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sexta-feira, 22 de maio de 2026

APRENDENDO A SER CONTRARIADO

 Sei não...


As pessoas têm cada vez menos paciência em discutir, sobretudo assuntos que despertam paixões.

Geralmente não gostamos de ser contrariados e preferimos o conforto de ouvir e conversar com as pessoas que compartilham de nossa posição e nossa forma de ver as coisas. Assim, com a chegada das redes sociais, formaram-se as chamadas "bolhas", que são agrupamentos de pessoas que têm interesses comuns, mesma visão de mundo e princípios. Tudo o que está no escopo destas bolhas é o que está acontecendo, porque seus integrantes não estão abertos a receber notícias ou opiniões contrárias vindas de outro universo. Assim, a única verdade existente é a que transita na bolha.

Antes, deveríamos ansiar em ser contrariados, para colocar em xeque nossas opiniões e forma de ver o mundo. Se tudo der errado e estivermos certos em nossa posição, atestaríamos com provas e seguiríamos convictos de que estivemos certos o tempo todo sobre a questão discutida. Caso dê certo o resultado deste confronto de ideias e a opinião contrária venha a prevalecer e nos convencer de que estivemos errados, teríamos o ganho de um novo saber e recálculo de rota. Perder é ganhar.

Acontece que não estamos dispostos a isso. Seguir com a própria opinião é cômodo, pois não precisamos passar pela "impertinência" do contrário e, tampouco, corremos o risco de "perder" uma discussão. Viver na bolha é mais fácil e, humanamente, buscamos sempre o que é mais cômodo, fugimos da chatice dos embates argumentativos.

Certa vez, Sócrates, inconformado por ter sido apontado como o homem mais sábio da Grécia, procurou saber a veracidade da informação. Saiu a conversar com outros homens considerados sábios sobre os mais diversos assuntos. Ao ver que eles falavam sobre todas as coisas, mesmo as que desconheciam, como se fossem os doutores nos assuntos, ele aceitou a alcunha de homem mais sábio. Ele sabia que não conhecia tais assuntos... disso ele sabia. Aqueles homens que tagarelavam sobre diversos assuntos que desconheciam somente para mostrar que sabiam, na verdade não sabiam sequer disso. A conclusão é que ele sabia ao menos uma coisa: que nada sabia, enquanto os outros desconheciam a própria ignorância. Logo, ele era realmente o mais sábio.

Ansie em ser contrariado. Só há ganho.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

FILÓSOFOS DEBATEM FAROESTE CABOCLO

AGATÃO: Este banquete tem como tema a questão ética e proporei como texto de estudo a música Faroeste caboclo, para que, a partir das situações vividas pelos personagens, possamos debater segundo vossas convicções.
(Os pensadores ouviram a música) 

ROUSSEAU: Encontro minha filosofia nesta narrativa. Acredito que o homem nasce bom e a vivência em sociedade o corrompe, porque desperta um desejo de competição que o leva a atitudes mesquinhas e pequenas. O primeiro verso deixa claro esta condição primitiva de bondade, pois não ter medo significa, nesta situação, não conhecer o mal. A morte do pai despertou em João de Santo Cristo um ódio pela vida e a visão de que todos eram seus inimigos. Esta inimizade, na humanidade, começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu!” e não houve ninguém com suficiente clareza para arrancar aquelas cercas. A partir daí cada qual passou a defender o que é seu, vizinhos se desentenderam, países guerrearam...

HOBBES: Falas, caro Rousseau, como se esta competição foi induzida por um fator externo, como o tiro que matou o pai do rapaz, por exemplo. Negativo! Estes sentimentos nascem conosco, pois não diferimos dos outros animais nesta questão. Digo que o homem é lobo do homem! Ao contrário do que dizes, o homem é naturalmente mau e a sociedade é quem cria mecanismos para educá-lo na virtude. João de Santo Cristo teve chances, quando criança e quando adulto, mas teimou sempre em ser lobo.

SÊNECA: Tudo seria muito mais tranquilo se João de Santo Cristo não lutasse tanto contra o seu destino. Ele viveria muito mais feliz se deixasse as coisas acontecerem naturalmente. A aceitação de sua condição, no mínimo, lhe traria paz para viver decentemente, trabalhando e, talvez, formando uma família.

AGOSTINHO: Faltou a todos os personagens a opção por Deus. A boa ação é aquela que nos aproxima de Deus e a má ação aquela que nos afasta Dele. Onde falta Deus brota o mal.

SARTRE: Penso que Rousseau e Hobbes erram quando falam em essência humana, pois primeiro existimos e a nossa essência - aquilo que somos - se forma a partir de nossas escolhas, o que quer dizer que não temos nenhuma natureza pré-existente, boa ou má. Também não existe destino como diz Sêneca, nós é quem o fizemos. E Deus, mesmo que existisse, não interferiria em nossas ações, porque somos condenados a ser livres.  Sozinho fiz o mal, sozinho inventei o bem. Não temos a quem culpar por nossas ações, pois somos pautados pela liberdade. Os personagens da história em questão agiram livremente, fizeram suas escolhas e suas ações não podem ser atribuídas a fatores externos, pois estes podem influenciar, mas jamais determinar as decisões pessoais.

AGOSTINHO: É o que chamo de livre-arbítrio...

SARTRE: É um contrassenso o que dizes. Uma liberdade pautada por uma força superior não é liberdade. Como posso ser livre se tenho que fazer a vontade desta força? Não existe meia liberdade. Não se pode ser meio livre, como não se pode ser meio morto.

NIETSCHE: E nem é a vontade deste Deus inventado, mas a vontade da Igreja de Agostinho que, influenciado pelas ideias racionalistas de Platão, teorizou um modo de amarrar as pessoas às normas e regras de conduta que atentam contra a natureza humana. Passaram a tudo proibir. Estamos condenando os personagens desta história sob a batuta destas regras estúpidas. Devo admitir que Maria Lúcia é a personalidade mais fraca, não pelas razões anteriormente expostas pelos colegas de banca, mas pelo fato de que ela vivia ao sabor dos desígnios dos outros personagens, não tinha amor próprio. Por outro lado, era justo o ódio de João de Santo Cristo e ele viveu intensamente até conhecê-la, entregando-se aos ditames da sociedade moralista, como formar família, com empreguinho e casamento.

HOBBES: O que estás a propor é a barbárie!  Como disse anteriormente, nascemos maus e se não houvesse uma lei que regulasse as ações, cada qual agiria conforme seu bem entender sem qualquer controle.

NIETZSCHE: O problema é justamente o controle. A única lei a ser seguida, deveria ser a lei natural, a lei do bem viver.

