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terça-feira, 15 de novembro de 2016

ROSA DE LUXEMBURGO E O BEM VIVER

Viver é Lutar


“Nosso dia vai chegar
teremos nossa vez
não é pedir demais
quero justiça
quero trabalhar em paz
não é muito o que lhe peço
eu quero trabalho honesto...”

Fábrica – Legião Urbana





ROSA DE LUXEMBURGO


“Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”



              Rosa estava reunida com um grupo de militantes da causa operária avaliando os efeitos da greve quando adentrou no recinto um grupo de mulheres elegantes, vestindo roupas finas, diferente do grupo que comumente se reunia naquele espaço. O espanto tomou conta da reunião, não apenas por que as mulheres que acabaram de chegar pertenciam visivelmente à outra classe social, mas também por tão poucas mulheres participarem daquele espaço, em que uma das poucas era justamente Rosa.

              Catarina, a líder do grupo que chegara pediu a palavra:

              - Gostaríamos de conversar com Rosa – falou, demonstrando altivez na postura de quem impunha liderança.

              - Eis-me aqui... – Apresentou-se Rosa – O que desejam?

              - Queremos uma reunião apenas com as mulheres – Falou Catarina olhando ao redor como quem pedisse aos homens que se retirassem, no que foi atendida prontamente, não sem antes terem visto o aceno positivo de Rosa para que assim procedessem.

              - Pois bem, qual o motivo da reunião? – Perguntou Rosa, intrigada, já que aquelas mulheres não pareciam exatamente com as que normalmente se reúnem para lutar por uma causa.

              - Somos do Clube das Mulheres Cristãs e viemos conversar no sentido de encontrarmos uma solução para a greve geral que se estende há semanas. A cidade está um caos, lixo para todos os lados, falta de atendimento nos hospitais e repartições públicas, desabastecimento, enfim, uma série de dificuldades que nós, mães de família, estamos enfrentando. Avaliamos que os homens não estão sendo capazes de dar um fim satisfatório e penso que sensibilidade feminina possa resolver melhor esta questão da greve.

              - Antes da greve, para os mais pobres, estas dificuldades por você apontadas, já eram comuns. Aliás, um dos motivos da greve é justamente esta distância em que há entre estes dois mundos. Vocês, abastados, estão sentido na pele o que vive o pobre todos os dias de sua vida. – Discursou Rosa.

              - E estamos aqui justamente para construir um acordo que beneficie não apenas o término da greve, mas também que assegure vantagens aos trabalhadores em geral e suas famílias. Nossos maridos são os proprietários da maioria das fábricas e podemos influenciá-los apresentando o acordo que nós fizermos. – Propôs Catarina.

              - Entendo... – Falou Rosa – O que propõem?

              - Entendemos que os homens, num dado momento, deixam de lado o diálogo, a vaidade deles fala mais alto e o que seria um possível acordo torna-se intransigência de parte a parte. Já não é questão de luta, mas de vaidade masculina. Ficam de lado a família e a justiça social que tanto se busca... – Explicou Catarina.

              - Tudo bem... Mas devo dizer que fogo se combate com fogo e luta se vence com luta... – Falou Rosa.

              - Como assim? O que queres dizer? – Perguntou Catarina – Nosso propósito aqui é buscar a paz que nossos maridos não conseguem.

              - Há várias formas de se lutar – esclareceu Rosa – Numa comédia escrita por Aristófanes, escritor da Grécia antiga, Lisístrata liderou uma greve de sexo entre as mulheres no intuito de dar fim à guerra do Peloponeso e seus maridos chegassem a um acordo, o que deu resultado. Podemos fazer o mesmo...

              A proposta inicialmente chocou as mulheres, mas aos poucos foram se acostumando com a ideia e passaram a aceitar como algo viável. Depois de um tempo de discussão, Rosa perguntou:

              - Então... Estamos de acordo? – Perguntou Rosa, enquanto observava as mulheres acenarem positivamente – Então, as senhoras se encarregam de conversar com suas amigas e nós, do movimento, nos organizaremos para convencer o maior número possível de mulheres a aderirem nossa causa. O acordo que sair daqui será o nosso vetor e a greve de sexo nosso instrumento de luta.

              - Então vamos começar... – Falou Catarina.

              Rosa pediu a uma de suas colegas de luta chamar Gerda, uma amiga sua que morava nas cercanias. Então começaram as discussões na construção do acordo. Quinze minutos depois do início das discussões já haviam chegado a uma conclusão definitiva. Agora, só faltava convencer os homens, de parte a parte, a aceitarem o que foi estabelecido por elas.

              O tempo de discussão das propostas foi o tempo necessário para que Gerda chegasse. As visitantes espantaram-se ao vê-la:

              - Mas... É uma prostituta – Diziam – Elas eram mulheres recatadas, de fino trato social e senhoras devotas da Igreja, mas que conheciam a afamada dama que acabara de chegar.

