sexta-feira, 22 de maio de 2026

A BELEZA DA ETERNIDADE

 



Sei não...

Há algo de poético na ideia de liberdade, de que não existe uma essência que nos prende e nos tolhe em seus ditames. Há beleza na ideia de constantes mudanças e de átomos que eternamente vagueiam pelos vazios existentes sem se fixarem e serem parte de algo como integrante seu para sempre.

É belo ver cada amanhecer, com suas nuances, as mudanças das cores, as flores novas que brotam. Gostamos do que move.

Mas igualmente belo é o eterno! Aquilo que permanece, convivendo entre as mudanças e as coisas passageiras.

A ideia do eterno nos mostra que mais belo que as flores das árvores está o fato de que elas sempre voltam. Não valoriza uma flor em particular, mas o fato de que elas existem. 

Valoriza o que une (essência), não o que separa (diferença)!

Vê um ser humano, onde os olhos da mudança alcançam um índio, um branco, um negro, um amarelo... Vê uma flor onde se pode ver apenas a rosa, a tulipa, o girassol... Vê as raízes de uma árvore, onde são mais apreciáveis as folhas e flores, porque sabe que no inverno estas se vão, enquanto as raízes resistem, escondidas, para que as folhas e flores possam voltar na primavera, pois como dizia Parmênides, "tudo volta ao início".

Se reinventar é algo poderoso e bom. É revigorante. Mas se reinventar sem uma base sólida pode ser desastroso. Não existem flores e folhas na primevera sem uma raiz que tenha sobrevivido ao inverno, empresa sem trabalhador, aprendizagem sem experiências.

Toda reinvenção ou mudança traz em si a ideia de eternidade, pois se exerce sobre algo existente e fruto do ser que existe em si mesmo para sempre.


IMPERFEIÇÃO MAIS QUE PERFEITA

 Sei não...

Há em nós uma busca pela perfeição.  Esta busca, aliás , é um dos argumentos apresentados por São Tomás de Aquino como prova da existência de Deus. Como somos imperfeitos, não teríamos como ter ideia de algo perfeito, afirma de forma razoável a tese. Se há esta ideia em nós, se somos dotados de tal ideia, somente algo perfeito poderia dispor dela a nós, uma vez que por nós mesmos não poderíamos tê-la. Então, foi o Criador quem nos dotou de tal noção e por isso a conhecemos pelo intelecto.

Noções de perfeição produzidas pelo ser humano não faltam no mundo. Uma dessas noções está na simetria do corpo, retratada por Da Vinci na gravura do "Homem Vitruviano"



Mesmo que projetemos e busquemos tal perfeição, não parece a perfeição da figura uma arbitrariedade? Para o funcionamento das coisas parece algo necessário, vendo como trabalham as abelhas e formigas.

E para as questões humanas? Seria a gravura do homem vitruviano um bom representante, estando ele preso a figuras geométricas?

Penso que Dostoievski discorda ao dizer que "o homem é esta realidade em que dois mais dois não são quatro". Esta frase retira o ser humano da perfeição matemática das formas e apresenta a subjetividade humana, passível de erro, desequilíbrios físicos e desarmonia. Não que Da Vinci estivesse errado em seu desenho, mas talvez haja algo, pasmem, mais completo e além da perfeição. A perfeição, portanto, não seria o que há de mais sublime, há algo além do círculo e do quadrado.

Em questões humanas a beleza está na imperfeição, que é onde ainda há movimento, onde há vida. O que é perfeito não se move, somente a imperfeição tem esta possibilidade. A necessidade permanente de aparar as arestas é que faz com que de fato estejamos vivos.

APRENDENDO A SER CONTRARIADO

 Sei não...


As pessoas têm cada vez menos paciência em discutir, sobretudo assuntos que despertam paixões.

Geralmente não gostamos de ser contrariados e preferimos o conforto de ouvir e conversar com as pessoas que compartilham de nossa posição e nossa forma de ver as coisas. Assim, com a chegada das redes sociais, formaram-se as chamadas "bolhas", que são agrupamentos de pessoas que têm interesses comuns, mesma visão de mundo e princípios. Tudo o que está no escopo destas bolhas é o que está acontecendo, porque seus integrantes não estão abertos a receber notícias ou opiniões contrárias vindas de outro universo. Assim, a única verdade existente é a que transita na bolha.

