor Imóvel. Ele é o supremo bem e a suprema beleza e funciona como um imã a atrair todos os outros seres, pois todos os seres são atraídos pela ideia do bem e da beleza. Ele é o ser de Demócrito, eterno e imutável; e talvez seja o Deus de Agostinho. Todas as outras coisas são passageiras como diz Heráclito.


PLATÃO: Meu querido discípulo, sempre mediando conflitos! Acredito que existam dois mundos distintos: o mundos das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias é representado pela alma e o mundo sensível pelo corpo. O primeiro é imutável e permanente, o segundo é transitório e passível de enganos. Para cada ser existente no mundo sensível, há um outro, perfeito e belo, no mundo das ideias. Os seres do mundo sensível são, portanto, cópias imperfeitas do mundo das ideias.
          
HUSSERL: Penso que mais importante que saber a origem das coisas é compreender o mundo.
          
PROTÁGORAS: Concordo com Husserl. Não se discute a existência ou não das coisas, nem sua origem, mas a sua relação com o homem e a forma como este as percebem.
          
SÓCRATES: O importante é conhecermos a essência das coisas...
          
JEAN-PAUL SARTRE: A essência não é tão importante quanto existir, pois nascemos do absurdo, do nada, e para o nada voltaremos. De todos que falaram até agora o mais sensato foi Heráclito, pois a transitoriedade é fato consumado, tudo nasce e morre. Não existe uma força criadora, o ser só é enquanto existe e não há essência pré-determinada nos seres. Se assim fosse, não existiria liberdade, esta sim, nossa única condenação.
          
SÓCRATES: Pode o nada criar algo? O que é o nada? Afirmar que somos gerados do nada, não seria uma forma de misticismo passivo? Acredito que devemos procurar a verdade para encontrar esta essência criadora. Você, Sartre, parece tê-la encontrado, a seu modo, quando afirma que a liberdade é nossa condenação. Talvez seja a liberdade a nossa essência, embora esta afirmação ainda careça uma averiguação mais profunda.
         
SARTRE: Volto a afirmar, não temos uma força criadora e, portanto, não temos uma essência que exista antes de nós. Nossa essência se formará conforme nossas escolhas, somos frutos delas e livres para fazer o que quisermos, estamos aí como obra do acaso. Ela própria, a essência, é mutante; muda por escolha nossa.
          
SÓCRATES: Vou aceitar, para efeitos de raciocínio, que a liberdade seja comum a todos indistintamente e nossa primeira atribuição. Nesse caso, estaria aí a nossa essência?
          
SARTRE: Agora a falácia é sua, parece um sofista! Se há uma essência, estamos presos umbilicalmente a ela. Nesse caso, como pode haver liberdade? Seria uma contradição.
           
ARISTÓTELES: Não há provas, caro Sócrates, de que a liberdade seja universal e que exista plenamente; e mesmo que exista, há outras atribuições comuns a todos os homens que estão em sua essência, como a racionalidade por exemplo.
          
SARTRE: A liberdade só existe se for plena, não se é meio-livre, como não se pode ser meio-morto.
          
SÓCRATES: Então, acabas de aceitar que a liberdade possui como atribuições a universalidade – já que é comum a todos - e a imutabilidade. Estás rejeitando, nesse caso, a transitoriedade de Heráclito, a quem elogiou.
          
SARTRE: Ao contrário, é justamente a liberdade quem nos dá a possibilidade e garantia do transitório, pois através dela escolhemos ser ou deixar de ser.
         
ROUSSEAU: Os homens nasceram livres e por toda a parte estão aguilhoados. A liberdade é parte da essência do ser humano. Foi o próprio homem quem, através de suas ações mesquinhas e egoístas, fez-se preso.
          

SANTO AGOSTINHO: Essa liberdade vem de Deus, que nos deu o livre-arbítrio.
         
