quinta-feira, 30 de abril de 2026

FILÓSOFOS DEBATEM FAROESTE CABOCLO

AGATÃO: Este banquete tem como tema a questão ética e proporei como texto de estudo a música Faroeste caboclo, para que, a partir das situações vividas pelos personagens, possamos debater segundo vossas convicções.
(Os pensadores ouviram a música) 

ROUSSEAU: Encontro minha filosofia nesta narrativa. Acredito que o homem nasce bom e a vivência em sociedade o corrompe, porque desperta um desejo de competição que o leva a atitudes mesquinhas e pequenas. O primeiro verso deixa claro esta condição primitiva de bondade, pois não ter medo significa, nesta situação, não conhecer o mal. A morte do pai despertou em João de Santo Cristo um ódio pela vida e a visão de que todos eram seus inimigos. Esta inimizade, na humanidade, começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu!” e não houve ninguém com suficiente clareza para arrancar aquelas cercas. A partir daí cada qual passou a defender o que é seu, vizinhos se desentenderam, países guerrearam...

HOBBES: Falas, caro Rousseau, como se esta competição foi induzida por um fator externo, como o tiro que matou o pai do rapaz, por exemplo. Negativo! Estes sentimentos nascem conosco, pois não diferimos dos outros animais nesta questão. Digo que o homem é lobo do homem! Ao contrário do que dizes, o homem é naturalmente mau e a sociedade é quem cria mecanismos para educá-lo na virtude. João de Santo Cristo teve chances, quando criança e quando adulto, mas teimou sempre em ser lobo.

SÊNECA: Tudo seria muito mais tranquilo se João de Santo Cristo não lutasse tanto contra o seu destino. Ele viveria muito mais feliz se deixasse as coisas acontecerem naturalmente. A aceitação de sua condição, no mínimo, lhe traria paz para viver decentemente, trabalhando e, talvez, formando uma família.

AGOSTINHO: Faltou a todos os personagens a opção por Deus. A boa ação é aquela que nos aproxima de Deus e a má ação aquela que nos afasta Dele. Onde falta Deus brota o mal.

SARTRE: Penso que Rousseau e Hobbes erram quando falam em essência humana, pois primeiro existimos e a nossa essência - aquilo que somos - se forma a partir de nossas escolhas, o que quer dizer que não temos nenhuma natureza pré-existente, boa ou má. Também não existe destino como diz Sêneca, nós é quem o fizemos. E Deus, mesmo que existisse, não interferiria em nossas ações, porque somos condenados a ser livres.  Sozinho fiz o mal, sozinho inventei o bem. Não temos a quem culpar por nossas ações, pois somos pautados pela liberdade. Os personagens da história em questão agiram livremente, fizeram suas escolhas e suas ações não podem ser atribuídas a fatores externos, pois estes podem influenciar, mas jamais determinar as decisões pessoais.

AGOSTINHO: É o que chamo de livre-arbítrio...

SARTRE: É um contrassenso o que dizes. Uma liberdade pautada por uma força superior não é liberdade. Como posso ser livre se tenho que fazer a vontade desta força? Não existe meia liberdade. Não se pode ser meio livre, como não se pode ser meio morto.

NIETSCHE: E nem é a vontade deste Deus inventado, mas a vontade da Igreja de Agostinho que, influenciado pelas ideias racionalistas de Platão, teorizou um modo de amarrar as pessoas às normas e regras de conduta que atentam contra a natureza humana. Passaram a tudo proibir. Estamos condenando os personagens desta história sob a batuta destas regras estúpidas. Devo admitir que Maria Lúcia é a personalidade mais fraca, não pelas razões anteriormente expostas pelos colegas de banca, mas pelo fato de que ela vivia ao sabor dos desígnios dos outros personagens, não tinha amor próprio. Por outro lado, era justo o ódio de João de Santo Cristo e ele viveu intensamente até conhecê-la, entregando-se aos ditames da sociedade moralista, como formar família, com empreguinho e casamento.

HOBBES: O que estás a propor é a barbárie!  Como disse anteriormente, nascemos maus e se não houvesse uma lei que regulasse as ações, cada qual agiria conforme seu bem entender sem qualquer controle.

NIETZSCHE: O problema é justamente o controle. A única lei a ser seguida, deveria ser a lei natural, a lei do bem viver.

EPICURO: Bem viver é justamente o que faltou aos personagens. Como o fim último da vida é buscar o prazer através da tranquilidade da alma e da serenidade, devo concordar com Sêneca quando diz que João de Santo Cristo deveria esquecer o fato da morte de seu pai, a princípio, através do exercício do perdão. A agonia da cena guardada em seu coração se estendeu por toda a vida. Além do mais, ele desejava demais, quando poderia ser feliz com o que tinha e onde vivia.

NIETZSCHE: Perdão e piedade são para os fracos. O moralmente forte age segundo sua natureza. O ódio de João de Santo Cristo era justificável. Controlar os sentimentos é ir contra a lei natural e fraudar o que é puro e, portanto, bom.

ARISTÓTELES: Pois penso que a função da razão é justamente dominar as inclinações e as paixões. O bem viver é viver com equilíbrio, pois a virtude está no meio. Há duas formas de falhar: por excesso ou falta. Duelar com Jeremias não foi um ato de coragem - que seria a virtude – mas um ato temeroso – o vício por excesso.  João agiu emocionalmente pela ira. Jeremias, por sua vez, praticou a covardia ao atirar pelas costas – o vício por falta.

