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domingo, 13 de novembro de 2016

NIETZSCHE E O BEM VIVER


VIVER É SENTIR

"...E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra..."

(A Cura - Lulu Santos)



              Nietzsche expôs para os alunos uma pequena perereca que havia capturado em um banhado próximo da escola. Alguns alunos próximos levaram um susto ao avistarem o animal saltar, provavelmente em busca de um local onde se sentisse mais confortável.

              - Por que salta e se esconde a perereca? – Perguntou Nietzsche.

              - Está assustada com nossa presença, por certo – Respondeu um dos alunos.

              - A perereca, aqui, está em seu ambiente natural? – Voltou a perguntar.

              - Nãaaaaaaaaao! – Responderam em coro.
       
              - Pois bem, jovens, ouçam o que eu tenho a dizer. – Continuou Nietzsche – Nós somos como esta perereca nesta sala, pois vivemos fora do lugar. Desde que Sócrates impôs ao mundo uma forma de viver invertida é que nós nos pusemos presos a regras e conceitos que nos deixam infelizes, amargos, tristes e diminuídos em nosso potencial. O racionalismo e, sobretudo, o cristianismo, com sua ética torta e virtudes controversas, obrigam a todos a viverem contrariamente à nossa natureza...

              - E o que a perereca tem a ver com isso – Perguntou outro aluno, levantando o braço.

              - Bom, nesta alegoria, eu, ao tirá-la do habitat, sou a moral racionalista e cristã que obriga a perereca a viver num ambiente que não é o seu, as pessoas são a perereca, o banhado é a emoção e, a sala de aula, a razão. A perereca vivia bem no banhado, mas eu a tirei de lá e a trouxe para a sala de aula, um ambiente hostil a ela. Comparando, estou demonstrando que a moral racionalista e cristã obrigam as pessoas a viverem num ambiente que não é seu. Bom seria viver segundo a emoção, que é onde estão as nossas verdadeiras virtudes.

              - Por que dizes que é na emoção que estão as verdadeiras virtudes – Perguntou um terceiro aluno.

              - Por que a emoção não nos obriga a fazer o que não queremos, nem nos culpa quando fazemos algo que queremos. A razão nos impõe culpa quando isto acontece, seja por fazer algo ou deixar de fazer, porque possui regras que limitam nosso potencial humano e nos impõe obrigações...


              Percebendo que os alunos estavam ainda confusos, Nietzsche resolveu contar-lhes uma história.

              - Vou dar-lhes um exemplo: Um homem ia se despedir de um amigo numa outra cidade, porque este partiria para uma terra distante. Acontece que encontra outro homem, conhecido seu, já morto à beira do caminho. A consciência social, ou a norma vigente é a de que o morto deva ser enterrado no túmulo da família que se encontrava em sua cidade e cabia a quem o encontrasse levá-lo até lá. Nosso caminhante se viu num dilema: Cumprir com sua missão junto à sociedade, voltando o percurso e atrasando a viagem, agindo assim conforme manda as normas sociais arriscando nunca mais ver o seu amigo; ou ignorar o homem morto e seguir caminho. Sua consciência fez com que levasse o homem morto nas costas até a família. Isto de fato atrasou a viagem e tirou dele a possibilidade de se despedir do amigo e não mais o veria. O que vocês pensam, agiu com correção o homem?

              Os alunos assentiram afirmativamente meneando a cabeça. Não houve entre eles exceção alguma, então Nietzsche voltou a falar:

              - Nesta história, devo adverti-los, não está registrado o sentimento do homem. A perda da oportunidade de se despedir do amigo causou nele ódio, repulsa, tristeza, amargura... Cumpriu com os valores postos em sua consciência, mas e quanto à sua felicidade? Alguns podem dizer que a felicidade está no fato de ter cumprido sua missão junto ao morto e sua família, mas é uma felicidade falsa, pois não foi uma decisão livre, mas obrigada pela consciência.