EPICURO: Bem viver é justamente o que faltou aos personagens. Como o fim último da vida é buscar o prazer através da tranquilidade da alma e da serenidade, devo concordar com Sêneca quando diz que João de Santo Cristo deveria esquecer o fato da morte de seu pai, a princípio, através do exercício do perdão. A agonia da cena guardada em seu coração se estendeu por toda a vida. Além do mais, ele desejava demais, quando poderia ser feliz com o que tinha e onde vivia.

NIETZSCHE: Perdão e piedade são para os fracos. O moralmente forte age segundo sua natureza. O ódio de João de Santo Cristo era justificável. Controlar os sentimentos é ir contra a lei natural e fraudar o que é puro e, portanto, bom.

ARISTÓTELES: Pois penso que a função da razão é justamente dominar as inclinações e as paixões. O bem viver é viver com equilíbrio, pois a virtude está no meio. Há duas formas de falhar: por excesso ou falta. Duelar com Jeremias não foi um ato de coragem - que seria a virtude – mas um ato temeroso – o vício por excesso.  João agiu emocionalmente pela ira. Jeremias, por sua vez, praticou a covardia ao atirar pelas costas – o vício por falta.

SÓCRATES: Só se erra por ignorância. O ser moral é o ser de conhecimento. Praticar o conhecimento é o bem agir. Os personagens em questão viveram à sombra de suas crenças, não procuraram a razão e nitidamente sofreram muito durante suas vidas. Seu conhecimento era, portanto, precário de verdade e sabedoria.

PLATÃO: Típico caso, se me permite o mestre interromper, de pessoas que vivem nas sombras da caverna. O medo do desconhecido os impediram de sair para fora e conhecer o verdadeiro mundo. Enquanto a alma era pura, como diz a música, João de Santo Cristo não tinha medo, o que equivale dizer que não conhecia o mal. O corpo, que habita o mundo sensível das aparências e enganos, através das experiências contaminou a alma, até então pura.

PROTÁGORAS: Pois penso que cada qual vivenciou sua experiência, conforme sua ética, seu modo de pensar e sua percepção particular de mundo. Cada qual aqui está julgando segundo o que acredita ser certo ou errado. O mundo existe conforme a visão de cada um e a vida e modo de viver se deu conforme as escolhas dos personagens. Quem disse que João ou Jeremias queriam vida e fim diferentes? Trocariam a curta vida que tiveram por uma vida longa sem emoção?

JONH STUART MILLS: Toda ação deve culminar em felicidade ao maior número possível de pessoas, mas tem que obrigatoriamente ser útil, pois os fins justificam os meios. Não vejo benefício algum, nem para os personagens, nem para a sociedade as decisões tomadas por eles. O único momento de boa decisão foi quando João de Santo Cristo resolveu trabalhar, constituir família com Maria Lúcia. Eles pareciam felizes e a sociedade ganhou com ele vivendo segundo as regras dela.

IMMANUEL KANT: Penso de forma contrária a Stuart Mills. Para mim não importam os resultados, mas a intenção do agente moral. Sêneca tem razão quando diz que não está em nossas mãos o controle  dos acontecimentos, pois às vezes queremos produzir algo e sai outro diferente. Temos culpa? Respondo que não, porque nossa intenção era boa. O final da música revela a intenção de Santo Cristo e era uma intenção boa, humanitária, que visava o bem social. Durante a música percebe-se que Santo Cristo sempre tenta fazer o melhor, mas algo sempre o desvirtuava do bom caminho.

NIETZSCHE: De boas intenções o inferno está cheio. O “bom caminho” que você se refere é o caminho dos padres, pastores e racionalistas. Gostam do Santo Cristo cordeirinho, enquadrado nos ditames de suas regras estúpidas que fazem as pessoas trocarem o bem viver pela prisão que estas normas e regras impõem.

DESCARTES: Como racionalista devo dizer que as paixões só levam a enganos e torturam a consciência. Concordo com Agostinho quando afirma que Deus e a Sua vontade são o direcionamento, a rota a seguir, pois ele é o Supremo Ser Pensante. Também concordo com Sócrates no que se refere ao conhecimento como elemento guia das ações. 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

FILOSOFIA DO DIA: 04 DE JANEIRO



04 DE JANEIRO


Resultado de imagem para frases de sócrates     Num tempo em que notícias falsas circulam abundantemente nas redes sociais, é difícil acreditar na verdade. O relativismo dá a cada qual o poder de ser dono da verdade, como se ela pudesse ser controlada. As verdades relativas transformam o que é ignorância em sabedoria, pois os que nada sabem se alçam a dar opiniões e os que conhecem determinado assunto se calam ao ouvir e ler descalabros ditos e escritos como se fossem verdades inspiradas pela bençãos divinas.

A falsa verdade vira fofoca, o que Sócrates tanto combateu, apresentando-nos uma fórmula: Dizia que sempre devemos utilizar três peneiras quando quisermos contar algo, sendo elas a VERDADE, a BONDADE e a UTILIDADE. 

Mesmo que for VERÍDICO o que temos a contar, ainda assim devemos verificar também se é BOM aquilo que for narrado. Então, por último estágio, verifica-se se vai ser ÚTIL o que há de se contar a outro.

Se passar pelas três peneiras, pode contar que é algo benéfico; senão, fique calado.


DICA DO DIA: Antes de falar ou postar algo na internet, faça passar pelo teste das três peneiras.

domingo, 8 de maio de 2016

SÓCRATES E O BEM VIVER


Viver é refletir



     “Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse:
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa...”

(Há Tempos – Renato Russo)


Na pista: Os que não se contentam com a forma, mas também com o conteúdo


      “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.”


“A vida sem reflexão é uma espécie de morte.”

“Tendo o mínimo de desejos chega-se mais perto dos deuses.”



SÓCRATES


          Platão e alguns amigos tentavam em vão convencer Sócrates a fugir da prisão. Financiariam sua fuga para longe de Atenas e financiariam também a subsistência dele e da família no exílio. Fariam de tudo para livrá-lo da iminente pena de morte que o julgamento o levaria na manhã seguinte, sob acusação de corromper a juventude e introduzir novos deuses na cidade, eliminando outros. O julgamento, segundo os amigos, era injusto, pois os inimigos de Sócrates usavam da retórica como convencimento para o condenar, sem se importar com a verdade, enquanto Sócrates, embora tivesse capacidade argumentativa maior que a deles todos, se recusava em assim proceder por respeito à sua filosofia. Seria condenado! Todavia, para Sócrates, seria uma morte em vida se procedesse tal como seus inimigos em sua defesa, pois a base de seu pensamento ético era a de que “uma vida sem exame não era digna de ser vivida”, ou seja, não conseguiria conviver com sua consciência se cedesse aos apelos de fuga engendrada por seus amigos. A coragem, uma das virtudes mais consideradas por Sócrates, estaria sendo negada por ele.