Antes, deveríamos ansiar em ser contrariados, para colocar em xeque nossas opiniões e forma de ver o mundo. Se tudo der errado e estivermos certos em nossa posição, atestaríamos com provas e seguiríamos convictos de que estivemos certos o tempo todo sobre a questão discutida. Caso dê certo o resultado deste confronto de ideias e a opinião contrária venha a prevalecer e nos convencer de que estivemos errados, teríamos o ganho de um novo saber e recálculo de rota. Perder é ganhar.

Acontece que não estamos dispostos a isso. Seguir com a própria opinião é cômodo, pois não precisamos passar pela "impertinência" do contrário e, tampouco, corremos o risco de "perder" uma discussão. Viver na bolha é mais fácil e, humanamente, buscamos sempre o que é mais cômodo, fugimos da chatice dos embates argumentativos.

Certa vez, Sócrates, inconformado por ter sido apontado como o homem mais sábio da Grécia, procurou saber a veracidade da informação. Saiu a conversar com outros homens considerados sábios sobre os mais diversos assuntos. Ao ver que eles falavam sobre todas as coisas, mesmo as que desconheciam, como se fossem os doutores nos assuntos, ele aceitou a alcunha de homem mais sábio. Ele sabia que não conhecia tais assuntos... disso ele sabia. Aqueles homens que tagarelavam sobre diversos assuntos que desconheciam somente para mostrar que sabiam, na verdade não sabiam sequer disso. A conclusão é que ele sabia ao menos uma coisa: que nada sabia, enquanto os outros desconheciam a própria ignorância. Logo, ele era realmente o mais sábio.

Ansie em ser contrariado. Só há ganho.


O PASSADO MANDA UM BOM PRESENTE AO FUTURO

 Sei não...


Já pararam para pensar que as coisas acontecem sucessivamente sem que percebamos que estão acontecendo? Pois bem... talvez seja destino ou uma ordem cósmica a atuar sobre os acontecimentos.

O que se sabe é que uma ação prepara outra, tendo sido esta gerada a partir de uma ação anterior a ela. E se a ação anterior fosse diferente da que foi estabelecida? Se, ao invés de sentar na cadeira uma pessoa tivesse resolvido manter-se em pé quando o pé da cadeira se quebrou e ela se machucou na queda? O futuro traria variáveis... Uma delas é a de que a próxima pessoa a sentar na cadeira fosse aquela que viesse a se machucar, ou uma outra, se esta anterior não tivesse peso suficiente para quebrá-la. Os futuros desses personagens estariam alterados por uma única decisão primordial.

Ou talvez se dê conforme projetou Spinoza: Para o filósofo, a partícula "e se" não existe, pois estaria no espectro do cogito. Cogitar é abstrato, não realizado, portanto, nulo como algo existente. Não se pode mudar o passado. Também não se pode cogitar sobre o futuro, uma vez que só vai acontecer atrelado a um momento anterior, que é passado (mediado pelo presente que, por sua vez, vira passado), e como já vimos, não pode ser mudado e não há mais como remediar. Sobra o momento presente como o único que interessa, que por sua vez, já foi determinado pelo passado (que não podemos mudar) e determinará o futuro como algo impossível de não acontecer. Não há escolha ou cogitação.

Ufa! Estamos absolvidos...

De qualquer forma, penso que o que existe mesmo é o futuro... O passado não podemos mudar e o presente... já passou... de tão rápido.

A boa notícia é que o futuro existe e a perspectiva que vislumbramos nos mantém vivos. A isto podemos cogitar.  Não há nada errado em sonhar com o passado nos trazendo um bom presente no futuro.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O PODER DA MENTE... OU DA FÉ

 Sei não...


Há algo que foge do natural...

Nossa mente, quando empenhada em algo, é uma força descomunal. Talvez tão grande que saia do campo da mente e entre no escopo da fé.