              Então, Rosa tratou de esclarecer:

              - Se fizermos greve de sexo, a quem vocês pensam que seus maridos procurarão? Aliás, vocês bem sabem que boa parte deles já o faz assim mesmo. Precisamos do apoio delas se quisermos obter sucesso em nossa luta.

              As visitantes aceitaram os argumentos de Rosa e perceberam que a ajuda de Gerda seria de grande valia, além de começarem a ver com outros olhos a figura que estava à frente.

              Então Rosa explicou a situação à Gerda e a deixou a par da greve de sexo que haviam planejado, obtendo dela a promessa de as “casas de tolerância” fechariam por quinze dias, a princípio, ou o tempo que durasse a greve. Gerta era uma líder entre as prostitutas e poderia conseguir a adesão de suas colegas de profissão.

              - Mesmo que não fosse por uma causa justa, teríamos que aderir à greve por causa dos prejuízos que nos tem causado como cidadãs, além dos prejuízos profissionais, pois sem produção não há dinheiro e, sem dinheiro, nosso rendimento cai muito. – Explicou Gerta.

              Cinco dias depois desta reunião, os homens assinaram o acordo da forma como as mulheres haviam acertado.




LIÇÕES DA MESTRE


              Rosa de Luxemburgo foi uma ativista política de esquerda que, embora tivesse ligação com o marxismo, possuía ideias independentes em relação às lideranças socialistas, como Lênin, por exemplo. Era contra a centralização do poder por parte de uma chamada “administração esclarecida” que conduzisse os ideais socialistas e os trabalhadores, pois como disse: "o ultracentralismo defendido por Lênin aparece-nos como impregnado não mais de um espírito e criador, mas sim do espírito do vigilante noturno". A revolução, portanto, não deve ser algo “fabricada artificialmente” ou “decidida pelo abstrato”, mas como fenômeno histórico baseado numa situação social a partir da necessidade histórica. Em outras palavras, a revolução deve brotar de um sentimento social e não de uma sala de reuniões. Rosa de Luxemburgo ensina que não devemos ficar escravos do pensamento das lideranças que nos cercam e que a luta deve ser primeiro de esclarecimento do sujeito, pois revolução se faz com sujeitos, não com objetos. Defendia a ideia de Marx de que a transformação não deveria partir do meio em que se vive, como queriam os materialistas franceses, nem da consciência das pessoas, como queriam os idealistas alemães, mas da confluência de ambas, em que a consciência de classe transforma o ambiente e o ambiente externo se torna parte de uma nova consciência coletiva que surge a partir da luta. Rosa de Luxemburgo mantinha uma postura crítica à violência revolucionária e defendia a democracia do proletariado nas decisões sobre os rumos a serem tomados, pois defendia, sobretudo, a liberdade em seu mais alto grau, que é a de não apenas decidir, mas participar. Em 1914, seu partido, o Social-Democrata, votou a favor da Alemanha entrar na guerra e Rosa se posicionou contra por ver nesta situação a morte de milhares de trabalhadores em nome da guerra, então escreveu: "A demênica não terá fim, o sangrento pesadelo no inferno não vai parar até que os operários da Alemanha, da França, da Rússia e da Inglaterra despertem de sua embriaguez, se apertem traternalmente as mãos e afoguem o coro brutal dos agitadores belicistas e o grito das hienas capitalistas no poderoso grito do trabalho - 'Proletários de todo mundo, uni-vos!". Neste período, Rosa de Luxemburgo foi presa e, mesmo na prisão, continuou sua luta em nome da liberdade. Em 1918, saiu da prisão e foi lutar junto ao recém fundado Partido Comunista Alemão. Em 1919, foi morta por um grupo paramilitar que agira em nome do governo social-democrata.




Na Pista da DJ Rosa de Luxemburgo


              Além de Fábrica, música exposta no início, outras músicas da Legião Urbana, como “Geração Coca-Cola”, entrariam na coletânea de Rosa de Luxemburgo, pois nesta música está escrito: “...Vamos fazer nosso dever de casa e aí vocês vão ver suas crianças derrubando reis, fazer comédia nos cinemas com as suas leis...”

              Também teria “Rosa de Hiroshima” que casualmente tem Rosa no nome e fala contra a guerra e seus efeitos devastadores, tal como um dia Rosa de Luxemburgo foi contra.

              Músicas de cunho social como “Operário” de Chico Buarque, que seria a atração principal, e “Operário em Construção”, de Vinícius de Morais, seriam constantes na discoteca da DJ Rosa.


              A festa chegaria ao fim com todos cantando: “...Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer...”

