terça-feira, 24 de maio de 2016

PARMÊNIDES E O BEM VIVER



Viver é Eternizar

 


           
“Não te trago ouro
Porque ele não entra no céu 
E nenhuma riqueza deste mundo 
Não te trago flores
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples 
Mas que fiz de coração“
(Chimarruts)





PARMÊNIDES

“O ser é e o não-ser não é”

"Pois pensar e ser é o mesmo"

“Não importa por onde eu comecei, pois para lá eu voltarei sempre.”



         Acrone estava defronte ao espelho que ganhara de Heráclito há cinquenta anos. Ficara viúva e agora estava só, novamente só. O espelho é uma lembrança muito forte, pois foi o primeiro presente que ganhara de Heráclito, justamente no dia em que aceitou o seu cortejo. Cinquenta anos se passaram e o espelho permanecia com ela, ao contrário dos ramalhetes de flores que Heráclito trazia em suas inúmeras e primordiais tentativas de namoro; e do próprio Heráclito que há um tempo se fora. As lembranças também continuavam presentes a ponto de Acrone ter vivas as palavras de Heráclito de que o espelho era para que ela lembrasse todos os dias da existência da beleza… e… da feiúra, pensava agora.

Resultado de imagem para imagem de idoso no espelho           Com certeza um galanteador – pensou Acrone consigo – Agora a imagem que via no espelho não condizia com as palavras de Heráclito e, ironicamente, condizia com sua filosofia de que tudo muda, tudo passa… Talvez Heráclito estivesse aplicando sua teoria à ela, quando lhe deu o espelho. Agora a imagem que Acrone via mostrava uma pele flácida e enrugada, cabelos maltratados e tristeza no olhar, muito diferente da imagem jovial de quando ganhara o espelho, exceto pela tristeza no olhar, que continuava a mesma do dia em que foi presenteada, pois o lugar que Heráclito supunha preencher na verdade ocupava um lugar ao lado. A alegria de um novo amor não estava inversamente proporcional à tristeza que ainda sentia. Irritada com a atual opinião do espelho sobre ela, Acrone o virou para a parede a fim de não mais ouvi-lo, pois sua voz soava estrondosamente dolorosa.

           Nem percebeu, em sua ira, que postado em frente à porta aberta estava um homem de mais ou menos setenta anos. Ao virar-se levou um susto:

           - Quem é você? – Quis saber Acrone

           Avançando dois passos, o homem lhe falou:

           - Um velho amigo...Não me reconhece?

          Acrone levou a mão ao peito ao reconhecer o homem que estava à sua frente, espantada com a aparição, mal conseguia balbuciar palavra alguma.

            - Parmênides!?

           Como era possível Parmênides estar ali se, segundo lhe informaram, havia morrido a mais de cinquenta anos na Macedônia? Depois de muito tempo estava à frente de Acrone seu primeiro e grande amor. O mundo dera um giro e voltara ao ponto inicial. Como pode? – pensou.

           - Por onde andou? Por que sumiu? Por que me abandonou? – Conseguiu finalmente falar Acrone, fazendo com que as perguntas saíssem automaticamente.

  - Calma – pediu Permênides – Eu explicarei o que aconteceu! – Falou, pegando nas mãos de Acrone.

           Parmênides recuperou o fôlego, olhou nos olhos de Acrone e começou a esclarecer sobre seu sumiço por tantos anos.
           - Assim que cheguei na Macedônia, caí preso, confundido com um inimigo do reino. Fiquei incomunicável por dois anos, por isso não consegui contato contigo. Depois que me libertaram, ao se darem conta do engano, voltei, mas soube que você não me esperou, já se encontrava casada com Heráclito…

           Acrone esbouçou interromper Parmênides, mas ele fez um gesto com as mãos de que iria continuar falando:

            - Não a culpo, Acrone, afinal, eu havia desaparecido. Você precisava seguir em frente. Então, resolvi não aparecer novamente, deixar sua vida fluir, como dizia Heráclito.

            - A informação que tínhamos é de que você havia morrido – esclareceu Acrone – prestei luto por um ano inteiro. Se eu soubesse, haveria de te esperar.

           Então Parmênides e Acrone não seguraram seus impulsos, se abraçaram e, quando menos esperavam, os lábios se encontraram mais de cinquenta anos depois do primeiro beijo. A textura dos lábios se modificara, mas o sabor permanecia o mesmo.

            - Agora que estou velha – falou Acrone, depois que os lábios se desgrudaram – tenho a oportunidade de gozar da sua companhia. Parece injusto, já que temos tão pouco tempo!

            - O tempo, como tudo que existe, é eterno e imutável – Filosofou Parmênides – Tal como permaneceu eterno e imutável o nosso amor.

            Então Acrone foi até o espelho que ganhara de Heráclito e novamente o virou, desta vez para si.

            - Quando Heráclito me deu este espelho eu conseguia ver através dele alguém jovem e bela… - Lamentou Acrone, mostrando a Parmênides que ela não era mais a mesma de antigamente.

            - E o que vê agora? – Interrompeu Parmênides.

            - Flacidez, rugas… Como Heráclito dizia: tudo muda, tudo se transforma…

Resultado de imagem para imagem de idoso no espelho            - Menos a opinião dele e… para ser justo, a minha… Ainda lembro de nossos embates sobre o assunto. Heráclito olhava o mundo como o público olha a atuação de um mágico e não percebia os truques da natureza. Tudo no mundo físico é transitório e passageiro porque são observados pelos sentidos. Não confie nos sentidos, Acrone! Eles nos enganam. O ser é e o não ser não é, pelo simples fato de que a essência de algo é eterna e imutável, como o ser é sua própria essência, também o ser, qualquer ser, é eterno e imutável.

        - Mas o espelho me diz o contrário… - Falou ironicamente Acrone, um tanto contrariada com a imagem refletida.

           - Olhe novamente, encare-o – Falou Parmênides segurando os ombros de Acrone – Não observe a imagem com olhos da face, eles nos enganam… Observe com os olhos da alma. Assim, chegará a conclusão de que a Acrone jovem e a Acrone de hoje são exatamente a mesma pessoa. As opiniões, a maturidade, não transformaram este ser chamado Acrone numa outra pessoa, pois a essência permanece inalterada desde seu nascimento. Olhe sempre o mundo com os olhos da alma… Ponha alma nas coisas para que façam sentido, senão sua vida não será mais que um truque de mágica. Não há sentido em confiar nos sentidos! – Falou Parmênides sem se conter em fazer o trocadilho – Se você der importância ao que é transitório, como as rugas, por exemplo, realmente não poderá ser feliz, porque estará ressaltando a finitude, a morte; se por outro lado, der mais importância ao que está dentro de você, o infinito será revelado por sua alma e a fará feliz. Não dê importância ao existencial, que se apresenta e some, dê importância ao essencial e se tornará eterna.

