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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3: Agir Político do Governante




AGATÃO: E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Existe em nossas consciências um dever daquilo que deve ou não ser feito a quem chamo de Imperativo Categórico; um conjunto de normas e prescrições morais a serem cumpridas. O governante também carrega estes deveres em sua consciência, pois ela é comum a todos, já que é a priori e universal. Assim, o governante deve agir obedecendo a esta consciência. Quando ele ou o legislador, por exemplo, criam uma lei proibindo a injúria racial, não é ao racismo que atacam, já que é permissivo que uma pessoa não goste de uma determinada raça, o que está sendo atacado, com esta lei, é o imperativo categórico de que a ofensa deve ser rechaçada por nossa consciência moral, porque ninguém, nem mesmo aquele que pratica a injúria racial, aceita uma ofensa contra si. Ofender ao outro é inaceitável em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo, em qualquer idade, sendo a ofensa criminalizada por nossa consciência. O governante deve preservar a voz de sua consciência, assim estará isento de todo mal que possa ser praticado pelas pessoas que por ventura venham a aproveitar-se dos erros existentes em tal ato ou lei; não será culpa do governante se alguma má ação for praticada por conta de um ato seu que tenha seguido os ditamos de sua consciência moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar tendo por base a boa intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Para agir bem, ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir; portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.

PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 7 - A Verdade

AGATÃO: Vendo-os falar com ideias tão contraditórias, com tão bons argumentos, fiquei refletindo sobre a verdade. Será que existe uma verdade única?


PROTÁGORAS: Se há ideias tão contraditórias, caro Agatão, é porque não existe uma verdade única, pois tudo é relativo. O que é certo em uma cultura, pode ser errado em outra; o que é nobre em um tempo, pode ser motivo de vergonha em outro; e o que é aceito em um lugar, pode ser rejeitado em outro. A única verdade existente na verdade universal é a sua tirania.


SÓCRATES: Pois eu penso que devemos buscar a verdade nas coisas. Não podemos ser justos, se não soubermos definir o que é justiça; não podemos amar, se não soubermos o que é amor; nem lutar, se não soubermos o que é coragem. De nada valerá a afeição do povo por um governante, se este não for justo; pois será uma afeição advinda de um falso julgamento, assim acontece com o amor de uma esposa por seu marido, se este a trai; e de nada vale a um General vencer uma batalha, se ele é um covarde atrás de um grande exército, a glória de sua vitória é falsa. Assim acontece com as verdades relativas, meras opiniões sem um julgamento preciso.

KANT: Se a vida é subjetiva, a verdade também deve sê-la. A verdade universal nos leva ao dogmatismo e a verdade relativa, por outro lado, ao ceticismo. Ambos são extremos perigosos, pois nem tudo pode ser dado como certeza, assim como nem tudo deva ser duvidado. A investigação, portanto, nos dirá o que é certo e o que é errado. A questão de Deus, por exemplo, não temos como saber, através da razão, que Ele exista. É a fé quem responde a esta questão, mas a fé é subjetiva, tornando Deus uma verdade subjetiva, pois neste caso não importa a existência de Deus, mas o bem que me faz ao acreditar em sua existência. Então, a verdade é subjetiva, pois existem conhecimentos inatos e conhecimentos posteriores, verdades da razão e verdades da fé.

MAQUIAVEL: Então estás dizendo Kant, que a fé que tens em Deus é muito mais por utilidade do que por crença real. Parece uma ideia contraditória à sua própria tese de verdade subjetiva, tornando-a utilitalista. Por isto defendo a verdade efetiva, pois todos vêem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é. A verdade efetiva é uma realidade fora da subjetividade, que despreza as intenções divinas, o sobrenatural, os fatalismos e os imperativos, trabalhando com o real.

PLATÃO: A verdade está ligada à razão e não pode seguir o subjetivismo de Kant, nem o relativismo de Protágoras, porque são dotadas de enganos; tampouco deve ser efetiva, pois o utilitarismo trazido por ela é pérfido e mal, já que não repudia as más intenções. A verdade se encontra no interior da alma de cada um e é comum a todos, pois todas as almas conhecem a mesma verdade. Então, como Sócrates, acredito que a verdade existe e deva emergir através da reflexão racional.

NIETZSCHE: A verdade não existe! É uma abstração, ideias formadas por quem detém o poder e as impõem aos outros como algo que deva ser a realidade dos fatos e ações. Vejam as verdades dos racionalistas, servem para legitimar suas regras e, por conseguinte, seu poder sem que sejam questionados. Por muitos séculos, as ditas verdades bíblicas autorizaram a Igreja a produzirem atrocidades. No final, são os vencedores quem contam a história. Só sei que não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.

MARX: Neste ponto concordo com Nietzsche. A verdade é um contigenciamento histórico entre os atores sociais e deste embate surge uma ideia vencedora, sendo ela a verdade. A força, portanto, deixa a história mal contada, uma vez que apenas uma parte é tida como verdadeira, pois as ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. 


SARTRE: Concordo que a verdade seja subjetiva, pois ela é dada pelo sujeito que pensa, não havendo, portanto, uma verdade em essência. Qual é a essência da verdade?  O que existe é uma ideia que se coloca como superior à outra atribuindo-se a si mesma como verdadeira. Por exemplo: não existe “marginal em essência” como não existe “gente honesta em essência”, estas são atribuições dadas por uma verdade extraída de uma dada ideia que dá a uma pessoa a qualidade de desonesta e, a outra, honesta.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3 - Agir Político do Governante

AGATÃO: Falamos no tópico anterior do agir político do cidadão. E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Assim, o governante nasce do dever ético em que cabe a todos exercer, incluindo, assim, o governante que está lá por meio da vontade do povo, pois o Estado surge quando os cidadãos abrem mão de suas liberdades individuais e depois as recuperam como membro de uma comunidade. Porém, devo dizer que virtude e dever são duas coisas diferentes. O dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade. Ambas necessárias, claro, solidárias uma com a outra evidentemente, mas antes complementares. O governante deve agir, sobretudo, com a consciência, seguindo os princípios éticos fornecidos pela lei e a vontade moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar obediente aos ditames da consciência, ou seja, na base da intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir, portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.


PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.