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3: Agir Político do Governante




AGATÃO: E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Existe em nossas consciências um dever daquilo que deve ou não ser feito a quem chamo de Imperativo Categórico; um conjunto de normas e prescrições morais a serem cumpridas. O governante também carrega estes deveres em sua consciência, pois ela é comum a todos, já que é a priori e universal. Assim, o governante deve agir obedecendo a esta consciência. Quando ele ou o legislador, por exemplo, criam uma lei proibindo a injúria racial, não é ao racismo que atacam, já que é permissivo que uma pessoa não goste de uma determinada raça, o que está sendo atacado, com esta lei, é o imperativo categórico de que a ofensa deve ser rechaçada por nossa consciência moral, porque ninguém, nem mesmo aquele que pratica a injúria racial, aceita uma ofensa contra si. Ofender ao outro é inaceitável em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo, em qualquer idade, sendo a ofensa criminalizada por nossa consciência. O governante deve preservar a voz de sua consciência, assim estará isento de todo mal que possa ser praticado pelas pessoas que por ventura venham a aproveitar-se dos erros existentes em tal ato ou lei; não será culpa do governante se alguma má ação for praticada por conta de um ato seu que tenha seguido os ditamos de sua consciência moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar tendo por base a boa intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Para agir bem, ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir; portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.

PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 7 - A Verdade

AGATÃO: Vendo-os falar com ideias tão contraditórias, com tão bons argumentos, fiquei refletindo sobre a verdade. Será que existe uma verdade única?


PROTÁGORAS: Se há ideias tão contraditórias, caro Agatão, é porque não existe uma verdade única, pois tudo é relativo. O que é certo em uma cultura, pode ser errado em outra; o que é nobre em um tempo, pode ser motivo de vergonha em outro; e o que é aceito em um lugar, pode ser rejeitado em outro. A única verdade existente na verdade universal é a sua tirania.


SÓCRATES: Pois eu penso que devemos buscar a verdade nas coisas. Não podemos ser justos, se não soubermos definir o que é justiça; não podemos amar, se não soubermos o que é amor; nem lutar, se não soubermos o que é coragem. De nada valerá a afeição do povo por um governante, se este não for justo; pois será uma afeição advinda de um falso julgamento, assim acontece com o amor de uma esposa por seu marido, se este a trai; e de nada vale a um General vencer uma batalha, se ele é um covarde atrás de um grande exército, a glória de sua vitória é falsa. Assim acontece com as verdades relativas, meras opiniões sem um julgamento preciso.

KANT: Se a vida é subjetiva, a verdade também deve sê-la. A verdade universal nos leva ao dogmatismo e a verdade relativa, por outro lado, ao ceticismo. Ambos são extremos perigosos, pois nem tudo pode ser dado como certeza, assim como nem tudo deva ser duvidado. A investigação, portanto, nos dirá o que é certo e o que é errado. A questão de Deus, por exemplo, não temos como saber, através da razão, que Ele exista. É a fé quem responde a esta questão, mas a fé é subjetiva, tornando Deus uma verdade subjetiva, pois neste caso não importa a existência de Deus, mas o bem que me faz ao acreditar em sua existência. Então, a verdade é subjetiva, pois existem conhecimentos inatos e conhecimentos posteriores, verdades da razão e verdades da fé.

MAQUIAVEL: Então estás dizendo Kant, que a fé que tens em Deus é muito mais por utilidade do que por crença real. Parece uma ideia contraditória à sua própria tese de verdade subjetiva, tornando-a utilitalista. Por isto defendo a verdade efetiva, pois todos vêem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é. A verdade efetiva é uma realidade fora da subjetividade, que despreza as intenções divinas, o sobrenatural, os fatalismos e os imperativos, trabalhando com o real.

PLATÃO: A verdade está ligada à razão e não pode seguir o subjetivismo de Kant, nem o relativismo de Protágoras, porque são dotadas de enganos; tampouco deve ser efetiva, pois o utilitarismo trazido por ela é pérfido e mal, já que não repudia as más intenções. A verdade se encontra no interior da alma de cada um e é comum a todos, pois todas as almas conhecem a mesma verdade. Então, como Sócrates, acredito que a verdade existe e deva emergir através da reflexão racional.

NIETZSCHE: A verdade não existe! É uma abstração, ideias formadas por quem detém o poder e as impõem aos outros como algo que deva ser a realidade dos fatos e ações. Vejam as verdades dos racionalistas, servem para legitimar suas regras e, por conseguinte, seu poder sem que sejam questionados. Por muitos séculos, as ditas verdades bíblicas autorizaram a Igreja a produzirem atrocidades. No final, são os vencedores quem contam a história. Só sei que não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.

MARX: Neste ponto concordo com Nietzsche. A verdade é um contigenciamento histórico entre os atores sociais e deste embate surge uma ideia vencedora, sendo ela a verdade. A força, portanto, deixa a história mal contada, uma vez que apenas uma parte é tida como verdadeira, pois as ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. 