Certa feita o cãozinho de uma família foi atropelado. Enquanto se recuperava, em uma dada noite se pôs a lamuriar de dor, embora estivesse já medicado. O casal nada podia fazer para aplacar a dor do bichinho. Como o animalzinho, pelo que se tem conhecimento, não sabe orar, o homem, compadecido, se pôs a interceder mentalmente por ele. Minutos depois fez-se silêncio, o animal havia finalmente adormecido. No dia seguinte, ao falar com a esposa que havia orado pelo cãozinho, soube dela que ela havia feito o mesmo no mesmo momento. Duas mentes unidas por uma mesma causa... Em silêncio.

E agora? O que fez aplacar a dor do bichinho? Um cristão provavelmente diria que foi a força da oração do casal. Um humanista ou exotérico poderia dizer que foi a convergência de pensamento focado em um mesmo objeto com força suficiente a ponto de fazer regredir a dor. Já um cético afirmaria que o remédio enfim fizera efeito e o fato de ambos focarem suas forças mentais ou de fé em um mesmo momento para um ponto convergente fora mera coincidência.

Em uma outra situação, um menino queria ver um programa de TV e sua irmã, outro. Como a irmã era mais velha, prevaleceu sua vontade. Irritado, o menino saiu da sala e foi para o quarto. Enquanto saia vociferou: "tomara que queime!". Neste exato momento a TV se apagou...

Parece que Buda acertou ao dizer: "cuidado com o que desejas".

Kieerkgard, por sua vez, afirma que o estágio mais avançado do ser humano é a fé. Os valores estéticos e éticos ficam na superfície, já os valores da fé sublimam tal patamar e nos colocam além, acima do estágio da mortalidade.

É bom lembrar: Tanto para o bem, como para o mal, nossas intenções e desejos mais intensos podem acontecer, seja por amor ou por raiva, a menos que estejam certos os céticos e tudo seja mera coincidência. Todavia, faça-se justiça ao céticos, a coincidência que eles defendem também pode ser alvo de desconfiança, sendo a dúvida seu sublime ato de fé.

PONTUAÇÃO: DA GRAMÁTICA À VIDA


 

Sei não...

Ao que parece, a vida vivida imita as pontuações da escrita.

A linguagem escrita encontrou nas pontuações uma forma de identificar os sentimentos  contidos em uma informação descrita. São as pontuações que registram o sentido que se quer dar ao que está escrito.

E como isto se dá na vida?

Vejamos:

A virgula se faz presente entre uma ação e outra em nossa vida na correria do cotidiano quando interligadas, mas separadas, tal como sair do trabalho para buscar os filhos no colégio, por exemplo. Ações separadas com maior intervalo, são como ponto e vírgula, que separariam o trabalho pela interrupção promovida pela folga ou férias.

As interrogações são auto-explicativas, aplicam-se em nossas dúvidas. Tão comum a ocorrência, e tantas... Inclusive em pequenas escolhas, tal sobre que roupa vestir. Importante mesmo é saber sobre o que perguntar.

Os parênteses funcionam como confirmações de nossas convicções. O problema se dá quando, não contente em convercer os outros, tenta convercer a nós mesmos de que estamos certos, quando há erro. Assim age também o travessão.

A exclamação traduz nossas emoções, da tristeza à empolgação. Esta última então, legal mesmo é quando a exclamação vem expressa através do olhar. Não há nada mais lindo que um olhar empolgado.

O ponto final, dizem os especialistas em internet, representa falta de educação em mensagens de textos, pois indicariam fim de papo. De forma ríspida e unilateral... Sei não... Alguém tem que por fim à conversa em algum momento. Na vida, ele representa o fim de um ciclo, um dia, um mês, um ano... ou uma ação, mesmo que pequena, se não for melhor indicação a vírgula.

A pontuação que mais me agrada, entretanto, são as reticências. E não tenho medo de por ponto final a esta afirmação. Elas guardam ao mesmo tempo a esperança de que algo bom está para acontecer (imitando a pueril emoção da criança)  com a dúvida de que possa surgir algo diferente da expectativa (imitando o cauteloso adulto que já viu frustradas tantas outras vezes tais expectativas em momentos anteriores).

