AGATÃO: Falamos no tópico anterior do agir político do cidadão. E quanto ao governante, como deve
agir?
KANT: A política e o estado de direito
devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no
imperativo moral e nas leis éticas. Assim, o governante nasce do dever ético em
que cabe a todos exercer, incluindo, assim, o governante que está lá por meio
da vontade do povo, pois o Estado surge quando os cidadãos abrem mão de suas
liberdades individuais e depois as recuperam como membro de uma comunidade.
Porém, devo dizer que virtude e dever são duas coisas diferentes. O dever é
uma coerção, a virtude, uma liberdade. Ambas
necessárias, claro, solidárias uma com a outra evidentemente, mas antes
complementares. O governante deve agir, sobretudo, com a consciência, seguindo
os princípios éticos fornecidos pela lei e a vontade moral.
MAQUIAVEL: Se bem
entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o
governante deva administrar obediente aos ditames da consciência, ou seja, na
base da intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à
ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados
atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante,
portanto, é a utilidade ao governo e o
benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir
pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Ele deve se cercar de
pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método
para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à
sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a
situação exigir, portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão:
pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não
sabe defender-se dos lobos.
ROUSSEAU: Maquiavel,
fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel
dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o
governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo, já que se o governante está lá é por vontade
deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada
por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico
universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam,
assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo
categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno,
imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a
consciência social, mudando as leis. Digo
que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.
MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina
o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas
relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais,
políticas e religiosas. Eu creio na
soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem
deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se
auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da
tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao
Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a
sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com
o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência
social trazida aos indivíduos.
EPICURO: Me parece controverso que para
ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem
governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos.
O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.
HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como
pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem
é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em
que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é
inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a
fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de
governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da
Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte
violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau,
uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.
PLATÃO: É por isso que educar as
consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade
deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem
todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais
instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.
PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a
todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o
melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre
seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o
governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite
sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese
favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o
governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.
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