SARTRE: Concordo que a verdade seja subjetiva, pois ela é dada pelo sujeito que pensa, não havendo, portanto, uma verdade em essência. Qual é a essência da verdade?  O que existe é uma ideia que se coloca como superior à outra atribuindo-se a si mesma como verdadeira. Por exemplo: não existe “marginal em essência” como não existe “gente honesta em essência”, estas são atribuições dadas por uma verdade extraída de uma dada ideia que dá a uma pessoa a qualidade de desonesta e, a outra, honesta.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 4 - Liberdade


AGATÃO: E quanto à liberdade humana, como podemos nos manifestar, caros amigos?


AGOSTINHO: Acredito no livre-arbítrio de Deus. Há alguns preceitos arbitrados por Deus tais como o amor, a justiça e a caridade, que significam como o ser humano deve procurar agir como prática do bem. Por outro lado, Ele entregou a cada qual a liberdade de escolher entre praticar estes preceitos ou não.





SARTRE: Tua tese até teria sentido se houvesse um Deus. Porém, o fato é que não temos nenhuma natureza pré-existente e nem um criador que a impôs a nós, e isto é o que nos torna livres. E, mesmo que este criador existisse, não interferiria em nossa existência com seus ditames, pois seria a negação da liberdade. A existência precede a essência, assim, nada nos condena ou nos obriga; nem a sermos justos, nem caridosos, nem estar preso a qualquer outro mandamento. Nossa única condenação é a de sermos livres. O livre-arbítrio que falas, Agostinho, é a de meia-liberdade, ou seja, você é livre, porém, tem um caminho a seguir. É como se fossêmos um papel com uma lista escrita de tarefas a cumprir; ao contrário, somos como um papel em branco e responsáveis por aquilo que for escrito. Não existe ser meio-livre, como não existe ser meio-morto ou meio-vivo.

ROUSSEAU: Ao nascer, em seu estado natural, a liberdade era própria da essência humana, no momento em que surgiu a desigualdade social. colocou no lugar da liberdade as leis e as aparências de conduta. Os comportamentos tornaram-se fúteis e comuns a todos. Vejam, todo homem nasce livre e por toda a parte encontra-se acorrentado. Então, como reconquistar a liberdade perdida? Buscar o autoconhecimento na natureza humana, num mergulho emocional em busca da bondade natural existente em cada indivíduo.

DESCARTES: Emocional !!? Liberdade é escolha entre uma coisa ou outra, entre fazer e deixar de fazer, e esta função só pode ser exercida pela razão, meu caro Rousseau. Assim como Agostinho, acredito no livre-arbítrio, que é a escolha espontânea e racional sobre o caminho a seguir. O homem pode dizer sim ou não às ordens de Deus, existe maior liberdade que esta? No entanto, para que eu seja livre, não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários; mas, antes, quanto mais eu tender para um, seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram, seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento, tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei.

DAVID HUME: A liberdade está relacionada ao fato de que devamos vencer a necessidade. Vencendo a necessidade venceremos a vontade e a liberdade se manifesta. Não acredito no livre-arbítrio porque não acredito na capacidade de escolher livremente o caminho a empreender, uma vez que cada pessoa é regida por um determinismo bio-psico-sociológico próprio de cada um que anula o livre-arbítrio. Ou seja, nos adaptamos a cada circunstância, que são muitas, e a escolha se dá nas mais diversas formas possíveis. Não é um simples aceitar ou não cumprir uma obrigação com Deus.

EPICURO: Como eu afirmei anteriormente Hume, a necessidade é um mal, mas não temos a necessidade de vivermos nela, pois quando bastamos a nós mesmos alcançamos a posse desse bem inestimável que é a liberdade. Como atomista, acredito que o constante entrechoque destas partículas seja a prova de nossa existência livre, porque as circunstâncias, como as que Hume apresentou antes, se revezam a todo instante, tal e qual estes átomos. O que de imutável que nos atormente é o fato que carregamos na consciência um peso histórico que nos trás medo e é deste medo que temos que sair para sermos completamente livres. Me refiro, primeiramente, ao medo do destino, o que não faz sentido visto que não existe, depois medo dos deuses, que sequer se importam conosco, além do medo da morte, que não devemos sequer pensar pois quando estamos vivos ela não está presente e quando morremos já não podemos senti-la.