SÓCRATES: Só se erra por ignorância. O ser moral é o ser de conhecimento. Praticar o conhecimento é o bem agir. Os personagens em questão viveram à sombra de suas crenças, não procuraram a razão e nitidamente sofreram muito durante suas vidas. Seu conhecimento era, portanto, precário de verdade e sabedoria.

PLATÃO: Típico caso, se me permite o mestre interromper, de pessoas que vivem nas sombras da caverna. O medo do desconhecido os impediram de sair para fora e conhecer o verdadeiro mundo. Enquanto a alma era pura, como diz a música, João de Santo Cristo não tinha medo, o que equivale dizer que não conhecia o mal. O corpo, que habita o mundo sensível das aparências e enganos, através das experiências contaminou a alma, até então pura.

PROTÁGORAS: Pois penso que cada qual vivenciou sua experiência, conforme sua ética, seu modo de pensar e sua percepção particular de mundo. Cada qual aqui está julgando segundo o que acredita ser certo ou errado. O mundo existe conforme a visão de cada um e a vida e modo de viver se deu conforme as escolhas dos personagens. Quem disse que João ou Jeremias queriam vida e fim diferentes? Trocariam a curta vida que tiveram por uma vida longa sem emoção?

JONH STUART MILLS: Toda ação deve culminar em felicidade ao maior número possível de pessoas, mas tem que obrigatoriamente ser útil, pois os fins justificam os meios. Não vejo benefício algum, nem para os personagens, nem para a sociedade as decisões tomadas por eles. O único momento de boa decisão foi quando João de Santo Cristo resolveu trabalhar, constituir família com Maria Lúcia. Eles pareciam felizes e a sociedade ganhou com ele vivendo segundo as regras dela.

IMMANUEL KANT: Penso de forma contrária a Stuart Mills. Para mim não importam os resultados, mas a intenção do agente moral. Sêneca tem razão quando diz que não está em nossas mãos o controle  dos acontecimentos, pois às vezes queremos produzir algo e sai outro diferente. Temos culpa? Respondo que não, porque nossa intenção era boa. O final da música revela a intenção de Santo Cristo e era uma intenção boa, humanitária, que visava o bem social. Durante a música percebe-se que Santo Cristo sempre tenta fazer o melhor, mas algo sempre o desvirtuava do bom caminho.

NIETZSCHE: De boas intenções o inferno está cheio. O “bom caminho” que você se refere é o caminho dos padres, pastores e racionalistas. Gostam do Santo Cristo cordeirinho, enquadrado nos ditames de suas regras estúpidas que fazem as pessoas trocarem o bem viver pela prisão que estas normas e regras impõem.

DESCARTES: Como racionalista devo dizer que as paixões só levam a enganos e torturam a consciência. Concordo com Agostinho quando afirma que Deus e a Sua vontade são o direcionamento, a rota a seguir, pois ele é o Supremo Ser Pensante. Também concordo com Sócrates no que se refere ao conhecimento como elemento guia das ações. 

Meus livros: UNS E UNS OUTROS - O CAPITÃO E O MENINO

 




Um ancião desperta em banco de uma praça ao lado de duas senhoras. Uma diz que se chama consciência e, a outra, Memória. Ele pensou que estivessem caçoando dele. Elas fazem com que relembre os tempos da infância e depois o conduzem a um dia de sua vida adulta em seu ofício como capitão. Neste dia ele se depara com a força de um menino que o confronta. Deste embate nasce a loucura, o esquecimento e, talvez, a redenção. Uns e Uns outros traz o embate de duas "tribos". Um grupo conta com a força bruta e a covardia que desperta o medo, a outra, com a inocência, intuição e coragem. 

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Meus livros: NATÁLIA E OS DOZE

 


Natália é uma adolescente experimentando um profundo vazio existencial que tenta preencher com perigosos desafios lançados na internet. Em uma determinada noite estava entre ingerir comprimidos ou mutilar-se com uma lâmina. Foi dormir com este desafio lançado a si. Acordou em meio à madrugado com um estranho ao pé da cama que a convida para um desafio: conhecer doze sábios. Como num passe de mágica ela surge primeiro na Grécia Antiga, depois é levada para outros lugares por seu amigo Áureo, onde tira de doze mestres lições de bem viver, os vê em ação e, então, vê sua vida transformada cada vez que volta para casa.

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Meus Livros: A REVOLTA DOS CHIFRUDOS

 




Na pacata cidade de Rama Alta nada acontecia de extraordinário, afora as aparições de uma misteriosa e controversa mulher a quem chamavam de Generosa Mascarada. De repente, homens começaram a apresentar chifres, fato que causou tumulto em toda a cidade. O odor atraia as borboletas aos ornamentos cefálicos e as ruas passaram a apresentar um colorido especial. No entanto, aquilo não agradou aos homens do alto escalão social que passaram a exibir os adereços, pois trouxe a eles transtornos para a vida social. Entre esses transtornos constava o impedimento de jogar futebol, em proteção à bola nos cabeceios, e em proteção aos jogadores, por haver risco de choques entre eles. Também não podiam ir a restaurantes, por conta das borboletas. Os chifres trouxeram à cidade, ainda, o desnudamento da hipocrisia social. A procura da cura para os chifres virou o tema central da cidade enquanto procurava sua própria cura... 

