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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

RENATO RUSSO E A POLÍTICA

 Já vimos na postagem anterior (Russell e Russo) que Renato Russo atuava politicamente em cima de causas. Do ponto de vista ideológico manifestava aversão ao Fascismo e a ditaduras, falando sobretudo da ditadura militar no Brasil. Na transição política do início dos anos 1980, houve a anistia, um combinado entre oposição e governo militar, onde os exilados políticos podiam voltar ao país e os militares não responderiam por suas ações praticadas durante o governo. Renato Russo se colocava contra esta anistia, pensava que os crimes e torturas não deveriam ser esquecidos. Esta ideia contra a anistia aparece em La Maison Dieu com a frase "eu não anistiei ninguém". Aparece também em entrevistas quando tocou no assunto. O Brasil nunca fez uma revisão séria quanto a isto e o futuro mostrou que Renato tinha razão. Em 08 de janeiro de 2023, após Jair Bolsonaro não conseguir se reeleger, seus apoiadores mais ferrenhos, inconformados com a derrota, invadiram a praça dos três poderes vandalizando o que encontravam pela frente, sob o argumento de que as eleições haviam sido fraldadas. Não sem antes por dois meses seguidos agruparem-se em frente aos quartéis pedindo intervenção militar. No decorrer destes meses, entre a eleição e a posse do eleito Lula, muitos eventos ocorreram, tal como a colocação de bombas em um caminhão deixado no aeroporto de Brasília, estradas trancadas e depredações. Pediam intervenção militar para impedir a posse de Lula. A anistia de 40 anos atrás davam uma certa autorização a certos saudosistas do governo militar de proclamar novamente o desejo de ter o país sob comando de uma ditadura. Em 13 de novembro de 2024 um homem jogou bombas contra o prédio do STF e depois se atirou sobre uma delas, explodindo a si mesmo. A sanha golpista continuava no discurso dos derrotados na eleição e arregimentavam pessoas para tais ações. Sobre a anistia, que, como vimos, teve repercussão futura, Renato Russo escreveu em "La Maison Dieu"

"...Eu sou a Pátria que lhe esqueceu
O carrasco que lhe torturou
General que lhe arrancou os olhos
O sangue inocente de todos os desaparecidos
O choque elétrico e os gritos
Parem por favor, isso dói...
...Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não, nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém"


Os anos de chumbo eram assunto recorrente de Renato Russo. "1965 (Duas Tribos)" é uma referência ao golpe civico-militar. O Brasil estava definitivamente nas mãos dos ditadores fardados que usavam o argumento de  estar salvando o país do comunismo. A música remete a um tempo em que Renato era ainda criança e como a propaganda oficial funcionava em favor dos comandantes, pois qualquer crítica era passível de torturas. O ufanismo pátrio não permitia que algo fosse dito contra o governo, pois seria o mesmo que se colocar contra a pátria, o que era passível de tortura, prisão e, aos mais influentes, exílio. Duas Tribos representa este momento:

"...Cortaram meus braçosCortaram minhas mãosCortaram minhas pernasNum dia de verão..."

Nos versos acima podemos observar uma alusão às torturas aos que se levantavam contra o regime. O que legitimava tais castigos era o discurso representado nos versos abaixo:

"Quando querem transformarDignidade em doençaQuando querem transformarInteligência em traiçãoQuando querem transformarEstupidez em recompensaQuando querem transformarE esperar sem maldição"

Como podemos ver a inversão sobre o que é virtude e o que é vício, bem típico da ideologia fascista, estava presente. Já os versos abaixo mostram como este discurso era usado. Os que se deixavam levar por ele não se importavam com o que acontecia aos que não se conformavam com a situação. Tal como crianças ficam alheias enquanto brincam, os conformados repetiam o Junior (Renato Manfredini) criança que, com 4 anos, era realmente inocente e aprendera estar diante do maior presidente do mundo.

"Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Tenho Autorama
Tenho Hanna-Barbera
Tenho pera, uva e maçã
Tenho Guanabara
E modelos Revell"

Enquanto uns morrem por conta do regime por não  serem bons filhos da pátria mãe gentil, outros são beneficiados por ela e ensinados a admirarem como a melhor das mães. Renato afirmou em entrevista como as crianças eram estimuladas a fazer redações sobre as virtudes do presidente... Por fim, a música termina com a frase ufanista da época:

"O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo pra cima
Pra cima
Pra cima"


FASCISMO

O fascismo foi a posição ideológica mais combatida por Renato Russo. Sempre que tinha oportunidade marcava sua posição. Nas músicas os atos fascistas normalmente não aparecem acompanhados do nome, mas eram facilmente identificados nas referências feitas às chacinas, no desrespeito às mulheres, na exploração... 