     - Pensem, meus amigos... Morrer é uma programação da natureza desde o momento em que nascemos. Vocês conhecem algum lugar em que se possa fugir da morte, que eu possa ir? Tenho 70 anos, daqui pra frente só vislumbro o declínio físico, a falta de memória e o declínio mental. Como arrastar minha família nesta fuga? E aos olhos de Atenas, não assinaria minha culpa se assim procedesse? E a coragem, uma das maiores virtudes que conheço, não estaria eu me afastando dela? Não estaria colocando vocês, meus amigos, numa enrascada, por me ajudarem? Viver bem nos leva a morrer bem! Não quero morrer exilado ou como alguém sem coragem que se renegou ao fazer um belo discurso em sua defesa. Fugir da morte é fácil, quer soldado sabe que basta sair correndo, difícil é fugir da maldade, pois ela é mais veloz que nós.

     - Mas todos sabemos que o faria justificadamente para defender-se de uma injustiça – Alegou Críton.
     - Se assim procedesse também eu, caro Críton, a exemplo de meus acusadores, estaria cometendo uma injustiça contra as leis da cidade. Ao fugir ou ao tentar ludibriar os julgadores em plenário estarei sendo injusto com Atenas. – Respondeu Sócrates.

     - Mas existe mal maior que ser vítima de uma injustiça? – Continuou Críton.

     - Sim! Ser o autor dela. – Respondeu Sócrates.

     Dito isto, os amigos de Sócrates, percebendo seu cansaço e o firme propósito de ir a juízo, resolveram se despedir daquele que tinham por mestre, mesmo que este nunca tenha se posto nesta posição. Sócrates ficou na cela em companhia de outro condenado, de nome Euclides. Um guarda veio lhes trazer comida, entregou primeiro a Euclides e, depois, ao entregar a Sócrates, deixou propositadamente cair no chão, cuspindo em seguida em direção a ela. Sócrates sabia que o soldado agira assim a mando de alguns de seus detratores. Euclides ficou espantado com a cena e ofereceu parte de sua ceia a Sócrates, que agradeceu, mas recusou dizendo não estar faminto.

     - Ainda se fosse comigo, que sou desonesto, eu entenderia o gesto deste guarda, mas não entendo por que agem assim com você, que busca sempre o bem... – Falou Euclides. Depois de uma pausa, continuou: Conheço este guarda, tenho algo para lhe contar sobre ele...

     - O que tens para me contar a respeito dele já passou pelas três peneiras? – Perguntou Sócrates, soltando as mãos da grade e virando-se para o companheiro de cela.
     - Peneiras? Como assim? – Quis saber Euclides.

     - É um filtro que se usa para quando se quer contar algo sobre alguém. É preciso peneirar a informação para que não se cometa nenhuma injustiça. A primeira peneira é a verdade. Certifique-se da veracidade dos fatos. Então passe para a segunda peneira que é a bondade, ou seja, é bom, positivo, o que você tem a contar? A terceira peneira é a utilidade, ou seja, o que você tem a contar traz algum benefício? Se o que você tem a contar é verdade, é bom e útil, me conte, senão, deixa pra lá... Que interesse eu deveria ter?

     - Não te interessa o que eu tenho a dizer sobre o guarda, que te fez o mal? Bom, então não vou contar que tem a ver com a esposa dele e outro homem... – Disse Euclides com sarcasmo.

Sócrates não conteve o sorriso com a malícia empregada por seu parceiro de cela.

     - Bem que me disseste, caro Euclides, que eras desonesto – Sócrates falou, gargalhando.

     - Mesmo depois do guarda te destratar, o defendes? És de outro mundo. – Continuou Euclides.

     - O fato de uma injustiça ser cometida contra mim, Euclides, não me dá o direito de cometê-la contra quem a cometeu primeiro. – Respondeu Sócrates.

      - Caro Sócrates, quero que saibas que aprendi mais contigo hoje, do que em toda a minha vida. – Concluiu Euclides.

     - Não aprendeu de mim, apenas se pôs a refletir e extraiu de si mesmo. Tudo já está aí, dentro de ti. O conhecimento é como um parto, algo que vem à luz, despertado por nosso diálogo... Falou Sócrates, utilizando o último fôlego de suas forças antes que o cansaço o fizesse dormir.

     Na manhã seguinte, o julgamento. Sócrates não escalou seus parentes para lamuriarem em frente aos juízes no intuito de comovê-los, nem outras estratégias comumente usadas para conseguir a absolvição. Pediu apenas que levassem em conta o conteúdo das palavras, das provas e o teor da denúncia, ao invés de se deixaram levar pela retórica rebuscada e artifícios outros de seus acusadores como Metelo, Ânito e Licon.

      Em sua defesa, Sócrates não parecia temer a morte e citou Aquiles que, mesmo alertado por sua mãe de que poderia morrer em sua vingança a Pátroco, preferiu o risco da morte que viver uma vida desonrada ao não cumprir um compromisso que julgava ser seu. Como Aquiles, Sócrates pensava também ele ter uma missão, um compromisso com a verdade. E não se afastaria deste compromisso por temer a sentença de morte. Por isso se negara a fugir como propuseram seus amigos e por isso não usaria em seu julgamento artifícios ilusórios para fugir da condenação, o que seria desonroso e contra sua filosofia.

     No fim, Sócrates, acusado por Metelo de ser um demônio, corruptor da juventude e ateu, foi condenado por 281 votos a 220 de um tribunal de 501 membros a tomar Cicuta, um veneno, caso não se retratasse frente a sociedade ateniense e deixasse de fazer as perguntas que costumava fazer e que tanto constrangia a todos. Assim, Sócrates resolveu agir com a coragem de Aquiles.

     - Antes de me encaminhar para o cumprimento da sentença, peço que cuidem de meus filhos e os repreendam se verificar que eles estão a tornar-se materialistas, pretensiosos ou inúteis... Aconselhou Sócrates.
Depois continuou:

     - Não se felicitem por terem se livrado de um perturbador. Minha condenação não os honra, pois há mais perda que ganho para Atenas com a morte de Sócrates. – Discursou ele na terceira pessoa.