              Ao terminar de falar, tocou o sinal de fim de aula. Então liberou os alunos e foi catar a perereca num canto da sala a fim de devolvê-la ao seu habitat. Pensava consigo: “Desculpe amiguinha o medo que lhe impus. Mas não se vitimize tanto, a humanidade vive isso desde que criou normas e regras racionalistas. Não se preocupe, vou devolvê-la ao banhado”.
          
              Foi quando olhou para a porta e viu que seu amigo, Pe. Schuler, entrara na sala carregando sua grande batina preta. Aproximaram-se e o abraço fez Nietzsche ficar escondido dentro da batina e do abraço.

              - Veio se confessar? – Perguntou Nietzsche provocando o amigo.

              - Na verdade sim. Uma paroquiana vem me assediando há tempos e estou propenso a ceder à tentação. Não sei mais o que fazer, pois tenho que cumprir os votos que fiz a Deus.

              - Eu resolveria isto fácil, bem sabes, pois não acredito em Deus. No entanto, tu acreditas e devo respeitar isso. Devo dizer-te algo: teu voto não foi para Deus, foi para a igreja e os homens. Afinal, teu Deus proíbe o sexo? – Perguntou Nietzsche.

              - Lógico que não. – Respondeu o padre

              - Então, se o teu voto de abstinência de sexo foi para Deus e ele não o proíbe, por que proíbes a ti mesmo o que Deus não proíbe, dizendo que o fazes em nome Dele? Não faz sentido algum. O voto é um peso que Deus, caso exista, certamente não quer que carregues, pois um Deus verdadeiro haveria de querer-te feliz e não frustrado. Provavelmente, este Deus não exigiria louvores e obediência, do contrário seria um Deus mau. Já te disse em outras oportunidades: Desconfio de um Deus que não dança. – Concluiu Nietzsche.

              - A velha história do homem que carrega outro já morto nas costas... – Analisou o padre – Ainda a contas aos alunos?

              - Sim. Acabei de contar a eles. – Confessou o professor.

              - vejo que está com a perereca também...

              - Estava agora indo ao banhado devolvê-la ao seu lugar. Lá ela é feliz.

              - Quer saber – respondeu o padre – penso que tens razão...

              - Não – corrigiu Nietzsche brincando – Eu tenho emoção...

              Então, o padre, num gesto teatral e para espanto do incrédulo Nietzsche, tirou a batina e saiu porta afora nu e gritando: “Eu sou livre! Eu sou livre!”




LIÇÃO DO MESTRE


A grande contribuição de Nietzsche foi mostrar as incompatibilidades da moral vigente em sua época e desnudar a hipocrisia. Foi crítico do racionalismo e do cristianismo, por observar em suas normas verdadeiras prisões, pois não via valor nas virtudes idealizadas por estas vertentes, porque elas impediam as pessoas de serem felizes, uma vez que impunham culpa, desespero, mágoa, obrigação... Defendia a volta dos valores dionisíacos, representado pelo deus Dionísio e seus valores vividos na antiga Grécia. Em outras palavras, viver conforme querem os racionalistas e cristãos é podar todo o potencial humano; o controle da emoção, neste caso, é maléfico à felicidade humana. Assim, perde-se a liberdade em nome de uma consciência coletiva, apequena-se em nome de uma bondade falsa e hipócrita. Deixa-se de fazer o que se quer por medo do castigo de um Deus que exige louvores e sacrifícios. A questão não é se existe Deus, como afirmou ao dizer: “Deus está morto”, mas o fato de que este Deus castiga, humilha e cobra louvores. Ao dizer: “Desconfio de um Deus que não dança”, Nietzsche expõe a sua contrariedade. Isto pode nos levar a pensar: Por que Deus iria querer que vivêssemos pesadamente em virtude do outro, compromissado em seguir normas que não se adequam ao bem viver humano? Talvez a resposta esteja na chamada vida eterna, onde o sofrimento aqui geraria recompensa posterior. Neste caso, por que apenas a partir do racionalismo e da vinda de Jesus passou-se a valer tal disposição? Por que depois de milhares de anos é que Deus procuraria o homem para uma aliança, já que antes as civilizações eram politeístas e viviam sem este Deus? A resposta, talvez, seria uma intervenção de Deus na humanidade por conta dos desvios desta, segundo afirmam a Bíblia e os cristãos. Então, porque a intervenção de Deus não resolveu os problemas com estes desvios, já que hoje ainda impera a maldade ou, pelo menos, não menos do que havia antes? Por isso Nietzsche propõe que voltemos a viver livremente, segundo nossas emoções, pois viver segundo a razão é contrariar-se a si mesmo.