Por causa da frase "disciplina é liberdade" em Há Tempos, Renato foi acusado de fascista, imagine... o verso lido isoladamente pode dar  sentido tal acusação, mas dentro do contexto da música não se sustenta, passa a ser, como diz a gíria, forçar a barra. O próprio Renato explicou que não se trata de um ser humano ou grupo impor limite a outro, isso sim seria um fascismo, mas sobre autodisciplina, do auto-controle para alcançar a autonomia e ser verdadeiramente livre. Os indisciplinados são escravos de suas indisciplinas, pois não conseguem se auto-determinar e se autogerir. O compositor disse que se inspirou em Orson Wells, escritor do livro 1984.
Esta ideia de que a disciplina não é exatamente o que tolhe a liberdade já vem dos tempos dos gregos clássicos... Aristóteles diz que o equilíbrio é o melhor caminho pois a sabedoria está no meio. Não se pode agir com extremismos, como é o caso do Fascismo. Para uma comida ficar boa não pode ser insonsa nem demasiadamente temperada, os temperos devem ser equilibradamente postos para harmonizar os  sabores. Para Aristóteles, existe a virtude, que está no meio, e dois vícios, suas extremidades. Como exemplo, citamos a coragem, que é uma virtude que aparece na canção. Seus vícios são a covardia (por falta) e a temeridade (por excesso). Toda virtude tem um vício por falta e outro por excesso. Autocontrole, para um temeroso, o faz chegar à coragem, que a virtude correspondente. Ser temeroso, o faz ir para um caminho não virtuoso, por estar escravo de seus impulsos. Assim, controlar estes impulsos e chegar ao ponto virtuoso, ao equilíbrio, que é a coragem, se faz através da disciplina. Então, disciplina como liberdade, tal como aparece na música Há Tempos está colocada neste contexto.

Epicuro, outro filósofo da antiga Grécia, tem esta mesma linha de pensamento. Ele sustentava que toda ação deveria procurar o prazer. Este sentimento, no entanto, tinha em Epicuro um sentido diverso do "vida louca" que possui hoje. Está ligado ao auto-controle como obtenção de um prazer prolongado, em estar mais contente com o que se tem do que com o que e poderia ter, uma vez que isto poderia trazer mais dissabores que alegrias. Fugir do sofrimento é a melhor forma de sentir prazer e esta fuga significaria fugir dos excessos. Se você ganha uma barra enorme de chocolate é melhor comer um pedaço por dia, por um tempo estendendo o prazer, ou se impanturrar de uma só vez? Para Epicuro a primeira opção, pois além de alongar o prazer você pode estar evitando uma tremenda dor de barriga. Para este processo acontecer precisaria usar a autodisciplina. Ou seja, a disciplina liberta quando se dá por opção. 




terça-feira, 8 de outubro de 2024

Os Desejos e arbitrariedade do controle


"Neste mundo há apenas duas tragédias: uma a de não satisfazermos nossos desejos, e a outra a de a satisfazermos."  (Oscar Wilde)


Sei não... Epicuro afirmou que o desejo é a causa de todos os males, pois, como não conhecemos o amanhã, com seus acontecimentos, se os desejos irão ou não se realizar, seria uma perda de tempo deixar de gozar os prazeres possíveis esperando o talvez ou o impossível acontecer.

A lógica é a de que gozar pequenos prazeres no tempo presente é melhor que esperar o grande desfrute acontecer num tempo futuro. Para Epicuro, esperar pelo futuro, despendendo energia nele, necessariamente é abrir mão de viver o presente com a intensidade devida.

Epicteto, o escravo, falou: "Desterra de ti desejos e receios e nada terás que te tiranize", afirmando que somos escravos dos desejos e medos, de quem devemos nos livrar.

Buda, Shopenhauer, Sócrates e outros seguem esta linha de pensamento. Benjamim Franklin chega a dizer que, mesmo realizados, os dsejos trariam mais aflições que prazeres.

Contrariando esta tese dominante, de que os desejos devem ser contidos, Jonathan Swift ressalta: "O método estoico de enfrentar as necessidades suprimindo os desejos, equivale a cortar os pés para não precisar sapatos".

Swift, com isso, afirma que o controle ao desejo é tão prejudicial a nós quanto os ditos males advindos do ato de desejar, pois isto significa contrariar a natureza humana, o que causaria mal em igual teor.

Os filósofos citados anteriormente apresentam a razão como meio de suprimir o que para eles é a fonte da infelicidade, que é o desejo, já Swift é partidário da liberdade emocional, lugar em que os sentimentos se sobrepõem  à razão.

Oscar Wilde coloca-se entre essas duas formas distintas de ver a questão e com isso nos traz mais uma angústia a respeito do tema: "Neste mundo há apenas duas tragédias: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, e a outra de os satisfazermos."

É... Não tem saída...

Podemos desejar, mas não a ponto de tornarmos escravos dele, e controlá-los, mas não a ponto de tornarmos escravos do controle.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

FILOSOFIA DO DIA: 11 DE JANEIRO



11 DE JANEIRO


Resultado de imagem para frases de diógenes de sinope sobre amizadeA amizade é um dos sentimentos mais belos cultivados pelo ser humano. Andar acompanhado de um amigo torna o caminho mais agradável. 

Para filósofos como Epicuro e Diógenes de Sínope, a amizade é a mais plena forma de amar. Ela é maior que a relação parental, porque nesta não se escolhe, é uma contingência do destino. A amizade é, ainda, maior que o amor conjugal, pois este carrega sentimentos menos nobres, como a posse e o ciúme, por exemplo.

