Mostrando postagens com marcador Renato Russo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Renato Russo. Mostrar todas as postagens

sábado, 2 de maio de 2026

Meus Livros: RENATO RUSSO - CANÇÃO E FILOSOFIA

 


É uma reflexão da obra de Renato Russo com enfoque na Filosofia, nas correntes filosóficas e seus pensadores. Neste livro se encontra, por exemplo, a conexão de Renato com a filosofia de Rousseau sobre a bondade humana. Encontra a relação existente com a filosofia de Bertrand Russell, trazendo temas tais como o pacifismo e o ecocentrismo. Há ainda a reflexão sobre a verve mais frequente na obra de renato Russo, que é o platonismo, além do movimento estoico presente nas canções de amor. Também trata sobre a forma como o cantor lidou com a questão da homossexualidade nas composições, em que se percebe duas fases distintas de abordagem. Estas e outras reflexões trazidas neste livro ambicionam despertar no leitor uma nova forma de entender e experimentar as sensações que as canções  de Renato Russo produzem, sob uma ótica diferente a que está acostumado, para além do cancioneiro.

Links:

Digital

https://www.amazon.com.br/dp/B0FK35GSX5


Impresso

https://loja.uiclap.com/titulo/ua158195 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

FILÓSOFOS DEBATEM FAROESTE CABOCLO

AGATÃO: Este banquete tem como tema a questão ética e proporei como texto de estudo a música Faroeste caboclo, para que, a partir das situações vividas pelos personagens, possamos debater segundo vossas convicções.
(Os pensadores ouviram a música) 

ROUSSEAU: Encontro minha filosofia nesta narrativa. Acredito que o homem nasce bom e a vivência em sociedade o corrompe, porque desperta um desejo de competição que o leva a atitudes mesquinhas e pequenas. O primeiro verso deixa claro esta condição primitiva de bondade, pois não ter medo significa, nesta situação, não conhecer o mal. A morte do pai despertou em João de Santo Cristo um ódio pela vida e a visão de que todos eram seus inimigos. Esta inimizade, na humanidade, começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu!” e não houve ninguém com suficiente clareza para arrancar aquelas cercas. A partir daí cada qual passou a defender o que é seu, vizinhos se desentenderam, países guerrearam...

HOBBES: Falas, caro Rousseau, como se esta competição foi induzida por um fator externo, como o tiro que matou o pai do rapaz, por exemplo. Negativo! Estes sentimentos nascem conosco, pois não diferimos dos outros animais nesta questão. Digo que o homem é lobo do homem! Ao contrário do que dizes, o homem é naturalmente mau e a sociedade é quem cria mecanismos para educá-lo na virtude. João de Santo Cristo teve chances, quando criança e quando adulto, mas teimou sempre em ser lobo.

SÊNECA: Tudo seria muito mais tranquilo se João de Santo Cristo não lutasse tanto contra o seu destino. Ele viveria muito mais feliz se deixasse as coisas acontecerem naturalmente. A aceitação de sua condição, no mínimo, lhe traria paz para viver decentemente, trabalhando e, talvez, formando uma família.

AGOSTINHO: Faltou a todos os personagens a opção por Deus. A boa ação é aquela que nos aproxima de Deus e a má ação aquela que nos afasta Dele. Onde falta Deus brota o mal.

SARTRE: Penso que Rousseau e Hobbes erram quando falam em essência humana, pois primeiro existimos e a nossa essência - aquilo que somos - se forma a partir de nossas escolhas, o que quer dizer que não temos nenhuma natureza pré-existente, boa ou má. Também não existe destino como diz Sêneca, nós é quem o fizemos. E Deus, mesmo que existisse, não interferiria em nossas ações, porque somos condenados a ser livres.  Sozinho fiz o mal, sozinho inventei o bem. Não temos a quem culpar por nossas ações, pois somos pautados pela liberdade. Os personagens da história em questão agiram livremente, fizeram suas escolhas e suas ações não podem ser atribuídas a fatores externos, pois estes podem influenciar, mas jamais determinar as decisões pessoais.

AGOSTINHO: É o que chamo de livre-arbítrio...

SARTRE: É um contrassenso o que dizes. Uma liberdade pautada por uma força superior não é liberdade. Como posso ser livre se tenho que fazer a vontade desta força? Não existe meia liberdade. Não se pode ser meio livre, como não se pode ser meio morto.

NIETSCHE: E nem é a vontade deste Deus inventado, mas a vontade da Igreja de Agostinho que, influenciado pelas ideias racionalistas de Platão, teorizou um modo de amarrar as pessoas às normas e regras de conduta que atentam contra a natureza humana. Passaram a tudo proibir. Estamos condenando os personagens desta história sob a batuta destas regras estúpidas. Devo admitir que Maria Lúcia é a personalidade mais fraca, não pelas razões anteriormente expostas pelos colegas de banca, mas pelo fato de que ela vivia ao sabor dos desígnios dos outros personagens, não tinha amor próprio. Por outro lado, era justo o ódio de João de Santo Cristo e ele viveu intensamente até conhecê-la, entregando-se aos ditames da sociedade moralista, como formar família, com empreguinho e casamento.

HOBBES: O que estás a propor é a barbárie!  Como disse anteriormente, nascemos maus e se não houvesse uma lei que regulasse as ações, cada qual agiria conforme seu bem entender sem qualquer controle.

