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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

FILOSOFIA DO DIA: 15 DE JANEIRO





15 DE JANEIRO



Resultado de imagem para frases de SartreDizem que não existe destino ou sorte no que fizemos, existe consequência; pois como diz o ditado: a gente colhe o que planta. 

As pessoas que sabem o que plantaram sabem o que vão colher, muito embora tempestades aconteçam e secas podem sobrevir. No entanto, tempestades e secas não determinam nada, o que determina a essência é o ser que se planta. O destino se constrói…

Sartre afirma que somos livres e isto nos coloca toda a responsabilidade, pois se somos livres, somos responsáveis pelo que nos vier acontecer, uma vez que abrimos o caminho a seguir. O caminho não está posto, somos nós quem o abrimos e pavimentamos, escolhemos o material usado e se queremos ou não acostamento e árvores em sua margem.

Nós somos o que fizermos de nossa vida.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 9 : A origem da vida

        AGATÃO: Vamos começar este simpósio refletindo sobre a primeira das indagações: Como surgiu a vida?


    HERÁCLITO: Deve ter havido um elemento primeiro que deu origem a todos os outros. Pitágoras, por exemplo, acreditava ser a água, Demócrito dizia existir partículas indivisíveis denominadas átomos. Outras teses de outros filósofos foram apresentadas e eu acredito ser o FOGO este princípio, porque sua chama é a representação viva da transitoriedade da vida, porque tudo nasce, cresce e morre. Assim é o fogo! Ora está mais aceso, ora mais apagado, até que fenece quando não é mais alimentado. Tudo é transitório, o rio em que você se banhou ontem, já não é mais o mesmo se hoje entrar nele, já não será mais a mesma água.



PARMÊNIDES: Tolice o que dizes! O ser, aquilo que existe, é permanente e imutável.  O ser é e o não ser não é. O ser é desde sempre e sempre será, pois água é água e aspectos como sujeira, cor e temperatura são transitórios e não mudam o fato de que água é agua. O que dá qualidade de existência à água é a sua essência. A água de hoje será a mesma de amanhã, como a água de um copo é a mesma de outro, pois o que importa é sua essência.

          

HERÁCLITO: O mundo existe pela força dos contrários, ora é água quente, ora a água é fria. É o movimento dentro do que permanece.

PARMÊNIDES: Ainda assim será água, eterna e imutável enquanto tal. Quente e frio são atributos passageiros...

 KANT: Sobre o fogo, considero uma teoria interessante, pois suas duas atribuições básicas, luz e calor, são substâncias próprias de uma matéria sutil e elástica uniformemente difusa, que é por onde os corpos agem uns sobre os outros. Deste movimento formou-se a vida.
          

ZENÃO DE CÍTIO: Penso que uma Mente Criadora  fez tudo perfeitamente em seu devido lugar, cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos. Se tudo está perfeitamente posto não há porque agirmos contrariamente a eles. Vamos simplesmente aproveitar as benfeitorias da natureza.


SANTO AGOSTINHO: Pois eu acredito que Este princípio criador é Deus, onipresente e onisciente, Aquele que tudo criou...
          

ARISTÓTELES: É uma ideia plausível, a de um Deus único... Tudo o que foi gerado no mundo possui uma causa, pois nada pode existir se algo não lhe causar ou não criar tal existência. Todavia, há que existir uma causa primeira que causou todas as outras sem ser causada, a quem dei o nome de Primeiro Motor Imóvel. Ele é o supremo bem e a suprema beleza e funciona como um imã a atrair todos os outros seres, pois todos os seres são atraídos pela ideia do bem e da beleza. Ele é o ser de Demócrito, eterno e imutável; e talvez seja o Deus de Agostinho. Todas as outras coisas são passageiras como diz Heráclito.


PLATÃO: Meu querido discípulo, sempre mediando conflitos! Acredito que existam dois mundos distintos: o mundos das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias é representado pela alma e o mundo sensível pelo corpo. O primeiro é imutável e permanente, o segundo é transitório e passível de enganos. Para cada ser existente no mundo sensível, há um outro, perfeito e belo, no mundo das ideias. Os seres do mundo sensível são, portanto, cópias imperfeitas do mundo das ideias.
          