NIETZSCHE: Se por todos os lados só existam homens acorrentados, como afirmou Rousseau; e a liberdade vem de Deus, como afirmou Agostinho; onde está a autoridade divina? Como este Deus, que deu a liberdade, deixou que lhe fosse tirada? Um Deus sem autoridade é um Deus fraco e um Deus fraco não sobrevive! Então, devo declarar: Deus está morto!
        
DESCARTES: É óbvio que existe Deus, o único e incontestável Ser Perfeito. A primeira prova é a de que temos uma ideia de perfeição e, como seres imperfeitos,  não poderíamos tê-la sem que algo perfeito a impusesse a nós. Outra prova de Sua existência é que se nós - que temos a ideia do que é perfeito - tivéssemos criados a nós mesmos, teríamos nos feito perfeitos. Além do mais, o imperfeito não pode criar algo perfeito, pois não está ao seu alcance. Então, apenas alguém perfeito pode ter criado a tudo perfeitamente e Este Ser é Deus.
          
NIETZSCHE: Não foi Deus quem nos criou, fomos nós quem o criamos. Desde que a razão passou a comandar nossas ações, impondo-nos regras e violentando nossa vontade, houve a necessidade da presença de um Deus forte e opressor, a fim de nos causar medo e garantir que cumpríssemos com as regras estúpidas da razão.
         
HERÁCLITO: Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro tal qual o fogo misturado aos aromas; ele é a força dos contrários, chamado como melhor agradar a cada um.
         
AGATÃO: Este é realmente um tema de complicada resolução, pois possui muitas nuances e questões intransponíveis, como a fé, por exemplo. 












quinta-feira, 14 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 8 : Conhecimento

AGATÃO: Acredito que na questão do conhecimento as opiniões também sejam contraditórias. Afinal, a tarefa de conhecer cabe à razão ou surge da experiência?



DESCARTES: Partimos do princípio de que um conhecimento, para tratar-se como tal, deva ser verdadeiro, pois um elemento falso não pode possuir status de conhecimento. As sensações e emoções não têm a capacidade de adquirir tal estatura, pois são passíveis de enganos e só com o uso da razão se pode chegar ao conhecimento verdadeiro. Por isso proponho o método cartesiano, algo que não possa ser refutado, nem posto em dúvida. Assim, façamos o exercício de tudo duvidar: de Deus, deste diálogo, até mesmo de nossa existência; chegaremos a conclusão de que uma coisa não pode haver dúvida: a de que estamos duvidando. Ora, se estamos duvidando, estamos pensando; e se estamos pensando, obviamente estamos vivos; ou seja, existimos. E não é a experiência quem nos dá esta prova, mas o ato de pensar, que é próprio da razão; então, só a razão é que nos dá a certeza de que o conhecimento que nos chega é verdadeiro, pois o conhecimento que nos chega pela emoção é incerto.


DAVID HUME: Pois eu penso que todo conhecimento obrigatoriamente passa pela experiência. A razão nos dá noção, propicia cálculos mentais, mas a experiência retrata com fidelidade o conhecimento, pois os sentidos e as emoções são vivos e intensos, enquanto que a razão é abstrata, não é concreta, tornando o conhecimento idealizado, tirando sua capacidade real. A razão é, e só pode ser, escrava das paixões; só pode pretender ao papel de as servir e obedecer a elas. Não contraria a razão preferir a destruição do mundo inteiro a um arranhão no meu dedo, pois o que passa ao largo de meus sentidos, mesmo que grandioso, para mim é menos conhecido que algo pequeno que eu tenha vivenciado.

DESCARTES: Se tomarmos o eclipse solar e fiar-nos no que nos informa os olhos tão somente, chegaremos à conclusão que a lua é maior que o sol, pois o tapa totalmente, o que sabemos não ser verdade. É a razão quem nos informa sobre a distância, corrigindo um conhecimento falso dado pelos olhos, em um conhecimento verdadeiro.

DAVID HUME: Todavia, se eu lhe der um beliscão, é você quem conhecerá verdadeiramente a dor produzida, os demais presentes poderão ter apenas uma noção, uma abstração... 