KANT: A liberdade individual está ligada à vivência em sociedade. O indivíduo é antes de tudo um sujeito de direito que convive com outros sujeitos de direito. Então o respeito às leis e ao dever como imperativo categórico torna cada cidadão livre. O Estado Jurídico é a expressão da vontade de cada sujeito e obedecer a esta legislação construída por vontade livre dos cidadãos é o que chamo de liberdade. A coação da sociedade para que force o homem a viver dentro da lei é o que o torna livre, porque acredito que disciplina é liberdade. Se, por exemplo, todos cumprirem a lei de que não se pode roubar, ou matar para roubar, as pessoas poderiam livremente andar pelas ruas sem temer, a qualquer hora do dia ou da noite.

MARX: Pois eu penso que é justamente a sociedade constituída quem aprisiona o homem. Contudo, é nela, através da luta que a liberdade deva ser conquistada. A fala de Kant é formal e abstrata, visto que ele parte de uma sociedade ideal e não real. A sociedade que conhecemos é escravocrata e o capitalismo apresenta uma falsa liberdade, tal e qual o ideal de propriedade de Kant, visto que a única propriedade que o operário tem é a sua força de trabalho, que a acaba vendendo aos donos do capital por muito pouco, tornando-se escravo dele. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Além disto, os poderosos lançam mão de alguns meios de dominação, entre eles, como afirma Epicuro, está o medo dos deuses; a religião é o ópio do povo, prometem ao povo uma libertação futura para que este povo não lute por sua libertação na terra.

HOBBES: Percebo a questão da liberdade como ausência de impedimento, ou seja, podemos fazer tudo aquilo que não há o que nos impeça de fazê-lo, seja a lei, a consciência, a natureza... Porém, devemos cumprir com tudo que nos limita. Isto acontece com todas coisas, um rio, por exemplo, só transita dentro dos limites do seu vazão de água, às vezes mais baixo, às vezes mais alto, mas sempre dentro dos seus limites. Embora o livre-arbítrio esteja dentro deste espaço limitador, já que há mandamentos nele, não o vejo como tese adequada, pois um dos critérios norteadores da liberdade é o senso de justiça. O livre-arbítrio não cobra nada, não castiga quem não cumpre, não há conseqüências... Se não há justiça, não há liberdade, pois ações boas promovem conseqüências boas e ações más promovem conseqüências más. 

AGOSTINHO: Mas Deus cobrará de quem não viveu segundo seus preceitos...


HOBBES: Então neste caso o livre-arbítrio não serve para nada! Ele se torna apenas arbítrio, que é onde não transita a liberdade.


Reunião de Filósofos 3 - Agir Político do Governante

AGATÃO: Falamos no tópico anterior do agir político do cidadão. E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Assim, o governante nasce do dever ético em que cabe a todos exercer, incluindo, assim, o governante que está lá por meio da vontade do povo, pois o Estado surge quando os cidadãos abrem mão de suas liberdades individuais e depois as recuperam como membro de uma comunidade. Porém, devo dizer que virtude e dever são duas coisas diferentes. O dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade. Ambas necessárias, claro, solidárias uma com a outra evidentemente, mas antes complementares. O governante deve agir, sobretudo, com a consciência, seguindo os princípios éticos fornecidos pela lei e a vontade moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar obediente aos ditames da consciência, ou seja, na base da intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir, portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.


PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.

Reunião de Filósofos 2 - Agir Político do Cidadão


AGATÃO: Falando em política, como os senhores pensam que deve ser o agir político do cidadão? Marx e Diógenes parecem ter posições contrárias pelo que pude observar.


Resultado de imagem para imagens de epicuroDIÓGENES: Tenho dois motivos principais para acreditar que o ser humano deva se afastar da política. O primeiro é que a sociedade ajustada em padrões é anti-natural, o que torna por si só hipócrita e, portanto, vulgar e indecente. Olhem para os cães! Vivem naturalmente abaixo da lua e do sol. A sociedade produz pobres e ricos e aceitar viver nela é aceitar esta indecência, tornando-se também um indecente. Não tenho casa, porque o chão me basta, querê-la é entregar-se à ganância e procurar meios para tê-la, é entregar a alma ao Diabo. Na casa de um rico não há onde cuspir a não ser na cara dele. Uma pergunta se impõe: como ficou rico? Como o governante conquistou o posto? O segundo motivo vem de minha atuação como filósofo, afinal, para que serve o filósofo senão para machucar o sentimento de alguém? Assim, a melhor forma de agir politicamente é estar distante dela, o que de certa forma é um jeito de fazer política; coloco meu cajado, meu barril, meu prato e minha lamparina a disposição da sociedade. Minha política é o exemplo, a recusa em participar desta imoralidade chamada sociedade.

MARX: A sociedade, caro Diógenes, também é fruto de um processo natural e digo que é até mais natural que a solidão que praticas. E mais que natural, é inevitável. Então, pergunto? Como o cidadão deve agir inserido nesta cirscunstância? A história da humanidade foi construída pela luta de classes e a dominação de uma sobre as outras. Então, o agir político deve ser voltado para a luta, para a constante vigilância da manutenção de direitos e para a conquista do espaço social. Sem estes aspectos, você se torna presa fácil de ideologias que tentarão te manter passível diante dos acontecimentos e prometerão ilusões.


