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terça-feira, 26 de maio de 2026

O NOBRE SELVAGEM

 Sei não...     


Oswaldo de Andrade, poeta do modernismo, apresentou uma constatação em seu crítico poema-piada:


"Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o Índio.

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio teria despido o português."


Estas forças da natureza, chuva e sol, suavizam a brutalidade usada para impor a cultura do povo que chegou ao que aqui estava. Quem dera o poema fosse:


"Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o Índio.

Que desaforo!

O índio não gostou

E lhe deu um pé na bunda."


Reconheço que não teria a genialidade e a sutileza usadas por Oswald de Andrade, assim como não retrataria a história como se deu. Que pena! Ah, se fosse uma manhã de sol...

A "pena" e o "desaforo" traduzem sentimentos e condutas diferentes. Isto nos leva à reflexão sobre como reagir em determinadas situações. É comum confundir  bondade e ingenuidade. No caso de nossos nativos, uma coisa levava a outra e carregavam ambas as qualidades. 

Sim, qualidades. Afinal, a normalidade das relações é que não se engane, nem se aproveite  de um gesto bondoso de outro, como foi a recepção dos índios. Além desta ideia estar explícita em Rousseau em sua tese da natural bondade humana, ela se faz presente em líderes religiosos como Jesus, que sugeriu ceder a outra face à uma agressão, e Confúcio, que disse que devemos ser como o Sândalo, que perfuma o machado que o fere. Dom Helder Câmara sugere que devemos ser como canas-de-açucar que, mesmo esmagadas, só sabem dar doçura.

Isto é o que se espera das relações humanas.

Uma mãe reclamou a outras mães que ensinava seu filho a não bater nos coleguinhas. No entanto, vez por outra ele apanhava. Ouviu das outras mães que deveria ensinar a revidar.

Infelizmente, depois de tantos pés na bunda, somos direcionados a chutar primeiro, pois como afirmou Nietzche:

"Fiquei magoado, não por teres me mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te"

Vira um círculo vicioso. Nietzsche, como afirma na frase, já se viu genuíno, uma vez que já acreditou. Magoa a ele o fato de não mais poder acreditar. 

O indígena histórico de Oswald de Andrade agiu como o garoto da escola que apanhou. Não espera que outro vá lhe fazer o mal, nem espera que lhe venham enganar. Sua pureza deixa todas as coisas puras, até que algo as suje.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

FILÓSOFOS DEBATEM FAROESTE CABOCLO

AGATÃO: Este banquete tem como tema a questão ética e proporei como texto de estudo a música Faroeste caboclo, para que, a partir das situações vividas pelos personagens, possamos debater segundo vossas convicções.
(Os pensadores ouviram a música) 

ROUSSEAU: Encontro minha filosofia nesta narrativa. Acredito que o homem nasce bom e a vivência em sociedade o corrompe, porque desperta um desejo de competição que o leva a atitudes mesquinhas e pequenas. O primeiro verso deixa claro esta condição primitiva de bondade, pois não ter medo significa, nesta situação, não conhecer o mal. A morte do pai despertou em João de Santo Cristo um ódio pela vida e a visão de que todos eram seus inimigos. Esta inimizade, na humanidade, começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu!” e não houve ninguém com suficiente clareza para arrancar aquelas cercas. A partir daí cada qual passou a defender o que é seu, vizinhos se desentenderam, países guerrearam...

HOBBES: Falas, caro Rousseau, como se esta competição foi induzida por um fator externo, como o tiro que matou o pai do rapaz, por exemplo. Negativo! Estes sentimentos nascem conosco, pois não diferimos dos outros animais nesta questão. Digo que o homem é lobo do homem! Ao contrário do que dizes, o homem é naturalmente mau e a sociedade é quem cria mecanismos para educá-lo na virtude. João de Santo Cristo teve chances, quando criança e quando adulto, mas teimou sempre em ser lobo.

SÊNECA: Tudo seria muito mais tranquilo se João de Santo Cristo não lutasse tanto contra o seu destino. Ele viveria muito mais feliz se deixasse as coisas acontecerem naturalmente. A aceitação de sua condição, no mínimo, lhe traria paz para viver decentemente, trabalhando e, talvez, formando uma família.

AGOSTINHO: Faltou a todos os personagens a opção por Deus. A boa ação é aquela que nos aproxima de Deus e a má ação aquela que nos afasta Dele. Onde falta Deus brota o mal.

SARTRE: Penso que Rousseau e Hobbes erram quando falam em essência humana, pois primeiro existimos e a nossa essência - aquilo que somos - se forma a partir de nossas escolhas, o que quer dizer que não temos nenhuma natureza pré-existente, boa ou má. Também não existe destino como diz Sêneca, nós é quem o fizemos. E Deus, mesmo que existisse, não interferiria em nossas ações, porque somos condenados a ser livres.  Sozinho fiz o mal, sozinho inventei o bem. Não temos a quem culpar por nossas ações, pois somos pautados pela liberdade. Os personagens da história em questão agiram livremente, fizeram suas escolhas e suas ações não podem ser atribuídas a fatores externos, pois estes podem influenciar, mas jamais determinar as decisões pessoais.

AGOSTINHO: É o que chamo de livre-arbítrio...

SARTRE: É um contrassenso o que dizes. Uma liberdade pautada por uma força superior não é liberdade. Como posso ser livre se tenho que fazer a vontade desta força? Não existe meia liberdade. Não se pode ser meio livre, como não se pode ser meio morto.

NIETSCHE: E nem é a vontade deste Deus inventado, mas a vontade da Igreja de Agostinho que, influenciado pelas ideias racionalistas de Platão, teorizou um modo de amarrar as pessoas às normas e regras de conduta que atentam contra a natureza humana. Passaram a tudo proibir. Estamos condenando os personagens desta história sob a batuta destas regras estúpidas. Devo admitir que Maria Lúcia é a personalidade mais fraca, não pelas razões anteriormente expostas pelos colegas de banca, mas pelo fato de que ela vivia ao sabor dos desígnios dos outros personagens, não tinha amor próprio. Por outro lado, era justo o ódio de João de Santo Cristo e ele viveu intensamente até conhecê-la, entregando-se aos ditames da sociedade moralista, como formar família, com empreguinho e casamento.