Além de guardarem esta mistura de sentimentos e expectativas, as reticências não são presunçosas, nem tão afirmativas como o ponto final. Longe de serem mal educadas, representam a pluralidade. E isto é um dos aspectos que as tornam belas. Esteticamente, sua representação gráfica, com três pontinhos alinhados, um após o outros, transmite ideia de vida que flui... Como se a vida fosse um trem que segue em frente e faz pausas de estação em estação... Assim acontece conosco, carregamos muita gente... umas descem... outras embarcam.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

AS AVÓS: CHEGADAS E DESPEDIDAS

 

Sei não...                    


A despedida é um momento estranho. Dizer adeus não é fácil. Trata-se de uma mistura de sentimentos que vai da dúvida sobre quando os envolvidos voltam a se encontrar, com a esperança de que isto aconteça, somando-se a incerteza de que isto vá mesmo ocorrer.

Ainda lembro quando ia visitar minhas avós. A mãe de meu pai, vó Rosa, em especial, tinha um jeito peculiar de se despedir. Nas últimas visitas antes de seu falecimento, as despedidas acabavam com ela chorando. Nas visitas de tempos anteriores, eu via em seu olhar uma preocupação comigo, mas representavam rotineira coisa de avó. No fim, o choro demonstrava outro tipo de preocupação, o medo de que aquela fosse a derradeira entre nós. Um dia foi e, curiosamente, não lembro dela ter chorado.

Carregava consigo, mesmo que não soubesse, a frase de Chateaubriand: "todos os dias são um adeus".

Da mãe de minha mãe, Isabel, a "vó Bela", lembro das chegadas. Estava sempre a mexer com algo quando já de longe a avistavámos debaixo do chapelão de palha. Ora fazia rosca na fornalha, ora colhia os grãos de café nos pés que cresciam ao redor da casa ou estava a peneirar a colheita. Isto quando não estava ao pilão socando o amendoim que viraria uma deliciosa paçoca... Aí parava o que estava fazendo para nos servir um café. E conversar. A gente se sentia importante quando a reverência deveria ser nossa.

Lide Viana disse: "Os avós são flores florescidas no Jardim da Vida, ajudando as sementes a se transformar em flores".

Eu tive as mais belas rosas.


sábado, 16 de maio de 2026

TRANSGRESSÃO

 


Sei não...

Ao que parece carregamos um senso do que é justo, bom e correto. Aristóteles diz que somos atraídos por esses atributos. Talvez por isso há em nós um espírito contraventor, que às vezes nos faz sair em busca destes atributos, quando sentimos sua falta.

Não é à toa que a figura de Lúcifer, mesmo como personagem produzido pela mente humana, exista e atraia nossa atenção. Se for ente existente como ser real conforme está descrito como aquele que ousou voltar-se contra seu criador, evidencia o quão os seres são afeitos à transgressão.

Assim, como o senso de bondade, justiça, beleza, etc..., nos atrai, a transgressão também nos fascina.

Eduardo Galeano narra que no princípio dos tempos dois pares de pés deixavam rastros na areia de uma praia. Em um determinado momento os pares de pés se separam. Um desses pares sobe por uma duna alta e desaparece. As pegadas voltam a se encontrar adiante. Significa que um dos andantes transgrediu o caminho, ousou sair da trilha para ver o que havia além da duna.

É a versão de Galeano para a bíblica história de Adão e Eva. A mulher havia ousado desobedecer o criador. Para a tradição judaíca-cristã uma afronta, para o gnosticismo, um ato de coragem. Como podemos ver, já em seu início, a Bíblia Sagrada, conta um ato de transgressão. O próprio Deus transgrediu seu solitário mundo através do "faça-se".

A cultura grega também apresenta o gesto da transgressão como causa dos males do mundo. A curiosidade de Pandora a fez desobedecer Zeus e abrir a ânfora, o que lhe fora terminantemente proibido fazer. Ali estavam as doenças e todo o tipo de mal, espalhando-se pelo mundo. Antes, o próprio Zeus havia sobrevivido ao pai por conta de uma transgressão da mãe, que o escondeu para não ser devorado.

Eva desobedeceu a Deus, Pandora a Zeus, a mãe de Zeus a Cronos... Figuras femininas com espíritos libertários ou desobedientes?