Resultado de imagem para imagem de casal de idosos           Então Acrone percebeu que Parmênides ainda a amava com o mesmo fervor de antes e que ela sentia o mesmo em relação a ele. A alegria voltou a habitar seus olhos como se fosse um passe da mágica, desta feita uma mágica eterna. Virou-se para Parmênides e novamente se beijaram. Então, como antigamente, se amaram ali mesmo, em pleno assoalho onde tudo começou… E foi como se o tempo não tivesse passado.


LIÇÕES DO MESTRE:


Parmênides contrapôs Heráclito em sua visão mobilista, afirmando que as transformações não passam de enganos dos sentidos, pois o ser é eterno enquanto ente existente, mesmo que seja finito em si mesmo, pois ele começa e termina exatamente com os mesmos atributos, ou seja, cada ser é o que é, sem nada ser acrescentado ou modificado, pois do contrário deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa. Em outras palavras, afirma que não podemos confiar nos sentidos. Não importa quantas vezes uma pessoa entra num mesmo rio, ambos serão sempre os mesmos, pois rio é rio e pessoa é pessoa e sempre assim serão, os sentimentos brotados em cada banho não passam de momentos passageiros.
Se levarmos esse pensamento para a questão do ser humano, veremos que Parmênides valoriza a essência, o interior, a introspecção e o pensamento. Se, por exemplo, colocarmos lado a lado um indígena e um asiático e analisarmos à luz da filosofia de Heráclito, diremos que ali estão um indígena e um asiático, ressaltando as diferenças, um essencialmente indígena, outro essencialmente asiático. Se a mesma análise for feita à luz da filosofia de Parmênides diremos que estamos diante de dois seres humanos, ressaltando o que os une, a sua essência primordial, e não o que os divide.
Assim, cultivar a essência e se importar com as coisas duráveis é a grande lição do mestre Parmênides para nossa vida. Que seja verdadeiro cada amor, cada ato, cada beijo, cada toque... Não há espaço para momentos efêmeros e desprovidos de sentidos. Ensina ainda que somos todos iguais e, se assim somos, temos a capacidade de ser o que o outro é, sem deixar que nos façam diminuídos ou derrotados. Assim, cada vez que o abatimento se aproximar, saiba que a força está em seu interior e é ali que estará a solução, por mais ou menos rugas que o espelho lhe mostre.



Na Pista de Parmênides

O Dj Parmênides traz à pista um momento de introspecção e monotonia.

Pode começar com “Por enquanto” da Legião Urbana que, embora traga em seu título a volatilidade das coisas passageiras e faça um jogo constante entre o efêmero e o eterno, termina por afirmar: “estamos indo de volta pra casa”, pois como afirma Parmênides, tudo volta ao início.

Segue tocando “Flores” do Titãs, pois mesmo que morram todas as flores naturais, como afirma a música, a ideia fica, seguindo a máxima de Parmênides de que “pensar e ser são o mesmo” e, como diz a música, “as flores de plástico não morrem”.

Também tem espaço para “Planeta Água” de Guilherme Arantes ao afirmar: “Águas que movem moinhos são as mesmas águas que encharcam o chão e sempre voltam humildes pro fundo da terra”.

O Dj também está atento a um romance que pode pintar na pista, então pode rolar a Sandy cantando: “por ser imortal, não morre no final...” ou “Me leva”, do Tim Maia que diz “com você no verão, primavera, outono ou inverno, nosso caso de amor tem sabor de sonho eterno”.

Ainda rola Cazuza quando fala “amor da minha vida, daqui até a eternidade”.

O som da Banda Catedral será o mais executado com músicas como “Eu amo mais você do que eu” que traz frases do tipo “a verdade é absurda no plural” e “penso infinitamente sem parar, a verdade é transparente no mirar da tua retina, minha menina”; ou como a música “Atemporal” que afirma: “Eterno enquanto dure tem um final, mas meu amor por você é atemporal”, contrapondo-se a famosa frase heraclitiana de Fernando Pessoa sobre o amor ao dizer ser eterno enquanto dura.

A playlist com as músicas internacionais contém My Way (Eu planejei cada caminho do mapa, cada passo, cuidadosamente, no correr do atalho) e One, do U2, merecendo um bis com a versão de Jonnhy Cash.


Nesta pista o som é o da eternidade, que ressalta os sentimentos duradouros, levando-nos a refletir sobre a eternidade e dançar ao rodopio de uma sensação nostálgica que de repente nos acomete: Somos tão jovens...

sábado, 21 de maio de 2016

HERÁCLITO E O BEM VIVER



VIVER É MOVER


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 “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará.
A vida vem em ondas, como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é Igual ao que a gente viu a um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre como uma onda no mar

(Como Uma Onda no Mar) Lulu Santos / Nélson Motta






HERÁCLITO

“ Tudo Flui “

“ Não se pode entrar duas vezes num mesmo rio, pois as águas se renovam”


         Acrone havia perdido seu grande amor. Soubera de sua morte na guerra há algumas semanas e agora estava ali, à beira do riacho, a chorar a perda... O jovem Heráclito, desde então a cortejava.

          - O mundo funciona assim, minha linda Acrone, tudo passa... Precisamos estar abertos ao novo e às inevitáveis transformações. O verão que ora volta nunca se repete, pois sempre trás novas sensações e novos ares são sentidos. Muito desta transformação se deve não somente a um novo verão, mas também às sensações novas que nascem em você a cada verão. Lembra as flores que te dei dias atrás?...

          - Falas daquelas que já murcharam? – Ironizou Acrone, interrompendo, sem parecer abrupta. Seu jeito meigo não deixava jamais transparecer rudez.

          - Trouxe-te outras – Respondeu Heráclito, apresentando a ela o ramalhete que trazia escondido – elas são como tudo que existe, Acrone, enquanto umas morrem, outras nascem.

          - Prefiro as coisas mais duradouras – Sentenciou Acrone – novamente com a sua peculiar candura.


Resultado de imagem para imagem de jovem a beira do rio          - Sei que ainda te ressentes da perda de um grande amor, ele era meu amigo também, mesmo em que pese os embates acadêmicos que promovíamos. Mas, escute, nada é para sempre. Quanto antes te deres conta disto, mais sofrimento te será poupado, pois mais tempo terás para viver um novo amor. Faça isso enquanto ainda tens vitalidade e beleza para viver com a maior intensidade possível. Veja aquela borboleta, antes lagarta, viveu cada fase da forma como deveria viver. Já foi feia, nojenta e agora é bela, já rastejou e agora voa, vive a cada momento como se fosse um momento único. Se não deres chance à felicidade do momento, perderás a mágica do mundo que é a multiplicidade das cores e das coisas. Depressiva, verás apenas o cinza.

          - Talvez tenhas razão e eu deva dar uma nova chance à vida. Aceito seu cortejo. – Respondeu Acrone, resignada.