Na pista do Dj Nietzsche


Nietzsche valoriza a emoção e nos convida a destruir o ideário racionalista, então, propõe celebrar a vida através da emoção.

Começaria mostrando as garras com a música “Sereníssima” que diz: “sou um animal sentimental me apego facilmente ao que desperta o meu desejo, tente me obrigar a fazer o que não quero e você vai ver o que acontece...”

Depois haveria a celebração da vida com muita dança. A vez seria dos Menudos cantando “não se reprima, não se reprima...” e do grupo Dominó cantando “Companheiro, companheiro vem, vem no balanço do mar, vem depressa vem, é tão gostoso dançar...”

Madonna seria a atração internacional cantando músicas como “Like a Virgen” e “American Pie” que diz: “Você escreveu o livro do amor? E você tem fé em Deus se a Bíblia mandar? Agora, você acredita em Rock’n’Roll? A música consegue salvar sua alma? E você pode me ensinar a dançar bem devagar?” e finaliza dizendo: “Os bons e velhos rapazes estavam bebendo uísque e rye cantando ‘é neste dia que eu morrerei... Começamos a cantar.”  

terça-feira, 5 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 5 - Razão e Emoção

AGATÃO: Vendo os senhores neste debate ferrenho, pergunto sobre quem deve pautar nossa ação, a razão ou a emoção?


PLATÃO: Com certeza nossas ações devem estar pautadas pela razão. Agir emocionalmente é um erro, pois os sentidos podem nos levar aos enganos e enganos não servem. As paixões não podem determinar nossas ações, uma vez que quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama. Então, toda ação boa provém da razão por um simples motivo: Não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal.




NIETZSCHE: Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem o do mal, pois a verdade está naquilo que se sente e não naquilo que nos obrigam a sentir. A razão é anti-natural na medida em que oprime nossa vontade, esta sim guia natural de nossas ações. Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície. Platão é um desses homens que frustra a humanidade, tirando dela a vontade de viver em nome de um suposto controle e equilíbrio, que na verdade não passa de tristeza, opressão e melancolia. O que dá vida é o corpo, os sentidos, as paixões..., não uma razão idealizada.



PLATÃO: O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê. Nietzsche fala que devemos viver entregues aos sentidos, pois eu digo: Viva como prega Nietzsche e em breve não terá corpo para sentir. Vencer a si próprio é a maior das vitórias e vencer a si próprio é vencer suas ambições. O homem ambicioso é um homem mau e riqueza alguma poderá proporcionar a paz a um homem mau, pois não permitirá a paz a consciência que é nossa instrutora natural e não anti-natural como quer dizer Nietzsche. E a consciência é própria da razão e é por isso que o homem retrata-se inteiramente na alma; para saber o que deve fazer, deve olhar-se na inteligência, nessa parte da alma na qual fulge um raio da sabedoria divina.



NIETZSCHE: Sabedoria divina? Como a razão não é suficiente para convencer as pessoas a desistirem de viver sua vontade em potência, apelam para a consciência e sabedoria divinas. A opressão não é apenas racional, mas ditada pela força opressora de um Deus. Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida, por culpa dessa opressão moralizadora.



