AGATÃO: Este banquete tem como
tema a questão ética e proporei como texto de estudo a música Faroeste caboclo,
para que, a partir das situações vividas pelos personagens, possamos debater
segundo as convicções dos senhores que se fizeram adequadas.
(Os pensadores ouviram a música)
E leram a história (letra)
HOBBES: Falas,
caro Rousseau, como se esta competição tivesse sido induzida por um fator externo, como
o tiro que matou o pai do rapaz, por exemplo. Negativo! Estes sentimentos
nascem conosco, pois não diferimos dos outros animais nesta questão. Digo que o
homem é lobo do homem! Ao contrário do que dizes, o homem é naturalmente mau e
a sociedade é quem cria mecanismos para educá-lo na virtude. João de Santo Cristo
teve chances, quando criança e quando adulto, mas teimou sempre em ser lobo.
SÊNECA: Tudo
seria muito mais tranquilo se João de Santo Cristo não lutasse tanto contra o
seu destino. Ele viveria muito mais feliz se deixasse as coisas acontecerem
naturalmente. A aceitação de sua condição, no mínimo, lhe traria paz para viver
decentemente, trabalhando e, talvez, formando uma família.
AGOSTINHO: É o
que chamo de livre-arbítrio dado por Deus, nós escolhemos entre o bem e o mal, como Adão e Eva...
SARTRE: É um
contrassenso o que dizes. Uma liberdade pautada por uma força superior não é
liberdade. Como posso ser livre se tenho que fazer a vontade desta força? Não
existe meia liberdade. Não se pode ser meio livre, como não se pode ser meio
morto.
HOBBES: O que
estás a propor, caro Nietzsche, é a barbárie! Como disse
anteriormente, nascemos maus e se não houvesse uma lei e uma obrigação moral que regulasse as ações cada qual agiria conforme seu bem entender, sem qualquer controle.
NIETZSCHE: O
problema é justamente o controle. A única lei a ser seguida deveria ser a lei
natural, a lei do bem viver.
NIETZSCHE: Perdão
e piedade são para os fracos. O moralmente forte age segundo sua natureza. O
ódio de João de Santo Cristo era justificável. Controlar os sentimentos é ir
contra a lei natural e fraudar o que é puro.
SÓCRATES: Só
se erra por ignorância. O ser moral é o ser de conhecimento. Praticar o
conhecimento é o bem agir. Os personagens em questão viveram à sombra de suas
crenças, não procuraram a razão e nitidamente sofreram muito durante suas
vidas. Seu conhecimento era, portanto, precário de verdade e sabedoria...
PLATÃO: Típico
caso, se me permite o mestre interromper, de pessoas que vivem nas sombras da
caverna. O medo do desconhecido os impediram de sair para fora e conhecer o
verdadeiro mundo. Enquanto a alma era pura, como diz a música, João de Santo
Cristo não tinha medo, o que equivale dizer que não conhecia o mal. O corpo,
que habita o mundo sensível das aparências e enganos, através das experiências
contaminou a alma, até então pura.
NIETZSCHE: De
boas intenções o inferno está cheio. O “bom caminho” que você se refere é o
caminho dos padres, pastores e racionalistas. Gostam do Santo Cristo
cordeirinho, enquadrado nos ditames de suas regras estúpidas que fazem as
pessoas trocarem o bem viver pela prisão que estas normas e regras impõem.
DIÓGENES: Certa vez me perguntaram se a vida é um mal e eu respondi que não, que mal era viver erradamente. Os personagens desta música, por exemplo, de um lado, rejeitavam viver conforme as leis da sociedade, mas de outro, se assemelhavam a esta mesma sociedade no que ela tinha de mais nefasto: o sonho do poder e da riqueza. Viveriam mais felizes se vivessem conforme um cão, que não tem essas preocupações humanas. Basta-nos para viver bem, a quantidade diária suficiente que cabe num prato. Além do mais, os personagens homens brigaram por amor de uma mulher e, pior, morreram por este motivo; isto é viver erradamente! O casamento é uma convenção social absurda, porque o amor deve ser naturalmente livre.
SHOPPENHAUER: O problema moral do homem é o egoísmo, que não o deixa ser bom para com o outro a fim de atingir a justiça e a piedade. Superar o egoísmo é o ato moral bom, pois se cada qual abrisse mão de suas vontades para o bem do outro geraria uma gentileza partilhada. A ética não tem que ter uma norma rígida como afirma Kant, um imperativo que seja universal. Também não deve ser volúvel, baseada em meios exteriores como a cultura ou a história, tal como afirma Hegel. Ela existe no indivíduo com sua prática e suas escolhas. Se este não prejudicar ninguém e for bom com todos estará praticando a boa ação. No caso dos personagens em questão, não percebi esta movimentação para a prática do bem, pois todos agiram egoisticamente. João, ao que parece, procurou a justiça, mas o fez pelas vias erradas, animadas mais pelo ódio e egoísmo, que por justiça ou piedade propriamente ditas.
AGATÃO: Agradeço a presença de todos!



