      Sócrates se encaminhou para a sala onde haveria de ingerir o veneno. Acompanhado de seus seguidores e, diante da lamúria deles, continuou ensinando:

    - Não chorem pela minha morte, afinal, quem garante que a morte é necessariamente um mal? Vejo duas possibilidades: Se ela for um sono sem sonhos, em que a alma dorme com o corpo, melhor para os maus, que não sofrerão pena alguma após a morte e, para mim, que busquei o bem, tanto faz, pois estarei dormindo sem nada sentir. Se, por outro lado, a morte servir de passagem para uma outra vida, espero ansioso ser julgado pelos juízes da alma, os quais considero mais justos que aqueles que acabaram de me condenar, pois ao contrário deles, são deuses, eternos, imunes aos enganos. De qualquer forma, a morte para mim é um ganho, pois, avaliando fisicamente, só terei perdas a partir de agora, pois estou velho e, avaliando espiritualmente, os deuses me farão justiça ao sentenciar minha alma, pois vivi para a prática do bem e por isso morro bem...  Pois bem, é hora de ir: eu para morte, e vós para a vida. Quem de nós irá para o melhor lugar é obscuro a todos, menos a Deus.

      Então Sócrates bebeu da Cicuta e continuou a ensinar até que se viu diante da ponte de Hades...


     LIÇÕES DO MESTRE

Sócrates nunca se colocou na posição de mestre e esta era exatamente a posição inicial de sua filosofia ao dizer “só sei que nada sei”. Com a frase, Sócrates inicia sua posição contrária aos valores vigentes em sua época, sugerindo a troca da soberba dos vencedores pela humildade, por exemplo, como algo a ser atingido pelo ser humano virtuoso. A coragem, tão apreciada na Grécia, não podia ser vista a partir de uma vitória sobre o inimigo, mas a partir da vitória sobre o medo. A bravura não estava na vitória, mas na luta. O ideário preconizado por Dionísio, deus do vinho e da festa, que valorizava o emocional e as virtudes que partem deste ideário, deveriam ser trocadas pelo ideário de Apolo, deus da razão, e pelas virtudes oriundas dela. Em outras palavras, virtudes como compaixão, piedade, misericórdia, prudência, humildade, são consideradas hoje virtudes porque Sócrates as considerou como tal e nos ensinou a vivenciá-las em detrimento àquelas oriundas da paixão, tão valorizadas em sua época, na figura de Dionísio. Algumas figuras históricas, entre eles Jesus Cristo, continuaram a difundir este novo conceito de bem viver, onde a razão se sobrepõe à emoção como leme-guia de nossas ações. Então, Sócrates no convida a refletir. Diz que o mal existe por ignorância e que o conhecimento é o único caminho para a prática do bem e que o único jeito de chegar ao conhecimento é através da reflexão. No entanto, mais importante que o conhecimento é o auto-conhecimento, pois é ele quem valida o conhecimento, através de sua prática. Conhecer é fazer o bem! A máxima “só sei que nada sei” é trocada por “conhece-te a ti mesmo” nesta fase do processo. A grande contribuição de Sócrates, portanto, é de colocar um senso de dever em nossas ações ao dizer que quem conhece o mal não tem o direito de errar; em outras palavras, ele põe a mão na ferida dos poderosos de Atenas. Os mitos gregos contavam que bastava colocar as moedas nos olhos dos mortos para que o balseiro fisesse a travessia, Sócrates, porém, mostrou-lhes que haveria o julgamento dos deuses (ou Deus) e estes não podem ser comprados, pois os deuses atuam com a perfeita justiça. Não é pouca coisa, pois muda-se completamente o conceito de bem. A riqueza, por exemplo, passa a valer menos que a bondade, pois como Sócrates disse: “É fácil fugir da morte (ou de um compromisso) qualquer soldado sabe que basta sair correndo, mas não podemos fugir da maldade, porque a maldade é mais veloz que nós.” Em outras palavras, como não há jeito de fugir da maldade, é nosso dever enfrentá-la e vencê-la, já que a outra opção é se entregar a ela. É fácil praticar o mal, difícil é praticar o bem. Praticar o bem significa deixar de lado algumas práticas voltadas para a riqueza e prazeres deste mundo e passageiras para impor à vida de cada pessoa um senso de consciência de ações voltadas para virtudes duradouras como prudência, serenidade, amorosidade… E quem julgaria esta vivência? Os deuses (ou Deus), que levariam em conta não a hierarquia social ocupada ou a riqueza conquistada, mas os atributos pessoais. Os poderosos de Atenas não aceitaram esta nova visão. Acusaram Sócrates de corromper a juventude com seu discurso e o impuseram a escolha entre renunciar sua visão ou morrer. Como um soldado que não foge de sua missão, Sócrates preferiu a coragem à covardia, preferiu enfrentar a maldade e vencê-la dentro de si do que fugir dela, preferiu a morte honrada em defesa da verdade, que a vida desonrada pela covardia.



Na Pista do Dj Sócrates

Sócrates é do tipo de Dj que gosta de música com letra bem acabada e traga consigo não somente o ritmo, mas também privilegie a reflexão. Gosta daquelas que cutucam nas feridas sociais e pessoais.

O som começaria talvez, com a música “Admirável Gado Novo” que fala de um “povo marcado” indo pro abate, porque não reflete e não contesta sua sina.

Depois entraria com “Televisão”, da Rita Lee cantando: “A televisão me deixou burra, muito burra demais. E agora todos os sons me parecem iguais”.

Paralamas do Sucesso teriam lugar com músicas como “O Beco” e “Alagados”, assim como Engenheiros do Hawaii e sua “Toda Forma de Poder”.

Chegaria a vez de Gabriel, o pensador, mais pelas perguntas que pelas respostas, como é o caso da música “Até Quando?” em que diz: “Até quando você vai ficar usando rédea? Rindo da própria tragédia?” Também estaria na lista “Lavagem cerebral” e “Pra Onde Vai?” , além de “Fé na Luta” que diz: “Hoje eu vim pra te mostrar que o bem é mais forte que o mal”.

As grandes estrelas da noite seriam Chico Buarque e Milton Nascimento.

quinta-feira, 7 de abril de 2016


O ESPELHO

Dia destes, vendo um filme de época, reparei que havia um desses espelhos que giram em que o outro lado é opaco.

Fiquei pensando: por que giram se o outro lado é inútil?

Ora, espelhos servem para que tenhamos a oportunidade de corrigir alguns detalhes fora do lugar; um fio de cabelo rebelde, sobrancelhas desalinhadas, verificar a silhueta e a combinação das roupas, assim como nos propor a fazer uma dieta que começará na segunda-feira seguinte.