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Meus livros: E JESUS CHOROU NO JARDIM

 



Diógenes, um pastor e professor aposentado, chega de Jerusalém com um pergaminho antigo escrito em aramaico que recebeu de presente de um ancião judeu. E uma dúvida na cabeça: Quem escreveu?... Ao traduzir, tem revelado o autor. À medida que lê, algo vai trabalhando em si rumo a uma transformação. O novo Diógenes entra em conflito com a forma de pensar dos outros líderes da igreja que congrega. Estabelece uma nova evangelização e passa a guiar seus passos em consonância com o que prega o pergaminho.


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Meus Livros: SEGREDOS E SILÊNCIOS

 


          Pedro é um homem que carrega um grande segredo. E deste se oriunda outros, que o leva a mentir. Vê a mentira como suporte do mundo, pois, segundo analisa, ela é mais recorrente que a verdade. A verdade, por sua vez, em seu entendimento, traria o caos a tudo. O enredo começa com Pedro assassinando um piloto de aeronave em um aeroporto e depois tira a própria vida. A partir daí, Sara, sua esposa, que além de segredos, carrega silêncios, parte em busca da verdade e dos motivos que fizeram Pedro agir como um assassino. As surpresas que encontra nesta procura faz tudo desmoronar à medida em que se defronta com suas próprias mentiras e a verdade aparece. Os fatos parecem comprovar a tese de Pedro a respeito da mentira e da verdade. 

Talvez seja também sobre você...


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sábado, 12 de julho de 2025

Renato Russo e Platão

 De todos os pensamentos filosóficos, o que mais se assemelha às canções de Renato Russo é o platonismo. Renato é platônico tanto nas canções de amor, quanto na política e na ética. Se na vida tinha alguns arroubos emocionais, com excessos sempre muito presentes, o que o pode afastar em tese da teoria de Platão, visto que este propunha uma vida regrada pela racionalidade e não pela emoção e desejos, é também visível que vislumbrava um outro mundo, diferente deste que estava a sua frente. Isto está posto na frase que disse à Dona Carmem certa feita: " mãe, eu não sou daqui". Este sentimento podia-se ver claramente em suas aparições públicas e, notadamente, nas canções. 

É comum ouvir a reclamação de que as canções  de Renato são pessimistas. O olhar mais apurado, porém, demonstra o contrário, pois os finais das canções normalmente terminam com frases positivas, muito bem representada pela canção "Natália". Esta abordagem,entretanto,  farei adiante, apresentando diversas canções em que a verve platônica está presente. Primeiro, quero abordar sobre quem foi Platão e sua teoria para que se possa entender a afirmação de que Renato era platônico.


PLATÃO 

Platão foi um filósofo grego, discípulo de Sócrates e seu mais ardoroso seguidor. Foi quem propagou a tese racionalista do mestre, que nada deixou escrito. Ambos viveram numa Grécia que cultivava alguns valores das quais estes filósofos não compartilhavam, pois as virtudes mais valorizadas eram aquelas advindas da emoção, representadas pelo deus Dionísio, da festa e do vinho. Sócrates e Platão partilhavam a ideia de que as melhores virtudes eram as que vinham da razão, depois de um exame de consciência. Buscavam um ponto de verdade sobre as coisas que fosse aceita por todos, depois de uma discussão sobre o assunto. Eram contra os sofistas, grupos de filósofos que relativizavam todas as questões, inclusive o que era verdade, pois esta, segundo eles, não existiria de forma absoluta e, como não existe verdade, qualquer argumento seria válido. Esta discussão, entre outras, acabou por condenar Sócrates a tomar cicuta, um veneno, por ser acusado de subverter e corromper os jovens com essas ideias tidas como nefastas pela sociedade ateniense.

Platão seguiu com esses ensinamentos. Criou uma teoria, chamada de reminiscência. Segundo a tese, existem dois mundos, o mundo das ideias e o mundo sensível. O Mundo das ideias é conhecido da alma, seu habitat natural. Lá pré existem todas coisas de forma perfeita e é dirigido pela razão. Não existem enganos ou erros. O mundo sensível é o que habitamos e pertence ao corpo,  dirigido pelos desejos e paixões dos sentidos do corpo. A alma desce para o corpo e, contaminada pelos desejos e paixões próprias do mundo sensível, tudo esquece das coisas coisas boas e plenas do mundo das ideias.  O que existe no mundo dos sentidos são apenas cópias imperfeitas do mundo das ideias. A medida que vai tendo contato com as coisas existentes neste plano da existência, a alma vai lembrando de como são as coisas em sua plenitude que conhecia do mundo das ideias. Por se buscar as virtudes do mundo das ideias é que chamamos de idealismo platônico, pois se busca sempre a perfeição inalcançável para este mundo, o que é encontrada apenas no mundo ideal. 

E existem três tipos de alma quando estas estão no corpo. A alma concupiscente fica no estômago e se forma quando sucumbe aos desejos voltados para as necessidades básicas tais como a gula e o apetite sexual. A alma irascível pertence ao tórax e evidencia-se no sujeito quando este sucumbe às paixões, estando propenso à ira e bravura, no sentido negativo. A alma racional se encontra na cabeça e conduz o sujeito pelo caminho da racionalidade, este não sucumbe aos desejos do corpo e às paixões, antes domina-os.