KANT: Penso que ambos, razão e experiência, são meios de conhecimento, cada qual com sua importância. Existem conhecimentos a priori, que são aqueles conhecimentos pré-existentes em nós, como alguns instintos, por exemplo, ligados à razão, em que não precisamos passar por experiência para adquirí-los, pois nascemos com eles. Outrossim, existem os conhecimentos a posteriori, que são aqueles que adquirimos com a vivência, nascidos da experiência. 

SÓCRATES: Só sei que nada sei, e quanto mais sei, mais sei que nada sei. Este é o princípio de minha filosofia, pois parto da ideia de que a busca do conhecimento é o início de uma vida virtuosa, que aparece ao afastarmos da ignorância. Esta tarefa cabe à razão, pois a emoção nos deixa próximos dos mitos e dos falsos conhecimentos. É pela razão que refletimos o bem que há em nós e conhecer-se a si mesmo é o primeiro passo.

PLATÃO: Somos corpo e alma, o sensível e o inteligível. O verdadeiro conhecimento é o conhecimento da alma que, habitando o mundo das ideias conheceu o que é perfeito e imutável: a verdade, o justo, o belo... Já o conhecimento advindo das sensações podem nos levar a um falso conhecimento, pois são conhecimentos passageiros, sem a certeza que precisamos.


PROTÁGORAS: Não existem conhecimentos nem verdades imutáveis, meu caro Platão, pois tudo é relativo e o conhecimento se dá conforme cada ser pensante. Também não podemos conhecer tudo, pois nossa capacidade de conhecimento é limitada, assim, cada um possui a verdade que sua capacidade individual alcança, seja através das experiências, seja através da abstração racional.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 7 - A Verdade

AGATÃO: Vendo-os falar com ideias tão contraditórias, com tão bons argumentos, fiquei refletindo sobre a verdade. Será que existe uma verdade única?


PROTÁGORAS: Se há ideias tão contraditórias, caro Agatão, é porque não existe uma verdade única, pois tudo é relativo. O que é certo em uma cultura, pode ser errado em outra; o que é nobre em um tempo, pode ser motivo de vergonha em outro; e o que é aceito em um lugar, pode ser rejeitado em outro. A única verdade existente na verdade universal é a sua tirania.


SÓCRATES: Pois eu penso que devemos buscar a verdade nas coisas. Não podemos ser justos, se não soubermos definir o que é justiça; não podemos amar, se não soubermos o que é amor; nem lutar, se não soubermos o que é coragem. De nada valerá a afeição do povo por um governante, se este não for justo; pois será uma afeição advinda de um falso julgamento, assim acontece com o amor de uma esposa por seu marido, se este a trai; e de nada vale a um General vencer uma batalha, se ele é um covarde atrás de um grande exército, a glória de sua vitória é falsa. Assim acontece com as verdades relativas, meras opiniões sem um julgamento preciso.

KANT: Se a vida é subjetiva, a verdade também deve sê-la. A verdade universal nos leva ao dogmatismo e a verdade relativa, por outro lado, ao ceticismo. Ambos são extremos perigosos, pois nem tudo pode ser dado como certeza, assim como nem tudo deva ser duvidado. A investigação, portanto, nos dirá o que é certo e o que é errado. A questão de Deus, por exemplo, não temos como saber, através da razão, que Ele exista. É a fé quem responde a esta questão, mas a fé é subjetiva, tornando Deus uma verdade subjetiva, pois neste caso não importa a existência de Deus, mas o bem que me faz ao acreditar em sua existência. Então, a verdade é subjetiva, pois existem conhecimentos inatos e conhecimentos posteriores, verdades da razão e verdades da fé.

MAQUIAVEL: Então estás dizendo Kant, que a fé que tens em Deus é muito mais por utilidade do que por crença real. Parece uma ideia contraditória à sua própria tese de verdade subjetiva, tornando-a utilitalista. Por isto defendo a verdade efetiva, pois todos vêem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é. A verdade efetiva é uma realidade fora da subjetividade, que despreza as intenções divinas, o sobrenatural, os fatalismos e os imperativos, trabalhando com o real.