Isto remete meu pensamento à uma frase muito comum de ser dita ou escrita, principalmente no facebook: “Não me interessa o que os outros pensam ou falam de mim”.

Penso que deveria! Não porque deve seguir os outros, mas como uma oportunidade de olhar para dentro de si. Até por que ninguém diz “não me interessa o que pensam de mim” respondendo a um elogio. Geralmente nós a dizemos como uma afronta, de forma orgulhosa, com a mão na cintura, corpo levemente inclinado e olhos esbugalhados… Se tal opinião for dada por uma pessoa, tipo a vizinha fofoqueira, deve ser realmente ignorada, mas quando 20, 30, 100 pessoas dizem o mesmo, aproveite e a utilize como um espelho.

Foi então que entendi a função do outro lado do espelho que gira: quando a gente não gosta do que vê, a gente simplesmente gira de lado e zupt, tudo sai de nossos olhos como um passe de mágica.

É como dizer “não interessa a opinião do espelho sobre mim”.

Não faça da opinião que tenham sobre você um espelho que gira; antes, aproveite para fazer os retoques possíveis e não espere para segunda-feira.


Como Sócrates disse: Conhece-te a ti mesmo!


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 9 : A origem da vida

        AGATÃO: Vamos começar este simpósio refletindo sobre a primeira das indagações: Como surgiu a vida?


    HERÁCLITO: Deve ter havido um elemento primeiro que deu origem a todos os outros. Pitágoras, por exemplo, acreditava ser a água, Demócrito dizia existir partículas indivisíveis denominadas átomos. Outras teses de outros filósofos foram apresentadas e eu acredito ser o FOGO este princípio, porque sua chama é a representação viva da transitoriedade da vida, porque tudo nasce, cresce e morre. Assim é o fogo! Ora está mais aceso, ora mais apagado, até que fenece quando não é mais alimentado. Tudo é transitório, o rio em que você se banhou ontem, já não é mais o mesmo se hoje entrar nele, já não será mais a mesma água.



PARMÊNIDES: Tolice o que dizes! O ser, aquilo que existe, é permanente e imutável.  O ser é e o não ser não é. O ser é desde sempre e sempre será, pois água é água e aspectos como sujeira, cor e temperatura são transitórios e não mudam o fato de que água é agua. O que dá qualidade de existência à água é a sua essência. A água de hoje será a mesma de amanhã, como a água de um copo é a mesma de outro, pois o que importa é sua essência.

          

HERÁCLITO: O mundo existe pela força dos contrários, ora é água quente, ora a água é fria. É o movimento dentro do que permanece.

PARMÊNIDES: Ainda assim será água, eterna e imutável enquanto tal. Quente e frio são atributos passageiros...

 KANT: Sobre o fogo, considero uma teoria interessante, pois suas duas atribuições básicas, luz e calor, são substâncias próprias de uma matéria sutil e elástica uniformemente difusa, que é por onde os corpos agem uns sobre os outros. Deste movimento formou-se a vida.
          

ZENÃO DE CÍTIO: Penso que uma Mente Criadora  fez tudo perfeitamente em seu devido lugar, cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos. Se tudo está perfeitamente posto não há porque agirmos contrariamente a eles. Vamos simplesmente aproveitar as benfeitorias da natureza.


SANTO AGOSTINHO: Pois eu acredito que Este princípio criador é Deus, onipresente e onisciente, Aquele que tudo criou...
          

ARISTÓTELES: É uma ideia plausível, a de um Deus único... Tudo o que foi gerado no mundo possui uma causa, pois nada pode existir se algo não lhe causar ou não criar tal existência. Todavia, há que existir uma causa primeira que causou todas as outras sem ser causada, a quem dei o nome de Primeiro Motor Imóvel. Ele é o supremo bem e a suprema beleza e funciona como um imã a atrair todos os outros seres, pois todos os seres são atraídos pela ideia do bem e da beleza. Ele é o ser de Demócrito, eterno e imutável; e talvez seja o Deus de Agostinho. Todas as outras coisas são passageiras como diz Heráclito.


PLATÃO: Meu querido discípulo, sempre mediando conflitos! Acredito que existam dois mundos distintos: o mundos das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias é representado pela alma e o mundo sensível pelo corpo. O primeiro é imutável e permanente, o segundo é transitório e passível de enganos. Para cada ser existente no mundo sensível, há um outro, perfeito e belo, no mundo das ideias. Os seres do mundo sensível são, portanto, cópias imperfeitas do mundo das ideias.
          
HUSSERL: Penso que mais importante que saber a origem das coisas é compreender o mundo.
          
PROTÁGORAS: Concordo com Husserl. Não se discute a existência ou não das coisas, nem sua origem, mas a sua relação com o homem e a forma como este as percebem.
          
SÓCRATES: O importante é conhecermos a essência das coisas...
          
JEAN-PAUL SARTRE: A essência não é tão importante quanto existir, pois nascemos do absurdo, do nada, e para o nada voltaremos. De todos que falaram até agora o mais sensato foi Heráclito, pois a transitoriedade é fato consumado, tudo nasce e morre. Não existe uma força criadora, o ser só é enquanto existe e não há essência pré-determinada nos seres. Se assim fosse, não existiria liberdade, esta sim, nossa única condenação.
          
SÓCRATES: Pode o nada criar algo? O que é o nada? Afirmar que somos gerados do nada, não seria uma forma de misticismo passivo? Acredito que devemos procurar a verdade para encontrar esta essência criadora. Você, Sartre, parece tê-la encontrado, a seu modo, quando afirma que a liberdade é nossa condenação. Talvez seja a liberdade a nossa essência, embora esta afirmação ainda careça uma averiguação mais profunda.
         
SARTRE: Volto a afirmar, não temos uma força criadora e, portanto, não temos uma essência que exista antes de nós. Nossa essência se formará conforme nossas escolhas, somos frutos delas e livres para fazer o que quisermos, estamos aí como obra do acaso. Ela própria, a essência, é mutante; muda por escolha nossa.
          
SÓCRATES: Vou aceitar, para efeitos de raciocínio, que a liberdade seja comum a todos indistintamente e nossa primeira atribuição. Nesse caso, estaria aí a nossa essência?
          
SARTRE: Agora a falácia é sua, parece um sofista! Se há uma essência, estamos presos umbilicalmente a ela. Nesse caso, como pode haver liberdade? Seria uma contradição.
           
ARISTÓTELES: Não há provas, caro Sócrates, de que a liberdade seja universal e que exista plenamente; e mesmo que exista, há outras atribuições comuns a todos os homens que estão em sua essência, como a racionalidade por exemplo.
          