Esta teoria mais tarde, serviu de base de pensamento de Santo Agostinho. Assim como no platonismo, a alma desce ao corpo no momento em que nascemos. Ao mundo das ideias Santo Agostinho chamou de pátria celeste, o céu. A terra, como afirma também Platão, seria apenas uma passagem em que a alma deve se manter pura e evitar os excessos, sem se deixar sucumbir pelos desejos da carne e as paixões. As virtudes a serem valorizadas no ser humano são aquelas que passam pelo controle desses atributos. Como se pode notar, tudo o que o racionalismo cristão prega como boa virtude, exige de nós controle dos instintos do corpo e penitência (exame de consciência).

Então,  onde encontramos em Renato Russo a busca por este mundo idealizado e perfeito? Por toda a parte. São tantas as canções voltadas para esta visão, seja pelo retorno ao mundo das ideias, seja pela busca do controle dos desejos, que nem sei por onde começar a linha argumentativa. Que tal começar pela obra mais representativa desta verve, chamada Natália?


NATÁLIA 

O nome Natália significa nascimento. E nascimento é o início de uma vida. Natália vive num mundo cheio de doenças incuráveis, tragédias radioativas, pesticidas, dores... E estamos todos imersos neste mundo sensível. Somente um novo nascimento (um outro mundo) é capaz de acabar com todos essas mazelas. O mundo de Natália não é daqui ou, pelo menos, não é deste tempo. Isto fica claro no fim da música quando o poeta declara repetidas vezes como um mantra: " E quem sabe um dia eu escreva uma canção para você." Ou seja, o poeta se dispôs a escrever uma canção à Natália, assim como poderia ser qualquer outro nome. A escolha de Natália é fruto de sua genialidade, diga-se depassagem. Acontece que quando olha para o mundo só vê desgraça e sofrimento.  Assim começa:

"Vamos falar de pesticidas 

E de tragédias radioativas 

De doenças incuráveis 

Vamos falar de sua vida"... 

E assim vai, verso a verso, mostrando o mundo real que está à sua frente. Não encontra neste mundo valências capazes de fazer juz ao que o ser humano Natália merece, seja ela uma musa a quem o poeta reverencia, seja ela uma representante da espécie humana, o que parece o caso, a quem o poeta quer homenagear ao dar o título da canção. Vê apenas a esperança como única alternativa ao dizer nos últimos versos:

"É preciso acreditar num novo dia

No trevo de quatro folhas

Nos meninos e meninas

A escuridão ainda é pior que esta luz cinza

Mas estamos vivos ainda

E quem sabe um dia eu escreva uma canção para você. "

E conclui que só num mundo idealizado, fora do mundo real, encontraria um mundo suficientemente bom. Melhor que Natália, só se o título fosse Renato/Renata, que seria renascer, mas acho que o poeta não quis usar o próprio nome ou homenagear a si próprio. 


CLARISSE

Clarisse é outra destas músicas em que o mundo real se apresenta hostil. Viver em dor, ninguém entende, afirma o poeta. A história de uma menina de 14 anos em estado de depressão. 

"E Clarisse está sentada no banheiro 

E faz marcas no seu corpo 

Com seu pequeno canivete .

Seus tornozelos sangram

E a dor é menor do que parece.

Enquanto ela se corta ela se esquece

Que é impossível ter da vida calma e força."


A vida real não serve à Clarisse, ela se sente deslocada, fora de lugar:

"Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola e querem que eu cante como antes."

Já abordei esta música em outro tópico (Rousseau e Russo) sobre Clarisse ao falar da essência versus existência. Para Platão a essência pertence ao mundo das ideias, assim como a alma e todas as coisas pré-existência terrena. Também habitam o mundo das ideias a bondade, a justiça, o amor e todos os nobres sentimentos em estado de perfeição. Os versos acima demonstram que Clarisse quer se libertar do mundo sensorial, da qual não se vê partícipe, representado pela gaiola, para voltar ao mundo que sente seu.  O corpo é a gaiola que a prende, é a sua existência presa ao mundo dos sentidos. Clarisse castiga o corpo como quem arrebenta as grades a fim de libertar sua alma da gaiola para que então possa voltar às origens, o mundo das ideias. Só em um lugar distante, com a alma liberta, já que a dor que sente não é um mal do corpo, é que pode se sentir livre desta dor. Só lá no alto, voando, onde esta dor não a possa alcançar, é que pode ser feliz.



JOÃO ALBERTO

O jovem de DESESSEIS, o Jonnhy, diferente de Clarisse, até era um cara de bem com a vida, todavia, houve o momento em que se deparou com o sentimento de perda. Fugir da realidade e pintar quadros, como o eu-lírico de ACRILIC AN CANVAS, é uma solução recorrente na poesia de Renato Russo. E fugir da realidade em busca de uma outra situação é uma atitude que visa uma outra possibilidade além do real, do mundo sensorial. A frase "e dizem que foi tudo por culpa de um coração partido" deixa claro a informação de que Jonnhy provocou deliberadamente o acidente, pois a própria canção dá a certeza de que "Jonnhy era fera demais pra vacilar assim". Uma paixão desenfreada e não correspondida o fez agir com destemor, estava tomado pelas agruras da alma irascível que o fez colocar a vida em risco, o que perdeu de fato no acidente por ele provocado. A morte se tornaria o lugar de conforto de Jonnhy, seu mundo das ideias. A música ainda traz algo interessante dentro deste viés platônico. Strawberry Fields Forever, que aparece no final sendo cantada pelos colegas de João Alberto no velório é uma música dos Beatles e este lugar é uma praça onde eles usavam como refúgio, onde se sentiam bem. Ali era seu "mundo das ideias". Assim como os garotos da banda de Liverpool tinham o lugar de refúgio deles, parece que Jonnhy encontrou o seu.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

RENATO RUSSO E AS CITAÇÕES FILOSÓFICAS

 Já vimos em postagens anteriores a ligação da poesia de Renato Russo com alguns modelos filosóficos e filósofos que lhe influenciaram, tais como Rousseau e Russel. Em algumas canções usou frases de alguns outros filósofos que não apareciam corriqueiramente em sua obra e é sobre essas citações que irei abordar neste tópico, como forma de curiosidade. 