HUSSERL: Penso que mais importante que saber a origem das coisas é compreender o mundo.
          
PROTÁGORAS: Concordo com Husserl. Não se discute a existência ou não das coisas, nem sua origem, mas a sua relação com o homem e a forma como este as percebem.
          
SÓCRATES: O importante é conhecermos a essência das coisas...
          
JEAN-PAUL SARTRE: A essência não é tão importante quanto existir, pois nascemos do absurdo, do nada, e para o nada voltaremos. De todos que falaram até agora o mais sensato foi Heráclito, pois a transitoriedade é fato consumado, tudo nasce e morre. Não existe uma força criadora, o ser só é enquanto existe e não há essência pré-determinada nos seres. Se assim fosse, não existiria liberdade, esta sim, nossa única condenação.
          
SÓCRATES: Pode o nada criar algo? O que é o nada? Afirmar que somos gerados do nada, não seria uma forma de misticismo passivo? Acredito que devemos procurar a verdade para encontrar esta essência criadora. Você, Sartre, parece tê-la encontrado, a seu modo, quando afirma que a liberdade é nossa condenação. Talvez seja a liberdade a nossa essência, embora esta afirmação ainda careça uma averiguação mais profunda.
         
SARTRE: Volto a afirmar, não temos uma força criadora e, portanto, não temos uma essência que exista antes de nós. Nossa essência se formará conforme nossas escolhas, somos frutos delas e livres para fazer o que quisermos, estamos aí como obra do acaso. Ela própria, a essência, é mutante; muda por escolha nossa.
          
SÓCRATES: Vou aceitar, para efeitos de raciocínio, que a liberdade seja comum a todos indistintamente e nossa primeira atribuição. Nesse caso, estaria aí a nossa essência?
          
SARTRE: Agora a falácia é sua, parece um sofista! Se há uma essência, estamos presos umbilicalmente a ela. Nesse caso, como pode haver liberdade? Seria uma contradição.
           
ARISTÓTELES: Não há provas, caro Sócrates, de que a liberdade seja universal e que exista plenamente; e mesmo que exista, há outras atribuições comuns a todos os homens que estão em sua essência, como a racionalidade por exemplo.
          
SARTRE: A liberdade só existe se for plena, não se é meio-livre, como não se pode ser meio-morto.
          
SÓCRATES: Então, acabas de aceitar que a liberdade possui como atribuições a universalidade – já que é comum a todos - e a imutabilidade. Estás rejeitando, nesse caso, a transitoriedade de Heráclito, a quem elogiou.
          
SARTRE: Ao contrário, é justamente a liberdade quem nos dá a possibilidade e garantia do transitório, pois através dela escolhemos ser ou deixar de ser.
         
ROUSSEAU: Os homens nasceram livres e por toda a parte estão aguilhoados. A liberdade é parte da essência do ser humano. Foi o próprio homem quem, através de suas ações mesquinhas e egoístas, fez-se preso.
          

SANTO AGOSTINHO: Essa liberdade vem de Deus, que nos deu o livre-arbítrio.
         
NIETZSCHE: Se por todos os lados só existam homens acorrentados, como afirmou Rousseau; e a liberdade vem de Deus, como afirmou Agostinho; onde está a autoridade divina? Como este Deus, que deu a liberdade, deixou que lhe fosse tirada? Um Deus sem autoridade é um Deus fraco e um Deus fraco não sobrevive! Então, devo declarar: Deus está morto!
        
DESCARTES: É óbvio que existe Deus, o único e incontestável Ser Perfeito. A primeira prova é a de que temos uma ideia de perfeição e, como seres imperfeitos,  não poderíamos tê-la sem que algo perfeito a impusesse a nós. Outra prova de Sua existência é que se nós - que temos a ideia do que é perfeito - tivéssemos criados a nós mesmos, teríamos nos feito perfeitos. Além do mais, o imperfeito não pode criar algo perfeito, pois não está ao seu alcance. Então, apenas alguém perfeito pode ter criado a tudo perfeitamente e Este Ser é Deus.
          