NIETZSCHE: O problema é justamente o controle. A única lei a ser seguida, deveria ser a lei natural, a lei do bem viver.

EPICURO: Bem viver é justamente o que faltou aos personagens. Como o fim último da vida é buscar o prazer através da tranquilidade da alma e da serenidade, devo concordar com Sêneca quando diz que João de Santo Cristo deveria esquecer o fato da morte de seu pai, a princípio, através do exercício do perdão. A agonia da cena guardada em seu coração se estendeu por toda a vida. Além do mais, ele desejava demais, quando poderia ser feliz com o que tinha e onde vivia.

NIETZSCHE: Perdão e piedade são para os fracos. O moralmente forte age segundo sua natureza. O ódio de João de Santo Cristo era justificável. Controlar os sentimentos é ir contra a lei natural e fraudar o que é puro e, portanto, bom.

ARISTÓTELES: Pois penso que a função da razão é justamente dominar as inclinações e as paixões. O bem viver é viver com equilíbrio, pois a virtude está no meio. Há duas formas de falhar: por excesso ou falta. Duelar com Jeremias não foi um ato de coragem - que seria a virtude – mas um ato temeroso – o vício por excesso.  João agiu emocionalmente pela ira. Jeremias, por sua vez, praticou a covardia ao atirar pelas costas – o vício por falta.

SÓCRATES: Só se erra por ignorância. O ser moral é o ser de conhecimento. Praticar o conhecimento é o bem agir. Os personagens em questão viveram à sombra de suas crenças, não procuraram a razão e nitidamente sofreram muito durante suas vidas. Seu conhecimento era, portanto, precário de verdade e sabedoria.

PLATÃO: Típico caso, se me permite o mestre interromper, de pessoas que vivem nas sombras da caverna. O medo do desconhecido os impediram de sair para fora e conhecer o verdadeiro mundo. Enquanto a alma era pura, como diz a música, João de Santo Cristo não tinha medo, o que equivale dizer que não conhecia o mal. O corpo, que habita o mundo sensível das aparências e enganos, através das experiências contaminou a alma, até então pura.

PROTÁGORAS: Pois penso que cada qual vivenciou sua experiência, conforme sua ética, seu modo de pensar e sua percepção particular de mundo. Cada qual aqui está julgando segundo o que acredita ser certo ou errado. O mundo existe conforme a visão de cada um e a vida e modo de viver se deu conforme as escolhas dos personagens. Quem disse que João ou Jeremias queriam vida e fim diferentes? Trocariam a curta vida que tiveram por uma vida longa sem emoção?

JONH STUART MILLS: Toda ação deve culminar em felicidade ao maior número possível de pessoas, mas tem que obrigatoriamente ser útil, pois os fins justificam os meios. Não vejo benefício algum, nem para os personagens, nem para a sociedade as decisões tomadas por eles. O único momento de boa decisão foi quando João de Santo Cristo resolveu trabalhar, constituir família com Maria Lúcia. Eles pareciam felizes e a sociedade ganhou com ele vivendo segundo as regras dela.

IMMANUEL KANT: Penso de forma contrária a Stuart Mills. Para mim não importam os resultados, mas a intenção do agente moral. Sêneca tem razão quando diz que não está em nossas mãos o controle  dos acontecimentos, pois às vezes queremos produzir algo e sai outro diferente. Temos culpa? Respondo que não, porque nossa intenção era boa. O final da música revela a intenção de Santo Cristo e era uma intenção boa, humanitária, que visava o bem social. Durante a música percebe-se que Santo Cristo sempre tenta fazer o melhor, mas algo sempre o desvirtuava do bom caminho.

NIETZSCHE: De boas intenções o inferno está cheio. O “bom caminho” que você se refere é o caminho dos padres, pastores e racionalistas. Gostam do Santo Cristo cordeirinho, enquadrado nos ditames de suas regras estúpidas que fazem as pessoas trocarem o bem viver pela prisão que estas normas e regras impõem.

DESCARTES: Como racionalista devo dizer que as paixões só levam a enganos e torturam a consciência. Concordo com Agostinho quando afirma que Deus e a Sua vontade são o direcionamento, a rota a seguir, pois ele é o Supremo Ser Pensante. Também concordo com Sócrates no que se refere ao conhecimento como elemento guia das ações. 

terça-feira, 19 de novembro de 2024

RENATO RUSSO, CANÇÕES DE AMOR E O ESTOICISMO

 O Estoicismo é uma escola filosófica que prega a serenidade nas situações para estabelecer harmonia a fim de chegar a uma situação de bem estar. A aceitação do que não se pode mudar ou que não se tem o poder de intervir é um dos processos para se chegar a este equilíbrio. Num relacionamento amoroso, você tem poder sobre seu agir diante do que sente, mas não tem poder sobre o sentimento e a vontade do outro, num dia ele está ao seu lado e no outro pode não mais estar. Tampouco pode infruir no que pode acontecer. A morte da pessoa amada, por exemplo, é um fator da qual não se tem o controle. Por isso é preciso ter serenidade para passar pelo processo da aceitação. Isto é perfeitamente descrito, por exemplo, na música Esquadros, de Adriana Calcanhoto com quem, inclusive, Renato gravou dueto em programa de TV:

"Meu amor cadê você

Eu acordei 

Não tem ninguém ao lado..."