BLAISE PASCAL, EDUARDO E MÔNICA

Em Eduardo e Mônica o início é uma referência a Blaise Pascal, filósofo do grupo chamado racionalista. Este grupo era formado por pensadores que entendiam que a razão é força motora de todas as nossas ações e o conhecimento advem da razão, do ato de pensar, dando aos sentidos pouca importância como fontes do conhecimento, entendendo como falho, enganoso ou carente de reconhecimento aqueles obtidos por meio de fonte que não tenham passado pela racionalidade. Inimigos teóricos dos racionalistas eram os emotivistas éticos para os assuntos de comportamento, e os empiristas,  quando tratavam sobre o conhecimento. Estes últimos diziam que todo conhecimentto vem da experiência e não da razão. 

Apesar de ser racionalista, Pascal mostrava-se moderado e aberto à ideia de que alguns conhecimentos a posteriore poderiam vir dos sentidos e da experiência. Chegou a afirmar que "o coração tem razões que a própria razão desconhece", deixando entender que há coisas que são estranhas à razão e talvez ela não pudesse abarcar em seu arcabouço todas as formas de conhecer. O amor apaixonado poderia ser uma dessas. Como eu disse anteriormente,  o início da canção Eduardo e Mônica traz esta frase de Pascal um pouco modificada: "Quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração ".

Na essência está repetindo a frase de Pascal, a lembrar: "o coração tem razões que a própria razão desconhece", para ressaltar que, embora incompreensível, a história de amor destes personagens acontecia, mesmo que não parecesse crível. O narrador afirma que "eram mesmo diferentes" mas cada vez que se viam "a vontade crescia como tinha que ser". Não... Racionalmente não TINHA que ser assim... Era para ser justamente o contrário. Isto vem da genialidade do poeta, uma ironia, que leva a história do casal a ser explicada apenas pelas razões do coração que a própria razão desconhece. Tinha tudo para dar errado, mas deu certo. E o artista fez questão de ressaltar esta ideia ao terminar a canção com a frase inicial.


BUDISMO, SHOPENHAUER E O SOL

Budismo é uma religião oriental com bases filosóficas, centrada na ideia do controle dos desejos e o desapego como meios de se chegar a iluminação. Buda disse: "cuidado com o que desejas", uma clara ideia de que podemos nos tornar escravos dos desejos e eles podem ser nossa ruína espiritual, uma vez que movemos nossa vida em torno disto. Também traz a ideia de que como não sabemos nosso futuro, aquilo que desejamos e conquistamos pode vir a ser a causa de um mal que nos venha a acontecer. Por exemplo, alguém que deseja muito uma moto, pode um dia morrer por um acidente com ela. Neste caso, o que tanto desejou, lhe trouxe a morte.

Arthur Shopenhauer também traz a questão do desejo como um empecilho à possibilidade de uma vida feliz. A diferença  é que enquanto Buda apenas faz um alerta sobre as armadilhas do desejo, Shopenhauer o coloca como o fator que impossibilita a felicidade, uma vez que somos movidos pelos desejos e eles não cessam nunca. Sempre que se realiza um desejo, se busca imediatamente outro. Não existe satisfação completa e este círculo de cumprimento de metas alcançadas, reiniciando outras, nos coloca em uma vida de infelicidade permanente, que só termina com a morte.

E onde encontramos Renato Russo nesta ideia?

Em "Quando o Sol Bater na Janela de Seu Quarto" ele vem com a frase "tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor" Se aproxima muito da ideia budista de cuidar com o que se deseja. Todavia, se aproxima ainda mais da filosofia de Shopenhauer, pois o maior desejo é se afastar daquilo que não podemos, uma vez que ao desejar não sentir o que nos fere, o simples medo de acontecer já o faz presente. 

Porém, nem tudo está perdido, diferentemente de Shopenhauer, Renato Russo aponta uma saída e, talvez, aí esteja o motivo do título fazer referência à janela e sol,  dois elementos de alento. Na primeira parte da música o poeta se mostra pessimista, tal e qual Shopenhauer, como vemos nos versos:

"Até bem pouco tempo atrás 

Poderíamos mudar o mundo

Quem roubou nossa coragem?

Tudo é dor

E toda dor vem do desejo

De não sentirmos dor"...


A segunda parte é mais otimista:


"Por que esperar

Se ainda temos chance?

O sol nasce pra todos

Só não sabe quem não quer"...


A pergunta da primeira parte da canção é carregada de pessimismo, sobre a coragem que havia sumido. Já a pergunta da segunda parte impulsiona a se fazer algo.

Assim, podemos dizer que só a primeira parte remete à ideia de Shopenhauer de que o sofrimento é algo contínuo, que sempre se renova. Contudo, embora se fale de desejo na canção como fator que faz repetir e retornar a angústia, o que nos remete a Buda e Shopenhauer como ideia implícita, não é ele a causa do mal, a causa do mal é o medo. 