HOBBES: O que estás a propor é a barbárie!  Como disse anteriormente, nascemos maus e se não houvesse uma lei que regulasse as ações, cada qual agiria conforme seu bem entender sem qualquer controle.

NIETZSCHE: O problema é justamente o controle. A única lei a ser seguida, deveria ser a lei natural, a lei do bem viver.

EPICURO: Bem viver é justamente o que faltou aos personagens. Como o fim último da vida é buscar o prazer através da tranquilidade da alma e da serenidade, devo concordar com Sêneca quando diz que João de Santo Cristo deveria esquecer o fato da morte de seu pai, a princípio, através do exercício do perdão. A agonia da cena guardada em seu coração se estendeu por toda a vida. Além do mais, ele desejava demais, quando poderia ser feliz com o que tinha e onde vivia.

NIETZSCHE: Perdão e piedade são para os fracos. O moralmente forte age segundo sua natureza. O ódio de João de Santo Cristo era justificável. Controlar os sentimentos é ir contra a lei natural e fraudar o que é puro e, portanto, bom.

ARISTÓTELES: Pois penso que a função da razão é justamente dominar as inclinações e as paixões. O bem viver é viver com equilíbrio, pois a virtude está no meio. Há duas formas de falhar: por excesso ou falta. Duelar com Jeremias não foi um ato de coragem - que seria a virtude – mas um ato temeroso – o vício por excesso.  João agiu emocionalmente pela ira. Jeremias, por sua vez, praticou a covardia ao atirar pelas costas – o vício por falta.

SÓCRATES: Só se erra por ignorância. O ser moral é o ser de conhecimento. Praticar o conhecimento é o bem agir. Os personagens em questão viveram à sombra de suas crenças, não procuraram a razão e nitidamente sofreram muito durante suas vidas. Seu conhecimento era, portanto, precário de verdade e sabedoria.

PLATÃO: Típico caso, se me permite o mestre interromper, de pessoas que vivem nas sombras da caverna. O medo do desconhecido os impediram de sair para fora e conhecer o verdadeiro mundo. Enquanto a alma era pura, como diz a música, João de Santo Cristo não tinha medo, o que equivale dizer que não conhecia o mal. O corpo, que habita o mundo sensível das aparências e enganos, através das experiências contaminou a alma, até então pura.

PROTÁGORAS: Pois penso que cada qual vivenciou sua experiência, conforme sua ética, seu modo de pensar e sua percepção particular de mundo. Cada qual aqui está julgando segundo o que acredita ser certo ou errado. O mundo existe conforme a visão de cada um e a vida e modo de viver se deu conforme as escolhas dos personagens. Quem disse que João ou Jeremias queriam vida e fim diferentes? Trocariam a curta vida que tiveram por uma vida longa sem emoção?

JONH STUART MILLS: Toda ação deve culminar em felicidade ao maior número possível de pessoas, mas tem que obrigatoriamente ser útil, pois os fins justificam os meios. Não vejo benefício algum, nem para os personagens, nem para a sociedade as decisões tomadas por eles. O único momento de boa decisão foi quando João de Santo Cristo resolveu trabalhar, constituir família com Maria Lúcia. Eles pareciam felizes e a sociedade ganhou com ele vivendo segundo as regras dela.

IMMANUEL KANT: Penso de forma contrária a Stuart Mills. Para mim não importam os resultados, mas a intenção do agente moral. Sêneca tem razão quando diz que não está em nossas mãos o controle  dos acontecimentos, pois às vezes queremos produzir algo e sai outro diferente. Temos culpa? Respondo que não, porque nossa intenção era boa. O final da música revela a intenção de Santo Cristo e era uma intenção boa, humanitária, que visava o bem social. Durante a música percebe-se que Santo Cristo sempre tenta fazer o melhor, mas algo sempre o desvirtuava do bom caminho.

NIETZSCHE: De boas intenções o inferno está cheio. O “bom caminho” que você se refere é o caminho dos padres, pastores e racionalistas. Gostam do Santo Cristo cordeirinho, enquadrado nos ditames de suas regras estúpidas que fazem as pessoas trocarem o bem viver pela prisão que estas normas e regras impõem.

DESCARTES: Como racionalista devo dizer que as paixões só levam a enganos e torturam a consciência. Concordo com Agostinho quando afirma que Deus e a Sua vontade são o direcionamento, a rota a seguir, pois ele é o Supremo Ser Pensante. Também concordo com Sócrates no que se refere ao conhecimento como elemento guia das ações. 

sábado, 2 de novembro de 2024

ROUSSEAU E RUSSO

 Quando Renato Manfredini Jr. colocou Russo em seu nome artístico, um dos homenageados foi o filósofo francês Jean Jacques Rousseau. Em entrevista, Renato Russo, disse que gostava da ideia da bondade natural do ser humano expressa pelo filósofo. 

Mas não ficou só nisso... Muito do que escreveu nos remetem ao pensamento deste filósofo. João de Santo Cristo, de Faroeste Caboclo, não deixa de ser uma versão de Emílio, personagem de Rousseau na obra Da Educação. 

Rousseau acreditava que a essência do ser humano era naturalmente boa e a maldade surgia a partir do momento em que o ser humano se via em um ambiente em que tinha que lutar pela sobrevivência, tendo como agravante a competição que teria que travar com os outros seres humanos, que por sua vez se viam na mesma situação. Por isso as pessoas se obrigariam a firmar um contrato social. Para ilustrar a tese, Rousseau criou o personagem Emílio.

Ao nascer, Emílio foi levado para uma ilha e criado por um tutor que só lhe ensinou coisas boas estando em um lugar em que não havia motivos para competir com outras pessoas pela sobrevivência. Manteve-se bom por todo o tempo, sem criar artimanhas, sem mentir, enganar e outras atitudes que os seres humanos criados em sociedade aprendem como meio de sobrevivência. Isto comprovaria a natural bondade humana, ou seja, o homem só seria capaz de fazer o mal quando instigado ou quando julgar que fosse necessário fazê-lo. E Isto aconteceria somente quando passasse a viver em sociedade.