          - Fico feliz por me aceitares e vou tentar fazer com que cada momento teu e cada momento meu, seja um momento nosso… Por falar nisso, ontem não te vi. Onde estavas? – Perguntou Heráclito.

          - Eu nem bem aceitei seu cortejo e já estás me cobrando? Ainda mais sobre ontem! Segundo seu discurso, isto já é passado – Brincou Acrone.

          - Não é isto... Só perguntei por perguntar... Mera curiosidade – Respondeu Heráclito.

          - Eu estava vendo um espetáculo na praça em que um homem oriental, muito diferente de nós, de olhos puxados, provavelmente um mágico, fazia saltar fogo de um pó que ele chamou de… como é mesmo… Ah! Lembrei, pólvora!

   - De um pó? Interessante... Sempre achei que as coisas, inclusive o pó, viessem do fogo, que tudo destrói para depois renascer. É como nosso relacionamento, que só está começando porque houve o rompimento de um outro. – Divagou Heráclito, sem perceber que estava fazendo Acrone relembrar seu grande amor.

          - Venha… Vamos nos banhar? – Propôs Acrone já entrando no riacho.

Resultado de imagem para imagem de casal num lago         Heráclito seguiu sua amada. Jogavam água um no outro, quando se aproximaram e se beijaram pela primeira vez, deixando-se levar pelo momento.

           - Nunca, Acrone, o banho neste rio será igual e duvido que alguma vez seja tão bom. É por isso que devemos viver intensamente cada momento, porque ele é único, irrepetível... As águas já não serão as mesmas e tampouco nós, quando aqui voltarmos... – Falou Heráclito, olhando diretamente nos olhos da amada - Venha, vamos ao povoado, quero dar-lhe um presente!

           Acrone e Heráclito saíram caminhando rumo ao povoado e, chegando ao mercado, Heráclito a presenteou com um espelho.

         - Este espelho é para você lembrar, todos os dias, ao olharmos juntos, que o tempo passa e tudo se transforma, pois o mundo existe pela força da movimentação dos contrários: o quente em contraposição ao frio, o seco ao úmido. Enquanto um fenece o outro surge, pois enquanto algo esquenta, deixa de ser frio na mesma medida.

        Então saíram do mercado e mais uma vez Acrone lembrou-se de seu inesquecível amor, que lhe havia jurado amor eterno antes de deixar a vida. Talvez – pensou ela – Heráclito tivesse razão quanto às águas do riacho e às borboletas, mas não podia dizer o mesmo sobre o amor que ainda nutria por Parmênides.


LIÇÕES DO MESTRE

Heráclito observava o mundo como algo em constante movimento e constante fluir; por isso, é tão cheio de cores e formas, já que tudo se transforma o tempo todo. Guarda, portanto, uma consciência do devir, do futuro, daquilo que está por chegar, pois um bule de chá exposto ao calor do fogo necessariamente esquenta, assim como volta a esfriar depois de exposto ao ar. Tudo isto se dá pela força dos contrários, principalmente entre o úmido, o seco, o quente e o frio, obtidos através da presença da água, da terra, do fogo e do ar; os quatro elementos primordiais da natureza, com reinado do fogo, pois o fogo devasta e, da devastação, nova vida surge.
Em nossa vida física estas transformações são evidentes, os anos passam, sobram rugas, experiências se somam... Por conseguinte, a filosofia de Heráclito também está presente em outros aspectos de nossa vida. Como seres subjetivos, ou seja, diferentes uns dos outros e singulares, somos pautados por experiências e formas diferentes de lidar com elas; assim, diferentes somos e, por vezes diferentemente agimos em diferentes momentos em cima de uma mesma situação, pois como afirma Heráclito: "não se pode entrar duas vezes num mesmo rio", pelo simples fato de que tanto as águas do rio, quanto quem entra nele não são mais os mesmos quando interagem pela segunda vez.
Heráclito ensina: Se tudo está em movimento é porque tudo não passa de um momento; então, o façamos mágico. A tristeza de um dia pode dar lugar à alegria na manhã seguinte. O sol sempre volta e um momento difícil não é o fim. Sempre existe a chance de recomeçar, não há derrota que se perpetue. Heráclito realça o significado da esperança, esta palavra que não aceita a derrota, deixando claro que o luto e a dor vez por outra nos aborrecerão, mas a alegria não tardará. Devemos confiar nos sentidos como meio de nos levar a viver intensamente. Sentir, amar, vibrar, tocar, dançar… Viver cada momento como se fosse único e trazer para dentro de si a multiplicidade que se observa nas flores, nos pássaros, nas formas naturais; juntando as cores e deixando a nossa vida mais bela.



NA PISTA DO Dj  HERÁCLITO

Algumas músicas podem fazer a trilha sonora na pista do DJ Heráclito.

Além de “Como Uma Onda no Mar”, apresentada no início do capítulo, temos a “Metamorfose Ambulante”, quando alguém gritar: “toca Raul”, pois nela o genial cantor diz: “Eu prefiro ser, esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

As músicas vão ao encontro da teoria heraclitiana de que tudo está em movimento, tudo flui...

Assim é a pista de dança do DJ Heráclito.

A pessoa que estiver nela deve estar pronta para a mudança de ritmos que a pista impõe, não pode estar presa a conceitos e preparado para acolher na pista as diferentes tribos.

Dançar sem pensar no amanhã. Vibrar com as cores.

Na pista da vida, o importante é curtir e saborear cada momento, pois ele é único. Cada sabor, cada cor, cada toque, têm consigo a eternidade do tempo que durar e só, por isso devem ser saboreados com a maior intensidade possível.

O artista mais tocado na pista do Dj Heráclito é Lulu Santos. Em “A Cura” ele canta: “demolirá toda certeza vã, não sobrará pedra sobre pedra”, na música “Tempos Modernos” é ainda mais contundente em sua visão mobilista: “Não há tempo que volte amor, vamos viver o que há pra viver, vamos nos permitir”. Heráclito, no conto apresentado neste capítulo, quis mostrar exatamente esta possibilidade para Acrone.

Na playlist internacional estarão músicas como What a Wonderful world, em que o eu-lírico vê e curte o mundo como quem passeia.

sábado, 14 de maio de 2016

ARISTÓTELES E O BEM VIVER




Viver é equilibrar



"Viver...
e não ter a vergonha
de ser feliz.
cantar e cantar e cantar
a alegria de ser um eterno aprendiz."

(Gonzaguinha)



Aristóteles


"A educação tem raízes amargas, mas seus frutos são doces"


     Alexandre, o Grande, estava longe demais de casa. Olhou para seu destemido exército, que neste momento se encontrava descontente pelo tempo longe de seus familiares. Veio-lhe à mente o tempo de criança e os ensinamentos de um mestre em particular: o filósofo Aristóteles.

     - Por que eu tenho que ficar aqui, se meus amigos estão lá fora brincando? – Perguntou o pequeno Alexandre, avistando outras crianças pela janela.