Continua...

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

RENATO RUSSO E AS MULHERES

Com o decorrer do tempo muitos artistas homenagearam as mulheres com canções que reconheciam-nas fortes, exaltando a forma como elas lidam com a vida. Porém,  é bom que se diga, que o retrato mais comum da figura feminina no cancioneiro brasileiro aparece como objeto de desejo sexual, ainda que às vezes isso venha disfarçado de elogio à beleza feminina. 

Alguns artistas tentaram trazer o tema de uma forma em que a exaltação à mulher saísse deste lugar comum, embora geralmente tenham caído para um olhar ainda masculino e escritas essas canções sob esta ótica. Erasmo Carlos, por exemplo, em " Mulher" traz o tema sob a ótica de "três homens carentes e dependentes da força da mulher"... A força da mulher aqui é derivada da fraqueza de quem depende dela e não de sua força em si. Sei, estou sendo duro na análise, o que quero dizer é que a mim apresenta ainda contornos de um elogio forçado. Contudo, é só uma impressão pessoal, a iniciativa de Erasmo é válida. O seu parceiro de trabalho, Roberto Carlos, passou uma fase da carreira em que fazia elogios às mulheres por suas características físicas: gordinha, baixinha... A intenção, eu sei, era de valorizar esses segmentos, vítimas de preconceito, mas ainda assim, contendo um tanto de inadequação na abordagem. A música Corpo e Luz, de autoria de André Sperling, em parceria com P.C. Pinheiro e Vagner inicia falando da mulher de vida sofrida e faz uma bela homenagem. Os versos finais, porém, mostram que a figura da mulher está sempre atrelada ao desejo e ao viver masculino com os versos " mas sua paixão precisa saciar/ Quem vai neste corpo deitar". É mais uma denúncia que uma visão do papel feminino, o que torna ainda mais meritório o contexto da música, mas mostra ainda uma necessidade de uma contraposição da figura masculina. Portanto, a mulher retratada por Erasmo vive em função da família, as caricatas de Roberto são vistas a partir de um viés de compaixão,  que é tudo o que não se quer numa música de exaltação e, esta mulher da canção Corpo é Luz, mesmo sofrida e de tantas lutas, precisa saciar o desejo masculino. É difícil encontrar uma música que seja uma autêntica exaltação do feminino, que seja por quem a mulher é e não sobre a função que exerce. Talvez em "Maria, Maria" , de Milton Nascimento, encontremos esta mulher.

E as mulheres de Renato Russo?

Um dos motivos que tornam Renato Russo um grande letrista é a forma como expõe os temas. Com as mulheres não é diferente. Ele tem uma forma de abordagem única e sistemática. Apresenta pelas mulheres um respeito muito grande, o que transparece claramente no decorrer da obra. Fala da objetivação vulgar como são tratadas, da opressão, da violência e, sobretudo, quando quer enaltecer, o faz de forma ímpar, sem falsidade e elementos de compaixão que mais a rebaixam que enaltecem.

Mônica é representada como a inteligente e madura na relação com Eduardo. Porém,  mesmo expondo as diferenças, não apresenta uma Mônica que faz uso disso para humilhar Eduardo, muito pelo contrário, dava-lhe dicas sobre temas que necessitavam de abrangência intelectual e não se importava com a pouca cultura demonstrada por Eduardo. A relação era de parceria que, ao fim das contas, era o que queria demonstrar Renato com esta canção.

A personagem que melhor reflete o pensamento e a forma como Renato quer expor as mulheres é Leila. Ele apresenta uma mulher forte, lutadora, que vive seu dia a dia dando conta de tudo, dos filhos aos carnês. É uma mulher que cria os filhos sozinha e a figura masculina aparece em duas circunstâncias, sendo a primeira quando comenta com seu interlocutor que precisa de um homem para lidar com as baratas, fala feita de forma leve e irônica e, a segunda, e mais importante, é a presença do próprio interlocutor que conversa com Leila como um amigo confidente, que a admira:


"...Adoro teu olhar

Adoro tua força 

E Adoro dizer teu nome: Leila

As vezes as coisas 

São difíceis minha amiga

Mas você sabe enfrentar

A beleza desta vida..."


A construção da canção se dá por admiração pura e sincera, sem afetacões. Não vem como alguém compelido a escrever sobre o tema, mas de alguém que se sente realmente impactado pelo valor que o tema traz. A recorrência com que a mulher aparece nas canções de Renato Russo, quase sempre com o mesmo viés demonstra isso. Mesmo quando vem num contexto amoroso, como em Ainda é Cedo, mesmo neste cenário vem em forma de admiração:

"Uma menina me ensinou

Quase tudo que eu sei

Era quase escravidão 

Mas era me tratava como um rei

Era fazia muitos planos

Eu só queria estar ali

Sempre ao lado dela 

Eu não tinha aonde ir."


Aqui mostra um eu-lírico masculino exaltando a mulher como alguém com objetivos a serem alcançados e, ele, alguém inerte, ainda imaturo para a vida. Até que ela não encontra mais eco no relacionamento e o deixa, mas ele não a culpa pela decisão porque consegue enxergar que a culpa pela perda se deve unicamente a ele, restando-lhe lamentar que ainda é cedo.