Nesta música Adriana usa o termo remoto controle, uma alusão ao controle remoto, um aparelho que permite controlar de longe. Esta inversão para remoto controle inverte também a possibilidade de controle do sujeito, uma vez que a vida está ligada a fatores que fogem de nossa alçada. Esquadros é uma música síntese do pensamento estoico. Adriana fez para seu irmão cego, refletindo sobre a impossibilidade de agir sobre isso. A partir desta reflexão dobre a cegueira do irmão, vem ao pensamento uma série de outras situações das quais não tem o poder de agir ou modificar, sendo, portanto, remoto o controle sobre elas. Uma dessas situações é sobre a vontade do outro nas questões do amor, pois um dia a pessoa pode amanhecer contigo e nos outros seguintes não mais...  Por diversos motivos que fogem ao seu controle. E a melhor forma de agir sobre isso é aceitar.

Inúmeras outras canções vêm carregadas deste conceito, nos diversos aspectos da vida, principalmente através de compositores como Oswaldo Montenegro e Renato Teixeira.  Tal conceito está  presente em diversos ritmos, como o expressado pelo eu-lírico de "Não Deixe o Samba Morrer". O sujeito já não consegue mais fazer o que fazia antes e agora tem que se contentar em buscar novas formas de participar do processo. Neste caso ele não pode mais sambar, então deixa a sucessor a missão de continuar a tradição. Neste caso, o movimento estoico se dá não apenas pela continuidade da tradição, já que é provocada, mas sobretudo pela situação do personagem que, não podendo mais exercer aquilo que gostava, arruma outra forma de continuar participando. O interessante é que para continuar participando, o evento não pode acabar e ele fica nas mãos da vontade de um sucessor que vai lhe substituir.

"... O meu anel de bamba eu deixo

A quem mereça usar.

Eu vou estar no meio do povo espiando 

Minha escola perdendo ou ganhando

Mais um Carnaval"

Também podemos citar o pai de Marvin, da canção do Titãs, que vaticina: "O seu destino eu sei de cor". Há coisas que não podem ser mudadas e não temos o controle sobre elas, seja nas questões do tempo, das escolhas que se repetem, das condições sócio-econômicas e, no caso do eu-lírico que Renato Russo trouxe do Manfredini, por amor.

E este processo é preponderante no eu-lírico de Renato Russo nas canções de amor. Geralmente, um sujeito sem sorte nas questões do coração que precisa lidar com a rejeição ou a perda de alguém. Embora seja hegemônico falar de si, não fica apenas em situações retratadas na primeira pessoa. São diversas canções e variadas as situações, às vezes sobre os seus próprios relacionamentos, às vezes sobre outros casais, às vezes fala de um relacionamento homossexual, às vezes heterossexual. Nesta postagem vou me ater mais nos relacionamentos amorosos em que ele se insere. A primeira característica é que trata o amor como uma questão ética, pois desde cedo percebeu que não existe amor fora da ética. Todo amor é uma questão ética. A segunda questão é que transmite para a composição o movimento de seus próprios sentimentos, navegando entre o real e o ideal. Este movimento acaba em aceitação de que o real se sobrepõe ao ideal, como pregam os estoicos, tal como está descrito em Os Barcos:

"Eu vejo você se apaixonando outra vez

Eu fico com a saudade 

Você com outro alguém 

E você diz que tudo terminou

Mas qualquer um pode ver

Só terminou pra você..."

Estoicamente aceita sua falta de sorte com as questões do amor. Os filósofos estoicos veem na aceitação das coisas daquilo que não podemos mudar como a melhor forma de lidar com elas e evitar um sofrimento maior. Assim se comporta o eu-lírico de Renato Russo frente ao amor. Já se pode perceber isto em "Acrilic an Canvas", onde o eu-lírico ora "pinta" em sua mente o amor "mais perfeito que se fez", ora volta para a realidade por ser "sempre, sempre o mesmo, a mesma traição..." Nesta canção, interessante notar, usa um recurso literário que coaduna com o próprio movimento que faz entre o real e o ideal, imaginário, chamado de fuga da realidade. Assim como o amor não acontece como deseja, o eu-lírico busca na idealização uma história de amor que lhe conforte. Pinta no quadro uma imagem que não existe na realidade. Se conforma com o que inventa por ser algo mais belo do que aquilo que enfrenta. 

Esta aceitação e resiliência também se faz presente em canções que não são idealizações suas, mas que lida com ausências reais, tal como em "Love in The Afternoon" ou em "Vento no Litoral". O indivíduo busca na velha sabedoria estoica o remédio para curar as feridas de alguém que partiu:

"Já que você não está aqui

O que posso fazer 

É cuidar de mim..."


O eu-lírico daqui está no mesmo lugar daquele da música Esquadros. Fazer o possível diante das situações se torna a melhor forma para afastar a decepção e a frustração. Era assim que o eu-lírico de Renato Russo lidava com as questões do amor. Contudo, não só de frustrações e decepções vivem as canções de amor do compositor. Gostava de mostrar histórias de amor comparáveis com as histórias de verdade, como a do casal Eduardo e Mônica, que de tão próxima das histórias que as pessoas vivem, se tornou filme. Por falar em filme, embora não dê nomes aos personagens, a canção "Vamos Fazer um Filme" tem essa conotação de vida que se constrói junto, com a simplicidade dos dias que passam. Nesta mesma linha seguem as canções "O Mundo Anda Tão Complicado" e "Quem inventou o Amor", com frases do tipo "gosto de ver você dormir, que nem criança com a boca aberta" ou "depois quero ver se acerto, dos dois quem acorda primeiro". Eram músicas que representam um respiro àquelas mais pesadas, talvez um gesto estoico de amparo a si mesmo.