NIETZSCHE: Não foi Deus quem nos criou, fomos nós quem o criamos. Desde que a razão passou a comandar nossas ações, impondo-nos regras e violentando nossa vontade, houve a necessidade da presença de um Deus forte e opressor, a fim de nos causar medo e garantir que cumpríssemos com as regras estúpidas da razão.
         
HERÁCLITO: Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro tal qual o fogo misturado aos aromas; ele é a força dos contrários, chamado como melhor agradar a cada um.
         
AGATÃO: Este é realmente um tema de complicada resolução, pois possui muitas nuances e questões intransponíveis, como a fé, por exemplo. 












quarta-feira, 6 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 7 - A Verdade

AGATÃO: Vendo-os falar com ideias tão contraditórias, com tão bons argumentos, fiquei refletindo sobre a verdade. Será que existe uma verdade única?


PROTÁGORAS: Se há ideias tão contraditórias, caro Agatão, é porque não existe uma verdade única, pois tudo é relativo. O que é certo em uma cultura, pode ser errado em outra; o que é nobre em um tempo, pode ser motivo de vergonha em outro; e o que é aceito em um lugar, pode ser rejeitado em outro. A única verdade existente na verdade universal é a sua tirania.


SÓCRATES: Pois eu penso que devemos buscar a verdade nas coisas. Não podemos ser justos, se não soubermos definir o que é justiça; não podemos amar, se não soubermos o que é amor; nem lutar, se não soubermos o que é coragem. De nada valerá a afeição do povo por um governante, se este não for justo; pois será uma afeição advinda de um falso julgamento, assim acontece com o amor de uma esposa por seu marido, se este a trai; e de nada vale a um General vencer uma batalha, se ele é um covarde atrás de um grande exército, a glória de sua vitória é falsa. Assim acontece com as verdades relativas, meras opiniões sem um julgamento preciso.

KANT: Se a vida é subjetiva, a verdade também deve sê-la. A verdade universal nos leva ao dogmatismo e a verdade relativa, por outro lado, ao ceticismo. Ambos são extremos perigosos, pois nem tudo pode ser dado como certeza, assim como nem tudo deva ser duvidado. A investigação, portanto, nos dirá o que é certo e o que é errado. A questão de Deus, por exemplo, não temos como saber, através da razão, que Ele exista. É a fé quem responde a esta questão, mas a fé é subjetiva, tornando Deus uma verdade subjetiva, pois neste caso não importa a existência de Deus, mas o bem que me faz ao acreditar em sua existência. Então, a verdade é subjetiva, pois existem conhecimentos inatos e conhecimentos posteriores, verdades da razão e verdades da fé.

MAQUIAVEL: Então estás dizendo Kant, que a fé que tens em Deus é muito mais por utilidade do que por crença real. Parece uma ideia contraditória à sua própria tese de verdade subjetiva, tornando-a utilitalista. Por isto defendo a verdade efetiva, pois todos vêem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é. A verdade efetiva é uma realidade fora da subjetividade, que despreza as intenções divinas, o sobrenatural, os fatalismos e os imperativos, trabalhando com o real.

PLATÃO: A verdade está ligada à razão e não pode seguir o subjetivismo de Kant, nem o relativismo de Protágoras, porque são dotadas de enganos; tampouco deve ser efetiva, pois o utilitarismo trazido por ela é pérfido e mal, já que não repudia as más intenções. A verdade se encontra no interior da alma de cada um e é comum a todos, pois todas as almas conhecem a mesma verdade. Então, como Sócrates, acredito que a verdade existe e deva emergir através da reflexão racional.

NIETZSCHE: A verdade não existe! É uma abstração, ideias formadas por quem detém o poder e as impõem aos outros como algo que deva ser a realidade dos fatos e ações. Vejam as verdades dos racionalistas, servem para legitimar suas regras e, por conseguinte, seu poder sem que sejam questionados. Por muitos séculos, as ditas verdades bíblicas autorizaram a Igreja a produzirem atrocidades. No final, são os vencedores quem contam a história. Só sei que não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.