Esta ideia é base também para o filme "Gêmeos: mórbida semelhança", com Dani de Vitto e Arnold Shuartzeneger, onde o personagem de De Vitto foi criado em um orfanato e o de Arnold foi para uma ilha, sendo tutorado por um professor. Nasceram gêmeos e foram separados ao nascer. A criação diferente, em diferentes ambientes, contribuíram na moldura do caráter de cada um. Enquanto o personagem de Arnold, na ilha, se manteve puro e íntegro,  o personagem de De Vitto, por sua vez, criado junto com outras crianças, carente de afeto e meios materiais, tornou-se uma pessoa capaz de enganar quem fosse para conseguir o que queria. Quando se encontraram, já adultos, a diferença estava bem evidente na forma como cada qual se portava diante dos problemas e situações. 

Mas, o que tem a obra de Renato Russo que nos remete a este tema sobre a bondade natural do ser humano? Abaixo, vou levantar a reflexão apresentando quatro canções em que este tema da bondade humana como essência serviu de base para composição de suas letras,  a saber: Indios, Há Tempos, A Fonte e Faroeste Caboclo.


A FONTE

Temos nesta canção um eu-lírico que se vê diante de um mundo indiferente às tragédias alheias e que ao mesmo tempo era capaz de perguntar-se  "quantas crianças haviam sido mortas desta vez". É bom lembrar que na época em que a canção foi criada havia acontecido a chacina da Candelária, o assassinato de oito crianças de rua que ficavam em frente à igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. 

Então,  a pessoa que reflete diante deste mundo se coloca em penitência por não fazer nada e assim, vê-se parte do problema.  Apresenta uma solução aparentemente simples: "não fazer aos outros aquilo  que não quer que seja feito com você". Bom..., continua sendo uma atitude passiva diante do "fazer aos outros o que você gostaria que fizessem por você", mas pelo menos seria uma passividade do bem, onde na preservação de si, não se faria mal a outrem, numa espécie de contrato social, aliás, o que também foi proposto por Rousseau.

Renato Russo vai além na reflexão... Quer buscar no próprio indivíduo a solução para resolver também problemas coletivos e sociais, porque a solução de um abarca a solução de outro. Quer ir, portanto, até a fonte. 

É um título bastante sugestivo, primeiro porque nos lembra a origem (fonte) do problema, que é cada qual individualmente. Trabalhar o indivíduo "ajuda pra caramba", chegou a afirmar em certo momento Renato Russo. Identifica, portanto, a "fonte" do problema.  Alem disto, o título trabalha com a ideia de fonte (d'água) como expiação de toda culpa. A pessoa dar-se conta de que é parte do problema é um passo importante para reverter o quadro e se tornar fonte da solução. Nesta expiação de culpa tem o elemento água,  que simboliza a limpeza. Como escrevi anteriormente, Renato Russo se destaca como letrista, entre outras coisas, por ter ideias sistemáticas, e apresentar a água como elemento de purificação é uma delas, fator que aparece em diversas canções. 

A fonte é também um título sugestivo quando Renato Russo vai à mitologia grega. Os versos a seguir são referências diretas a duas fontes que se encontravam na entrada da caverna de Trofônio, em Labadeia na Beócia. Uma se chamava Lete, que fazia esquecer das coisas passadas, e outra, Mnemonese, que permitia lembrar.

"...Ao lado do cipestre branco

A esquerda da entrada do inferno 

Está a fonte do esquecimento 

Vou mais além, não bebo desta água 

Chego ao lago da memória 

Que tem água pura e fresca

E digo aos guardiões da entrada 

Sou filho da terra e do céu...

...Dá-me de beber que tenho uma sede sem fim..."

O eu-lírico recusa beber da água da primeira fonte e pede água da segunda, da qual tem "uma sede sem fim". Com isso traz a ideia de que o mal está sempre à espreita e se descuidar dele é o primeiro passo para perder a bondade natural.  Beber desta água deve ser atitude constante. A maldade começa com o esquecimento das coisas boas que habitam o ser humano (essência) e o descuido é parte da posterior passividade diante do mal aludida no início da canção (indiferença) bem como é parte das más ações praticadas...  Então, tudo isto se torna um grande câncer. É bom trazer aqui a lembrança do filósofo Sócrates de que "a maldade é mais veloz que nós". A princípio parece contrariar a tese da bondade humana de Rousseau, mas ela corrobora, uma vez que se refere ao fato de que devemos estar vigilantes para preservar a nossa boa essência. 


HÁ TEMPOS 

Esta canção começa mostrando alguns dos processos emocionais negativos que perpassam a situação humana, citando uma geração "herdeira da virtude que perdemos" enquanto humanidade. Aqui, Renato Russo volta a lembrança ao nobre selvagem de Rousseau, o ser humano puro e livre dos males, males estes advindos de uma competitiva e opressora sociedade.

O verso " Não me lembro, não me lembro", de forma repetida, aparece como tentativa desesperada de voltar a lembrança a um tempo muito, muito distante. Há Tempos a humanidade abriu mão de sua boa essência original e natural, se colocando muito distante dela.

Quando usa o verbo "disseste", no verso "disseste que se tua voz" na segunda pessoa, o eu-lírico mostra que com a outra pessoa acontece o mesmo que a si, vive o mesmo desespero. E a humanidade partilha tais dores e cada qual as sentem juntos, e dores individuais se transformam em dores coletivas.

Na parte final, o compositor tenta trazer uma solução, indicando que, ao contrário do que se possa pensar, a liberdade está na disciplina, que compaixão não é fraqueza, é antes, fortaleza, pois é preciso ser forte para perdoar e sentir a dor do outro. Por fim, indica que é preciso coragem para ser bom, quando o caminho mais fácil é buscar o mal. (Sócrates)

Então nos apresenta o poço de água limpa, onde novamente está a água como elemento de purificação. Acontece que poço nos remete a algo que é fundo,  difícil de alcançar, o que traz a humanidade dificuldades imensas para voltar às origens e encontrar novamente a bondade natural.

E o mesmo acontece com cada um individualmente, cada qual tem dentro de si este poço, cada qual já é conhecedor do bem... Difícil é chegar ao fundo dele, beber desta água e banhar-se nela.


"ÍNDIOS"

Esta é a canção mais explícita sobre o tema da perda da inocência e a relação de Renato Russo com a visão do nobre selvagem de Rousseau, ideia traduzida por versos como "não ser atacado por ser inocente".