A convivência com os parentes na maioria das vezes torna-os melhores amigos. Não por ligação biológica, mas por ligação afetiva. Por isso o filósofo Jesus disse: “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? Estes são os que ouvem minha palavra” ( o acompanham).

O amigo nada exige, nada cobra… É um amor pleno. Não há espaço na amizade para sofrimento e sentimentos mesquinhos.

O amigo anda e descansa contigo à beira da estrada.


DICA DO DIA: Escreva a um amigo e diga o quanto é importante em sua vida.

sábado, 8 de outubro de 2016

EPICURO E O BEM VIVER

VIVER É SABOREAR

 Resultado de imagem para imagens  E FRASE DE EPICURO

“Um velho calção de banho
Um dia prá vadiar
O mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar
Depois, na Praça Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de côco
É bom!
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã”
(Toquinho)




EPICURO

"As pessoas felizes lembram do passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo"




               Epicuro viveu numa Grécia dominada pelos macedônios e a velha democracia ateniense havia ficado para trás. Como não havia o que discutir sobre política, cabia ao filósofo de sua época refletir sobre o valor existencial do ser humano, procurando as melhores formas de viver. Por isso, sua filosofia mirava o dia-a-dia, já que para ele não haveria como mudar o passado e preocupar-se com o futuro era sofrer antecipadamente; do primeiro lembrava-se das alegrias, do segundo, fazia-se tão somente projeções favoráveis. Residia num local chamado Jardim, que também servia de escola para seus ensinamentos, bem ao seu estilo: um lugar tranqüilo, onde se podia cultivar as amizades que, para ele, era a mais completa forma de amor, embora para a maioria das pessoas esta seja através do casamento e da família.

            O filósofo havia passado por mais uma crise renal. As ervas fizeram efeito e as dores por ora não lhe atormentavam tanto. Por isso mesmo, para Epicuro, viver bem significava viver sem dor. Porém, havia consumido toda a erva com a qual se medicava pacificando sua existência e agora deveria ir buscar mais, prevenindo-se para a nova crise renal que provavelmente viria quando menos esperasse.

             A caminho da residência da velha senhora que lhes dava as ervas, Epicuro encontrou um jovem fazendo suas orações à beira da estrada, junto às imagens de alguns deuses. O jovem, ao avistá-lo, foi ao seu encontro:

        - Mestre, fui chamado à guerra e estou fazendo minhas orações junto aos deuses para que me protejam – Disse-lhe o rapaz com certa alegria pela honra de ser agora um soldado.

        - Se estás alegre com o momento, aproveite-o, pois os próximos serão duros. Porém, não perca tempo com os deuses, pois eles não se importam conosco. – Respondeu Epicuro.

              - Falo com os deuses porque estou com medo de morrer na guerra – Confessou o jovem.

          - Também não deves te preocupar com a morte, pois enquanto estás vivo, ela não está presente e, quando morto, já não poderá senti-la, porque não temos mais posse de nossos sentidos. – Ensinou Epicuro.

             - Então, como deverá ser meu futuro? Vou morrer na guerra? Será que voltarei como herói? – Perguntou o jovem.

         - Se ficares preso à preocupação quanto ao destino, esquecerás de viver o presente e isto não é bom. Ao tempo em que estás aqui, orando a deuses que não te escutam, ou preocupado com o destino e a morte que não se fazem presentes, poderias estar com aqueles que ama e gozar de momentos agradáveis com eles. Vá para casa e goze da companhia deles enquanto há tempo, pois talvez não poderás fazê-lo no futuro – Orientou Epicuro.

         Então o jovem resolveu seguir os conselhos do mestre. Enquanto saía, ainda teve tempo de ouvir de Epicuro um último conselho:

          - E faça suas refeições, sempre que possível, de forma moderada para não passar mal; e acompanhada de amigos ou familiares, porque comer acompanhado é mais agradável que comer sozinho...



LIÇÕES DO MESTRE

Epicuro sofria com as constantes dores nos rins por conta de cálculos renais. A dor, portanto, era seu maior tormento. Como parte de sua filosofia era refletir sobre o bem viver, logo desenvolveu a tese de que a vida boa era uma vida sem sofrimento, seja ele físico, psíquico ou qualquer outro que levasse a pessoa a sofrer. Chegou à conclusão de que uma vida feliz e plena era a vida voltada ao prazer; porém, um prazer contido, que apaziguasse a alma e tranquilizasse o corpo. Condenava o exagero, a preocupação com o futuro, o apego às coisas e o medo da morte. A noção de prazer, portanto, tem a ver com a ataraxia, que é o controle dos desejos e os medos, pois controlando os desejos diminuem a necessidade e a ansiedade, exercendo-se o auto-domínio. Menores necessidades criam menos expectativas, levando a pessoa a um contentamento mais constante e uma felicidade duradoura. Assim, Epicuro nos ensina que a felicidade não está nas coisas, mas em nós. Vivia numa residência afastada da cidade chamada de “Jardim”, onde também funcionava sua escola, local de reunião de seus seguidores. Portanto, vivia conforme ensinava, pois afastar-se da cidade representava fugir dos problemas gerados por ela, como o embate político, por exemplo. Assim, afastava-se de tudo que pudesse trazer preocupação, prezava mais a amizade como forma de amor do que o casamento, pois a amizade não trazia a passionalidade e o apego, entre outros problemas, que o casamento trazia. Viver bem, então, tem mais a ver com aquilo que evitamos, do que com aquilo que almejamos como objetivo, pois lutar por um objetivo, de forma obstinada, é uma forma de sofrimento. Epicuro ensina a recordar as coisas boas do passado, a ver o futuro com boas perspectivas, sem deixar de viver o presente, saboreando cada momento como se fosse o último, evitando o sofrimento.