MARX: Neste ponto concordo com Nietzsche. A verdade é um contigenciamento histórico entre os atores sociais e deste embate surge uma ideia vencedora, sendo ela a verdade. A força, portanto, deixa a história mal contada, uma vez que apenas uma parte é tida como verdadeira, pois as ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. 


SARTRE: Concordo que a verdade seja subjetiva, pois ela é dada pelo sujeito que pensa, não havendo, portanto, uma verdade em essência. Qual é a essência da verdade?  O que existe é uma ideia que se coloca como superior à outra atribuindo-se a si mesma como verdadeira. Por exemplo: não existe “marginal em essência” como não existe “gente honesta em essência”, estas são atribuições dadas por uma verdade extraída de uma dada ideia que dá a uma pessoa a qualidade de desonesta e, a outra, honesta.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 6 - Essência Humana

AGATÃO: E a essência humana. Nascemos bons ou maus?


ROUSSEAU: Todos nascemos com princípios inatos de justiça e do bem. Se, por exemplo, formos colocados em uma ilha ao nascer e cuidados por um tutor, permaneceremos livres das necessidades e dos vícios que ela trás. Ao estar na sociedade, a presença de nosso espelho, que é o outro ser humano, cria em nós um sentimento de competição; surgem a vaidade, o egoísmo, o orgulho, a intolelância, o ódio, o medo e outros sentimentos que nos colocam uns contra os outros. Em outras palavras, a sociedade corrompe o indivíduo, disvirtua o que tem de bom. O mal teve início com a criação da sociedade civil, que por sua vez foi criada no instante em que um indivíduo cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu” e faltou alguém que arrancasse aquelas cercas e dissesse para os outros não acreditarem naquele tolo. 



HOBBES: Contrariando Rousseau, penso que o homem nasce mau e a sociedade cria mecanismos para educá-lo na prática do bem. Todo ser humano é egoísta por natureza, um competidor, pois o homem é lobo do homem; e desde a mais tenra idade, primeiro com os pais, depois com a lei, é controlado pela sociedade a não praticar atos maus. Assim, não é por sua vontade natural que busca fazer o bem, mas por necessidade que a sociedade impõe como dever.



SARTRE: Não existe essência humana pré-determinada. A existência precede a essência, ou seja, ao nascer não somos nem bons, nem maus, nem autruístas, nem egoístas. Apenas somos… movidos pela liberdade que temos de escolher, influenciados pela dinâmica psico-social, mas ainda assim responsáveis por aquilo que escolhemos. E não temos a quem culpar, pois se não temos uma natureza humana pré-existente, nada nos determina, seja lá o que fizermos será por nossa conta e risco.



AGOSTINHO: Nossa essência é o Espírito de Deus, pois somos sua imagem e semelhança. Então, somos bons por natureza e esta bondade vem do Divino. Mas também temos responsabilidade por nossas decisões como as apontadas por Sartre: é o livre-arbítrio dado por Deus. Através dele decidimos se aceitamos ou não seguir o que é bom. Deus fez tudo perfeito e bom, nossas decisões erradas é que nos afasta do bem e, consequentemente, da divindade.



SARTRE: Quando eu falo em liberdade, Agostinho, não falo em escolher um caminho, pois se há algo posto para seguir ou meta a cumprir, não há liberdade.



SÓCRATES: Tudo possui essência. A própria liberdade, a bondade, a justiça são dotadas de essências próprias que devam ser descobertas pelo exercício da reflexão e são elas referências esssenciais do ser humano. Todavia, elas precisam ser abstraídas pelo exercício contante da busca do conhecimento de si mesmo fugindo da ignorância, que é o mal. Só se erra por ignorância.



PARMÊNIDES: Concordo com Sócrates de que existe essência e acrescento que ela é imutável. Tanto o mal, quanto o bem, são o que são e não mudam. O ser humano é o que é e o mal e o bem que praticam são transitórios, qualificações passageiras, pois ele continua humano independentemente da ação que pratica. Assim, não existe ser humano bom ou ser humano mau, mas existem estas três coisas separadas que são eternas e imutáveis: ser humano, bem e mal.