      - Irás brincar em seguida, meu pequeno senhor – Disse Aristóteles – Primeiro, quero que penses no universo. Veja como cada coisa está em seu devido lugar... Com a sociedade acontece o mesmo. Aqueles meninos e meninas não são Alexandre e por isso não devem se preocupar em se preparar para resolverem assuntos que no futuro Alexandre terá que resolver. No futuro deles não existe um reino para administrar, mas no seu futuro, tal situação é uma imposição do destino. 

       - Então quero um bom reino para governar... O que deve haver para um reino seja bom? – Perguntou Alexandre.

       - Harmonia... Um reino de bons cidadãos formam um bom reino, com cada cidadão fazendo o que lhe cabe dentro da célula social. É por isso que você está aqui, preparando-se para exercer a monarquia, porque será rei, enquanto outros serão soldados, artesãos, comerciantes... Por isso, penso que a Aristocracia seja a melhor forma de governo, pois no governo devem estar os melhores. Reúna os melhores conselheiros em torno de si para tomar as melhores decisões.

       - Para se fazer um bom reinado, o que um monarca precisa? – Perguntou Alexandre.

       - Equilíbrio! O caminho do meio é o caminho da sabedoria, o que chamo de justa medida. Aliás, assim deve acontecer também na vida. Quer um exemplo? O que acontece se salgo por demais a comida? Ficará saborosa?

       - Ficará intragável – Disse Alexandre.

       - E se por acaso eu deixar sem sal... – Continuou Aristóteles.

       - Ficará sem gosto – Completou Alexandre.

       - Pois bem, a comida só ficará boa se for temperada na medida certa e é assim que todos devem viver e, no seu caso, reinar, como futuro monarca. 

       - Como saberei qual a dosagem certa? Eu não sei, por exemplo, temperar a comida... Refletiu Alexandre.

       - É por isso que está se preparando para ser rei – respondeu Aristóteles sorrindo – Daquelas crianças que estão lá fora brincando, provavelmente uma delas será seu cozinheiro, que aprenderá o ofício no momento oportuno. Já a sua educação, pequena majestade, requer mais tempo pela importância da função que irás cumprir, por isso estás aqui a se preparar para tal função. A virtude não é algo que temos por natureza, mas algo que treinamos para ser parte de nosso caráter.

        - E por que tudo isto? Por que é importante praticar a virtude? – Perguntou Alexandre.

        - Tudo o que fizermos em nossa vida será em busca de um único objetivo, a felicidade, pois não há nada além dela, é o fim último de nossas ações. – Respondeu o mestre.

        - Pois eu estaria bem feliz se estivesse lá brincando com os meus amigos. – Falou Alexandre ironicamente. 

        - Isto é prazer, meu pequeno. Momentos de gozo não significam exatamente uma vida feliz; já disse que daqui a pouco estará brincando com eles, pois tudo tem seu tempo. A felicidade plena só chega com a prática da virtude. – Respondeu Aristóteles.

        - Como saber o que é e o que não é virtude? – Quis saber Alexandre.

        - O que você mais admira em um soldado? – Perguntou Aristóteles.

        - A coragem! – Respondeu convicto o educando.

        - Disseste bem, a coragem é uma virtude a todos, mas é primordial para um soldado. É exatamente por isso que o soldado treina para obtê-la. O que acontecerá, majestade, se um soldado bravamente se lançar à frente de sua tropa, sem nenhuma proteção?

        - Com certeza, morrerá! – Sentenciou Alexandre.

       - Neste caso, este soldado não praticou a coragem, mas a temeridade, que não é uma virtude, mas um vício por excesso. Sua ação temerária não foi sábia, pois usou a coragem em excesso e morreu por isso. Agora, façamos um exercício ao contrário. Digamos que um soldado se esconda atrás das tropas e, no momento oportuno, fuja da batalha. É ele um soldado corajoso?

          - Claro que não, é um covarde! – Respondeu Alexandre.

          - Pois bem, a covardia é a falta de coragem. Tanto pecar por excesso, quanto por falta, torna um cidadão sem virtude. 

Alexandre ficou pensativo olhando as crianças pela janela quando foi interrompido pelo seu mestre:

          - E quanto a Alexandre, que tipo de imperador quer ser? – Indagou Aristóteles.
          - Quero ficar na história como o maior de todos os imperadores, maior até que meu pai. Eu quero a glória!

          Conhecendo o espírito bélico de seu pupilo e a cultura da conquista de seu povo, Aristóteles entendeu o que ele quis dizer com “ser grande”…

          - Há várias formas de ser grande, majestade, assim como várias são as formas de ficar grandemente na história. Conquiste o coração do povo, pois talvez esta seja a melhor virtude de um rei.

          - Esta é a minha ambição… Por falar nisto, ambição é uma virtude, não é? – Perguntou Alexandre.



          - A ambição é um desvio por excesso da prudência que, neste caso, é a virtude correspondente, tendo como vício por falta a moleza ou apatia. A realeza não tolera a apatia e, tampouco, a ambição, que pode levar à perdição, então o bom rei, assim como o bom cidadão, deve ser prudente em seus desejos. Não se esqueça disso, meu pequeno... Agora, vá brincar com seus amigos. – Ordenou Aristóteles, enquanto observava o garoto bater a porta.

          Agora, Alexandre, já imperador e ainda jovem, conquistara boa parte das terras conhecidas no mundo. Lembrava-se de que sua ambição desmedida o trouxera até ali e arrastara consigo seu bravo exército, formado por homens que deixaram para trás mães, pais, filhos, esposas..., em busca da glória. Alexandre tornara-se realmente grande para a história, mas agira como aquele soldado que se lança temerariamente contra o inimigo, pois as terras longínquas lhe apresentaram a febre que agora tomava sua vida. Já não havia mais honra em olhar nos olhos de seus comandados. Pensou consigo que talvez precisasse ter dado mais ouvidos sobre o que Aristóteles tinha a dizer quando ainda criança, assim estaria se preparando melhor para a função a qual estava destinado exercer. Seria um monarca mais presente na vida de seu povo e, quem sabe, um cidadão mais feliz.



LIÇÕES DO MESTRE


          Contrariando seu mestre Platão, Aristóteles acreditava que a virtude não existe naturalmente em nós, ela deve ser ensinada, treinada e cultivada. Não é algo a ser despertado, mas alcançado através da prática. Assim, tal como um profissional fica melhor em sua área de atuação na medida em que treina o ofício, cada sujeito deve treinar para ser virtuoso, pois praticar o bem continuamente é o caminho para ser bom. E por que praticar a virtude? Para Aristóteles, o fim último da vida, o objetivo final, é alcançar a felicidade que, por sua vez, só pode ser alcançada através da prática da virtude. E o que é virtude? Virtude é a prática do bem, que é o meio-termo, o equilíbrio. A pessoa ambiciosa, por exemplo, perde-se em sua própria ambição, pois passa a viver nela e não para si mesma, perdendo o domínio e o auto-controle, sendo escravo daquilo que ambiciona. Do mesmo modo, esta pessoa não pode viver na moleza ou na apatia, pois não alcança seus objetivos e, com isso, não consegue ser feliz. Os extremos são caminhos tortuosos; então, neste caso, a virtude é a modéstia, o meio-termo entre a ambição e a apatia, pois como nos ensina o mestre: "A sabedoria está no meio".