Na Pista do DJ Epicuro

         A calma e a tranqüilidade são os temas frequentes na discoteca do Dj Epicuro.

         Poderia iniciar com “Soul Parsifal” (Alma tranquila), de Renato Russo, que diz: “estive cansado, meu orgulho me deixou cansado, minha vaidade me deixou cansado...”, numa reflexão sobre a vida desejante de alguém que agora se dedica a estar na varanda, fazendo cestos.

          Poderia seguir com Dazaranha e sua música “Vagabundo Confesso”, que diz: “Sou vagabundo eu confesso, da turma de 71, já rodei o mundo e nunca pude encontrar lugar melhor para um vagabundo que um rio à beira-mar...”

         E a festa seguiria com muito reggae, num luau à beira-mar.





segunda-feira, 18 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3: Agir Político do Governante




AGATÃO: E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Existe em nossas consciências um dever daquilo que deve ou não ser feito a quem chamo de Imperativo Categórico; um conjunto de normas e prescrições morais a serem cumpridas. O governante também carrega estes deveres em sua consciência, pois ela é comum a todos, já que é a priori e universal. Assim, o governante deve agir obedecendo a esta consciência. Quando ele ou o legislador, por exemplo, criam uma lei proibindo a injúria racial, não é ao racismo que atacam, já que é permissivo que uma pessoa não goste de uma determinada raça, o que está sendo atacado, com esta lei, é o imperativo categórico de que a ofensa deve ser rechaçada por nossa consciência moral, porque ninguém, nem mesmo aquele que pratica a injúria racial, aceita uma ofensa contra si. Ofender ao outro é inaceitável em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo, em qualquer idade, sendo a ofensa criminalizada por nossa consciência. O governante deve preservar a voz de sua consciência, assim estará isento de todo mal que possa ser praticado pelas pessoas que por ventura venham a aproveitar-se dos erros existentes em tal ato ou lei; não será culpa do governante se alguma má ação for praticada por conta de um ato seu que tenha seguido os ditamos de sua consciência moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar tendo por base a boa intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Para agir bem, ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir; portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.

PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 4 - Liberdade


AGATÃO: E quanto à liberdade humana, como podemos nos manifestar, caros amigos?


AGOSTINHO: Acredito no livre-arbítrio de Deus. Há alguns preceitos arbitrados por Deus tais como o amor, a justiça e a caridade, que significam como o ser humano deve procurar agir como prática do bem. Por outro lado, Ele entregou a cada qual a liberdade de escolher entre praticar estes preceitos ou não.





SARTRE: Tua tese até teria sentido se houvesse um Deus. Porém, o fato é que não temos nenhuma natureza pré-existente e nem um criador que a impôs a nós, e isto é o que nos torna livres. E, mesmo que este criador existisse, não interferiria em nossa existência com seus ditames, pois seria a negação da liberdade. A existência precede a essência, assim, nada nos condena ou nos obriga; nem a sermos justos, nem caridosos, nem estar preso a qualquer outro mandamento. Nossa única condenação é a de sermos livres. O livre-arbítrio que falas, Agostinho, é a de meia-liberdade, ou seja, você é livre, porém, tem um caminho a seguir. É como se fossêmos um papel com uma lista escrita de tarefas a cumprir; ao contrário, somos como um papel em branco e responsáveis por aquilo que for escrito. Não existe ser meio-livre, como não existe ser meio-morto ou meio-vivo.

ROUSSEAU: Ao nascer, em seu estado natural, a liberdade era própria da essência humana, no momento em que surgiu a desigualdade social. colocou no lugar da liberdade as leis e as aparências de conduta. Os comportamentos tornaram-se fúteis e comuns a todos. Vejam, todo homem nasce livre e por toda a parte encontra-se acorrentado. Então, como reconquistar a liberdade perdida? Buscar o autoconhecimento na natureza humana, num mergulho emocional em busca da bondade natural existente em cada indivíduo.

DESCARTES: Emocional !!? Liberdade é escolha entre uma coisa ou outra, entre fazer e deixar de fazer, e esta função só pode ser exercida pela razão, meu caro Rousseau. Assim como Agostinho, acredito no livre-arbítrio, que é a escolha espontânea e racional sobre o caminho a seguir. O homem pode dizer sim ou não às ordens de Deus, existe maior liberdade que esta? No entanto, para que eu seja livre, não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários; mas, antes, quanto mais eu tender para um, seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram, seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento, tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei.