HERÁCLITO: Não concordo, pois vejo que tudo é movimento, tudo flui. Sartre disse bem quando negou a essência imutável. A essência humana não pode ser classificada como boa ou má, uma vez que a ação praticada, o meu agir, é que vai dar tal conotação. O que é bom hoje, amanhã pode ser mau. Ninguém pode ser bom ou mau o tempo todo.


Reunião de Filósofos 5 - Razão e Emoção

AGATÃO: Vendo os senhores neste debate ferrenho, pergunto sobre quem deve pautar nossa ação, a razão ou a emoção?


PLATÃO: Com certeza nossas ações devem estar pautadas pela razão. Agir emocionalmente é um erro, pois os sentidos podem nos levar aos enganos e enganos não servem. As paixões não podem determinar nossas ações, uma vez que quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama. Então, toda ação boa provém da razão por um simples motivo: Não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal.




NIETZSCHE: Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem o do mal, pois a verdade está naquilo que se sente e não naquilo que nos obrigam a sentir. A razão é anti-natural na medida em que oprime nossa vontade, esta sim guia natural de nossas ações. Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície. Platão é um desses homens que frustra a humanidade, tirando dela a vontade de viver em nome de um suposto controle e equilíbrio, que na verdade não passa de tristeza, opressão e melancolia. O que dá vida é o corpo, os sentidos, as paixões..., não uma razão idealizada.



PLATÃO: O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê. Nietzsche fala que devemos viver entregues aos sentidos, pois eu digo: Viva como prega Nietzsche e em breve não terá corpo para sentir. Vencer a si próprio é a maior das vitórias e vencer a si próprio é vencer suas ambições. O homem ambicioso é um homem mau e riqueza alguma poderá proporcionar a paz a um homem mau, pois não permitirá a paz a consciência que é nossa instrutora natural e não anti-natural como quer dizer Nietzsche. E a consciência é própria da razão e é por isso que o homem retrata-se inteiramente na alma; para saber o que deve fazer, deve olhar-se na inteligência, nessa parte da alma na qual fulge um raio da sabedoria divina.



NIETZSCHE: Sabedoria divina? Como a razão não é suficiente para convencer as pessoas a desistirem de viver sua vontade em potência, apelam para a consciência e sabedoria divinas. A opressão não é apenas racional, mas ditada pela força opressora de um Deus. Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida, por culpa dessa opressão moralizadora.



SÓCRATES: Sei que Nietzsche me acusa de promover a queda do modelo dionisíaco de celebração aos mitos, por ver neles o humano verdadeiro e natural. Entretanto, verdadeiros e naturais também são os animais, mas estes não possuem a racionalidade e a consciência. Nós, por possuí-las e diferenciarmos por tê-las, devemos nos guiar à luz de seus ditames, que é o que nos levam à virtude. Aos animais, por não terem consciência e racionalidade que os guie, é natural que ajam pelo instinto, contrário senso, é natural que ajamos racionalmente, por sermos dotados de razão.



SARTRE: Como Nietszche, penso que por sermos livres, também devemos agir de livre vontade , no entanto, posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me, tudo isso não passa de uma manifestação de uma opção mais original, mais espontânea do que aquilo a que se chama vontade. Então, liberdade é escolha e escolher é uma tarefa racional, assim, às vezes não somos o homem de nossa vontade, mas da vontade dos outros por escolha própria. A emoção é o querer e o querer está atrelado à consciência, posto que a decisão é sempre racional; e seja o que escolhermos, é decisão livre escolher entre a vontade e a consciência, pois no ponto de partida, não pode haver outra verdade além desta: «penso, logo existo», como afirma Descartes, esta é a verdade absoluta da consciência alcançando-se a si mesma. 



DESCARTES: Com toda certeza a ação deve ser guiada pela razão, pois basta ajuizar bem para agir bem. As paixões são boas por natureza e nós só temos que evitar seu mau uso e seus excessos, o que é propiciado pela razão. Então, se é a razão senhora da decisão é ela quem determina como deve proceder a boa ação, os sentidos são instrumentos, meios que uso para ter prazer e ser feliz. É com a emoção que eu sinto, mas é com a razão que eu decido. 