              Na Pista do DJ Aristóteles


            Se Platão busca a felicidade num outro mundo, Aristóteles quer ser feliz aqui. Então, na pista do Dj Aristóteles as músicas executadas tratam desta busca, sempre de forma equilibrada.

             Então, estarão no repertório músicas sertanejas que falam da vida no campo, tais como "Vida Boa" de Renato Teixeira que diz: "Tenho no quintal, uns pés de fruta e de flor, e no peito por amor plantei alguém..."

               E também muitas das do samba de raiz que tratam desta felicidade, tal como "Não deixe o Samba Morrer", de Edson Conceição e Aloísio Silva, que diz: "Eu vou ficar no meio do povo espiando a minha escola, perdendo ou ganhando, mais um carnaval." 
  
                Pode-se incluir também a música "Quando a Chuva Passar" de Ramon Cruz, lançada por Ivete Sangalo, que diz: "quando a chuva passar, quando o tempo abrir, abra a janela e veja eu sou o sol, eu sou o céu e mar, eu sou céu e fim, e o meu amor é imensidão..."

                O forró não poderia ficar de fora, pois a alegria é uma de suas temáticas. A música "Rindo à toa", da grupo Falamansa, nos convida a procurar a felicidade mesmo em momentos difíceis, quando diz: "toda a mágoa que passei é motivo pra comemorar, pois se não sofresse assim, não teria razões pra cantar...". Em outras palavras, deve-se fazer de um limão, uma gostosa limonada.

                 As estrelas da pista do DJ Aristóteles se dividem entre Renato Teixeira, para os mais reflexivos, e cantoras como Ivete Sangalo e Cláudia Leite, para os mais festeiros, num trio elétrico com grupos de forró e axé. 


domingo, 8 de maio de 2016

SÓCRATES E O BEM VIVER


Viver é refletir



     “Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse:
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa...”

(Há Tempos – Renato Russo)


Na pista: Os que não se contentam com a forma, mas também com o conteúdo


      “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.”


“A vida sem reflexão é uma espécie de morte.”

“Tendo o mínimo de desejos chega-se mais perto dos deuses.”



SÓCRATES


          Platão e alguns amigos tentavam em vão convencer Sócrates a fugir da prisão. Financiariam sua fuga para longe de Atenas e financiariam também a subsistência dele e da família no exílio. Fariam de tudo para livrá-lo da iminente pena de morte que o julgamento o levaria na manhã seguinte, sob acusação de corromper a juventude e introduzir novos deuses na cidade, eliminando outros. O julgamento, segundo os amigos, era injusto, pois os inimigos de Sócrates usavam da retórica como convencimento para o condenar, sem se importar com a verdade, enquanto Sócrates, embora tivesse capacidade argumentativa maior que a deles todos, se recusava em assim proceder por respeito à sua filosofia. Seria condenado! Todavia, para Sócrates, seria uma morte em vida se procedesse tal como seus inimigos em sua defesa, pois a base de seu pensamento ético era a de que “uma vida sem exame não era digna de ser vivida”, ou seja, não conseguiria conviver com sua consciência se cedesse aos apelos de fuga engendrada por seus amigos. A coragem, uma das virtudes mais consideradas por Sócrates, estaria sendo negada por ele.

     - Pensem, meus amigos... Morrer é uma programação da natureza desde o momento em que nascemos. Vocês conhecem algum lugar em que se possa fugir da morte, que eu possa ir? Tenho 70 anos, daqui pra frente só vislumbro o declínio físico, a falta de memória e o declínio mental. Como arrastar minha família nesta fuga? E aos olhos de Atenas, não assinaria minha culpa se assim procedesse? E a coragem, uma das maiores virtudes que conheço, não estaria eu me afastando dela? Não estaria colocando vocês, meus amigos, numa enrascada, por me ajudarem? Viver bem nos leva a morrer bem! Não quero morrer exilado ou como alguém sem coragem que se renegou ao fazer um belo discurso em sua defesa. Fugir da morte é fácil, quer soldado sabe que basta sair correndo, difícil é fugir da maldade, pois ela é mais veloz que nós.

     - Mas todos sabemos que o faria justificadamente para defender-se de uma injustiça – Alegou Críton.
     - Se assim procedesse também eu, caro Críton, a exemplo de meus acusadores, estaria cometendo uma injustiça contra as leis da cidade. Ao fugir ou ao tentar ludibriar os julgadores em plenário estarei sendo injusto com Atenas. – Respondeu Sócrates.

     - Mas existe mal maior que ser vítima de uma injustiça? – Continuou Críton.

     - Sim! Ser o autor dela. – Respondeu Sócrates.

     Dito isto, os amigos de Sócrates, percebendo seu cansaço e o firme propósito de ir a juízo, resolveram se despedir daquele que tinham por mestre, mesmo que este nunca tenha se posto nesta posição. Sócrates ficou na cela em companhia de outro condenado, de nome Euclides. Um guarda veio lhes trazer comida, entregou primeiro a Euclides e, depois, ao entregar a Sócrates, deixou propositadamente cair no chão, cuspindo em seguida em direção a ela. Sócrates sabia que o soldado agira assim a mando de alguns de seus detratores. Euclides ficou espantado com a cena e ofereceu parte de sua ceia a Sócrates, que agradeceu, mas recusou dizendo não estar faminto.

     - Ainda se fosse comigo, que sou desonesto, eu entenderia o gesto deste guarda, mas não entendo por que agem assim com você, que busca sempre o bem... – Falou Euclides. Depois de uma pausa, continuou: Conheço este guarda, tenho algo para lhe contar sobre ele...

     - O que tens para me contar a respeito dele já passou pelas três peneiras? – Perguntou Sócrates, soltando as mãos da grade e virando-se para o companheiro de cela.
     - Peneiras? Como assim? – Quis saber Euclides.

     - É um filtro que se usa para quando se quer contar algo sobre alguém. É preciso peneirar a informação para que não se cometa nenhuma injustiça. A primeira peneira é a verdade. Certifique-se da veracidade dos fatos. Então passe para a segunda peneira que é a bondade, ou seja, é bom, positivo, o que você tem a contar? A terceira peneira é a utilidade, ou seja, o que você tem a contar traz algum benefício? Se o que você tem a contar é verdade, é bom e útil, me conte, senão, deixa pra lá... Que interesse eu deveria ter?

     - Não te interessa o que eu tenho a dizer sobre o guarda, que te fez o mal? Bom, então não vou contar que tem a ver com a esposa dele e outro homem... – Disse Euclides com sarcasmo.