DAVID HUME: A liberdade está relacionada ao fato de que devamos vencer a necessidade. Vencendo a necessidade venceremos a vontade e a liberdade se manifesta. Não acredito no livre-arbítrio porque não acredito na capacidade de escolher livremente o caminho a empreender, uma vez que cada pessoa é regida por um determinismo bio-psico-sociológico próprio de cada um que anula o livre-arbítrio. Ou seja, nos adaptamos a cada circunstância, que são muitas, e a escolha se dá nas mais diversas formas possíveis. Não é um simples aceitar ou não cumprir uma obrigação com Deus.

EPICURO: Como eu afirmei anteriormente Hume, a necessidade é um mal, mas não temos a necessidade de vivermos nela, pois quando bastamos a nós mesmos alcançamos a posse desse bem inestimável que é a liberdade. Como atomista, acredito que o constante entrechoque destas partículas seja a prova de nossa existência livre, porque as circunstâncias, como as que Hume apresentou antes, se revezam a todo instante, tal e qual estes átomos. O que de imutável que nos atormente é o fato que carregamos na consciência um peso histórico que nos trás medo e é deste medo que temos que sair para sermos completamente livres. Me refiro, primeiramente, ao medo do destino, o que não faz sentido visto que não existe, depois medo dos deuses, que sequer se importam conosco, além do medo da morte, que não devemos sequer pensar pois quando estamos vivos ela não está presente e quando morremos já não podemos senti-la.

KANT: A liberdade individual está ligada à vivência em sociedade. O indivíduo é antes de tudo um sujeito de direito que convive com outros sujeitos de direito. Então o respeito às leis e ao dever como imperativo categórico torna cada cidadão livre. O Estado Jurídico é a expressão da vontade de cada sujeito e obedecer a esta legislação construída por vontade livre dos cidadãos é o que chamo de liberdade. A coação da sociedade para que force o homem a viver dentro da lei é o que o torna livre, porque acredito que disciplina é liberdade. Se, por exemplo, todos cumprirem a lei de que não se pode roubar, ou matar para roubar, as pessoas poderiam livremente andar pelas ruas sem temer, a qualquer hora do dia ou da noite.

MARX: Pois eu penso que é justamente a sociedade constituída quem aprisiona o homem. Contudo, é nela, através da luta que a liberdade deva ser conquistada. A fala de Kant é formal e abstrata, visto que ele parte de uma sociedade ideal e não real. A sociedade que conhecemos é escravocrata e o capitalismo apresenta uma falsa liberdade, tal e qual o ideal de propriedade de Kant, visto que a única propriedade que o operário tem é a sua força de trabalho, que a acaba vendendo aos donos do capital por muito pouco, tornando-se escravo dele. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Além disto, os poderosos lançam mão de alguns meios de dominação, entre eles, como afirma Epicuro, está o medo dos deuses; a religião é o ópio do povo, prometem ao povo uma libertação futura para que este povo não lute por sua libertação na terra.

HOBBES: Percebo a questão da liberdade como ausência de impedimento, ou seja, podemos fazer tudo aquilo que não há o que nos impeça de fazê-lo, seja a lei, a consciência, a natureza... Porém, devemos cumprir com tudo que nos limita. Isto acontece com todas coisas, um rio, por exemplo, só transita dentro dos limites do seu vazão de água, às vezes mais baixo, às vezes mais alto, mas sempre dentro dos seus limites. Embora o livre-arbítrio esteja dentro deste espaço limitador, já que há mandamentos nele, não o vejo como tese adequada, pois um dos critérios norteadores da liberdade é o senso de justiça. O livre-arbítrio não cobra nada, não castiga quem não cumpre, não há conseqüências... Se não há justiça, não há liberdade, pois ações boas promovem conseqüências boas e ações más promovem conseqüências más. 

AGOSTINHO: Mas Deus cobrará de quem não viveu segundo seus preceitos...


HOBBES: Então neste caso o livre-arbítrio não serve para nada! Ele se torna apenas arbítrio, que é onde não transita a liberdade.


Reunião de Filósofos 2 - Agir Político do Cidadão


AGATÃO: Falando em política, como os senhores pensam que deve ser o agir político do cidadão? Marx e Diógenes parecem ter posições contrárias pelo que pude observar.


Resultado de imagem para imagens de epicuroDIÓGENES: Tenho dois motivos principais para acreditar que o ser humano deva se afastar da política. O primeiro é que a sociedade ajustada em padrões é anti-natural, o que torna por si só hipócrita e, portanto, vulgar e indecente. Olhem para os cães! Vivem naturalmente abaixo da lua e do sol. A sociedade produz pobres e ricos e aceitar viver nela é aceitar esta indecência, tornando-se também um indecente. Não tenho casa, porque o chão me basta, querê-la é entregar-se à ganância e procurar meios para tê-la, é entregar a alma ao Diabo. Na casa de um rico não há onde cuspir a não ser na cara dele. Uma pergunta se impõe: como ficou rico? Como o governante conquistou o posto? O segundo motivo vem de minha atuação como filósofo, afinal, para que serve o filósofo senão para machucar o sentimento de alguém? Assim, a melhor forma de agir politicamente é estar distante dela, o que de certa forma é um jeito de fazer política; coloco meu cajado, meu barril, meu prato e minha lamparina a disposição da sociedade. Minha política é o exemplo, a recusa em participar desta imoralidade chamada sociedade.