O fato do título "índios" vir entre aspas demonstra que Renato Russo não está falando sobre índios especificamente, a figura surge como uma metáfora do ser humano ideal, por ser a vida indígena a mais aproximada do modelo de ser humano natural, portanto boa em sua essência.

A canção parte do contexto histórico de um povo, no caso, o indígena brasileiro, para falar do individual. Do mesmo jeito que nossos indígenas acreditaram no europeu que aqui chegou, recebendo com sua pureza de espírito, sendo enganado e massacrado por isso, também o engano é o método utilizado nas más ações praticadas contra os "ingênuos", cabendo também aspas, uma vez que o termo mais adequado seria genuínos.

Numa época em que se discutia na Europa se indígena era dotado ou não de alma, se era gente ou animal, Rousseau via neste povo e sua forma de viver a expressão mais humana e correta de todas as formas existentes. Sua relação com a natureza e o outro, fazia deste povo um exemplo para a humanidade. Estamos então entrando no campo da ética e da moral, sejam elas na vida social (modo de viver) ou na conduta individual (como nos colocamos diante do outro), se somos ardilosos ou genuínos, nas mais diversas situações, inclusive nos relacionamentos amorosos.

O poema Oswald de Andrade ilustra bem esta situação ao afirmar:

" Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio...

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio teria despido o português. "

Esta piada em forma de poema corrobora a ideia de que teria sido melhor para a humanidade se ao invés do europeu subjugar o índio aos seus modos, tivesse o índio convencido o europeu sobre sua forma de viver como a melhor possível,  com sua ética, seus costumes, sua genuinidade. 


FAROESTE CABOCLO

A frase "Não tinha medo o tal João de Santo Cristo era o que todos diziam quando ele se perdeu" cumpre nesta canção um início informativo importante. Aqui, Renato Russo já caracteriza o personagem principal quanto à essência e natureza. Mostra-nos um corte do momento da transformação de Santo Cristo, entre a coragem (não tinha medo) e o perder-se.

Primeiro, faz-se necessário destacar a função do substantivo medo e do verbo perder. Medo está colocado aqui como origem do mal (perder-se). Antes de perder-se, supõe-se por obviedade, que havia coragem, destemor e, junto com tais atributos, bondade, pois não conhecia o mal. A inocência fora perdida em algum momento. E o próprio autor se encarrega de esclarecer versos adiante este momento crucial de transformação quando informa a morte do pai pelos soldados. 

Curiosamente, em "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, no momento do julgamento de Lampião em que a compadecida advoga em seu favor, o próprio Cristo que julga torna seu advogado alegando que Lampião presenciara na infância a morte do pai pelos soldados do império, e muito do que fizera no futuro advinha deste momento da infância. Em outras palavras, os acontecimentos passados influenciaram no que haveria de se tornar Lampião. Renato Russo repete a compadecida ao "defender" seu personagem João de Santo Cristo, além de citar outros momentos de sua trajetória into-juvenil, tal como aconteceu com o personagem de Dani de Vitto no filme Gêmeos, Mórbida Semelhança. 

Em outras composições de Renato Russo aparece a ideia do medo como origem do mal, o que demonstra uma sistemática de pensamento. Está, por exemplo, em Há Tempos, no verso "ter bondade é ter coragem"... Raciocínio inverso nos informa que maldade é temer, ou seja, o mal origina-se nele, no medo. Em "Fátima" acusa a a humanidade de se perder no "meio de tanto medo de não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender". Já em "Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto", ele afirma que dor (mal) vem do desejo de não sentir dor (onde reside o medo). O medo antecipa a dor e o sofrimento, por consequência antecipa o mau ato.

O fato é que nesta narrativa/canção o medo sempre impulsionou João de Santo Cristo em suas ações mais moralmente questionáveis e voltadas para o mal. Os momentos livres de tais tormentos e medos foram seus momentos mais felizes e norteadores da boa conduta e da boa intenção. Mas o medo sempre voltava: o medo de perder Maria Lúcia, o medo do General (aquele de dez estrelas), o medo de Jeremias, o medo da pobreza, o medo de de ter o mesmo fim de seu pai... Cada medo antecipa algo de ruim para João de Santo Cristo. E assim acontece também com outros personagens de Faroeste Caboclo, cada qual com seus medos. Maria Lúcia ficou só quando Santo Cristo ficou fora um tempo e o medo a levou aos braços de Jeremias e, o próprio Jeremias foi levado a atirar pelas costas por covardia.

O que interessa, entretanto, para nossa reflexão, é o fato de João de Santo Cristo ser o que é com suas transformações. Ele foi moldado para lutar contra a sociedade que o fabricou para ser assim. Ter essência boa é um ponto de partida e isso precisa ser entendido quando se fala no nobre selvagem de Rousseau e não um ponto de chegada. Estamos falando em uma condição pré-existente. Assim, os versos finais também são reveladores e trazem a redenção de Santo Cristo ao informar suas intenções: "falar com o presidente para ajudar toda essa gente que só faz sofrer". Precisa intenção mais nobre?...



ESSENCIALISMO X EXISTENCIALISMO

A tradição filosófica traz vários embates teóricos e, entre eles, está a discussão sobre a condição humana. Por muito tempo os filósofos tratavam a questão sobre a perspectiva da existência de uma natureza humana pré-existente. Apenas há alguns séculos um grupo de filósofos começou a analisar a questão sob a ótica de que não possuímos natureza pré-existente, ou seja, a existência precede a essência, antes existimos e a forma de existir é que definirá o que seremos. Chegamos à escola filosófica chamada existencialismo.

Dizer que a existência precede a essência é o mesmo que negar que exista uma natureza humana pré-existente. Então, nos coloca priordialmente como um papel em branco e que, cada ação, cada passo, não são determinados por uma força ou uma consciência existentes em nós a priori antes mesmo de nascer, comum a todos. Tudo o que acontece é fruto de uma consciência a posteriori, ou seja, a partir da existência.  Assim, não havendo força pré-existente que nos conduza, não há a quem culpar senão a nós mesmos, pois não existe tendência ou propensão, seja para o bem ou para o mal, quando um ato for praticado. Nós somos sujeitos livres e conscientes de nossas ações. Então, a essência se forma de maneira individual, a partir da existência e não o contrário. Assim, para o existencialista, não é a essência um fator determinante que conduz e molda nossa existência, é antes, esta quem dará cores ao papel em branco, aplicará nuances e,  só assim, determinará então aquilo que seremos.