Sócrates não conteve o sorriso com a malícia empregada por seu parceiro de cela.

     - Bem que me disseste, caro Euclides, que eras desonesto – Sócrates falou, gargalhando.

     - Mesmo depois do guarda te destratar, o defendes? És de outro mundo. – Continuou Euclides.

     - O fato de uma injustiça ser cometida contra mim, Euclides, não me dá o direito de cometê-la contra quem a cometeu primeiro. – Respondeu Sócrates.

      - Caro Sócrates, quero que saibas que aprendi mais contigo hoje, do que em toda a minha vida. – Concluiu Euclides.

     - Não aprendeu de mim, apenas se pôs a refletir e extraiu de si mesmo. Tudo já está aí, dentro de ti. O conhecimento é como um parto, algo que vem à luz, despertado por nosso diálogo... Falou Sócrates, utilizando o último fôlego de suas forças antes que o cansaço o fizesse dormir.

     Na manhã seguinte, o julgamento. Sócrates não escalou seus parentes para lamuriarem em frente aos juízes no intuito de comovê-los, nem outras estratégias comumente usadas para conseguir a absolvição. Pediu apenas que levassem em conta o conteúdo das palavras, das provas e o teor da denúncia, ao invés de se deixaram levar pela retórica rebuscada e artifícios outros de seus acusadores como Metelo, Ânito e Licon.

      Em sua defesa, Sócrates não parecia temer a morte e citou Aquiles que, mesmo alertado por sua mãe de que poderia morrer em sua vingança a Pátroco, preferiu o risco da morte que viver uma vida desonrada ao não cumprir um compromisso que julgava ser seu. Como Aquiles, Sócrates pensava também ele ter uma missão, um compromisso com a verdade. E não se afastaria deste compromisso por temer a sentença de morte. Por isso se negara a fugir como propuseram seus amigos e por isso não usaria em seu julgamento artifícios ilusórios para fugir da condenação, o que seria desonroso e contra sua filosofia.

     No fim, Sócrates, acusado por Metelo de ser um demônio, corruptor da juventude e ateu, foi condenado por 281 votos a 220 de um tribunal de 501 membros a tomar Cicuta, um veneno, caso não se retratasse frente a sociedade ateniense e deixasse de fazer as perguntas que costumava fazer e que tanto constrangia a todos. Assim, Sócrates resolveu agir com a coragem de Aquiles.

     - Antes de me encaminhar para o cumprimento da sentença, peço que cuidem de meus filhos e os repreendam se verificar que eles estão a tornar-se materialistas, pretensiosos ou inúteis... Aconselhou Sócrates.
Depois continuou:

     - Não se felicitem por terem se livrado de um perturbador. Minha condenação não os honra, pois há mais perda que ganho para Atenas com a morte de Sócrates. – Discursou ele na terceira pessoa.

      Sócrates se encaminhou para a sala onde haveria de ingerir o veneno. Acompanhado de seus seguidores e, diante da lamúria deles, continuou ensinando:

    - Não chorem pela minha morte, afinal, quem garante que a morte é necessariamente um mal? Vejo duas possibilidades: Se ela for um sono sem sonhos, em que a alma dorme com o corpo, melhor para os maus, que não sofrerão pena alguma após a morte e, para mim, que busquei o bem, tanto faz, pois estarei dormindo sem nada sentir. Se, por outro lado, a morte servir de passagem para uma outra vida, espero ansioso ser julgado pelos juízes da alma, os quais considero mais justos que aqueles que acabaram de me condenar, pois ao contrário deles, são deuses, eternos, imunes aos enganos. De qualquer forma, a morte para mim é um ganho, pois, avaliando fisicamente, só terei perdas a partir de agora, pois estou velho e, avaliando espiritualmente, os deuses me farão justiça ao sentenciar minha alma, pois vivi para a prática do bem e por isso morro bem...  Pois bem, é hora de ir: eu para morte, e vós para a vida. Quem de nós irá para o melhor lugar é obscuro a todos, menos a Deus.

      Então Sócrates bebeu da Cicuta e continuou a ensinar até que se viu diante da ponte de Hades...


     LIÇÕES DO MESTRE

Sócrates nunca se colocou na posição de mestre e esta era exatamente a posição inicial de sua filosofia ao dizer “só sei que nada sei”. Com a frase, Sócrates inicia sua posição contrária aos valores vigentes em sua época, sugerindo a troca da soberba dos vencedores pela humildade, por exemplo, como algo a ser atingido pelo ser humano virtuoso. A coragem, tão apreciada na Grécia, não podia ser vista a partir de uma vitória sobre o inimigo, mas a partir da vitória sobre o medo. A bravura não estava na vitória, mas na luta. O ideário preconizado por Dionísio, deus do vinho e da festa, que valorizava o emocional e as virtudes que partem deste ideário, deveriam ser trocadas pelo ideário de Apolo, deus da razão, e pelas virtudes oriundas dela. Em outras palavras, virtudes como compaixão, piedade, misericórdia, prudência, humildade, são consideradas hoje virtudes porque Sócrates as considerou como tal e nos ensinou a vivenciá-las em detrimento àquelas oriundas da paixão, tão valorizadas em sua época, na figura de Dionísio. Algumas figuras históricas, entre eles Jesus Cristo, continuaram a difundir este novo conceito de bem viver, onde a razão se sobrepõe à emoção como leme-guia de nossas ações. Então, Sócrates no convida a refletir. Diz que o mal existe por ignorância e que o conhecimento é o único caminho para a prática do bem e que o único jeito de chegar ao conhecimento é através da reflexão. No entanto, mais importante que o conhecimento é o auto-conhecimento, pois é ele quem valida o conhecimento, através de sua prática. Conhecer é fazer o bem! A máxima “só sei que nada sei” é trocada por “conhece-te a ti mesmo” nesta fase do processo. A grande contribuição de Sócrates, portanto, é de colocar um senso de dever em nossas ações ao dizer que quem conhece o mal não tem o direito de errar; em outras palavras, ele põe a mão na ferida dos poderosos de Atenas. Os mitos gregos contavam que bastava colocar as moedas nos olhos dos mortos para que o balseiro fisesse a travessia, Sócrates, porém, mostrou-lhes que haveria o julgamento dos deuses (ou Deus) e estes não podem ser comprados, pois os deuses atuam com a perfeita justiça. Não é pouca coisa, pois muda-se completamente o conceito de bem. A riqueza, por exemplo, passa a valer menos que a bondade, pois como Sócrates disse: “É fácil fugir da morte (ou de um compromisso) qualquer soldado sabe que basta sair correndo, mas não podemos fugir da maldade, porque a maldade é mais veloz que nós.” Em outras palavras, como não há jeito de fugir da maldade, é nosso dever enfrentá-la e vencê-la, já que a outra opção é se entregar a ela. É fácil praticar o mal, difícil é praticar o bem. Praticar o bem significa deixar de lado algumas práticas voltadas para a riqueza e prazeres deste mundo e passageiras para impor à vida de cada pessoa um senso de consciência de ações voltadas para virtudes duradouras como prudência, serenidade, amorosidade… E quem julgaria esta vivência? Os deuses (ou Deus), que levariam em conta não a hierarquia social ocupada ou a riqueza conquistada, mas os atributos pessoais. Os poderosos de Atenas não aceitaram esta nova visão. Acusaram Sócrates de corromper a juventude com seu discurso e o impuseram a escolha entre renunciar sua visão ou morrer. Como um soldado que não foge de sua missão, Sócrates preferiu a coragem à covardia, preferiu enfrentar a maldade e vencê-la dentro de si do que fugir dela, preferiu a morte honrada em defesa da verdade, que a vida desonrada pela covardia.