Então, Renato traz as relações amorosas das mais diversas formas, de casais que constroem suas vidas lado a lado, até suas próprias desilusões amorosas, passando pela própria confusão na adolescência entre o que sentia e o conflito gerado por este sentir das canções dos primeiros discos.

"Soul Parsiful" (alma tranquila), tal como sugere o título, surge como um resumo de tudo isto, por coincidência, ou nem tanto, no último disco com Renato vivo. Aqui o eu-lírico está numa posição de quem encontrou o seu lugar. Está vivendo um amor sereno e a canção de amor agora é para ele próprio. Aprendeu que a melhor forma de sentir o amor do outro é amar a si mesmo, amando aquilo que está vivendo. A serenidade deste amor traz a força necessária para enfrentar os desafios que se apresentam a ponto de transformá-los em meras situações corriqueiras. O elemento religioso que antes aparecia como elemento de expurgo da culpa, agora aparece como uma oração, elemento integrante do relacionamento, pois tudo está integrado.

Tenho anis, tenho hortelã, 

Tenho um cesto de flores

Eu tenho um jardim

E uma canção 

Vivo feliz, tenho amor

Tenho coragem, sei quem eu sou

Eu tenho um segredo

E uma oração...

As coisas simples e naturais se misturam aos sentimentos mais profundos e a elementos de fé. O segredo que aparecia em Daniel na Cova dos Leões e Se Fiquei Esperando meu Amor Passar, que o angustiava,  já não o atormenta mais. Agora alcançou a serenidade estoica, livre da culpa. Agora é capaz de fazer uma canção a partir do seu sentir, dando ao sentir do outro o merecido papel. Assim, já não sofre pela expectativa criada e não fica a mercê do amor do outro, por isso começa a canção afirmando "ninguém vai me dizer o que sentir" e termina com "eu vou fazer uma canção de amor pra mim". Fazer uma canção de amor para si é a melhor forma de fazer uma canção para o outro. Amar o que vive com o outro passa a ser a melhor forma de amá-lo.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

RENATO RUSSO E A POLÍTICA

 Já vimos na postagem anterior (Russell e Russo) que Renato Russo atuava politicamente em cima de causas. Do ponto de vista ideológico manifestava aversão ao Fascismo e a ditaduras, falando sobretudo da ditadura militar no Brasil. Na transição política do início dos anos 1980, houve a anistia, um combinado entre oposição e governo militar, onde os exilados políticos podiam voltar ao país e os militares não responderiam por suas ações praticadas durante o governo. Renato Russo se colocava contra esta anistia, pensava que os crimes e torturas não deveriam ser esquecidos. Esta ideia contra a anistia aparece em La Maison Dieu com a frase "eu não anistiei ninguém". Aparece também em entrevistas quando tocou no assunto. O Brasil nunca fez uma revisão séria quanto a isto e o futuro mostrou que Renato tinha razão. Em 08 de janeiro de 2023, após Jair Bolsonaro não conseguir se reeleger, seus apoiadores mais ferrenhos, inconformados com a derrota, invadiram a praça dos três poderes vandalizando o que encontravam pela frente, sob o argumento de que as eleições haviam sido fraldadas. Não sem antes por dois meses seguidos agruparem-se em frente aos quartéis pedindo intervenção militar. No decorrer destes meses, entre a eleição e a posse do eleito Lula, muitos eventos ocorreram, tal como a colocação de bombas em um caminhão deixado no aeroporto de Brasília, estradas trancadas e depredações. Pediam intervenção militar para impedir a posse de Lula. A anistia de 40 anos atrás davam uma certa autorização a certos saudosistas do governo militar de proclamar novamente o desejo de ter o país sob comando de uma ditadura. Em 13 de novembro de 2024 um homem jogou bombas contra o prédio do STF e depois se atirou sobre uma delas, explodindo a si mesmo. A sanha golpista continuava no discurso dos derrotados na eleição e arregimentavam pessoas para tais ações. Sobre a anistia, que, como vimos, teve repercussão futura, Renato Russo escreveu em "La Maison Dieu"

"...Eu sou a Pátria que lhe esqueceu
O carrasco que lhe torturou
General que lhe arrancou os olhos
O sangue inocente de todos os desaparecidos
O choque elétrico e os gritos
Parem por favor, isso dói...
...Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não, nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém"


Os anos de chumbo eram assunto recorrente de Renato Russo. "1965 (Duas Tribos)" é uma referência ao golpe civico-militar. O Brasil estava definitivamente nas mãos dos ditadores fardados que usavam o argumento de  estar salvando o país do comunismo. A música remete a um tempo em que Renato era ainda criança e como a propaganda oficial funcionava em favor dos comandantes, pois qualquer crítica era passível de torturas. O ufanismo pátrio não permitia que algo fosse dito contra o governo, pois seria o mesmo que se colocar contra a pátria, o que era passível de tortura, prisão e, aos mais influentes, exílio. Duas Tribos representa este momento:

"...Cortaram meus braçosCortaram minhas mãosCortaram minhas pernasNum dia de verão..."