DIÓGENES: A emoção está ligada aos instintos e isso é bom, mas como disse antes a emoção trás consigo o perigo da ambição desmedida. Eu mesmo já caí em tentação ao luxo e à riqueza quando cunhei moedas falsas em minha juventude, o que foi um erro. A razão, por sua vez, deixa o mundo enquadrado em seus ditames e regras. Penso que devamos aproveitar o que há de melhor em cada caso, agir com liberdade e retirar o que nos oprime. Viver com a natureza e aproveitar o que ela nos dá a cada dia.



ARISTÓTELES: Concordo com Descartes, pois a razão tem o propósito de dominar as paixões e suas inclinações desmedidas, conduzindo-as a um termo equilibrado. A sabedoria está no meio. Então, deve-se viver os sabores que as sensações promovem, mas sempre tendo por guia a razão.


DAVID HUME: Concordo com Aristóteles e gostaria de acrescentar que nossa natureza trás consigo uma diversidade de fatores que limitam nosso agir pela influência determinante que possuem sobre nós. São fatores biológicos, sociológicos, históricos, etc… que influenciam algumas escolhas e formas de pensar. Existe um embate entre a vontade e a resistência. As sensações criam necessidades que devam ser vencidas: do ponto de vista social, por exemplo, a necessidade se mostra ao querer buscar um padrão social mais distinto; do ponto de vista físico, um corpo perfeito; tudo motivado por um padrão. Então não existe uma simples supremacia da razão sobre a emoção, é uma construção que se dá entre o ser bio-psico-histórico – com seus atributos e medos – e o ente racional.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 4 - Liberdade


AGATÃO: E quanto à liberdade humana, como podemos nos manifestar, caros amigos?


AGOSTINHO: Acredito no livre-arbítrio de Deus. Há alguns preceitos arbitrados por Deus tais como o amor, a justiça e a caridade, que significam como o ser humano deve procurar agir como prática do bem. Por outro lado, Ele entregou a cada qual a liberdade de escolher entre praticar estes preceitos ou não.





SARTRE: Tua tese até teria sentido se houvesse um Deus. Porém, o fato é que não temos nenhuma natureza pré-existente e nem um criador que a impôs a nós, e isto é o que nos torna livres. E, mesmo que este criador existisse, não interferiria em nossa existência com seus ditames, pois seria a negação da liberdade. A existência precede a essência, assim, nada nos condena ou nos obriga; nem a sermos justos, nem caridosos, nem estar preso a qualquer outro mandamento. Nossa única condenação é a de sermos livres. O livre-arbítrio que falas, Agostinho, é a de meia-liberdade, ou seja, você é livre, porém, tem um caminho a seguir. É como se fossêmos um papel com uma lista escrita de tarefas a cumprir; ao contrário, somos como um papel em branco e responsáveis por aquilo que for escrito. Não existe ser meio-livre, como não existe ser meio-morto ou meio-vivo.

ROUSSEAU: Ao nascer, em seu estado natural, a liberdade era própria da essência humana, no momento em que surgiu a desigualdade social. colocou no lugar da liberdade as leis e as aparências de conduta. Os comportamentos tornaram-se fúteis e comuns a todos. Vejam, todo homem nasce livre e por toda a parte encontra-se acorrentado. Então, como reconquistar a liberdade perdida? Buscar o autoconhecimento na natureza humana, num mergulho emocional em busca da bondade natural existente em cada indivíduo.

DESCARTES: Emocional !!? Liberdade é escolha entre uma coisa ou outra, entre fazer e deixar de fazer, e esta função só pode ser exercida pela razão, meu caro Rousseau. Assim como Agostinho, acredito no livre-arbítrio, que é a escolha espontânea e racional sobre o caminho a seguir. O homem pode dizer sim ou não às ordens de Deus, existe maior liberdade que esta? No entanto, para que eu seja livre, não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários; mas, antes, quanto mais eu tender para um, seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram, seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento, tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei.