PROTÁGORAS: Eu acredito na democracia, porque acredito na liberdade do pensamento e diferenciação entre as pessoas, pois somos diferentes uns dos outros e cada qual tem sua medida, seus limites... Que vença o discurso forte, que é aquele que convence a maioria de que a sua ideia é a mais apropriada para todo o conjunto. Portanto, a melhor forma de agir politicamente é se preparar, a fim de convencer pela oratória que o seu pensamento é o melhor para ser aplicado a todos.

PLATÃO: A melhor forma de o cidadão agir politicamente é exercer uma função dentro da sociedade segundo suas possibilidades e habilidades. Assim como no corpo cada orgão exerce um determinado papel, na sociedade cada cidadão tem sua atribuição, seja ela manual, como são os artesãos, agricultores, comerciantes e demais trabalhadores braçais; seja ela de defesa, como faz o soldado; ou de governança, que deve ser própria dos políticos, legisladores e administradores públicos. Todos devem ser preparados através da educação para estas tarefas desde jovens, em instituição de ensino comum a todos, onde lhes será ensinada a virtude.

SÓCRATES: Assim como Platão, acredito que o agir político deve estar conectado com a virtude, que só se encontra na verdade, que por sua vez encontra-se no conhecimento, que é a gênese do bom agir. Não interessa viver, mas viver bem. E viver bem é viver corretamente, não ser injusto com os outros, nem mesquinho, nem buscar para si vantagem indevida ou que prejudique o outro. Não praticar um discurso, como quer Protágoras, se o discurso não for verdadeiro; somente lutar, como quer Marx, se for para buscar a justiça; e afastar-se, como diz Diógenes, somente das práticas que levam à imoralidade pública.

ARISTÓTELES: Inicialmente, devo dizer que o ser humano é um animal político e ele só pode ser concebido desta forma, pois isolado, é como qualquer outro animal. Concordo com Sócrates e Platão sobre o fato de que a virtude deve ser o elemento norteador da ação política do cidadão que inevitavelmente estará com outros cidadãos. É preciso então trabalhar a formação deste ser humano. Uma sociedade de cidadãos virtuosos forma uma sociedade virtuosa e sã, já uma sociedade com cidadãos injustos torna-se uma sociedade decadente. Então, assim como Platão, acredito que a educação deva ser o caminho para formar cidadãos virtuosos…

NIETZSCHE: Blá, blá, blá… O homem com furor filosófico não deve perder tempo com o furor político. Vocês falam de virtude, em educação para a virtude, mas... qual virtude? Aquela escondida na verdade absoluta ditada por regras que Sócrates e seus seguidores querem impor? Também acredito que a moralidade seja a melhor de todas as regras para orientar a humanidade, mas a minha moralidade é diferente das suas que exige a massificação do pensamento, onde todos seguem como cordeirinhos os ditames destas ditas virtudes. Acredito, como Protágoras, no individual; no livre pensar e no livre agir.

SÓCRATES: Percebo, pelos olhares que me lançam, que esperam uma resposta minha ao ataque de Nietszche, mas minha consciência diz que o fato de Nietzsche ser injusto comigo, não me dá o direito de sê-lo com ele. E com isso eu pratico aquilo que vejo como virtude.

NIETZSCHE: As convicções são inimigas mais perigosas à verdade dos que as mentiras.

EPICURO: Também penso que o cidadão tem obrigações que o indivíduo não tem. É preciso separar o cidadão - que é ente político – do ser humano enquanto indivíduo. O cidadão precisa seguir regras, mas o indivíduo é livre e basta-lhe procurar a boa vivência, que é encontrada na paz e na amizade. Bom seria que as pessoas vivessem em pequenos círculos, vilas pequenas, como é o meu jardim e lá vivessem o cultivo da serenidade, da troca de experiências e da prática da bondade, longe das agruras do embate político, das lutas intermináveis pelo poder que, por si só, desconstituem a virtude.

Reunião de Filósofos 1 - O Bem Viver


AGATÃO: Sejam bem-vindos caros amigos. Começo o debate perguntando com se dá o bem viver.

ARISTÓTELES: Caros amigos, penso que a vida boa é aquela vivida na virtude e no equilíbrio, sempre em busca da felicidade. A felicidade é o fim que natureza humana visa. Ela se encontra na atividade, pois não está acessível àqueles que passam a vida adormecidos. Ela não é uma disposição. À felicidade nada falta, ela é completamente auto-suficiente. É uma atividade que não visa a mais nada a não ser a si mesma. O homem feliz, basta a si mesmo. Porém, é bom lembrar, não existe felicidade fora da prática da virtude; assim, cada um é feliz na medida em que cumpre a sua missão. A felicidade só resulta do cultivo da virtude.