Portanto, a mulher retratada por Renato nos leva à discussão do feminino nos tempos atuais e nos coloca frente a frente com a filosofia de Simone de Boeveald, existencialista, que afirmava que a mulher, historicamente, é mais um produto da cultura do que aquilo que poderia ser ou que realmente é . Delegaram um papel à mulher e a condicioram neste envólucro de ser dona de casa, mãe e amante. Leila de Renato traz à tona esta mulher vislumbrada por Simone de Beoveald.

Um outro olhar masculino da literatura mundial a tratar o tema do feminino com este respeito e admiração vem de Eduardo Galeano. Em inúmeros de seus aforismas, tenta trazer alegorias em que reconta a história da humanidade sob ponto de vista matriarcal ao invés do patriarcal. Numa dessas alegorias conta a história de que homens mataram as mulheres de uma tribo e, a partir de então, as crianças foram ensinadas que seriam as mulheres submissas aos homens, fundando o estado patriarcal. Ou seja, o mundo foi antes matriarcal, virou patriarcal através de um golpe sórdido dos homens. As famílias desde então se formatam sobre esta égide do homem como chefe da casa. Numa outra alegoria Galeano conta que na areia haviam pegadas de um casal. Num dado momento as pegadas da mulher sumiram e se encontraram novamente com as pegadas do homem mais adiante. Com isto quis mostrar Galeano que a mulher é mais propensa que o homem a buscar algo diferente, a mais corajosa para ver o que existe além do que enxergam no caminho. Aquela capaz de ruptura. É a leitura do papel de Eva feita pelos Gnósticos de que ela deveria ser exaltada pelo "atrevimento" e não condenada como a desobediente tal como é descrita pela tradição judaico-cristã.

Renato Russo, assim como Galeano, fica neste impasse entre como se dá o papel da figura feminina e como deveria ser. Embora não busque as causas que levaram a isso, como faz Galeano, busca denunciar os abusos sofridos. Não consegue responder porque alguém que julga mais forte, mais determinada, mais madura, etc..., possa se sentir constantemente ameaçada e amordaçada. Talvez a resposta esteja numa proposta que fez a si mesmo: "um dia pretendo tentar descobrir porque é mais forte quem sabe mentir"... Aí encontra Galeano. Talvez o escritor uruguaio não tivesse contando apenas uma alegoria... Talvez seja verdade desta vez.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

RENATO RUSSO, CANÇÕES DE AMOR E O ESTOICISMO

 O Estoicismo é uma escola filosófica que prega a serenidade nas situações para estabelecer harmonia a fim de chegar a uma situação de bem estar. A aceitação do que não se pode mudar ou que não se tem o poder de intervir é um dos processos para se chegar a este equilíbrio. Num relacionamento amoroso, você tem poder sobre seu agir diante do que sente, mas não tem poder sobre o sentimento e a vontade do outro, num dia ele está ao seu lado e no outro pode não mais estar. Tampouco pode infruir no que pode acontecer. A morte da pessoa amada, por exemplo, é um fator da qual não se tem o controle. Por isso é preciso ter serenidade para passar pelo processo da aceitação. Isto é perfeitamente descrito, por exemplo, na música Esquadros, de Adriana Calcanhoto com quem, inclusive, Renato gravou dueto em programa de TV:

"Meu amor cadê você

Eu acordei 

Não tem ninguém ao lado..."

Nesta música Adriana usa o termo remoto controle, uma alusão ao controle remoto, um aparelho que permite controlar de longe. Esta inversão para remoto controle inverte também a possibilidade de controle do sujeito, uma vez que a vida está ligada a fatores que fogem de nossa alçada. Esquadros é uma música síntese do pensamento estoico. Adriana fez para seu irmão cego, refletindo sobre a impossibilidade de agir sobre isso. A partir desta reflexão dobre a cegueira do irmão, vem ao pensamento uma série de outras situações das quais não tem o poder de agir ou modificar, sendo, portanto, remoto o controle sobre elas. Uma dessas situações é sobre a vontade do outro nas questões do amor, pois um dia a pessoa pode amanhecer contigo e nos outros seguintes não mais...  Por diversos motivos que fogem ao seu controle. E a melhor forma de agir sobre isso é aceitar.

Inúmeras outras canções vêm carregadas deste conceito, nos diversos aspectos da vida, principalmente através de compositores como Oswaldo Montenegro e Renato Teixeira.  Tal conceito está  presente em diversos ritmos, como o expressado pelo eu-lírico de "Não Deixe o Samba Morrer". O sujeito já não consegue mais fazer o que fazia antes e agora tem que se contentar em buscar novas formas de participar do processo. Neste caso ele não pode mais sambar, então deixa a sucessor a missão de continuar a tradição. Neste caso, o movimento estoico se dá não apenas pela continuidade da tradição, já que é provocada, mas sobretudo pela situação do personagem que, não podendo mais exercer aquilo que gostava, arruma outra forma de continuar participando. O interessante é que para continuar participando, o evento não pode acabar e ele fica nas mãos da vontade de um sucessor que vai lhe substituir.

"... O meu anel de bamba eu deixo

A quem mereça usar.

Eu vou estar no meio do povo espiando 

Minha escola perdendo ou ganhando

Mais um Carnaval"

Também podemos citar o pai de Marvin, da canção do Titãs, que vaticina: "O seu destino eu sei de cor". Há coisas que não podem ser mudadas e não temos o controle sobre elas, seja nas questões do tempo, das escolhas que se repetem, das condições sócio-econômicas e, no caso do eu-lírico que Renato Russo trouxe do Manfredini, por amor.