Nos versos acima podemos observar uma alusão às torturas aos que se levantavam contra o regime. O que legitimava tais castigos era o discurso representado nos versos abaixo:

"Quando querem transformarDignidade em doençaQuando querem transformarInteligência em traiçãoQuando querem transformarEstupidez em recompensaQuando querem transformarE esperar sem maldição"

Como podemos ver a inversão sobre o que é virtude e o que é vício, bem típico da ideologia fascista, estava presente. Já os versos abaixo mostram como este discurso era usado. Os que se deixavam levar por ele não se importavam com o que acontecia aos que não se conformavam com a situação. Tal como crianças ficam alheias enquanto brincam, os conformados repetiam o Junior (Renato Manfredini) criança que, com 4 anos, era realmente inocente e aprendera estar diante do maior presidente do mundo.

"Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Tenho Autorama
Tenho Hanna-Barbera
Tenho pera, uva e maçã
Tenho Guanabara
E modelos Revell"

Enquanto uns morrem por conta do regime por não  serem bons filhos da pátria mãe gentil, outros são beneficiados por ela e ensinados a admirarem como a melhor das mães. Renato afirmou em entrevista como as crianças eram estimuladas a fazer redações sobre as virtudes do presidente... Por fim, a música termina com a frase ufanista da época:

"O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo pra cima
Pra cima
Pra cima"


FASCISMO

O fascismo foi a posição ideológica mais combatida por Renato Russo. Sempre que tinha oportunidade marcava sua posição. Nas músicas os atos fascistas normalmente não aparecem acompanhados do nome, mas eram facilmente identificados nas referências feitas às chacinas, no desrespeito às mulheres, na exploração... 

Por causa da frase "disciplina é liberdade" em Há Tempos, Renato foi acusado de fascista, imagine... o verso lido isoladamente pode dar  sentido tal acusação, mas dentro do contexto da música não se sustenta, passa a ser, como diz a gíria, forçar a barra. O próprio Renato explicou que não se trata de um ser humano ou grupo impor limite a outro, isso sim seria um fascismo, mas sobre autodisciplina, do auto-controle para alcançar a autonomia e ser verdadeiramente livre. Os indisciplinados são escravos de suas indisciplinas, pois não conseguem se auto-determinar e se autogerir. O compositor disse que se inspirou em Orson Wells, escritor do livro 1984.
Esta ideia de que a disciplina não é exatamente o que tolhe a liberdade já vem dos tempos dos gregos clássicos... Aristóteles diz que o equilíbrio é o melhor caminho pois a sabedoria está no meio. Não se pode agir com extremismos, como é o caso do Fascismo. Para uma comida ficar boa não pode ser insonsa nem demasiadamente temperada, os temperos devem ser equilibradamente postos para harmonizar os  sabores. Para Aristóteles, existe a virtude, que está no meio, e dois vícios, suas extremidades. Como exemplo, citamos a coragem, que é uma virtude que aparece na canção. Seus vícios são a covardia (por falta) e a temeridade (por excesso). Toda virtude tem um vício por falta e outro por excesso. Autocontrole, para um temeroso, o faz chegar à coragem, que a virtude correspondente. Ser temeroso, o faz ir para um caminho não virtuoso, por estar escravo de seus impulsos. Assim, controlar estes impulsos e chegar ao ponto virtuoso, ao equilíbrio, que é a coragem, se faz através da disciplina. Então, disciplina como liberdade, tal como aparece na música Há Tempos está colocada neste contexto.

Epicuro, outro filósofo da antiga Grécia, tem esta mesma linha de pensamento. Ele sustentava que toda ação deveria procurar o prazer. Este sentimento, no entanto, tinha em Epicuro um sentido diverso do "vida louca" que possui hoje. Está ligado ao auto-controle como obtenção de um prazer prolongado, em estar mais contente com o que se tem do que com o que e poderia ter, uma vez que isto poderia trazer mais dissabores que alegrias. Fugir do sofrimento é a melhor forma de sentir prazer e esta fuga significaria fugir dos excessos. Se você ganha uma barra enorme de chocolate é melhor comer um pedaço por dia, por um tempo estendendo o prazer, ou se impanturrar de uma só vez? Para Epicuro a primeira opção, pois além de alongar o prazer você pode estar evitando uma tremenda dor de barriga. Para este processo acontecer precisaria usar a autodisciplina. Ou seja, a disciplina liberta quando se dá por opção. 




terça-feira, 12 de novembro de 2024

RUSSELL E RUSSO

 Brethant Russell foi o outro filósofo, além de Rousseau a ser homenageado por Renato Manfredini Júnior quando escolheu incluir o sobrenome Russo em seu nome artístico. Foi um pensador a frente de seu tempo abraçando causas tais como o ECOcentrismo, ideia que coloca o meio-ambiente no lugar do ser humano como centro de tudo, que por sua vez se tornaria apenas parte integrante de algo maior, que lhe supera, o chamado ecosistema. 

Outra característica marcante do filósofo foi o fato de ter sido um PACIFISTA, inclusive rasgando sua carteira do partido trabalhista quando este partido deu aval para a ida de tropas lutar no Vietnã. Além disso, foi contrário às duas guerras mundiais e um opositor da construção da bomba atômica. 