Na Pista do Dj Sócrates

Sócrates é do tipo de Dj que gosta de música com letra bem acabada e traga consigo não somente o ritmo, mas também privilegie a reflexão. Gosta daquelas que cutucam nas feridas sociais e pessoais.

O som começaria talvez, com a música “Admirável Gado Novo” que fala de um “povo marcado” indo pro abate, porque não reflete e não contesta sua sina.

Depois entraria com “Televisão”, da Rita Lee cantando: “A televisão me deixou burra, muito burra demais. E agora todos os sons me parecem iguais”.

Paralamas do Sucesso teriam lugar com músicas como “O Beco” e “Alagados”, assim como Engenheiros do Hawaii e sua “Toda Forma de Poder”.

Chegaria a vez de Gabriel, o pensador, mais pelas perguntas que pelas respostas, como é o caso da música “Até Quando?” em que diz: “Até quando você vai ficar usando rédea? Rindo da própria tragédia?” Também estaria na lista “Lavagem cerebral” e “Pra Onde Vai?” , além de “Fé na Luta” que diz: “Hoje eu vim pra te mostrar que o bem é mais forte que o mal”.

As grandes estrelas da noite seriam Chico Buarque e Milton Nascimento.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

DIÓGENES E O BEM VIVER




viver é (Re)Naturalizar




"Tudo em vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos óio
Não vendo a luz, ai, canta de dor...
Tarvez por ignorança
Ou mardade da pió
Furaro os óio do assum preto
Pra ele assim canta mió..."

(Luiz Gonzaga -  Assum Preto)



         Diógenes havia acabado de banhar-se no riacho e agora estava ao sol, nu, deitado na relva aquecendo a pele. Para ele, a melhor, a mais honrada e verdadeira forma de viver era em contato com a natureza, livre, tendo por testemunha o céu. Da chuva e do frio, protegia-se num barril, comia do que a natureza lhe provesse. Costumava dizer que lhe bastava o que cabia em seu prato diariamente, sem se preocupar com o futuro, pois assim viviam os cães em sua sinceridade natural e nós em nada deveríamos nos diferenciar destes animais. A sociedade, com seus mecanismos estruturais, tornara-se artificial e danosa à liberdade individual, tornando falsa a nossa vivência, pois a pomposidade social é estúpida, quando tudo é tão natural e tão simples. A luta por uma grande casa e bens diversos, além de serem contrários à nossa natureza, nos acorrentam em frágeis estruturas sociais que mais dividem do que unem.

        Por ser livre é que Diógenes se dava ao luxo de estar nu. No entanto, era hora de ir à cidade e, no mínimo, deveria participar do decoro coletivo, um dos poucos costumes sociais aos quais se rendia. Então vestiu sua túnica mesmo a contragosto e se pôs a caminhar. Chegou à entrada da cidade e parou, olhou para os cães à sua volta e disse:

         - Vejam com seus olhos a construção da falsidade humana. A origem da sua perdição.

         Já na cidade, um homem abastado lhe chamou da porta de sua casa. Diógenes olhou para os lados para se certificar de que era com ele:

         - Ei, você, você mesmo, venha aqui. - Disse o homem.

         Diógenes, então, entrou no pátio e chegou à porta.

        - Hoje orei aos deuses e pedi algo - Falou o homem a Diógenes - Comprometi-me a dar pães frescos a alguém faminto e quero dá-los a você.

       Diógenes sentiu o cheiro dos pães vindos da fornalha. Como era adorável aquele cheiro! E Diógenes não havia ainda comido naquela manhã, mas se tinha algo maior que sua fome era sua reconhecida forma de encarar o modelo de vida primitiva que defendia como sendo a única forma honrada de viver.

      - Agradeço pelos pães, mas devo recusar – respondeu Diógenes.

     - O que há de errado com os pães? - Perguntou o homem - Se você não aceitar talvez os deuses se sintam desobrigados comigo.

     - Não há nada errado com os pães, mas há com seus deuses e a sua barganha. Porém, não se aflija, sua preocupação é vã porque os deuses estão desobrigados de você de qualquer jeito, se é que existem. Além do mais, minha ética não permite fazer parte de uma caridade viciada em sua origem. Constrange-me participar de tal teatro. Valeria mais a pena eu parar em frente a uma estátua e pedir-lhe algo, sei que não ganharia nada, no entanto, com ela pelo menos seria mais verdadeiro, pois eu sei que não obteria nada, mas também sei que não haveria caridade falsa advindo dela.

      - Eu te ofereço pães e em troca me ofendes? – Disse-lhe o homem.

     - Eu o estou salvando de cometer um erro – disse por fim Diógenes, afastando-se com seus cães.

     Diógenes e seus amigos caninos chegaram à praça pública. Diógenes sentou-se na relva rodeado pelos cães e ficou a observar a paisagem. Queria mesmo era despir-se para aproveitar o sol em sua totalidade.

        - Vejam meus amigos – falando aos cães – como os humanos se comportam. Fingem fino trato, caridade, bondade… Tudo ilusório, miragem que eles fingem ser real. Olhem aquele casal ali, não são como vocês, ficam presos a uma relação fingindo ser felizes. Vocês não! Vocês são livres. E eles fazem isso para satisfazer a sociedade. Abandonam sua natureza para viver uma mentira consentida, mais que isto, obrigatória. Vale muito mais a amizade, pois esta não cobra nada, apenas ama. E este é o amor verdadeiro!

       Depois de uma pausa, Diógenes olhou para os cães, sentindo uma certa inquietação.

  - Estão com fome? Será que fui egoísta em não aceitar os pães? Eu podia pegar e dá-los a vocês por que, diferentemente de mim, vocês não precisam se constranger, nem se preocupar em denunciar as mentiras sociais. Vocês não têm consciência! No entanto, peço que  vejam o meu lado… Se assim eu procedesse, iria contra tudo o que prego e isto me faria tão falso aquilo que denuncio… Façamos o seguinte: voltamos a casa daquele senhor e pedimos os pães, porém devemos deixar bem claro que os pães são para vocês. Os tais deuses não deverão se importar a qual fome os pães irão saciar, se a minha ou as suas.