Rousseau pertence ao grupo dos essencialistas, dos que acreditavam que existe uma essência que precede a existência. Não só acredita nesta essência, como a coloca como base para sua construção filosófica, pois parte do princípio que a existência do sujeito o transforma em alguém "pior" do ponto de vista moral, porque se vê em constante competição com outros sujeitos, precisando inclusive de um contrato social para estabelecer limites. Em outras palavras, a sociedade corrompe o bom sujeito, a quem chamou de nobre selvagem. Quanto mais primitivo for o homem, melhor ele será, quanto mais "civilizado", pior.

Afirmava que a origem da sociedade civil começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: isto é meu; e não houve ninguém para contestá-lo. Ao contrário,  os outros fizeram o mesmo. Criou-se a propriedade individual, depois vilas, cidades, países... enfim, fronteiras e a defesa delas e de um povo. Vieram as guerras, cada qual defendendo o que julgava ser seu. Com a sociedade civil, então,  surgiu o grande mal. Para Rousseau, podemos dizer, existe uma boa essência, mas ela infelizmente é atropelada pela existência. 

Acontece, por outro lado,  que há filósofos essencialistas que defendem que a maldade é a verdadeira essência humana e a existência deste humano com suas escolhas apenas corrobora esta essência. A frase de Sócrates sobre a velocidade da maldade seria a aplicação prática do que verdadeiramente somos. O nome de maior vulto desta corrente de pensamento é Thomas Hobbes, que afirmou ser o "homem lobo do homem", uma alusão a esta natureza pré-existente afeita a esta entredevoração e ao que considera maldade humana natural. Assim, para Hobbes somos propensos a ser maus, a convivência com outros em sociedade é que o controla, ao contrário do que prega Rousseau. Temos então a vertente essencialista com visões contrárias sobre a natureza humana pré-existente, e a vertente existencialista, que afirma a neutralidade, quando fala da inexistência desta natureza. 

Em "Os Anjos", Renato Russo apresenta uma espécie de receita, onde usa temperos ruins, tais como estupidez, mentira, preguiça, ódio, inveja... E coloca tudo numa forma... Está fabricando o ser humano como quem faz um bolo. Parece estar concordando com Hobbes, pois a essência do ser humano é o conjunto de seus "temperos" e atributos. Chega a afirmar em um verso que "a maldade agora não tem nome", tamanho o horror que o poeta presencia.

No entanto,  o verbete "agora" no verso dá ideia de algo momentâneo, não de algo perene, como seria a essência. Esta volatilidade é atributo da existência, volúvel ao momento, mesmo que este seja um longo período. Ao afirmar que a humanidade está mau, não quer dizer que ela é mau por natureza, afinal, "não é a vida como está e sim as coisas como são", tal e qual Renato Russo afirmou em "Meninos e Meninas"?

As últimas estrofes de Os Anjos tentam trazer o ser humano para seu lugar de origem, sua essência primordial, com frases como consertar a asa quebrada (se redimir) e voar para bem longe (afastar-se da maldade e voltar ao bem, que está distante), para então afirmar: "só nos sobrou do amor a falta que ficou"

O amor é visto como algo bom, de nossa essência... Escolher não amar é afastar-se desta essência, como diria Santo Agostinho, e viver o não-amor/desamor é uma escolha que contraria esta essência. Raciocínio lógico, se o que ficou foi sua falta (do amor) é porque ele existe, pois o que falta existe em algum lugar e a sua não prática não mata sua existência, apenas está em algum lugar, amortecido ou esquecido. 

Por fim, o título "Os Anjos" nos coloca num lugar que representa pureza e bondade. A figura angelical bem poderia soar como a típica e costumeira ironia do poeta, mas não parece ser o caso. É antes a manifestação e representação de uma posição em que a humanidade poderia estar e abriu mão. Então, onde Renato Russo parece estar em concordância com as ideias de Thomas Hobbes, apresentsndo uma receita recheada de condimentos ruins, abandonando Rousseau, na verdade está reforçando seu apreço e concordância com o filósofo francês, não sem antes passar pelo existencialismo quando percebe que os temperos são escolhas feitas e não o condicionamento de uma má natureza. Renato Russo está mostrando o que vê, mas acredidando numa essência perdida que não consegue renegar como fator pré-existente e de regresso.

Obviamente, não há como afirmar que Renato Russo tenha pensado em Hobbes, Rousseau ou nos existencialistas quando compôs a canção, mas o importante aqui é que ela serve bem como ponto de partida para a reflexão sobre a condição humana e suas contradições, que tanto aparecem nas obras do compositor. 


sábado, 17 de fevereiro de 2018

FILOSOFIA LUNAR: 1ª LUA CHEIA



RESETAR


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Somos todos refugiados, vivendo num espaço que em determinado tempo alguém disse ser seu e, por um capricho do destino, nascemos nesse espaço.

Rousseau disse que o mal surgiu no mundo quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu” e não houve quem tivesse clareza suficiente para arrancar as cercas. E assim surgiram propriedades, depois vilas, depois cidades, países, enfim… fronteiras. E vieram conflitos para ver quem mandava. E com isso, a luta pelo poder.

E surgiu a etiqueta, os bons costumes, a leis para proteger o poder… E veio a desigualdade, a prisão social e a repressão.