SÓCRATES: Sei que Nietzsche me acusa de promover a queda do modelo dionisíaco de celebração aos mitos, por ver neles o humano verdadeiro e natural. Entretanto, verdadeiros e naturais também são os animais, mas estes não possuem a racionalidade e a consciência. Nós, por possuí-las e diferenciarmos por tê-las, devemos nos guiar à luz de seus ditames, que é o que nos levam à virtude. Aos animais, por não terem consciência e racionalidade que os guie, é natural que ajam pelo instinto, contrário senso, é natural que ajamos racionalmente, por sermos dotados de razão.



SARTRE: Como Nietszche, penso que por sermos livres, também devemos agir de livre vontade , no entanto, posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me, tudo isso não passa de uma manifestação de uma opção mais original, mais espontânea do que aquilo a que se chama vontade. Então, liberdade é escolha e escolher é uma tarefa racional, assim, às vezes não somos o homem de nossa vontade, mas da vontade dos outros por escolha própria. A emoção é o querer e o querer está atrelado à consciência, posto que a decisão é sempre racional; e seja o que escolhermos, é decisão livre escolher entre a vontade e a consciência, pois no ponto de partida, não pode haver outra verdade além desta: «penso, logo existo», como afirma Descartes, esta é a verdade absoluta da consciência alcançando-se a si mesma. 



DESCARTES: Com toda certeza a ação deve ser guiada pela razão, pois basta ajuizar bem para agir bem. As paixões são boas por natureza e nós só temos que evitar seu mau uso e seus excessos, o que é propiciado pela razão. Então, se é a razão senhora da decisão é ela quem determina como deve proceder a boa ação, os sentidos são instrumentos, meios que uso para ter prazer e ser feliz. É com a emoção que eu sinto, mas é com a razão que eu decido. 



DIÓGENES: A emoção está ligada aos instintos e isso é bom, mas como disse antes a emoção trás consigo o perigo da ambição desmedida. Eu mesmo já caí em tentação ao luxo e à riqueza quando cunhei moedas falsas em minha juventude, o que foi um erro. A razão, por sua vez, deixa o mundo enquadrado em seus ditames e regras. Penso que devamos aproveitar o que há de melhor em cada caso, agir com liberdade e retirar o que nos oprime. Viver com a natureza e aproveitar o que ela nos dá a cada dia.



ARISTÓTELES: Concordo com Descartes, pois a razão tem o propósito de dominar as paixões e suas inclinações desmedidas, conduzindo-as a um termo equilibrado. A sabedoria está no meio. Então, deve-se viver os sabores que as sensações promovem, mas sempre tendo por guia a razão.


DAVID HUME: Concordo com Aristóteles e gostaria de acrescentar que nossa natureza trás consigo uma diversidade de fatores que limitam nosso agir pela influência determinante que possuem sobre nós. São fatores biológicos, sociológicos, históricos, etc… que influenciam algumas escolhas e formas de pensar. Existe um embate entre a vontade e a resistência. As sensações criam necessidades que devam ser vencidas: do ponto de vista social, por exemplo, a necessidade se mostra ao querer buscar um padrão social mais distinto; do ponto de vista físico, um corpo perfeito; tudo motivado por um padrão. Então não existe uma simples supremacia da razão sobre a emoção, é uma construção que se dá entre o ser bio-psico-histórico – com seus atributos e medos – e o ente racional.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 1 - O Bem Viver


AGATÃO: Sejam bem-vindos caros amigos. Começo o debate perguntando com se dá o bem viver.

ARISTÓTELES: Caros amigos, penso que a vida boa é aquela vivida na virtude e no equilíbrio, sempre em busca da felicidade. A felicidade é o fim que natureza humana visa. Ela se encontra na atividade, pois não está acessível àqueles que passam a vida adormecidos. Ela não é uma disposição. À felicidade nada falta, ela é completamente auto-suficiente. É uma atividade que não visa a mais nada a não ser a si mesma. O homem feliz, basta a si mesmo. Porém, é bom lembrar, não existe felicidade fora da prática da virtude; assim, cada um é feliz na medida em que cumpre a sua missão. A felicidade só resulta do cultivo da virtude.