DAVID HUME: A liberdade está relacionada ao fato de que devamos vencer a necessidade. Vencendo a necessidade venceremos a vontade e a liberdade se manifesta. Não acredito no livre-arbítrio porque não acredito na capacidade de escolher livremente o caminho a empreender, uma vez que cada pessoa é regida por um determinismo bio-psico-sociológico próprio de cada um que anula o livre-arbítrio. Ou seja, nos adaptamos a cada circunstância, que são muitas, e a escolha se dá nas mais diversas formas possíveis. Não é um simples aceitar ou não cumprir uma obrigação com Deus.

EPICURO: Como eu afirmei anteriormente Hume, a necessidade é um mal, mas não temos a necessidade de vivermos nela, pois quando bastamos a nós mesmos alcançamos a posse desse bem inestimável que é a liberdade. Como atomista, acredito que o constante entrechoque destas partículas seja a prova de nossa existência livre, porque as circunstâncias, como as que Hume apresentou antes, se revezam a todo instante, tal e qual estes átomos. O que de imutável que nos atormente é o fato que carregamos na consciência um peso histórico que nos trás medo e é deste medo que temos que sair para sermos completamente livres. Me refiro, primeiramente, ao medo do destino, o que não faz sentido visto que não existe, depois medo dos deuses, que sequer se importam conosco, além do medo da morte, que não devemos sequer pensar pois quando estamos vivos ela não está presente e quando morremos já não podemos senti-la.

KANT: A liberdade individual está ligada à vivência em sociedade. O indivíduo é antes de tudo um sujeito de direito que convive com outros sujeitos de direito. Então o respeito às leis e ao dever como imperativo categórico torna cada cidadão livre. O Estado Jurídico é a expressão da vontade de cada sujeito e obedecer a esta legislação construída por vontade livre dos cidadãos é o que chamo de liberdade. A coação da sociedade para que force o homem a viver dentro da lei é o que o torna livre, porque acredito que disciplina é liberdade. Se, por exemplo, todos cumprirem a lei de que não se pode roubar, ou matar para roubar, as pessoas poderiam livremente andar pelas ruas sem temer, a qualquer hora do dia ou da noite.

MARX: Pois eu penso que é justamente a sociedade constituída quem aprisiona o homem. Contudo, é nela, através da luta que a liberdade deva ser conquistada. A fala de Kant é formal e abstrata, visto que ele parte de uma sociedade ideal e não real. A sociedade que conhecemos é escravocrata e o capitalismo apresenta uma falsa liberdade, tal e qual o ideal de propriedade de Kant, visto que a única propriedade que o operário tem é a sua força de trabalho, que a acaba vendendo aos donos do capital por muito pouco, tornando-se escravo dele. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Além disto, os poderosos lançam mão de alguns meios de dominação, entre eles, como afirma Epicuro, está o medo dos deuses; a religião é o ópio do povo, prometem ao povo uma libertação futura para que este povo não lute por sua libertação na terra.

HOBBES: Percebo a questão da liberdade como ausência de impedimento, ou seja, podemos fazer tudo aquilo que não há o que nos impeça de fazê-lo, seja a lei, a consciência, a natureza... Porém, devemos cumprir com tudo que nos limita. Isto acontece com todas coisas, um rio, por exemplo, só transita dentro dos limites do seu vazão de água, às vezes mais baixo, às vezes mais alto, mas sempre dentro dos seus limites. Embora o livre-arbítrio esteja dentro deste espaço limitador, já que há mandamentos nele, não o vejo como tese adequada, pois um dos critérios norteadores da liberdade é o senso de justiça. O livre-arbítrio não cobra nada, não castiga quem não cumpre, não há conseqüências... Se não há justiça, não há liberdade, pois ações boas promovem conseqüências boas e ações más promovem conseqüências más. 

AGOSTINHO: Mas Deus cobrará de quem não viveu segundo seus preceitos...


HOBBES: Então neste caso o livre-arbítrio não serve para nada! Ele se torna apenas arbítrio, que é onde não transita a liberdade.