Sei não...
Oswaldo de Andrade, poeta do modernismo, apresentou uma constatação em seu crítico poema-piada:
"Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o Índio.
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio teria despido o português."
Estas forças da natureza, chuva e sol, suavizam a brutalidade usada para impor a cultura do povo que chegou ao que aqui estava. Quem dera o poema fosse:
"Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o Índio.
Que desaforo!
O índio não gostou
E lhe deu um pé na bunda."
Reconheço que não teria a genialidade e a sutileza usadas por Oswald de Andrade, assim como não retrataria a história como se deu. Que pena! Ah, se fosse uma manhã de sol...
A "pena" e o "desaforo" traduzem sentimentos e condutas diferentes. Isto nos leva à reflexão sobre como reagir em determinadas situações. É comum confundir bondade e ingenuidade. No caso de nossos nativos, uma coisa levava a outra e carregavam ambas as qualidades.
Sim, qualidades. Afinal, a normalidade das relações é que não se engane, nem se aproveite de um gesto bondoso de outro, como foi a recepção dos índios. Além desta ideia estar explícita em Rousseau em sua tese da natural bondade humana, ela se faz presente em líderes religiosos como Jesus, que sugeriu ceder a outra face à uma agressão, e Confúcio, que disse que devemos ser como o Sândalo, que perfuma o machado que o fere. Dom Helder Câmara sugere que devemos ser como canas-de-açucar que, mesmo esmagadas, só sabem dar doçura.
Isto é o que se espera das relações humanas.
Uma mãe reclamou a outras mães que ensinava seu filho a não bater nos coleguinhas. No entanto, vez por outra ele apanhava. Ouviu das outras mães que deveria ensinar a revidar.
Infelizmente, depois de tantos pés na bunda, somos direcionados a chutar primeiro, pois como afirmou Nietzche:
"Fiquei magoado, não por teres me mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te"
Vira um círculo vicioso. Nietzsche, como afirma na frase, já se viu genuíno, uma vez que já acreditou. Magoa a ele o fato de não mais poder acreditar.
O indígena histórico de Oswald de Andrade agiu como o garoto da escola que apanhou. Não espera que outro vá lhe fazer o mal, nem espera que lhe venham enganar. Sua pureza deixa todas as coisas puras, até que algo as suje.
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