EPICURO: Concordo que o comedimento seja a forma de bem viver. No entanto, penso a felicidade como algo abstrato, pois não há como quantificar o que é sentido, nem se pode sentí-la o tempo todo. Existe sim momentos felizes, que só se consegue através do prazer. Então, há momentos bons e momentos tormentosos; desta forma é o prazer quem basta a si mesmo e é a melhor forma de ser feliz. E com isso digo que, ao contrário de Aristóteles, não deve ser conquistado o prazer como o amigo diz que deve ser a felicidade, pois o prazer verdadeiro está justamente na tranquilidade da alma, na busca da paz espiritual. Conquistas requerem dissabores e momentos custosos e tormentosos. Não te pareces uma perda  passares tempo demasiado lutando por um ínfimo momento de felicidade, já que para você a felicidade é o fim?  E aquele tempo que passou buscando a felicidade, não seria melhor aproveitado se prazeirosamente vivesse cultivando as amizades, por exemplo? Um descanso, talvez? Lembro-me das dores que os cálculos renais me impingiam. Não há nada pior, nem tão contrária à boa vida, que a dor. Somente livre da dor eu conseguia ser feliz. O extremo oposto à dor é o prazer, então, se a dor é o que há de mais nefasto à boa vida, o prazer deve ser o que há de melhor. Lógico e simples.

ARISTÓTELES: Tem razão o amigo, é um raciocínio bastante simples! O prazer é um meio e não um fim. Ao querer prazer, é a felicidade que se busca. Não te parece, caro Epicuro, que uma mãe escolha passar por todas as agruras da gestação, parto, cuidados, etc, para ter um filho, um indício de que vale a pena momentos de sofrimento para conquistar a felicidade da maternidade? É incompatível com a passividade. Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo o que amar e algo que esperar...

 EPICURO: No caso da concepção, caro Aristóteles, é imperativo dizer que tem mais a ver com um processo natural do que propriamente com um modo de viver. Então, o melhor é passar pelo processo da forma mais tranqüila e com o menor sofrimento possível. Tanto menos sofrível, mais prazeroso será no caso de a vocação paterno-maternal aparecer com força e decisão. Devo dizer que só há um caminho para a felicidade: não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade. Assim, se é de nossa vontade ter um filho, que o tenhamos com a maior serenidade possível. Esta vontade, no entanto, não deve ser fruto da necessidade. Lembro-lhes, caros amigos, que a necessidade é um mal, porém, não temos a necessidade de vivermos nela. Para terminar este primeiro momento de explanação, deixo como reflexão a ideia de que não somos senhores do nosso amanhã e por isso não devemos adiar o gozo do prazer possível hoje. Não devemos consumir nossa vida a esperar e morrer empenhados nessa espera do prazer.

AGOSTINHO: Mas não esqueçamos, Epicuro, que a tristeza de ter perdido não pode superar a alegria de ter possuído. Isto pode significar, caro Epicuro, que alguns sacrifícios podem ser tão ou mais prazerosos quanto fugir deles. É preciso buscar sempre o que é bom; e o que é bom vem de Deus. Viver bem é viver em doação, em comunhão com o próximo. Necessitamos uns dos outros para sermos nós mesmos. Para alcançar a felicidade devemos reproduzir aqui na terra os prazeres do paraíso que são - neste caso concordo contigo - aqueles ligados à alma. A verdadeira felicidade só existe na Pátria Celestial, cabendo a nós buscar chegar o mais próximo possível dela, através da prática do bem. Concordo com Aristóteles de que a boa vida é aquela vivida na virtude, devendo-se com isso afastar-se dos vícios, principalmente do orgulho, que é a fontes de todas as fraquezas, porque é a fonte de todos os vícios. Isto significa que devamos ser humildes para evitar o orgulho, mas voar alto para alcançar a sabedoria.

NIETZSCHE: Vocês racionalistas e cristãos deturparam o conceito de bondade e transformaram tudo o que é natural, bom e prazeroso em algo feio, sujo, pecaminoso, etc, quando bem viver está retratado no modelo dionisíaco da celebração da vida e o vigor da potência humana. Racionalizaram e puseram regras em tudo, chamando de virtude o que na verdade oprime o bem viver. Orgulho, Agostinho, é uma virtude, não um mal. Vocês tiraram o sapo do pântano e o puseram no deserto dizendo: viva aí! Nossa natureza não é compatível com piedade, compaixão, pena, humildade e demais vigarices expostas no ideário racionalista e cristão, que só servem para atormentar as consciências e oprimir as vontades. O medo se tornou o pai da moralidade. E usam como juiz um Deus! Deus opressor, que não dança, não se alegra e passa o tempo todo exigindo louvores. Não é a força, mas a constância dos bons resultados que conduz os homens à felicidade. E bons resultados só são conseguidos através do exercício da vontade livre. Agostinho propõe o sacrifício como um meio de bem viver, tal e qual o Jesus que acredita. Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez a si próprio? Tornou-se mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação. Assim, é pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.