PLATÃO: A verdade está ligada à razão e não pode seguir o subjetivismo de Kant, nem o relativismo de Protágoras, porque são dotadas de enganos; tampouco deve ser efetiva, pois o utilitarismo trazido por ela é pérfido e mal, já que não repudia as más intenções. A verdade se encontra no interior da alma de cada um e é comum a todos, pois todas as almas conhecem a mesma verdade. Então, como Sócrates, acredito que a verdade existe e deva emergir através da reflexão racional.

NIETZSCHE: A verdade não existe! É uma abstração, ideias formadas por quem detém o poder e as impõem aos outros como algo que deva ser a realidade dos fatos e ações. Vejam as verdades dos racionalistas, servem para legitimar suas regras e, por conseguinte, seu poder sem que sejam questionados. Por muitos séculos, as ditas verdades bíblicas autorizaram a Igreja a produzirem atrocidades. No final, são os vencedores quem contam a história. Só sei que não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.

MARX: Neste ponto concordo com Nietzsche. A verdade é um contigenciamento histórico entre os atores sociais e deste embate surge uma ideia vencedora, sendo ela a verdade. A força, portanto, deixa a história mal contada, uma vez que apenas uma parte é tida como verdadeira, pois as ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. 


SARTRE: Concordo que a verdade seja subjetiva, pois ela é dada pelo sujeito que pensa, não havendo, portanto, uma verdade em essência. Qual é a essência da verdade?  O que existe é uma ideia que se coloca como superior à outra atribuindo-se a si mesma como verdadeira. Por exemplo: não existe “marginal em essência” como não existe “gente honesta em essência”, estas são atribuições dadas por uma verdade extraída de uma dada ideia que dá a uma pessoa a qualidade de desonesta e, a outra, honesta.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 5 - Razão e Emoção

AGATÃO: Vendo os senhores neste debate ferrenho, pergunto sobre quem deve pautar nossa ação, a razão ou a emoção?


PLATÃO: Com certeza nossas ações devem estar pautadas pela razão. Agir emocionalmente é um erro, pois os sentidos podem nos levar aos enganos e enganos não servem. As paixões não podem determinar nossas ações, uma vez que quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama. Então, toda ação boa provém da razão por um simples motivo: Não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal.




NIETZSCHE: Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem o do mal, pois a verdade está naquilo que se sente e não naquilo que nos obrigam a sentir. A razão é anti-natural na medida em que oprime nossa vontade, esta sim guia natural de nossas ações. Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície. Platão é um desses homens que frustra a humanidade, tirando dela a vontade de viver em nome de um suposto controle e equilíbrio, que na verdade não passa de tristeza, opressão e melancolia. O que dá vida é o corpo, os sentidos, as paixões..., não uma razão idealizada.



PLATÃO: O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê. Nietzsche fala que devemos viver entregues aos sentidos, pois eu digo: Viva como prega Nietzsche e em breve não terá corpo para sentir. Vencer a si próprio é a maior das vitórias e vencer a si próprio é vencer suas ambições. O homem ambicioso é um homem mau e riqueza alguma poderá proporcionar a paz a um homem mau, pois não permitirá a paz a consciência que é nossa instrutora natural e não anti-natural como quer dizer Nietzsche. E a consciência é própria da razão e é por isso que o homem retrata-se inteiramente na alma; para saber o que deve fazer, deve olhar-se na inteligência, nessa parte da alma na qual fulge um raio da sabedoria divina.



NIETZSCHE: Sabedoria divina? Como a razão não é suficiente para convencer as pessoas a desistirem de viver sua vontade em potência, apelam para a consciência e sabedoria divinas. A opressão não é apenas racional, mas ditada pela força opressora de um Deus. Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida, por culpa dessa opressão moralizadora.