O escritor gaúcho Roberto Axe diz que "a transgressão é uma espécie de segundo nascimento", transmitindo a ideia de que a vida é feita de ressurgimentos e estes sempre acontecem através de eventos transgressores. 

Sem transgressão não há movimentos. A vida surge por eles.

O poeta Cacaso, por sua vez, nos premia com o poema "O Lugar da Transgressão":


"Encontrei um sapo cochilando

Dentro minha botina

Nunca me meti em botina de sapo

Que liberdades são essas?"


Às vezes um cochilo é uma forma de transgressão.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O DESESPERO


Sei não...


Sêneca afirmou: "Devemos ir buscar coragem ao nosso próprio desespero".

A coragem é de fato um remédio eficaz à maioria dos males da alma, mas como usá-la quando o mal que nos aflige é justamente a sua falta? É como buscar remédio em um frasco vazio.

Quem nunca passou por esta sensação em algum momento da vida, em que o desespero foi tanto diante de uma expectativa, tão grande, a ponto de não se importar para o que pudesse acontecer consigo naquele momento?

Certa manhã um garoto encontrou dois filhotes de um pássaros ainda no ninho, mas já crescidinhos, quase a ponto de alçar voo, pois já havia bastante plumagem. Aprisionou-os na gaiola e armou alçapão para pegar os pais. Primeiro veio a mãe e caiu na armadilha. Foi posta junto com os filhotes. Depois foi aprisionado o pai. O menino colocou todos numa mesma gaiola para que os filhotes continuassem a ser alimentados pelos pais. Entretanto, no entardecer, percebeu que a fêmea estava, como se dizia, jururu... Ela havia entrado em tal fase de desespero que se punha letárgica no poleiro, com a plumagem arrepiada (sintoma de doença, tristeza, abatimento). O macho, então, passou a  alimentar os filhotes e a própria fêmea como se ela fosse um de seus filhotes, dada a situação de desesperança inerte enfrentada pela companheira.

Na manhã seguinte a fêmea já estava recuperada, o gesto do macho a havia salvo. Talvez acontecesse o contrário, mas não vem ao caso. O fato é que a fêmea voltou a alimentar-se por si só e alimentar seus filhotes. Por fim, o garoto acabou por soltar a todos, após alguns dias. 

Nestes momentos, talvez o que precisamos é apenas apoio e uma noite...

sexta-feira, 8 de maio de 2026

A SOLIDÃO

 

 A maioria das pessoas, em qualquer etnia, acredita que exista um criador... É lógico crer que seja quem for este criador, em algum momento ele esteve só, antes de tudo criar. Assim, a primordial condição do ser humano é a solidão, herdada de quem o criou. E Talvez a necessidade do criador em compartilhar a vida contida nele como única existente é que o levou à criação de todo o resto... Um criador que compartilha algo de bom. Isto não muda o fato que no princípio, antes de tudo depois dele, havia somente ele e a solidão.

Mas... digamos que não exista um ente criador... Neste caso, a origem de tudo seria o ventre vazio do nada.

De qualquer forma, este nada, este caos, assim como o criador, seria a expressão máxima da solidão primordial, antes que tudo viesse a ter forma.

A solidão é, portanto, a primordial característica, tanto de quem originou a criação, quanto da criatura, que herdou esta característica.

Orson Wells aponta a saída positiva que a humanidade encontrou para fugir desta primeira e inevitável natureza

"Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos."

A solidão procura em outras solidões a eliminação da sensação de abandono que ela provoca. Acontece que a presença de outros seres não nos tira a unicidade, a singularidade, porque nada vive uma vida outra que não seja a sua própria existência. É uma realidade inexorável, implacavelmente presente por ser a solidão um atributo essencial dos seres, visto estar presente do nascimento à morte, em toda a existência concreta.

Clarisse Linspector nos apresenta uma receita para enfrentar este desafio em nossa jornada existencial:

 "Que a minha solidão me sirva de companhia

Que eu tenha a coragem de me enfrentar

Que eu saiba ficar com o nada

E mesmo assim me sentir

Como se estivesse plena de tudo."

Nos consola saber que aquilo que originou tudo, Deus ou o caos, era já pleno em sua solidão antes mesmo de tudo criar. Nos dá a sensação de que é plenamente viável suportar a nós mesmos.