MARX: A sociedade, caro Diógenes, também é fruto de um processo natural e digo que é até mais natural que a solidão que praticas. E mais que natural, é inevitável. Então, pergunto? Como o cidadão deve agir inserido nesta cirscunstância? A história da humanidade foi construída pela luta de classes e a dominação de uma sobre as outras. Então, o agir político deve ser voltado para a luta, para a constante vigilância da manutenção de direitos e para a conquista do espaço social. Sem estes aspectos, você se torna presa fácil de ideologias que tentarão te manter passível diante dos acontecimentos e prometerão ilusões.


PROTÁGORAS: Eu acredito na democracia, porque acredito na liberdade do pensamento e diferenciação entre as pessoas, pois somos diferentes uns dos outros e cada qual tem sua medida, seus limites... Que vença o discurso forte, que é aquele que convence a maioria de que a sua ideia é a mais apropriada para todo o conjunto. Portanto, a melhor forma de agir politicamente é se preparar, a fim de convencer pela oratória que o seu pensamento é o melhor para ser aplicado a todos.

PLATÃO: A melhor forma de o cidadão agir politicamente é exercer uma função dentro da sociedade segundo suas possibilidades e habilidades. Assim como no corpo cada orgão exerce um determinado papel, na sociedade cada cidadão tem sua atribuição, seja ela manual, como são os artesãos, agricultores, comerciantes e demais trabalhadores braçais; seja ela de defesa, como faz o soldado; ou de governança, que deve ser própria dos políticos, legisladores e administradores públicos. Todos devem ser preparados através da educação para estas tarefas desde jovens, em instituição de ensino comum a todos, onde lhes será ensinada a virtude.

SÓCRATES: Assim como Platão, acredito que o agir político deve estar conectado com a virtude, que só se encontra na verdade, que por sua vez encontra-se no conhecimento, que é a gênese do bom agir. Não interessa viver, mas viver bem. E viver bem é viver corretamente, não ser injusto com os outros, nem mesquinho, nem buscar para si vantagem indevida ou que prejudique o outro. Não praticar um discurso, como quer Protágoras, se o discurso não for verdadeiro; somente lutar, como quer Marx, se for para buscar a justiça; e afastar-se, como diz Diógenes, somente das práticas que levam à imoralidade pública.

ARISTÓTELES: Inicialmente, devo dizer que o ser humano é um animal político e ele só pode ser concebido desta forma, pois isolado, é como qualquer outro animal. Concordo com Sócrates e Platão sobre o fato de que a virtude deve ser o elemento norteador da ação política do cidadão que inevitavelmente estará com outros cidadãos. É preciso então trabalhar a formação deste ser humano. Uma sociedade de cidadãos virtuosos forma uma sociedade virtuosa e sã, já uma sociedade com cidadãos injustos torna-se uma sociedade decadente. Então, assim como Platão, acredito que a educação deva ser o caminho para formar cidadãos virtuosos…

NIETZSCHE: Blá, blá, blá… O homem com furor filosófico não deve perder tempo com o furor político. Vocês falam de virtude, em educação para a virtude, mas... qual virtude? Aquela escondida na verdade absoluta ditada por regras que Sócrates e seus seguidores querem impor? Também acredito que a moralidade seja a melhor de todas as regras para orientar a humanidade, mas a minha moralidade é diferente das suas que exige a massificação do pensamento, onde todos seguem como cordeirinhos os ditames destas ditas virtudes. Acredito, como Protágoras, no individual; no livre pensar e no livre agir.

SÓCRATES: Percebo, pelos olhares que me lançam, que esperam uma resposta minha ao ataque de Nietszche, mas minha consciência diz que o fato de Nietzsche ser injusto comigo, não me dá o direito de sê-lo com ele. E com isso eu pratico aquilo que vejo como virtude.

NIETZSCHE: As convicções são inimigas mais perigosas à verdade dos que as mentiras.

EPICURO: Também penso que o cidadão tem obrigações que o indivíduo não tem. É preciso separar o cidadão - que é ente político – do ser humano enquanto indivíduo. O cidadão precisa seguir regras, mas o indivíduo é livre e basta-lhe procurar a boa vivência, que é encontrada na paz e na amizade. Bom seria que as pessoas vivessem em pequenos círculos, vilas pequenas, como é o meu jardim e lá vivessem o cultivo da serenidade, da troca de experiências e da prática da bondade, longe das agruras do embate político, das lutas intermináveis pelo poder que, por si só, desconstituem a virtude.