Dentro de nós há uma repetição deste modelo, pois somos criados e educados dentro dele para viver e consolidar os seus ditames. Faz-se necessário resetar nossos conceitos e reiniciar, renascer… Sem fronteiras e ideias pré-concebidas.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3: Agir Político do Governante




AGATÃO: E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Existe em nossas consciências um dever daquilo que deve ou não ser feito a quem chamo de Imperativo Categórico; um conjunto de normas e prescrições morais a serem cumpridas. O governante também carrega estes deveres em sua consciência, pois ela é comum a todos, já que é a priori e universal. Assim, o governante deve agir obedecendo a esta consciência. Quando ele ou o legislador, por exemplo, criam uma lei proibindo a injúria racial, não é ao racismo que atacam, já que é permissivo que uma pessoa não goste de uma determinada raça, o que está sendo atacado, com esta lei, é o imperativo categórico de que a ofensa deve ser rechaçada por nossa consciência moral, porque ninguém, nem mesmo aquele que pratica a injúria racial, aceita uma ofensa contra si. Ofender ao outro é inaceitável em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo, em qualquer idade, sendo a ofensa criminalizada por nossa consciência. O governante deve preservar a voz de sua consciência, assim estará isento de todo mal que possa ser praticado pelas pessoas que por ventura venham a aproveitar-se dos erros existentes em tal ato ou lei; não será culpa do governante se alguma má ação for praticada por conta de um ato seu que tenha seguido os ditamos de sua consciência moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar tendo por base a boa intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Para agir bem, ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir; portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.

PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 9 : A origem da vida

        AGATÃO: Vamos começar este simpósio refletindo sobre a primeira das indagações: Como surgiu a vida?


    HERÁCLITO: Deve ter havido um elemento primeiro que deu origem a todos os outros. Pitágoras, por exemplo, acreditava ser a água, Demócrito dizia existir partículas indivisíveis denominadas átomos. Outras teses de outros filósofos foram apresentadas e eu acredito ser o FOGO este princípio, porque sua chama é a representação viva da transitoriedade da vida, porque tudo nasce, cresce e morre. Assim é o fogo! Ora está mais aceso, ora mais apagado, até que fenece quando não é mais alimentado. Tudo é transitório, o rio em que você se banhou ontem, já não é mais o mesmo se hoje entrar nele, já não será mais a mesma água.



PARMÊNIDES: Tolice o que dizes! O ser, aquilo que existe, é permanente e imutável.  O ser é e o não ser não é. O ser é desde sempre e sempre será, pois água é água e aspectos como sujeira, cor e temperatura são transitórios e não mudam o fato de que água é agua. O que dá qualidade de existência à água é a sua essência. A água de hoje será a mesma de amanhã, como a água de um copo é a mesma de outro, pois o que importa é sua essência.

          

HERÁCLITO: O mundo existe pela força dos contrários, ora é água quente, ora a água é fria. É o movimento dentro do que permanece.

PARMÊNIDES: Ainda assim será água, eterna e imutável enquanto tal. Quente e frio são atributos passageiros...

 KANT: Sobre o fogo, considero uma teoria interessante, pois suas duas atribuições básicas, luz e calor, são substâncias próprias de uma matéria sutil e elástica uniformemente difusa, que é por onde os corpos agem uns sobre os outros. Deste movimento formou-se a vida.
          

ZENÃO DE CÍTIO: Penso que uma Mente Criadora  fez tudo perfeitamente em seu devido lugar, cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos. Se tudo está perfeitamente posto não há porque agirmos contrariamente a eles. Vamos simplesmente aproveitar as benfeitorias da natureza.


SANTO AGOSTINHO: Pois eu acredito que Este princípio criador é Deus, onipresente e onisciente, Aquele que tudo criou...
          

ARISTÓTELES: É uma ideia plausível, a de um Deus único... Tudo o que foi gerado no mundo possui uma causa, pois nada pode existir se algo não lhe causar ou não criar tal existência. Todavia, há que existir uma causa primeira que causou todas as outras sem ser causada, a quem dei o nome de Primeiro Motor Imóvel. Ele é o supremo bem e a suprema beleza e funciona como um imã a atrair todos os outros seres, pois todos os seres são atraídos pela ideia do bem e da beleza. Ele é o ser de Demócrito, eterno e imutável; e talvez seja o Deus de Agostinho. Todas as outras coisas são passageiras como diz Heráclito.


PLATÃO: Meu querido discípulo, sempre mediando conflitos! Acredito que existam dois mundos distintos: o mundos das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias é representado pela alma e o mundo sensível pelo corpo. O primeiro é imutável e permanente, o segundo é transitório e passível de enganos. Para cada ser existente no mundo sensível, há um outro, perfeito e belo, no mundo das ideias. Os seres do mundo sensível são, portanto, cópias imperfeitas do mundo das ideias.
          
HUSSERL: Penso que mais importante que saber a origem das coisas é compreender o mundo.
          
PROTÁGORAS: Concordo com Husserl. Não se discute a existência ou não das coisas, nem sua origem, mas a sua relação com o homem e a forma como este as percebem.
          
SÓCRATES: O importante é conhecermos a essência das coisas...
          
JEAN-PAUL SARTRE: A essência não é tão importante quanto existir, pois nascemos do absurdo, do nada, e para o nada voltaremos. De todos que falaram até agora o mais sensato foi Heráclito, pois a transitoriedade é fato consumado, tudo nasce e morre. Não existe uma força criadora, o ser só é enquanto existe e não há essência pré-determinada nos seres. Se assim fosse, não existiria liberdade, esta sim, nossa única condenação.
          
SÓCRATES: Pode o nada criar algo? O que é o nada? Afirmar que somos gerados do nada, não seria uma forma de misticismo passivo? Acredito que devemos procurar a verdade para encontrar esta essência criadora. Você, Sartre, parece tê-la encontrado, a seu modo, quando afirma que a liberdade é nossa condenação. Talvez seja a liberdade a nossa essência, embora esta afirmação ainda careça uma averiguação mais profunda.
         
SARTRE: Volto a afirmar, não temos uma força criadora e, portanto, não temos uma essência que exista antes de nós. Nossa essência se formará conforme nossas escolhas, somos frutos delas e livres para fazer o que quisermos, estamos aí como obra do acaso. Ela própria, a essência, é mutante; muda por escolha nossa.
          
SÓCRATES: Vou aceitar, para efeitos de raciocínio, que a liberdade seja comum a todos indistintamente e nossa primeira atribuição. Nesse caso, estaria aí a nossa essência?
          
SARTRE: Agora a falácia é sua, parece um sofista! Se há uma essência, estamos presos umbilicalmente a ela. Nesse caso, como pode haver liberdade? Seria uma contradição.
           
ARISTÓTELES: Não há provas, caro Sócrates, de que a liberdade seja universal e que exista plenamente; e mesmo que exista, há outras atribuições comuns a todos os homens que estão em sua essência, como a racionalidade por exemplo.
          