SARTRE: A liberdade só existe se for plena, não se é meio-livre, como não se pode ser meio-morto.
          
SÓCRATES: Então, acabas de aceitar que a liberdade possui como atribuições a universalidade – já que é comum a todos - e a imutabilidade. Estás rejeitando, nesse caso, a transitoriedade de Heráclito, a quem elogiou.
          
SARTRE: Ao contrário, é justamente a liberdade quem nos dá a possibilidade e garantia do transitório, pois através dela escolhemos ser ou deixar de ser.
         
ROUSSEAU: Os homens nasceram livres e por toda a parte estão aguilhoados. A liberdade é parte da essência do ser humano. Foi o próprio homem quem, através de suas ações mesquinhas e egoístas, fez-se preso.
          

SANTO AGOSTINHO: Essa liberdade vem de Deus, que nos deu o livre-arbítrio.
         
NIETZSCHE: Se por todos os lados só existam homens acorrentados, como afirmou Rousseau; e a liberdade vem de Deus, como afirmou Agostinho; onde está a autoridade divina? Como este Deus, que deu a liberdade, deixou que lhe fosse tirada? Um Deus sem autoridade é um Deus fraco e um Deus fraco não sobrevive! Então, devo declarar: Deus está morto!
        
DESCARTES: É óbvio que existe Deus, o único e incontestável Ser Perfeito. A primeira prova é a de que temos uma ideia de perfeição e, como seres imperfeitos,  não poderíamos tê-la sem que algo perfeito a impusesse a nós. Outra prova de Sua existência é que se nós - que temos a ideia do que é perfeito - tivéssemos criados a nós mesmos, teríamos nos feito perfeitos. Além do mais, o imperfeito não pode criar algo perfeito, pois não está ao seu alcance. Então, apenas alguém perfeito pode ter criado a tudo perfeitamente e Este Ser é Deus.
          
NIETZSCHE: Não foi Deus quem nos criou, fomos nós quem o criamos. Desde que a razão passou a comandar nossas ações, impondo-nos regras e violentando nossa vontade, houve a necessidade da presença de um Deus forte e opressor, a fim de nos causar medo e garantir que cumpríssemos com as regras estúpidas da razão.
         
HERÁCLITO: Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro tal qual o fogo misturado aos aromas; ele é a força dos contrários, chamado como melhor agradar a cada um.
         
AGATÃO: Este é realmente um tema de complicada resolução, pois possui muitas nuances e questões intransponíveis, como a fé, por exemplo. 












quinta-feira, 14 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 8 : Conhecimento

AGATÃO: Acredito que na questão do conhecimento as opiniões também sejam contraditórias. Afinal, a tarefa de conhecer cabe à razão ou surge da experiência?



DESCARTES: Partimos do princípio de que um conhecimento, para tratar-se como tal, deva ser verdadeiro, pois um elemento falso não pode possuir status de conhecimento. As sensações e emoções não têm a capacidade de adquirir tal estatura, pois são passíveis de enganos e só com o uso da razão se pode chegar ao conhecimento verdadeiro. Por isso proponho o método cartesiano, algo que não possa ser refutado, nem posto em dúvida. Assim, façamos o exercício de tudo duvidar: de Deus, deste diálogo, até mesmo de nossa existência; chegaremos a conclusão de que uma coisa não pode haver dúvida: a de que estamos duvidando. Ora, se estamos duvidando, estamos pensando; e se estamos pensando, obviamente estamos vivos; ou seja, existimos. E não é a experiência quem nos dá esta prova, mas o ato de pensar, que é próprio da razão; então, só a razão é que nos dá a certeza de que o conhecimento que nos chega é verdadeiro, pois o conhecimento que nos chega pela emoção é incerto.


DAVID HUME: Pois eu penso que todo conhecimento obrigatoriamente passa pela experiência. A razão nos dá noção, propicia cálculos mentais, mas a experiência retrata com fidelidade o conhecimento, pois os sentidos e as emoções são vivos e intensos, enquanto que a razão é abstrata, não é concreta, tornando o conhecimento idealizado, tirando sua capacidade real. A razão é, e só pode ser, escrava das paixões; só pode pretender ao papel de as servir e obedecer a elas. Não contraria a razão preferir a destruição do mundo inteiro a um arranhão no meu dedo, pois o que passa ao largo de meus sentidos, mesmo que grandioso, para mim é menos conhecido que algo pequeno que eu tenha vivenciado.

DESCARTES: Se tomarmos o eclipse solar e fiar-nos no que nos informa os olhos tão somente, chegaremos à conclusão que a lua é maior que o sol, pois o tapa totalmente, o que sabemos não ser verdade. É a razão quem nos informa sobre a distância, corrigindo um conhecimento falso dado pelos olhos, em um conhecimento verdadeiro.

DAVID HUME: Todavia, se eu lhe der um beliscão, é você quem conhecerá verdadeiramente a dor produzida, os demais presentes poderão ter apenas uma noção, uma abstração... 

KANT: Penso que ambos, razão e experiência, são meios de conhecimento, cada qual com sua importância. Existem conhecimentos a priori, que são aqueles conhecimentos pré-existentes em nós, como alguns instintos, por exemplo, ligados à razão, em que não precisamos passar por experiência para adquirí-los, pois nascemos com eles. Outrossim, existem os conhecimentos a posteriori, que são aqueles que adquirimos com a vivência, nascidos da experiência. 

SÓCRATES: Só sei que nada sei, e quanto mais sei, mais sei que nada sei. Este é o princípio de minha filosofia, pois parto da ideia de que a busca do conhecimento é o início de uma vida virtuosa, que aparece ao afastarmos da ignorância. Esta tarefa cabe à razão, pois a emoção nos deixa próximos dos mitos e dos falsos conhecimentos. É pela razão que refletimos o bem que há em nós e conhecer-se a si mesmo é o primeiro passo.

PLATÃO: Somos corpo e alma, o sensível e o inteligível. O verdadeiro conhecimento é o conhecimento da alma que, habitando o mundo das ideias conheceu o que é perfeito e imutável: a verdade, o justo, o belo... Já o conhecimento advindo das sensações podem nos levar a um falso conhecimento, pois são conhecimentos passageiros, sem a certeza que precisamos.


PROTÁGORAS: Não existem conhecimentos nem verdades imutáveis, meu caro Platão, pois tudo é relativo e o conhecimento se dá conforme cada ser pensante. Também não podemos conhecer tudo, pois nossa capacidade de conhecimento é limitada, assim, cada um possui a verdade que sua capacidade individual alcança, seja através das experiências, seja através da abstração racional.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 7 - A Verdade

AGATÃO: Vendo-os falar com ideias tão contraditórias, com tão bons argumentos, fiquei refletindo sobre a verdade. Será que existe uma verdade única?