Reunião de Filósofos 1 - O Bem Viver


AGATÃO: Sejam bem-vindos caros amigos. Começo o debate perguntando com se dá o bem viver.

ARISTÓTELES: Caros amigos, penso que a vida boa é aquela vivida na virtude e no equilíbrio, sempre em busca da felicidade. A felicidade é o fim que natureza humana visa. Ela se encontra na atividade, pois não está acessível àqueles que passam a vida adormecidos. Ela não é uma disposição. À felicidade nada falta, ela é completamente auto-suficiente. É uma atividade que não visa a mais nada a não ser a si mesma. O homem feliz, basta a si mesmo. Porém, é bom lembrar, não existe felicidade fora da prática da virtude; assim, cada um é feliz na medida em que cumpre a sua missão. A felicidade só resulta do cultivo da virtude.

EPICURO: Concordo que o comedimento seja a forma de bem viver. No entanto, penso a felicidade como algo abstrato, pois não há como quantificar o que é sentido, nem se pode sentí-la o tempo todo. Existe sim momentos felizes, que só se consegue através do prazer. Então, há momentos bons e momentos tormentosos; desta forma é o prazer quem basta a si mesmo e é a melhor forma de ser feliz. E com isso digo que, ao contrário de Aristóteles, não deve ser conquistado o prazer como o amigo diz que deve ser a felicidade, pois o prazer verdadeiro está justamente na tranquilidade da alma, na busca da paz espiritual. Conquistas requerem dissabores e momentos custosos e tormentosos. Não te pareces uma perda  passares tempo demasiado lutando por um ínfimo momento de felicidade, já que para você a felicidade é o fim?  E aquele tempo que passou buscando a felicidade, não seria melhor aproveitado se prazeirosamente vivesse cultivando as amizades, por exemplo? Um descanso, talvez? Lembro-me das dores que os cálculos renais me impingiam. Não há nada pior, nem tão contrária à boa vida, que a dor. Somente livre da dor eu conseguia ser feliz. O extremo oposto à dor é o prazer, então, se a dor é o que há de mais nefasto à boa vida, o prazer deve ser o que há de melhor. Lógico e simples.

ARISTÓTELES: Tem razão o amigo, é um raciocínio bastante simples! O prazer é um meio e não um fim. Ao querer prazer, é a felicidade que se busca. Não te parece, caro Epicuro, que uma mãe escolha passar por todas as agruras da gestação, parto, cuidados, etc, para ter um filho, um indício de que vale a pena momentos de sofrimento para conquistar a felicidade da maternidade? É incompatível com a passividade. Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo o que amar e algo que esperar...

 EPICURO: No caso da concepção, caro Aristóteles, é imperativo dizer que tem mais a ver com um processo natural do que propriamente com um modo de viver. Então, o melhor é passar pelo processo da forma mais tranqüila e com o menor sofrimento possível. Tanto menos sofrível, mais prazeroso será no caso de a vocação paterno-maternal aparecer com força e decisão. Devo dizer que só há um caminho para a felicidade: não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade. Assim, se é de nossa vontade ter um filho, que o tenhamos com a maior serenidade possível. Esta vontade, no entanto, não deve ser fruto da necessidade. Lembro-lhes, caros amigos, que a necessidade é um mal, porém, não temos a necessidade de vivermos nela. Para terminar este primeiro momento de explanação, deixo como reflexão a ideia de que não somos senhores do nosso amanhã e por isso não devemos adiar o gozo do prazer possível hoje. Não devemos consumir nossa vida a esperar e morrer empenhados nessa espera do prazer.

AGOSTINHO: Mas não esqueçamos, Epicuro, que a tristeza de ter perdido não pode superar a alegria de ter possuído. Isto pode significar, caro Epicuro, que alguns sacrifícios podem ser tão ou mais prazerosos quanto fugir deles. É preciso buscar sempre o que é bom; e o que é bom vem de Deus. Viver bem é viver em doação, em comunhão com o próximo. Necessitamos uns dos outros para sermos nós mesmos. Para alcançar a felicidade devemos reproduzir aqui na terra os prazeres do paraíso que são - neste caso concordo contigo - aqueles ligados à alma. A verdadeira felicidade só existe na Pátria Celestial, cabendo a nós buscar chegar o mais próximo possível dela, através da prática do bem. Concordo com Aristóteles de que a boa vida é aquela vivida na virtude, devendo-se com isso afastar-se dos vícios, principalmente do orgulho, que é a fontes de todas as fraquezas, porque é a fonte de todos os vícios. Isto significa que devamos ser humildes para evitar o orgulho, mas voar alto para alcançar a sabedoria.

