terça-feira, 26 de maio de 2026

O NOBRE SELVAGEM

 Sei não...     


Oswaldo de Andrade, poeta do modernismo, apresentou uma constatação em seu crítico poema-piada:


"Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o Índio.

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio teria despido o português."


Estas forças da natureza, chuva e sol, suavizam a brutalidade usada para impor a cultura do povo que chegou ao que aqui estava. Quem dera o poema fosse:


"Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o Índio.

Que desaforo!

O índio não gostou

E lhe deu um pé na bunda."


Reconheço que não teria a genialidade e a sutileza usadas por Oswald de Andrade, assim como não retrataria a história como se deu. Que pena! Ah, se fosse uma manhã de sol...

A "pena" e o "desaforo" traduzem sentimentos e condutas diferentes. Isto nos leva à reflexão sobre como reagir em determinadas situações. É comum confundir  bondade e ingenuidade. No caso de nossos nativos, uma coisa levava a outra e carregavam ambas as qualidades. 

Sim, qualidades. Afinal, a normalidade das relações é que não se engane, nem se aproveite  de um gesto bondoso de outro, como foi a recepção dos índios. Além desta ideia estar explícita em Rousseau em sua tese da natural bondade humana, ela se faz presente em líderes religiosos como Jesus, que sugeriu ceder a outra face à uma agressão, e Confúcio, que disse que devemos ser como o Sândalo, que perfuma o machado que o fere. Dom Helder Câmara sugere que devemos ser como canas-de-açucar que, mesmo esmagadas, só sabem dar doçura.

Isto é o que se espera das relações humanas.

Uma mãe reclamou a outras mães que ensinava seu filho a não bater nos coleguinhas. No entanto, vez por outra ele apanhava. Ouviu das outras mães que deveria ensinar a revidar.

Infelizmente, depois de tantos pés na bunda, somos direcionados a chutar primeiro, pois como afirmou Nietzche:

"Fiquei magoado, não por teres me mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te"

Vira um círculo vicioso. Nietzsche, como afirma na frase, já se viu genuíno, uma vez que já acreditou. Magoa a ele o fato de não mais poder acreditar. 

O indígena histórico de Oswald de Andrade agiu como o garoto da escola que apanhou. Não espera que outro vá lhe fazer o mal, nem espera que lhe venham enganar. Sua pureza deixa todas as coisas puras, até que algo as suje.

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