PROTÁGORAS: Se há ideias tão contraditórias, caro Agatão, é porque não existe uma verdade única, pois tudo é relativo. O que é certo em uma cultura, pode ser errado em outra; o que é nobre em um tempo, pode ser motivo de vergonha em outro; e o que é aceito em um lugar, pode ser rejeitado em outro. A única verdade existente na verdade universal é a sua tirania.


SÓCRATES: Pois eu penso que devemos buscar a verdade nas coisas. Não podemos ser justos, se não soubermos definir o que é justiça; não podemos amar, se não soubermos o que é amor; nem lutar, se não soubermos o que é coragem. De nada valerá a afeição do povo por um governante, se este não for justo; pois será uma afeição advinda de um falso julgamento, assim acontece com o amor de uma esposa por seu marido, se este a trai; e de nada vale a um General vencer uma batalha, se ele é um covarde atrás de um grande exército, a glória de sua vitória é falsa. Assim acontece com as verdades relativas, meras opiniões sem um julgamento preciso.

KANT: Se a vida é subjetiva, a verdade também deve sê-la. A verdade universal nos leva ao dogmatismo e a verdade relativa, por outro lado, ao ceticismo. Ambos são extremos perigosos, pois nem tudo pode ser dado como certeza, assim como nem tudo deva ser duvidado. A investigação, portanto, nos dirá o que é certo e o que é errado. A questão de Deus, por exemplo, não temos como saber, através da razão, que Ele exista. É a fé quem responde a esta questão, mas a fé é subjetiva, tornando Deus uma verdade subjetiva, pois neste caso não importa a existência de Deus, mas o bem que me faz ao acreditar em sua existência. Então, a verdade é subjetiva, pois existem conhecimentos inatos e conhecimentos posteriores, verdades da razão e verdades da fé.

MAQUIAVEL: Então estás dizendo Kant, que a fé que tens em Deus é muito mais por utilidade do que por crença real. Parece uma ideia contraditória à sua própria tese de verdade subjetiva, tornando-a utilitalista. Por isto defendo a verdade efetiva, pois todos vêem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é. A verdade efetiva é uma realidade fora da subjetividade, que despreza as intenções divinas, o sobrenatural, os fatalismos e os imperativos, trabalhando com o real.

PLATÃO: A verdade está ligada à razão e não pode seguir o subjetivismo de Kant, nem o relativismo de Protágoras, porque são dotadas de enganos; tampouco deve ser efetiva, pois o utilitarismo trazido por ela é pérfido e mal, já que não repudia as más intenções. A verdade se encontra no interior da alma de cada um e é comum a todos, pois todas as almas conhecem a mesma verdade. Então, como Sócrates, acredito que a verdade existe e deva emergir através da reflexão racional.

NIETZSCHE: A verdade não existe! É uma abstração, ideias formadas por quem detém o poder e as impõem aos outros como algo que deva ser a realidade dos fatos e ações. Vejam as verdades dos racionalistas, servem para legitimar suas regras e, por conseguinte, seu poder sem que sejam questionados. Por muitos séculos, as ditas verdades bíblicas autorizaram a Igreja a produzirem atrocidades. No final, são os vencedores quem contam a história. Só sei que não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.

MARX: Neste ponto concordo com Nietzsche. A verdade é um contigenciamento histórico entre os atores sociais e deste embate surge uma ideia vencedora, sendo ela a verdade. A força, portanto, deixa a história mal contada, uma vez que apenas uma parte é tida como verdadeira, pois as ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. 


SARTRE: Concordo que a verdade seja subjetiva, pois ela é dada pelo sujeito que pensa, não havendo, portanto, uma verdade em essência. Qual é a essência da verdade?  O que existe é uma ideia que se coloca como superior à outra atribuindo-se a si mesma como verdadeira. Por exemplo: não existe “marginal em essência” como não existe “gente honesta em essência”, estas são atribuições dadas por uma verdade extraída de uma dada ideia que dá a uma pessoa a qualidade de desonesta e, a outra, honesta.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 6 - Essência Humana

AGATÃO: E a essência humana. Nascemos bons ou maus?


ROUSSEAU: Todos nascemos com princípios inatos de justiça e do bem. Se, por exemplo, formos colocados em uma ilha ao nascer e cuidados por um tutor, permaneceremos livres das necessidades e dos vícios que ela trás. Ao estar na sociedade, a presença de nosso espelho, que é o outro ser humano, cria em nós um sentimento de competição; surgem a vaidade, o egoísmo, o orgulho, a intolelância, o ódio, o medo e outros sentimentos que nos colocam uns contra os outros. Em outras palavras, a sociedade corrompe o indivíduo, disvirtua o que tem de bom. O mal teve início com a criação da sociedade civil, que por sua vez foi criada no instante em que um indivíduo cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu” e faltou alguém que arrancasse aquelas cercas e dissesse para os outros não acreditarem naquele tolo. 



HOBBES: Contrariando Rousseau, penso que o homem nasce mau e a sociedade cria mecanismos para educá-lo na prática do bem. Todo ser humano é egoísta por natureza, um competidor, pois o homem é lobo do homem; e desde a mais tenra idade, primeiro com os pais, depois com a lei, é controlado pela sociedade a não praticar atos maus. Assim, não é por sua vontade natural que busca fazer o bem, mas por necessidade que a sociedade impõe como dever.



SARTRE: Não existe essência humana pré-determinada. A existência precede a essência, ou seja, ao nascer não somos nem bons, nem maus, nem autruístas, nem egoístas. Apenas somos… movidos pela liberdade que temos de escolher, influenciados pela dinâmica psico-social, mas ainda assim responsáveis por aquilo que escolhemos. E não temos a quem culpar, pois se não temos uma natureza humana pré-existente, nada nos determina, seja lá o que fizermos será por nossa conta e risco.



AGOSTINHO: Nossa essência é o Espírito de Deus, pois somos sua imagem e semelhança. Então, somos bons por natureza e esta bondade vem do Divino. Mas também temos responsabilidade por nossas decisões como as apontadas por Sartre: é o livre-arbítrio dado por Deus. Através dele decidimos se aceitamos ou não seguir o que é bom. Deus fez tudo perfeito e bom, nossas decisões erradas é que nos afasta do bem e, consequentemente, da divindade.



SARTRE: Quando eu falo em liberdade, Agostinho, não falo em escolher um caminho, pois se há algo posto para seguir ou meta a cumprir, não há liberdade.