Estas duas característica, porém, não o fizeram tão radical no que se refere a política ideológica. Suas lutas estavam sempre mais ligadas a causas. Algumas de suas participações políticas foram divergentes e até antagônicas em alguns casos, pois foi ora socialista, ora liberal, ora trabalhista, nunca esteve profundamente enraizado em nenhuma destas tendências.  

Com estas características: ecocêntrico, pacifista e volátil em termos de políticas partidárias (sem apego a elas), fica fácil imaginar porque Renato Russo se identificou com este filósofo... Provavelmente não foi pelo fato de Russell ser um grande matemático, uma vez que esta, pelo que se sabe, não fazia parte das matérias preferenciais de Renato.

Letras como "Angra dos Reis" trazem esta preocupação com a natureza, de colocar o ecocentrismo acima dos desvarios humanos e sua ganância. Já o pacifismo é outra característica bem marcante na obra de Renato Russo, aparecendo em canções como "Soldados" e "Canção ao Senhor da Guerra"

Quanto a política, assim como Russel, o Brasileiro era mais ligado a causas e denunciador de injustiças e maus feitos... Não era ligado a grupos partidários. O viés político ativo e não eminentemente partidário aparece em mais de uma dezena de canções, várias delas políticas, tais como "Perfeição", "Que País é Este!", " Metal Contra as  Nuvens" e "Teatro dos Vampiros", para citar alguns. Além disso, sua verve anárquica (sem apego a segmentos ideológicos) aparece em cores vivas em canções como "Gerarão Coca-Cola ". 


O ECOCENTRISMO

Angra dos Reis foi escrita num período em que a construção de usina nuclear na cidade de Angra do Reis estava em pauta e a discussão sobre os problemas ecológicos que poderiam advir deste tipo de construção para obtenção de energia estava em voga em todo o mundo, pois o desastre de Chernobyl acontecera havia pouco tempo do lançamento da canção. Esta angústia com o tema fez Renato Russo escrever:

"Mesmo que as estrelas começassem a cair

E a luz queimasse tudo ao redor

E fosse o fim chegando cedo

E você visse nosso corpo em chamas

Deixa pra lá"


Em "Fábricas" ele afirma:


"O céu já foi azul, mas agora é cinza 

E o que era verde aqui já não existe mais

Este ar me deixou minha vista cansada

Nada demais"...


Se percebe claramente a denúncia de uma ganância exploratória tanto contra o meio ambiente, quanto em torno da condição de trabalho humano em prejuízo a ambos.

Os versos irônicos "deixa pra lá" (Angra dos Reis) e "nada demais" (Fábricas) demonstram o incômodo de Renato Russo com a postura comodista que as pessoas se colocam diante destas questões que lhe são prejudiciais.

Essas canções são apenas exemplos, dentre muitas outras citações em outras canções desta verve do artista em torno do ecocentrismo e sua preocupação com o meio-ambiente. Também estava presente como lhe preocupava a forma como as pessoas colocavam a ganância acima da preservação do meio-ambiente e da saúde das espécies. 


A POLÍTICA ATIVA APARTIDÁRIA 

Do ponto de vista da política tradicional, afora seu desprezo pelas tendências fascistas, Renato Russo apresentava uma certa distância, mas extremamente político do ponto de vista de defensor de causas e das ações personalisticas, sempre guiado pela ética, ciência que as pessoas costumam relacionar apenas à corrupção monetária.  Em Renato Russo a ética ganha contornos mais abrangentes. Para ele toda ação se torna questão ética e com isso política. As relações amorosas, por exemplo, por mais íntimas que sejam  não deixam de ser políticas, uma vez que ambos os relacionantes são inseridos no meio social e, mesmo entre eles está estabelecido uma espécie de contrato do não engano, do respeito e outras definições próprias dos relacionamentos amorosos, tornando algo que é próprio de duas pessoas em um movimento que não deixa de ser político.

Se não há contradição na exigência da ética nas ações, sendo sua guia mestra, elas aparecem na obra de Renato Russo quando se trata de definições como a tendência política dos agentes políticos e suas idiosincrasias, tal como aconteceu na trajetória de Hussel. Em 1989 Renato manifestou em entrevista seu desejo em votar em Roberto Freire, então comunista (PCB) e se mostrava incomodado com o fato da pregação em voto útil em outros candidatos da mesma tendência de esquerda, uma vez que esses outros possuíam mais chances de vitória sobre os representantes da direita. Ao mesmo tempo em que declarava voto em um comunista, declarava-se capitalista numa outra entrevista, ou seja, o voto estava lincado ao seu gosto pessoal e não quanto a ideologia que o candidato representava. Renato parecia não acreditar muito nos discursos políticos como um indicador sincero das ações dos futuros governantes. De certa forma, ele acertou em termos, pois o candidato vencedor, Collor de Mello, usou entre outros argumentos para vencer a eleição, que seu oponente de segundo turno, Lula, iria bloquear a poupança. No primeiro dia de governo foi ele quem fez isso, o que motivou  Renato Russo escrever "Metal Contra as Nuvens". Aliás, esta visão de não apego a tendências partidárias, mas apegado e compromissado  às causas que julgava mais justas aparecem nos primeiros versos da cancão, que afirma por si próprio saber sobre o que lutar, ao lado de quem, sem ser um simples seguidor de um grupo guiado por alguém, postura que é na forma um gesto fascista, mesmo que o conteúdo não o seja:


"Não sou escravo de ninguém 

Ninguém senhor do meu domínio 

Sei o que devo defender 

Por valor eu tenho e temo

O que agora se defaz".