EPICURO: Concordo que o comedimento seja a forma de bem viver. No entanto, penso a felicidade como algo abstrato, pois não há como quantificar o que é sentido, nem se pode sentí-la o tempo todo. Existe sim momentos felizes, que só se consegue através do prazer. Então, há momentos bons e momentos tormentosos; desta forma é o prazer quem basta a si mesmo e é a melhor forma de ser feliz. E com isso digo que, ao contrário de Aristóteles, não deve ser conquistado o prazer como o amigo diz que deve ser a felicidade, pois o prazer verdadeiro está justamente na tranquilidade da alma, na busca da paz espiritual. Conquistas requerem dissabores e momentos custosos e tormentosos. Não te pareces uma perda  passares tempo demasiado lutando por um ínfimo momento de felicidade, já que para você a felicidade é o fim?  E aquele tempo que passou buscando a felicidade, não seria melhor aproveitado se prazeirosamente vivesse cultivando as amizades, por exemplo? Um descanso, talvez? Lembro-me das dores que os cálculos renais me impingiam. Não há nada pior, nem tão contrária à boa vida, que a dor. Somente livre da dor eu conseguia ser feliz. O extremo oposto à dor é o prazer, então, se a dor é o que há de mais nefasto à boa vida, o prazer deve ser o que há de melhor. Lógico e simples.

ARISTÓTELES: Tem razão o amigo, é um raciocínio bastante simples! O prazer é um meio e não um fim. Ao querer prazer, é a felicidade que se busca. Não te parece, caro Epicuro, que uma mãe escolha passar por todas as agruras da gestação, parto, cuidados, etc, para ter um filho, um indício de que vale a pena momentos de sofrimento para conquistar a felicidade da maternidade? É incompatível com a passividade. Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo o que amar e algo que esperar...

 EPICURO: No caso da concepção, caro Aristóteles, é imperativo dizer que tem mais a ver com um processo natural do que propriamente com um modo de viver. Então, o melhor é passar pelo processo da forma mais tranqüila e com o menor sofrimento possível. Tanto menos sofrível, mais prazeroso será no caso de a vocação paterno-maternal aparecer com força e decisão. Devo dizer que só há um caminho para a felicidade: não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade. Assim, se é de nossa vontade ter um filho, que o tenhamos com a maior serenidade possível. Esta vontade, no entanto, não deve ser fruto da necessidade. Lembro-lhes, caros amigos, que a necessidade é um mal, porém, não temos a necessidade de vivermos nela. Para terminar este primeiro momento de explanação, deixo como reflexão a ideia de que não somos senhores do nosso amanhã e por isso não devemos adiar o gozo do prazer possível hoje. Não devemos consumir nossa vida a esperar e morrer empenhados nessa espera do prazer.

AGOSTINHO: Mas não esqueçamos, Epicuro, que a tristeza de ter perdido não pode superar a alegria de ter possuído. Isto pode significar, caro Epicuro, que alguns sacrifícios podem ser tão ou mais prazerosos quanto fugir deles. É preciso buscar sempre o que é bom; e o que é bom vem de Deus. Viver bem é viver em doação, em comunhão com o próximo. Necessitamos uns dos outros para sermos nós mesmos. Para alcançar a felicidade devemos reproduzir aqui na terra os prazeres do paraíso que são - neste caso concordo contigo - aqueles ligados à alma. A verdadeira felicidade só existe na Pátria Celestial, cabendo a nós buscar chegar o mais próximo possível dela, através da prática do bem. Concordo com Aristóteles de que a boa vida é aquela vivida na virtude, devendo-se com isso afastar-se dos vícios, principalmente do orgulho, que é a fontes de todas as fraquezas, porque é a fonte de todos os vícios. Isto significa que devamos ser humildes para evitar o orgulho, mas voar alto para alcançar a sabedoria.