SÓCRATES: Tudo possui essência. A própria liberdade, a bondade, a justiça são dotadas de essências próprias que devam ser descobertas pelo exercício da reflexão e são elas referências esssenciais do ser humano. Todavia, elas precisam ser abstraídas pelo exercício contante da busca do conhecimento de si mesmo fugindo da ignorância, que é o mal. Só se erra por ignorância.



PARMÊNIDES: Concordo com Sócrates de que existe essência e acrescento que ela é imutável. Tanto o mal, quanto o bem, são o que são e não mudam. O ser humano é o que é e o mal e o bem que praticam são transitórios, qualificações passageiras, pois ele continua humano independentemente da ação que pratica. Assim, não existe ser humano bom ou ser humano mau, mas existem estas três coisas separadas que são eternas e imutáveis: ser humano, bem e mal.


HERÁCLITO: Não concordo, pois vejo que tudo é movimento, tudo flui. Sartre disse bem quando negou a essência imutável. A essência humana não pode ser classificada como boa ou má, uma vez que a ação praticada, o meu agir, é que vai dar tal conotação. O que é bom hoje, amanhã pode ser mau. Ninguém pode ser bom ou mau o tempo todo.


Reunião de Filósofos 5 - Razão e Emoção

AGATÃO: Vendo os senhores neste debate ferrenho, pergunto sobre quem deve pautar nossa ação, a razão ou a emoção?


PLATÃO: Com certeza nossas ações devem estar pautadas pela razão. Agir emocionalmente é um erro, pois os sentidos podem nos levar aos enganos e enganos não servem. As paixões não podem determinar nossas ações, uma vez que quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama. Então, toda ação boa provém da razão por um simples motivo: Não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal.




NIETZSCHE: Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem o do mal, pois a verdade está naquilo que se sente e não naquilo que nos obrigam a sentir. A razão é anti-natural na medida em que oprime nossa vontade, esta sim guia natural de nossas ações. Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície. Platão é um desses homens que frustra a humanidade, tirando dela a vontade de viver em nome de um suposto controle e equilíbrio, que na verdade não passa de tristeza, opressão e melancolia. O que dá vida é o corpo, os sentidos, as paixões..., não uma razão idealizada.



PLATÃO: O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê. Nietzsche fala que devemos viver entregues aos sentidos, pois eu digo: Viva como prega Nietzsche e em breve não terá corpo para sentir. Vencer a si próprio é a maior das vitórias e vencer a si próprio é vencer suas ambições. O homem ambicioso é um homem mau e riqueza alguma poderá proporcionar a paz a um homem mau, pois não permitirá a paz a consciência que é nossa instrutora natural e não anti-natural como quer dizer Nietzsche. E a consciência é própria da razão e é por isso que o homem retrata-se inteiramente na alma; para saber o que deve fazer, deve olhar-se na inteligência, nessa parte da alma na qual fulge um raio da sabedoria divina.



NIETZSCHE: Sabedoria divina? Como a razão não é suficiente para convencer as pessoas a desistirem de viver sua vontade em potência, apelam para a consciência e sabedoria divinas. A opressão não é apenas racional, mas ditada pela força opressora de um Deus. Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida, por culpa dessa opressão moralizadora.



SÓCRATES: Sei que Nietzsche me acusa de promover a queda do modelo dionisíaco de celebração aos mitos, por ver neles o humano verdadeiro e natural. Entretanto, verdadeiros e naturais também são os animais, mas estes não possuem a racionalidade e a consciência. Nós, por possuí-las e diferenciarmos por tê-las, devemos nos guiar à luz de seus ditames, que é o que nos levam à virtude. Aos animais, por não terem consciência e racionalidade que os guie, é natural que ajam pelo instinto, contrário senso, é natural que ajamos racionalmente, por sermos dotados de razão.



SARTRE: Como Nietszche, penso que por sermos livres, também devemos agir de livre vontade , no entanto, posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me, tudo isso não passa de uma manifestação de uma opção mais original, mais espontânea do que aquilo a que se chama vontade. Então, liberdade é escolha e escolher é uma tarefa racional, assim, às vezes não somos o homem de nossa vontade, mas da vontade dos outros por escolha própria. A emoção é o querer e o querer está atrelado à consciência, posto que a decisão é sempre racional; e seja o que escolhermos, é decisão livre escolher entre a vontade e a consciência, pois no ponto de partida, não pode haver outra verdade além desta: «penso, logo existo», como afirma Descartes, esta é a verdade absoluta da consciência alcançando-se a si mesma. 



DESCARTES: Com toda certeza a ação deve ser guiada pela razão, pois basta ajuizar bem para agir bem. As paixões são boas por natureza e nós só temos que evitar seu mau uso e seus excessos, o que é propiciado pela razão. Então, se é a razão senhora da decisão é ela quem determina como deve proceder a boa ação, os sentidos são instrumentos, meios que uso para ter prazer e ser feliz. É com a emoção que eu sinto, mas é com a razão que eu decido. 



DIÓGENES: A emoção está ligada aos instintos e isso é bom, mas como disse antes a emoção trás consigo o perigo da ambição desmedida. Eu mesmo já caí em tentação ao luxo e à riqueza quando cunhei moedas falsas em minha juventude, o que foi um erro. A razão, por sua vez, deixa o mundo enquadrado em seus ditames e regras. Penso que devamos aproveitar o que há de melhor em cada caso, agir com liberdade e retirar o que nos oprime. Viver com a natureza e aproveitar o que ela nos dá a cada dia.



ARISTÓTELES: Concordo com Descartes, pois a razão tem o propósito de dominar as paixões e suas inclinações desmedidas, conduzindo-as a um termo equilibrado. A sabedoria está no meio. Então, deve-se viver os sabores que as sensações promovem, mas sempre tendo por guia a razão.


DAVID HUME: Concordo com Aristóteles e gostaria de acrescentar que nossa natureza trás consigo uma diversidade de fatores que limitam nosso agir pela influência determinante que possuem sobre nós. São fatores biológicos, sociológicos, históricos, etc… que influenciam algumas escolhas e formas de pensar. Existe um embate entre a vontade e a resistência. As sensações criam necessidades que devam ser vencidas: do ponto de vista social, por exemplo, a necessidade se mostra ao querer buscar um padrão social mais distinto; do ponto de vista físico, um corpo perfeito; tudo motivado por um padrão. Então não existe uma simples supremacia da razão sobre a emoção, é uma construção que se dá entre o ser bio-psico-histórico – com seus atributos e medos – e o ente racional.