É bom frisar aqui que o discurso liberal do então candidato vencedor esteve presente nos seus dois anos de governo, o que mostra que a ligação ideológica em regra acompanha o discurso, algo que Renato parecia não confiar. Acontece que um governo na democracia, não raro tem que compor com ideias que diferem um pouco do partido no poder e ceder tem sido uma prática dominante nos governos. Talvez essa volatilidade tenha contribuído para a desilusão de Renato Russo quanto à crença nas ideologias. Sua ideologia era o fazer ético. 

E o que deve ter indignado o autor nesta questão em particular foi o fato do candidato vencedor dizer que o oponente iria fazer algo que ele próprio estava pensando em fazer caso vencesse a eleição. Por ser uma medida extremamente impopular, não teve coragem de colocar sob análise do eleitor, antes, preferiu mentir, afirmando que o outro faria. A mentira ajudou a se eleger e depois de eleito, sem que precisasse mais do voto, implantou a medida. E isto está muito longe da ética pregada por Renato Russo. Aliás, nos tempos vindouros, com as redes sociais, a faikes news se tornaram mecanismos importantes utilizados por muitos políticos antiéticos e têm motivado muitos debates. Assim, podemos perceber, Renato Russo novamente aparece atualíssimo nos assuntos a que se dispunha a defender.

Uma curiosidade se apresenta no instrumental... Fazendo jus ao nome, a canção imita uma dessas tormentas de verão. Começa com um ritmo calmo, como se mostra um céu límpido; depois avança, como se nuvens se aproximassem e, de repente, a pancadaria dos raios e trovões, para depois voltar a calmaria. Imita a vida, seja pessoal ou social, com suas idas e vindas, tormentas e posterior calmaria. Sempre na esperança de que dias melhores melhores virão, tal a sensação deixada por cada calmaria depois das tormentas. Então, surgem os versos finais imbuidos desses sentimentos:

"E nossa história não estará pelo avesso assim

Sem final feliz

Teremos coisas bonitas para contar.

E até lá vamos viver

Temos muito ainda por fazer

Não olhes pra trás 

Apenas começamos 

O mundo começa agora

Apenas começamos..."


Em outras canções aparecem outras características importantes no discurso político de Renato Russo e incluir a todos como responsáveis pelos destinos da sociedade e não somente os agentes políticos é uma dessas características. E assim coloca em "Que País é Este!":

"Nas favelas, no Senado, 

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a constituição"...

A desilusão é geral e apresenta os políticos como uma mera representação ou espelho da sociedade em geral. 

Repete a fórmula em "Perfeição", desta vez de forma mais abrangente, nomeando os diversos maus feitos e delitos sociais em suas diversas camadas, tais como os praticados por estupradores e ladrões, além de apontar sua própria responsabilidade no verso em que pede perdão pela "estupidez de quem cantou esta canção". A diferença de uma canção para outra é que Perfeição termina indicando a  esperança, depois de tantas ironias, talvez uma vazão à sua verve platônica, assunto reservado para um outro tópico adiante. Este final anuncia:

"Venha, o amor tem sempre aberta

E vem chegando a primavera

nosso futuro recomeça

venha que o que vem é perfeição."

Já  que Platão está posto para outro momento adiante, por enquanto podemos nos ater a Immanuel Kant, que afirmava existir no ser humano uma consciência imanente do que é certo e errado em se fazer. Deste modo, basta que todos ajam conforme os mandamentos e preceitos estabelecidos por esta razão universal existente na consciência para que tudo funcione como relógio e daí surja a perfeita sociedade. Por exemplo, se uma pessoa sai para caminhar com seu cachorro de estimação e limpa a sujeira que o cachorro vier a fazer e todos os outros cidadãos com seus animais fizerem o mesmo por dever de consciência e respeito para com a cidade e os demais habitantes, passaríamos a viver em uma sociedade perfeita, como sugere o título da canção. Tal e qual Immanuel Kant, Renato apela para esta consciência coletiva como meio de se construir a perfeição, o problema é que esta proposta, como as melhores já lançadoas, necessitam de uma consciência coletiva abrangente em detrimento ao individualismo que as pessoas em geral não estão propensas a seguir, ignorando a máxima "disciplina é liberdade".


O PACIFISMO

Com canções como "Soldados" e "Canção ao Senhor da Guerra", Renato Russo demonstrou todo seu repúdio às guerras, como manifestado em Bertrand Russell. 

Em "Plantas Embaixo do Aquário" termina com a frase "não deixe a guerra começar", repetidas vezes como um mantra. Porém, inicia com "provoque o desempate", numa alusão de que a apatia também não é uma solução viável frente à vida. Todavia, este processo de desempate, além de constante, deve ser um movimento como o das plantas colocadas na parte baixa do aquário, com harmonia e equilíbrio. Você já percebeu como se movimentam estas plantas?

Hegel, filósofo alemão, afirmava que as coisas surgem com a tese, depois a antítese, que é uma tese alternativa, para daí surgir uma síntese. Esta síntese cria uma nova tese, e dela uma nova antítese e, com isso, outra síntese se estabelece... assim sucessivamente. Este conjunto de sínteses, embora nascidos dos conflitos entre tese e antítese, podem ser resolvidos em movimentos harmônicos, tais como o diálogo, por exemplo, e cedências de parte a parte. É como plantas no fundo do aquário. 