NIETZSCHE: Vocês racionalistas e cristãos deturparam o conceito de bondade e transformaram tudo o que é natural, bom e prazeroso em algo feio, sujo, pecaminoso, etc, quando bem viver está retratado no modelo dionisíaco da celebração da vida e o vigor da potência humana. Racionalizaram e puseram regras em tudo, chamando de virtude o que na verdade oprime o bem viver. Orgulho, Agostinho, é uma virtude, não um mal. Vocês tiraram o sapo do pântano e o puseram no deserto dizendo: viva aí! Nossa natureza não é compatível com piedade, compaixão, pena, humildade e demais vigarices expostas no ideário racionalista e cristão, que só servem para atormentar as consciências e oprimir as vontades. O medo se tornou o pai da moralidade. E usam como juiz um Deus! Deus opressor, que não dança, não se alegra e passa o tempo todo exigindo louvores. Não é a força, mas a constância dos bons resultados que conduz os homens à felicidade. E bons resultados só são conseguidos através do exercício da vontade livre. Agostinho propõe o sacrifício como um meio de bem viver, tal e qual o Jesus que acredita. Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez a si próprio? Tornou-se mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação. Assim, é pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.

SÓCRATES: Se não estou equivocado, Nietzsche propõe que revivamos o mito, onde a crendice e a passionalidade devam reinar. Alerto que o emocional é um campo fértil para a ignorância orgulhosa. Sábio é aquele que tem consciência da própria ignorância, e isto só é alcançado pela humildade e racionalidade, que estão libertas das vaidades. Existe apenas um bem, o saber; e apenas um mal; a ignorância. Deve-se procurar o saber desde a mais tenra idade. O que deve caracterizar a juventude é a modéstia, o pudor, o amor, a moderação, a dedicação, a diligência, a justiça, a educação. São estas as virtudes que devem formar o seu caráter e levar o individuo ao bem viver.

NIETZSCHE: Não digo...

DIÓGENES: Mas não podemos esquecer, Sócrates, que somos seres da natureza e esta é nossa principal característica. Não podemos correr o risco de que racionalidade imponha ao conjunto da sociedade regras morais, que obrigue a todos cumpri-las conjuntamente. Não somos um conjunto, somos individualidades...

NIETZSCHE: Bravo!...

DIÓGENES: No entanto, Nietzsche; devo dizer contrariamente a ti, que os piores escravos são aqueles que estão constantemente servindo as paixões. Portanto, vivamos sem rédeas racionais demais que nos aprisionam a um modelo de sociedade e, mais ainda, sem rédeas emocionais que nos aprisionam aos desejos de riqueza e ao apego. Digo que para viver basta aquilo que cabe em um prato diariamente; não podemos ser decentes se temos mais do que necessitamos, pois estaremos ferindo nossa natureza em detrimento do conforto, que não nos pertence em estado natural. Devemos exercer o desapego às coisas que nos são materialmente mais caras, não apenas por virtude, não para obter consideração dos outros, mas para sentirmo-nos livres, porque nossa natureza é livre. Há algo que temos mais apreço que a própria vida? Pois digo que só é verdadeiramente livre quem está sempre pronto a morrer.