SARTRE: A liberdade só existe se for plena, não se é meio-livre, como não se pode ser meio-morto.
          
SÓCRATES: Então, acabas de aceitar que a liberdade possui como atribuições a universalidade – já que é comum a todos - e a imutabilidade. Estás rejeitando, nesse caso, a transitoriedade de Heráclito, a quem elogiou.
          
SARTRE: Ao contrário, é justamente a liberdade quem nos dá a possibilidade e garantia do transitório, pois através dela escolhemos ser ou deixar de ser.
         
ROUSSEAU: Os homens nasceram livres e por toda a parte estão aguilhoados. A liberdade é parte da essência do ser humano. Foi o próprio homem quem, através de suas ações mesquinhas e egoístas, fez-se preso.
          

SANTO AGOSTINHO: Essa liberdade vem de Deus, que nos deu o livre-arbítrio.
         
NIETZSCHE: Se por todos os lados só existam homens acorrentados, como afirmou Rousseau; e a liberdade vem de Deus, como afirmou Agostinho; onde está a autoridade divina? Como este Deus, que deu a liberdade, deixou que lhe fosse tirada? Um Deus sem autoridade é um Deus fraco e um Deus fraco não sobrevive! Então, devo declarar: Deus está morto!
        
DESCARTES: É óbvio que existe Deus, o único e incontestável Ser Perfeito. A primeira prova é a de que temos uma ideia de perfeição e, como seres imperfeitos,  não poderíamos tê-la sem que algo perfeito a impusesse a nós. Outra prova de Sua existência é que se nós - que temos a ideia do que é perfeito - tivéssemos criados a nós mesmos, teríamos nos feito perfeitos. Além do mais, o imperfeito não pode criar algo perfeito, pois não está ao seu alcance. Então, apenas alguém perfeito pode ter criado a tudo perfeitamente e Este Ser é Deus.
          
NIETZSCHE: Não foi Deus quem nos criou, fomos nós quem o criamos. Desde que a razão passou a comandar nossas ações, impondo-nos regras e violentando nossa vontade, houve a necessidade da presença de um Deus forte e opressor, a fim de nos causar medo e garantir que cumpríssemos com as regras estúpidas da razão.
         
HERÁCLITO: Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro tal qual o fogo misturado aos aromas; ele é a força dos contrários, chamado como melhor agradar a cada um.
         
AGATÃO: Este é realmente um tema de complicada resolução, pois possui muitas nuances e questões intransponíveis, como a fé, por exemplo. 












terça-feira, 5 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 6 - Essência Humana

AGATÃO: E a essência humana. Nascemos bons ou maus?


ROUSSEAU: Todos nascemos com princípios inatos de justiça e do bem. Se, por exemplo, formos colocados em uma ilha ao nascer e cuidados por um tutor, permaneceremos livres das necessidades e dos vícios que ela trás. Ao estar na sociedade, a presença de nosso espelho, que é o outro ser humano, cria em nós um sentimento de competição; surgem a vaidade, o egoísmo, o orgulho, a intolelância, o ódio, o medo e outros sentimentos que nos colocam uns contra os outros. Em outras palavras, a sociedade corrompe o indivíduo, disvirtua o que tem de bom. O mal teve início com a criação da sociedade civil, que por sua vez foi criada no instante em que um indivíduo cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu” e faltou alguém que arrancasse aquelas cercas e dissesse para os outros não acreditarem naquele tolo. 



HOBBES: Contrariando Rousseau, penso que o homem nasce mau e a sociedade cria mecanismos para educá-lo na prática do bem. Todo ser humano é egoísta por natureza, um competidor, pois o homem é lobo do homem; e desde a mais tenra idade, primeiro com os pais, depois com a lei, é controlado pela sociedade a não praticar atos maus. Assim, não é por sua vontade natural que busca fazer o bem, mas por necessidade que a sociedade impõe como dever.



SARTRE: Não existe essência humana pré-determinada. A existência precede a essência, ou seja, ao nascer não somos nem bons, nem maus, nem autruístas, nem egoístas. Apenas somos… movidos pela liberdade que temos de escolher, influenciados pela dinâmica psico-social, mas ainda assim responsáveis por aquilo que escolhemos. E não temos a quem culpar, pois se não temos uma natureza humana pré-existente, nada nos determina, seja lá o que fizermos será por nossa conta e risco.



AGOSTINHO: Nossa essência é o Espírito de Deus, pois somos sua imagem e semelhança. Então, somos bons por natureza e esta bondade vem do Divino. Mas também temos responsabilidade por nossas decisões como as apontadas por Sartre: é o livre-arbítrio dado por Deus. Através dele decidimos se aceitamos ou não seguir o que é bom. Deus fez tudo perfeito e bom, nossas decisões erradas é que nos afasta do bem e, consequentemente, da divindade.



SARTRE: Quando eu falo em liberdade, Agostinho, não falo em escolher um caminho, pois se há algo posto para seguir ou meta a cumprir, não há liberdade.



SÓCRATES: Tudo possui essência. A própria liberdade, a bondade, a justiça são dotadas de essências próprias que devam ser descobertas pelo exercício da reflexão e são elas referências esssenciais do ser humano. Todavia, elas precisam ser abstraídas pelo exercício contante da busca do conhecimento de si mesmo fugindo da ignorância, que é o mal. Só se erra por ignorância.



PARMÊNIDES: Concordo com Sócrates de que existe essência e acrescento que ela é imutável. Tanto o mal, quanto o bem, são o que são e não mudam. O ser humano é o que é e o mal e o bem que praticam são transitórios, qualificações passageiras, pois ele continua humano independentemente da ação que pratica. Assim, não existe ser humano bom ou ser humano mau, mas existem estas três coisas separadas que são eternas e imutáveis: ser humano, bem e mal.


HERÁCLITO: Não concordo, pois vejo que tudo é movimento, tudo flui. Sartre disse bem quando negou a essência imutável. A essência humana não pode ser classificada como boa ou má, uma vez que a ação praticada, o meu agir, é que vai dar tal conotação. O que é bom hoje, amanhã pode ser mau. Ninguém pode ser bom ou mau o tempo todo.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 4 - Liberdade


AGATÃO: E quanto à liberdade humana, como podemos nos manifestar, caros amigos?