A guerra em si, para Renato Russo não é viável como meio de desempate que ele prega na canção... Primeiro porque a guerra já vem com interesses escusos e programados para acontecer. Existe apenas a tese, a antítese é ignorada e a síntese é o massacre de inocentes, geralmente jovens que são convencidos a lutar pelos mais variados motivos, seja patriótico ou religioso, os mais comuns. Quando não convencidos são obrigados. 

Dentro do espectro da conquista pela força, tem a questão do terrorismo, outro tema recorrente nas canções de Renato Russo. Aqui o terror aparece por vezes em sua forma tradicional, como a lembrança de um grupo terrorista da Alemanha dos anos 1970 em Baader-Meinhof Blues, outras vezes, como em A Fonte, vem lembrando as chacinas de crianças e adolescentes, outras ainda através do descaso do Estado para com seus doentes e idosos, tal como aparece em Mais do Mesmo, bem como é lembrado nos ataques a mulheres e homossexuais, duas de suas causas mais caras, em A Dança.

Assim, guerra e terrorismo são ações que fogem do escopo das boas relações humanas e nada os justificam como alternativas. Nem a conquista territorial, nem a religião, nem o patriotismo, nem ideologia... Em nada se assemeham aos movimentos das plantas nos aquários.

Chegamos então aos três conceitos que aproximam Renato Russo de Bertrand Russell: a preocupação com o meio-ambiente, o pacifismo e a forma de encarar a política por meio de causas, tendo por bússula a ética. 

sábado, 2 de novembro de 2024

Renato Russo: canção e filosofia

 Renato Russo e as conexões com a filosofia.

Rousseau disse que Maquiavel,  fingindo dar lições aos príncipes, dava lições ao povo. O intuito desta postagem não tem a mínima pretensão dar lições, mas quer fingir que fala de filosofia, falando de Renato Russo e fingir que fala de Renato Russo falando de filosofia. 

O intuito não é o de simplesmente interpretar canções, mas identificar quais filósofos e concepções filosóficas estão mais presente na obra.

Renato Russo foi um compositor/letrista diferente da maioria, entre outras coisas, por apresentar em sua coleção de canções algumas ideias sistemáticas, ou seja, um discurso coerente em que ideias que surgem numa canção voltam em outras. As músicas (letras) não são obras que acabam em si mesmas, as ideias repetem-se e se sustentam, alimentando uma forma de pensar como base da obra como um todo.

Em vários textos, a partir desta postagem, neste blog, vou trazer algumas destas ideias com olhar filosófico sobre a obra, trazendo quais as fontes alimentadoras e quais aspectos filosóficos são destacados na obra do letrista.

Por enquanto vou explicitar quais são esses aspectos e depois dissertarei sobre cada um separadamente em postagens diferentes, a saber:

- ROUSSEAU e a bondade natural que aparece como base de pensamento em obras como Faroeste Caboclo, Há Tempos, Indios e A Fonte.

- BERTRAND HUSSERL, o ecocentrismo, a política voltada para as causas e o pacifismo.

- NIETZSCHE e desconstrução do apego ao que faz mal, ao que nos aprisiona... Tais ideias aparecem em Sereníssima, Será, Flores do mal...

- A ÉTICA como ponto de partida da obra, sendo foco principal, e a ESTÉTICA como linha auxiliar.

- A ESPIRITUALIDADE como base da vivência. 

- O conformismo ESTÓICO no que diz respeito às coisas do amor, evidenciado na maioria das canções sobre o tema.

- A GUERRA como algo a ser combatido e inexplicável como solução para conflitos entre países. 

- POLÍTICA: o fascismo, o terrorismo, a ditadura e a indiferença social. 

- SOCIAL: a questão das crianças e das mulheres.

- HOMOSSEXUALIDADE: As dificuldades em assumir tal condição e o processo ao fazê-lo.

- PLATONISMO como inspiração mais evidente, apresentando nas canções um mundo com suas confusões e problemas, mas sempre também apresentando uma esperança, uma outra situação possível, não raras vezes buscada em outra dimensão, pois, como disse o Renato Manfredini Júnior à mãe certa vez: "eu não sou daqui".

Estes parecem ser os temas mais trabalhados por Renato Russo e é em cima deles que faremos nossa abordagem, trazendo para o enfoque da filosofia. Há muitos elementos que passam despercebidos quando ouvimos tal  e tal canção, por desconhecermos a fonte inspiradora, por isto o estudo da obra ajuda as pessoas a se conectarem melhor com ela. Com formação em filosofia, pretendo fazer este enlace e auxiliar o leitor do blog a se conectar de forma diferente a que está acostumado e oferecer uma nova forma de experimentar estas canções, com novo enfoque e entendimento. 

Para continuar vá ao próximo tópico "Rousseau e Russo"

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Faroeste Caboclo - Minha Versão

Se alguém quiser ler, basta acessar o tópico http://omarluciano.blogspot.com.br/2013/11/faroeste-caboclo-clarisse.html  deste blog ou acesse a comunidade "Legião Urbana em Cena", no ORKUT
É só seguir as instruções tópico a tópico.