SÓCRATES: Sei que Nietzsche me acusa de promover a queda do modelo dionisíaco de celebração aos mitos, por ver neles o humano verdadeiro e natural. Entretanto, verdadeiros e naturais também são os animais, mas estes não possuem a racionalidade e a consciência. Nós, por possuí-las e diferenciarmos por tê-las, devemos nos guiar à luz de seus ditames, que é o que nos levam à virtude. Aos animais, por não terem consciência e racionalidade que os guie, é natural que ajam pelo instinto, contrário senso, é natural que ajamos racionalmente, por sermos dotados de razão.



SARTRE: Como Nietszche, penso que por sermos livres, também devemos agir de livre vontade , no entanto, posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me, tudo isso não passa de uma manifestação de uma opção mais original, mais espontânea do que aquilo a que se chama vontade. Então, liberdade é escolha e escolher é uma tarefa racional, assim, às vezes não somos o homem de nossa vontade, mas da vontade dos outros por escolha própria. A emoção é o querer e o querer está atrelado à consciência, posto que a decisão é sempre racional; e seja o que escolhermos, é decisão livre escolher entre a vontade e a consciência, pois no ponto de partida, não pode haver outra verdade além desta: «penso, logo existo», como afirma Descartes, esta é a verdade absoluta da consciência alcançando-se a si mesma. 



DESCARTES: Com toda certeza a ação deve ser guiada pela razão, pois basta ajuizar bem para agir bem. As paixões são boas por natureza e nós só temos que evitar seu mau uso e seus excessos, o que é propiciado pela razão. Então, se é a razão senhora da decisão é ela quem determina como deve proceder a boa ação, os sentidos são instrumentos, meios que uso para ter prazer e ser feliz. É com a emoção que eu sinto, mas é com a razão que eu decido. 



DIÓGENES: A emoção está ligada aos instintos e isso é bom, mas como disse antes a emoção trás consigo o perigo da ambição desmedida. Eu mesmo já caí em tentação ao luxo e à riqueza quando cunhei moedas falsas em minha juventude, o que foi um erro. A razão, por sua vez, deixa o mundo enquadrado em seus ditames e regras. Penso que devamos aproveitar o que há de melhor em cada caso, agir com liberdade e retirar o que nos oprime. Viver com a natureza e aproveitar o que ela nos dá a cada dia.



ARISTÓTELES: Concordo com Descartes, pois a razão tem o propósito de dominar as paixões e suas inclinações desmedidas, conduzindo-as a um termo equilibrado. A sabedoria está no meio. Então, deve-se viver os sabores que as sensações promovem, mas sempre tendo por guia a razão.


DAVID HUME: Concordo com Aristóteles e gostaria de acrescentar que nossa natureza trás consigo uma diversidade de fatores que limitam nosso agir pela influência determinante que possuem sobre nós. São fatores biológicos, sociológicos, históricos, etc… que influenciam algumas escolhas e formas de pensar. Existe um embate entre a vontade e a resistência. As sensações criam necessidades que devam ser vencidas: do ponto de vista social, por exemplo, a necessidade se mostra ao querer buscar um padrão social mais distinto; do ponto de vista físico, um corpo perfeito; tudo motivado por um padrão. Então não existe uma simples supremacia da razão sobre a emoção, é uma construção que se dá entre o ser bio-psico-histórico – com seus atributos e medos – e o ente racional.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3 - Agir Político do Governante

AGATÃO: Falamos no tópico anterior do agir político do cidadão. E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Assim, o governante nasce do dever ético em que cabe a todos exercer, incluindo, assim, o governante que está lá por meio da vontade do povo, pois o Estado surge quando os cidadãos abrem mão de suas liberdades individuais e depois as recuperam como membro de uma comunidade. Porém, devo dizer que virtude e dever são duas coisas diferentes. O dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade. Ambas necessárias, claro, solidárias uma com a outra evidentemente, mas antes complementares. O governante deve agir, sobretudo, com a consciência, seguindo os princípios éticos fornecidos pela lei e a vontade moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar obediente aos ditames da consciência, ou seja, na base da intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir, portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.


PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.