E este processo é preponderante no eu-lírico de Renato Russo nas canções de amor. Geralmente, um sujeito sem sorte nas questões do coração que precisa lidar com a rejeição ou a perda de alguém. Embora seja hegemônico falar de si, não fica apenas em situações retratadas na primeira pessoa. São diversas canções e variadas as situações, às vezes sobre os seus próprios relacionamentos, às vezes sobre outros casais, às vezes fala de um relacionamento homossexual, às vezes heterossexual. Nesta postagem vou me ater mais nos relacionamentos amorosos em que ele se insere. A primeira característica é que trata o amor como uma questão ética, pois desde cedo percebeu que não existe amor fora da ética. Todo amor é uma questão ética. A segunda questão é que transmite para a composição o movimento de seus próprios sentimentos, navegando entre o real e o ideal. Este movimento acaba em aceitação de que o real se sobrepõe ao ideal, como pregam os estoicos, tal como está descrito em Os Barcos:

"Eu vejo você se apaixonando outra vez

Eu fico com a saudade 

Você com outro alguém 

E você diz que tudo terminou

Mas qualquer um pode ver

Só terminou pra você..."

Estoicamente aceita sua falta de sorte com as questões do amor. Os filósofos estoicos veem na aceitação das coisas daquilo que não podemos mudar como a melhor forma de lidar com elas e evitar um sofrimento maior. Assim se comporta o eu-lírico de Renato Russo frente ao amor. Já se pode perceber isto em "Acrilic an Canvas", onde o eu-lírico ora "pinta" em sua mente o amor "mais perfeito que se fez", ora volta para a realidade por ser "sempre, sempre o mesmo, a mesma traição..." Nesta canção, interessante notar, usa um recurso literário que coaduna com o próprio movimento que faz entre o real e o ideal, imaginário, chamado de fuga da realidade. Assim como o amor não acontece como deseja, o eu-lírico busca na idealização uma história de amor que lhe conforte. Pinta no quadro uma imagem que não existe na realidade. Se conforma com o que inventa por ser algo mais belo do que aquilo que enfrenta. 

Esta aceitação e resiliência também se faz presente em canções que não são idealizações suas, mas que lida com ausências reais, tal como em "Love in The Afternoon" ou em "Vento no Litoral". O indivíduo busca na velha sabedoria estoica o remédio para curar as feridas de alguém que partiu:

"Já que você não está aqui

O que posso fazer 

É cuidar de mim..."


O eu-lírico daqui está no mesmo lugar daquele da música Esquadros. Fazer o possível diante das situações se torna a melhor forma para afastar a decepção e a frustração. Era assim que o eu-lírico de Renato Russo lidava com as questões do amor. Contudo, não só de frustrações e decepções vivem as canções de amor do compositor. Gostava de mostrar histórias de amor comparáveis com as histórias de verdade, como a do casal Eduardo e Mônica, que de tão próxima das histórias que as pessoas vivem, se tornou filme. Por falar em filme, embora não dê nomes aos personagens, a canção "Vamos Fazer um Filme" tem essa conotação de vida que se constrói junto, com a simplicidade dos dias que passam. Nesta mesma linha seguem as canções "O Mundo Anda Tão Complicado" e "Quem inventou o Amor", com frases do tipo "gosto de ver você dormir, que nem criança com a boca aberta" ou "depois quero ver se acerto, dos dois quem acorda primeiro". Eram músicas que representam um respiro àquelas mais pesadas, talvez um gesto estoico de amparo a si mesmo.

Então, Renato traz as relações amorosas das mais diversas formas, de casais que constroem suas vidas lado a lado, até suas próprias desilusões amorosas, passando pela própria confusão na adolescência entre o que sentia e o conflito gerado por este sentir das canções dos primeiros discos.

"Soul Parsiful" (alma tranquila), tal como sugere o título, surge como um resumo de tudo isto, por coincidência, ou nem tanto, no último disco com Renato vivo. Aqui o eu-lírico está numa posição de quem encontrou o seu lugar. Está vivendo um amor sereno e a canção de amor agora é para ele próprio. Aprendeu que a melhor forma de sentir o amor do outro é amar a si mesmo, amando aquilo que está vivendo. A serenidade deste amor traz a força necessária para enfrentar os desafios que se apresentam a ponto de transformá-los em meras situações corriqueiras. O elemento religioso que antes aparecia como elemento de expurgo da culpa, agora aparece como uma oração, elemento integrante do relacionamento, pois tudo está integrado.

Tenho anis, tenho hortelã, 

Tenho um cesto de flores

Eu tenho um jardim

E uma canção 

Vivo feliz, tenho amor

Tenho coragem, sei quem eu sou

Eu tenho um segredo

E uma oração...

As coisas simples e naturais se misturam aos sentimentos mais profundos e a elementos de fé. O segredo que aparecia em Daniel na Cova dos Leões e Se Fiquei Esperando meu Amor Passar, que o angustiava,  já não o atormenta mais. Agora alcançou a serenidade estoica, livre da culpa. Agora é capaz de fazer uma canção a partir do seu sentir, dando ao sentir do outro o merecido papel. Assim, já não sofre pela expectativa criada e não fica a mercê do amor do outro, por isso começa a canção afirmando "ninguém vai me dizer o que sentir" e termina com "eu vou fazer uma canção de amor pra mim". Fazer uma canção de amor para si é a melhor forma de fazer uma canção para o outro. Amar o que vive com o outro passa a ser a melhor forma de amá-lo.