MARX: Concordo que estar pronto a morrer seja algo inerente à liberdade e, também, no que tange a ganância - que não deve ser confundida com melhor condição de vida – sendo que devo dizer: Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Este é o ideário capitalista e não é o ideário de vida boa, o ideário de vida boa não é ter mais e sim ser mais, sem que as paixões e atividades sejam tragadas pela cobiça. Também concordo que a vida que temos é esta aqui e esperar pela Pátria Celeste apontada por Agostinho é uma ilusão, pois esta não existe. Foi uma forma encontrada para conformar a classe mais baixa a fim de que ela permaneça apegada a esta ideia de recompensa futura sem questionar sua própria dominação. Então, caro Diógenes, a vida em sociedade é inevitável, o que quer dizer que haverá produção e consumo através do trabalho, fazendo com que a melhor forma de viver seja a busca por uma melhor situação. A luta de classes se torna inevitável, e participar ativamente dela é preciso, para não se tornar escravo...

DIÓGENES: Devo então acender minha lamparina e dizer-te: só se transforma em escravo quem quer, só participa desta sociedade quem quer fazer parte da imoralidade dela e de seu jogo usurpador da decência, tornando-se também indecente...

MARX: É muito fácil acender a lamparina e apontar para os outros, qualquer um pode fazer isso...

DIÓGENES: Só pode carregar minha lamparina, quem carregar também o meu cajado...

ARISTÓTELES: Diógenes, caro Diógenes, o homem é um animal político; só é completo em sociedade. A vida que propões pode tornar o homem livre; é verdade, mas o deixa incompleto, solitário e, talvez, infeliz. Como sua própria corrente filosófica se coloca, de viver como vivem os cães, é apropriada aos cães. Os homens possuem outras razões para viver.


MARX: E digo mais: o que há de errado em beber um pouco melhor, comer melhor, se divertir, sem que isto gere ganância? Diferentemente de Epicuro, acredito que é na ação que é despertado o animal político dito por Aristóteles. E se há política, há luta, e é nela que o sujeito se realiza e se complementa. O espaço deve ser conquistado. A história da humanidade até os dias de hoje é a história da luta de classes. E nós filósofos, buscamos através da história interpretar o mundo, quando deveríamos modificá-lo. Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas. Ressurgir contra isso e conquistar o espaço político é o bem viver, porque o faz racionalmente na busca de um conforto que o mundo e a inteligência produzem, sem travar seu instinto de competição, que a emoção exige.



terça-feira, 3 de junho de 2014

NIETZSCHE E O SAPO

"Ô vida boa, sapo caiu na lagoa..."


É o sapo em seu habitat natural, sem controle, vivendo a vida como deve ser vivida.


Por isto a canção diz: "Ô vida boa!"



E nosso habitat? Qual é?
Para Nietzsche, é o lago das emoções. É ali que nos encontramos e somos felizes. Um lago natural, sem regras para banhistas.
Por séculos, acusa Nietzsche, os racionalistas impuseram ao ser humano um modo de viver não-natural, impingindo a todos normas de conduta que vão contra a natureza humana.
Esta visão segue em vigência ainda hoje como regra geral.
É como se obrigassem o sapo a viver numa terra árida.
Querer que os seres humanos sigam as regras da razão é forçar a fazer algo diferente daquilo que somos naturalmente propensos a fazer. É viver uma vida de mentira!
É como se um camelo (racionalista), por ser forte no deserto, obrigasse os sapos a viverem lá com ele, seguindo suas normas e fazendo os sapos acreditarem que, se quisessem sair de lá, iriam cair num abismo de fogo.
Sabemos que Sapos não foram feitos para viver no deserto.
Sapos vivem naturalmente próximos a lagoas.
Assim como os humanos devem naturalmente seguir seus instintos e não sua razão.
É o Mito da Caverna às avessas!
Para Nietzsche, os sapos precisam voltar à lagoa para viver verdadeiramente.
Viver verdadeiramente é viver com emoção, viver racionalmente é viver preso.
E nascemos para viver livres!
Então, a verdade nos libertará? 
Não! É a liberdade que nos leva à verdade.
Não se pode viver a verdade se é a razão quem nos diz como agir, coagindo-nos.
A mentira aprisiona a emoção.
E a razão é, ao mesmo tempo, carrasco e o juiz.
Nademos, então, no lago das emoções, como um sapo feliz!