SÓCRATES: Se não estou equivocado, Nietzsche propõe que revivamos o mito, onde a crendice e a passionalidade devam reinar. Alerto que o emocional é um campo fértil para a ignorância orgulhosa. Sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância, e isto só é alcançado pela humildade e racionalidade, que estão libertas das vaidades. Existe apenas um bem, o saber; e apenas um mal; a ignorância. Deve-se procurar o saber desde a mais tenra idade. O que deve caracterizar a juventude é a modéstia, o pudor, o amor, a moderação, a dedicação, a diligência, a justiça, a educação. São estas as virtudes que devem formar o seu caráter e levar o individuo ao bem viver.

NIETZSCHE: Não digo...

DIÓGENES: Mas não podemos esquecer, Sócrates, que somos seres da natureza e esta é nossa principal característica. Não podemos correr o risco de que racionalidade imponha ao conjunto da sociedade regras morais, que obrigue a todos cumpri-las conjuntamente. Não somos um conjunto, somos individualidades...

NIETZSCHE: Bravo!...

DIÓGENES: No entanto, Nietzsche; devo dizer contrariamente a ti, que os piores escravos são aqueles que estão constantemente servindo as paixões. Portanto, vivamos sem rédeas racionais demais que nos aprisionam a um modelo de sociedade e, mais ainda, sem rédeas emocionais que nos aprisionam aos desejos de riqueza e ao apego. Digo que para viver basta aquilo que cabe em um prato diariamente; não podemos ser decentes se temos mais do que necessitamos, pois estaremos ferindo nossa natureza em detrimento do conforto, que não nos pertence em estado natural. Devemos exercer o desapego às coisas que nos são materialmente mais caras, não apenas por virtude, não para obter consideração dos outros, mas para sentirmo-nos livres, porque nossa natureza é livre. Há algo que temos mais apreço que a própria vida? Pois digo que só é verdadeiramente livre quem está sempre pronto a morrer.

MARX: Concordo que estar pronto a morrer seja algo inerente à liberdade e, também, no que tange a ganância - que não deve ser confundida com melhor condição de vida – sendo que devo dizer: Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Este é o ideário capitalista e não é o ideário de vida boa, o ideário de vida boa não é ter mais e sim ser mais, sem que as paixões e atividades sejam tragadas pela cobiça. Também concordo que a vida que temos é esta aqui e esperar pela Pátria Celeste apontada por Agostinho é uma ilusão, pois esta não existe. Foi uma forma encontrada para conformar a classe mais baixa a fim de que ela permaneça apegada a esta ideia de recompensa futura sem questionar sua própria dominação. Então, caro Diógenes, a vida em sociedade é inevitável, o que quer dizer que haverá produção e consumo através do trabalho, fazendo com que a melhor forma de viver seja a busca por uma melhor situação. A luta de classes se torna inevitável, e participar ativamente dela é preciso, para não se tornar escravo...

DIÓGENES: Devo então acender minha lamparina e dizer-te: só se transforma em escravo quem quer, só participa desta sociedade quem quer fazer parte da imoralidade dela e de seu jogo usurpador da decência, tornando-se também indecente...

MARX: É muito fácil acender a lamparina e apontar para os outros, qualquer um pode fazer isso...

DIÓGENES: Só pode carregar minha lamparina, quem carregar também o meu cajado...

ARISTÓTELES: Diógenes, caro Diógenes, o homem é um animal político; só é completo em sociedade. A vida que propões pode tornar o homem livre; é verdade, mas o deixa incompleto, solitário e, talvez, infeliz. Como sua própria corrente filosófica se coloca, de viver como vivem os cães, é apropriada aos cães. Os homens possuem outras razões para viver.


MARX: E digo mais: o que há de errado em beber um pouco melhor, comer melhor, se divertir, sem que isto gere ganância? Diferentemente de Epicuro, acredito que é na ação que é despertado o animal político dito por Aristóteles. E se há política, há luta, e é nela que o sujeito se realiza e se complementa. O espaço deve ser conquistado. A história da humanidade até os dias de hoje é a história da luta de classes. E nós filósofos, buscamos através da história interpretar o mundo, quando deveríamos modificá-lo. Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas. Ressurgir contra isso e conquistar o espaço político é o bem viver, porque o faz racionalmente na busca de um conforto que o mundo e a inteligência produzem, sem travar seu instinto de competição, que a emoção exige.