NIETZSCHE: Vocês racionalistas e cristãos deturparam o conceito de bondade e transformaram tudo o que é natural, bom e prazeroso em algo feio, sujo, pecaminoso, etc, quando bem viver está retratado no modelo dionisíaco da celebração da vida e o vigor da potência humana. Racionalizaram e puseram regras em tudo, chamando de virtude o que na verdade oprime o bem viver. Orgulho, Agostinho, é uma virtude, não um mal. Vocês tiraram o sapo do pântano e o puseram no deserto dizendo: viva aí! Nossa natureza não é compatível com piedade, compaixão, pena, humildade e demais vigarices expostas no ideário racionalista e cristão, que só servem para atormentar as consciências e oprimir as vontades. O medo se tornou o pai da moralidade. E usam como juiz um Deus! Deus opressor, que não dança, não se alegra e passa o tempo todo exigindo louvores. Não é a força, mas a constância dos bons resultados que conduz os homens à felicidade. E bons resultados só são conseguidos através do exercício da vontade livre. Agostinho propõe o sacrifício como um meio de bem viver, tal e qual o Jesus que acredita. Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez a si próprio? Tornou-se mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação. Assim, é pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.

SÓCRATES: Se não estou equivocado, Nietzsche propõe que revivamos o mito, onde a crendice e a passionalidade devam reinar. Alerto que o emocional é um campo fértil para a ignorância orgulhosa. Sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância, e isto só é alcançado pela humildade e racionalidade, que estão libertas das vaidades. Existe apenas um bem, o saber; e apenas um mal; a ignorância. Deve-se procurar o saber desde a mais tenra idade. O que deve caracterizar a juventude é a modéstia, o pudor, o amor, a moderação, a dedicação, a diligência, a justiça, a educação. São estas as virtudes que devem formar o seu caráter e levar o individuo ao bem viver.

NIETZSCHE: Não digo...

DIÓGENES: Mas não podemos esquecer, Sócrates, que somos seres da natureza e esta é nossa principal característica. Não podemos correr o risco de que racionalidade imponha ao conjunto da sociedade regras morais, que obrigue a todos cumpri-las conjuntamente. Não somos um conjunto, somos individualidades...

NIETZSCHE: Bravo!...

DIÓGENES: No entanto, Nietzsche; devo dizer contrariamente a ti, que os piores escravos são aqueles que estão constantemente servindo as paixões. Portanto, vivamos sem rédeas racionais demais que nos aprisionam a um modelo de sociedade e, mais ainda, sem rédeas emocionais que nos aprisionam aos desejos de riqueza e ao apego. Digo que para viver basta aquilo que cabe em um prato diariamente; não podemos ser decentes se temos mais do que necessitamos, pois estaremos ferindo nossa natureza em detrimento do conforto, que não nos pertence em estado natural. Devemos exercer o desapego às coisas que nos são materialmente mais caras, não apenas por virtude, não para obter consideração dos outros, mas para sentirmo-nos livres, porque nossa natureza é livre. Há algo que temos mais apreço que a própria vida? Pois digo que só é verdadeiramente livre quem está sempre pronto a morrer.

MARX: Concordo que estar pronto a morrer seja algo inerente à liberdade e, também, no que tange a ganância - que não deve ser confundida com melhor condição de vida – sendo que devo dizer: Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Este é o ideário capitalista e não é o ideário de vida boa, o ideário de vida boa não é ter mais e sim ser mais, sem que as paixões e atividades sejam tragadas pela cobiça. Também concordo que a vida que temos é esta aqui e esperar pela Pátria Celeste apontada por Agostinho é uma ilusão, pois esta não existe. Foi uma forma encontrada para conformar a classe mais baixa a fim de que ela permaneça apegada a esta ideia de recompensa futura sem questionar sua própria dominação. Então, caro Diógenes, a vida em sociedade é inevitável, o que quer dizer que haverá produção e consumo através do trabalho, fazendo com que a melhor forma de viver seja a busca por uma melhor situação. A luta de classes se torna inevitável, e participar ativamente dela é preciso, para não se tornar escravo...

DIÓGENES: Devo então acender minha lamparina e dizer-te: só se transforma em escravo quem quer, só participa desta sociedade quem quer fazer parte da imoralidade dela e de seu jogo usurpador da decência, tornando-se também indecente...

MARX: É muito fácil acender a lamparina e apontar para os outros, qualquer um pode fazer isso...

DIÓGENES: Só pode carregar minha lamparina, quem carregar também o meu cajado...

ARISTÓTELES: Diógenes, caro Diógenes, o homem é um animal político; só é completo em sociedade. A vida que propões pode tornar o homem livre; é verdade, mas o deixa incompleto, solitário e, talvez, infeliz. Como sua própria corrente filosófica se coloca, de viver como vivem os cães, é apropriada aos cães. Os homens possuem outras razões para viver.


MARX: E digo mais: o que há de errado em beber um pouco melhor, comer melhor, se divertir, sem que isto gere ganância? Diferentemente de Epicuro, acredito que é na ação que é despertado o animal político dito por Aristóteles. E se há política, há luta, e é nela que o sujeito se realiza e se complementa. O espaço deve ser conquistado. A história da humanidade até os dias de hoje é a história da luta de classes. E nós filósofos, buscamos através da história interpretar o mundo, quando deveríamos modificá-lo. Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas. Ressurgir contra isso e conquistar o espaço político é o bem viver, porque o faz racionalmente na busca de um conforto que o mundo e a inteligência produzem, sem travar seu instinto de competição, que a emoção exige.