AGOSTINHO: Acredito no livre-arbítrio de Deus. Há alguns preceitos arbitrados por Deus tais como o amor, a justiça e a caridade, que significam como o ser humano deve procurar agir como prática do bem. Por outro lado, Ele entregou a cada qual a liberdade de escolher entre praticar estes preceitos ou não.





SARTRE: Tua tese até teria sentido se houvesse um Deus. Porém, o fato é que não temos nenhuma natureza pré-existente e nem um criador que a impôs a nós, e isto é o que nos torna livres. E, mesmo que este criador existisse, não interferiria em nossa existência com seus ditames, pois seria a negação da liberdade. A existência precede a essência, assim, nada nos condena ou nos obriga; nem a sermos justos, nem caridosos, nem estar preso a qualquer outro mandamento. Nossa única condenação é a de sermos livres. O livre-arbítrio que falas, Agostinho, é a de meia-liberdade, ou seja, você é livre, porém, tem um caminho a seguir. É como se fossêmos um papel com uma lista escrita de tarefas a cumprir; ao contrário, somos como um papel em branco e responsáveis por aquilo que for escrito. Não existe ser meio-livre, como não existe ser meio-morto ou meio-vivo.

ROUSSEAU: Ao nascer, em seu estado natural, a liberdade era própria da essência humana, no momento em que surgiu a desigualdade social. colocou no lugar da liberdade as leis e as aparências de conduta. Os comportamentos tornaram-se fúteis e comuns a todos. Vejam, todo homem nasce livre e por toda a parte encontra-se acorrentado. Então, como reconquistar a liberdade perdida? Buscar o autoconhecimento na natureza humana, num mergulho emocional em busca da bondade natural existente em cada indivíduo.

DESCARTES: Emocional !!? Liberdade é escolha entre uma coisa ou outra, entre fazer e deixar de fazer, e esta função só pode ser exercida pela razão, meu caro Rousseau. Assim como Agostinho, acredito no livre-arbítrio, que é a escolha espontânea e racional sobre o caminho a seguir. O homem pode dizer sim ou não às ordens de Deus, existe maior liberdade que esta? No entanto, para que eu seja livre, não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários; mas, antes, quanto mais eu tender para um, seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram, seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento, tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei.

DAVID HUME: A liberdade está relacionada ao fato de que devamos vencer a necessidade. Vencendo a necessidade venceremos a vontade e a liberdade se manifesta. Não acredito no livre-arbítrio porque não acredito na capacidade de escolher livremente o caminho a empreender, uma vez que cada pessoa é regida por um determinismo bio-psico-sociológico próprio de cada um que anula o livre-arbítrio. Ou seja, nos adaptamos a cada circunstância, que são muitas, e a escolha se dá nas mais diversas formas possíveis. Não é um simples aceitar ou não cumprir uma obrigação com Deus.

EPICURO: Como eu afirmei anteriormente Hume, a necessidade é um mal, mas não temos a necessidade de vivermos nela, pois quando bastamos a nós mesmos alcançamos a posse desse bem inestimável que é a liberdade. Como atomista, acredito que o constante entrechoque destas partículas seja a prova de nossa existência livre, porque as circunstâncias, como as que Hume apresentou antes, se revezam a todo instante, tal e qual estes átomos. O que de imutável que nos atormente é o fato que carregamos na consciência um peso histórico que nos trás medo e é deste medo que temos que sair para sermos completamente livres. Me refiro, primeiramente, ao medo do destino, o que não faz sentido visto que não existe, depois medo dos deuses, que sequer se importam conosco, além do medo da morte, que não devemos sequer pensar pois quando estamos vivos ela não está presente e quando morremos já não podemos senti-la.

KANT: A liberdade individual está ligada à vivência em sociedade. O indivíduo é antes de tudo um sujeito de direito que convive com outros sujeitos de direito. Então o respeito às leis e ao dever como imperativo categórico torna cada cidadão livre. O Estado Jurídico é a expressão da vontade de cada sujeito e obedecer a esta legislação construída por vontade livre dos cidadãos é o que chamo de liberdade. A coação da sociedade para que force o homem a viver dentro da lei é o que o torna livre, porque acredito que disciplina é liberdade. Se, por exemplo, todos cumprirem a lei de que não se pode roubar, ou matar para roubar, as pessoas poderiam livremente andar pelas ruas sem temer, a qualquer hora do dia ou da noite.

MARX: Pois eu penso que é justamente a sociedade constituída quem aprisiona o homem. Contudo, é nela, através da luta que a liberdade deva ser conquistada. A fala de Kant é formal e abstrata, visto que ele parte de uma sociedade ideal e não real. A sociedade que conhecemos é escravocrata e o capitalismo apresenta uma falsa liberdade, tal e qual o ideal de propriedade de Kant, visto que a única propriedade que o operário tem é a sua força de trabalho, que a acaba vendendo aos donos do capital por muito pouco, tornando-se escravo dele. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Além disto, os poderosos lançam mão de alguns meios de dominação, entre eles, como afirma Epicuro, está o medo dos deuses; a religião é o ópio do povo, prometem ao povo uma libertação futura para que este povo não lute por sua libertação na terra.

HOBBES: Percebo a questão da liberdade como ausência de impedimento, ou seja, podemos fazer tudo aquilo que não há o que nos impeça de fazê-lo, seja a lei, a consciência, a natureza... Porém, devemos cumprir com tudo que nos limita. Isto acontece com todas coisas, um rio, por exemplo, só transita dentro dos limites do seu vazão de água, às vezes mais baixo, às vezes mais alto, mas sempre dentro dos seus limites. Embora o livre-arbítrio esteja dentro deste espaço limitador, já que há mandamentos nele, não o vejo como tese adequada, pois um dos critérios norteadores da liberdade é o senso de justiça. O livre-arbítrio não cobra nada, não castiga quem não cumpre, não há conseqüências... Se não há justiça, não há liberdade, pois ações boas promovem conseqüências boas e ações más promovem conseqüências más. 

AGOSTINHO: Mas Deus cobrará de quem não viveu segundo seus preceitos...


HOBBES: Então neste caso o livre-arbítrio não serve para nada! Ele se torna apenas arbítrio, que é onde não transita a liberdade.