         Diógenes e os cães voltaram à casa do senhor que oferecera os pães. Bateu à porta e foi o próprio homem de antes quem a abriu.

         - Olá, o senhor ainda tem os pães que a pouco me ofereceu? – Perguntou Diógenes.

         - Sim, agora os quer? – Respondeu o homem, indignado.

        - Quero, mas não são para mim, são para meus cães que estão famintos. Eles não se importam com suas motivações e seus acordos com os deuses.

         - Insolente! – esbravejou o homem.

      - Por acaso os cães não sentem fome, tanto quanto qualquer humano? Qual a diferença entre matar a minha fome e a fome deles? – Indagou Diógenes -  Em nada me sinto melhor que eles, muito antes pelo contrário, assim como são melhores que você. Veja esta sua casa, é tão suntuosa e limpa que não há onde cuspir, a não ser na sua própria face, que é o que há de mais sujo e falso por aqui.

       O homem bateu a porta e Diógenes voltou à praça. Acendeu sua lamparina e a pendurou na árvore enquanto sentava-se aproveitando a sombra, já que a esta hora o sol aquecia com maior vigor. Pegou uma maçã que guardava consigo e se pôs a comer. Os cães procuravam seu alimento na praça. Um ateniense que passava achou curiosa a cena.

       - Por que esta lamparina está acesa em plena luz do dia? – Perguntou ele.

       - Quero que ela me ajude a identificar um homem que seja decente. – Respondeu Diógenes.

       - Como assim? Não lhe parece inútil os fachos de luz desta lamparina em plena luz do dia? – Voltou a perguntar.

       - Sim! Como é inútil o propósito dela, porque não há como encontrar alguém decente em Atenas. Por isso a acendo em plena luz do dia, como um símbolo da indecência que ninguém vê e todos vivem, concordando com este viver. Por outro lado, a lamparina simboliza a esperança de que as pessoas se libertem desta prisão, representada pelos costumes e seus usos. – Respondeu Diógenes

       - Pensas então que vives melhor que eu, por exemplo, que tenho casa, carruagem, escravos, bens e dinheiro, enquanto dormes num barril, vives na praça, sem dinheiro, sem nada?...

         - Se este nada a que te referes for minha dignidade, já tenho mais que você... – Respondeu Diógenes.

           - Então, julga-te como alguém melhor que eu?

         - Meu cajado, minha túnica e minha lamparina respondem por mim. Ser melhor não significa ser bom e viver melhor não significa viver bem. Antes de sermos melhores, devemos procurar ser bons e, antes de viver melhor, devemos viver bem...

     O homem, que até então não entendia bem a filosofia de Diógenes, a escolha desta forma rude de viver, já que o tinha como um sábio e, portanto, com capacidade de possuir bens, começou a refletir mais profundamente sobre a intenção do filósofo, sobre o que ele queria ensinar. Passou a perceber que viver melhor, ou seja, ter conforto, não significava necessariamente, viver bem. Sempre colocava ambas as coisas como se fossem uma só, mas agora Diógenes o pusera de frente consigo mesmo.

       - ...Pensas que ter uma casa é algo bom? – Continuou Diógenes enquanto o homem à sua frente ainda pensava – Que todos os teus bens são capazes de te fazer feliz? Aposto que és casado! Pense em quantas coisas perdestes para seguir este modelo social... Olhe meus amigos cães, não precisam nada disso. Agora, Pense sua vida como aquele pássaro dentro daquela gaiola pendurada na tenda ali à frente. Muitas vezes o dono da gaiola abriu a portinhola, mas o pássaro chega até à saída e volta para dentro e, mesmo quando sai, fica gravitando em torno da gaiola, por causa do alimento ali dentro. Podemos dizer que o pássaro preso vive com mais conforto que qualquer pássaro solto, pois este precisa lutar pelo alimento. No entanto, o pássaro solto é quem vive a boa vida em sua plenitude, porque é livre; precisa lutar pela sobrevivência, mas é livre...

      - Por que então o pássaro da gaiola não vai embora quando liberto? É sinal que o conforto e a segurança lhe fazem bem... – Perguntou o homem.

      - Não é uma preferência, é a força do medo. O pássaro da gaiola perdeu a naturalidade de outrora e agora a prisão é sua única vida disponível. Você formou família e tomou uma responsabilidade que lhe causa pânico, tens uma casa e precisa cercá-la... Você vive com medo de perder o que possui, vive em função da preservação do futuro e não vive o presente... Isto não é vida! Seus referenciais foram alterados, assim como os referenciais da sociedade. O senso de liberdade foi perdido e a sociedade é uma grande gaiola. Dá-nos conforto, mas nos arranca a naturalidade e a liberdade, pois não vivemos mais para nós.

        - Entendo o que queres dizer – disse o homem – mas não sei se estou disposto a deixar minha gaiolinha – brincou – e..., a propósito, amo minha esposa... – Complementou ao sair.

       - Não duvido disso, mas que és um prisioneiro, tal e qual aquele pássaro, isto tu és!

     Ao final da tarde, Diógenes estava novamente saboreando os raios do sol, quando algo lhe fez sombra. Era ninguém menos que o imperador Alexandre Magno, o grande conquistador, que lhe dirigiu a palavra:

- Sei que és um grande sábio, por isso vou te dar o que me pedires. Peça e dar-te-ei! Ofereceu o grande conquistador.
Sem se importar muito com a imponência da figura imperial e fiel ao seu conceito de bem viver, Diógenes, em sua peculiar irreverência, respondeu:

          - Peço apenas que não me tires o que não podes me dar. Peço que se afaste um pouco para lado, não faça sombra e me devolva o sol.

        Um dos comandados de Alexandre, tomando por insulto, fez menção de retaliar Diógenes, gesto interrompido por seu comandante.

         - Não o faça!  - Repreendeu Alexandre - Não vi, em todo meu reino sabedoria igual. Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.


LIÇÕES DO MESTRE

              Diógenes foi uma figura singular. Vivia num barril, saía com uma lamparina acesa durante o dia dizendo procurar alguém decente, pedia esmola às estátuas, masturbava-se em plena luz do dia em praça pública... Era chamado de “Sócrates louco”. Levou ao extremo a filosofia dos cínicos, corrente filosófica que pregava a volta da naturalização do homem, para eles, quebrada pela descoberta do fogo e o uso da técnica, criando necessidades não naturais, diferenciando um homem de outro, causando com isso a consequente escravidão, uma sociedade com senhores e serviçais. Em uma frase resume seu desprezo ao afirmar que "na casa de um rico, de tão limpo o chão, não havia onde cuspir, a não ser na própria cara do sujeito". Assim, Diógenes, de forma radical, tentava mostrar sua filosofia. Desprezava a organização civil, dizendo ser uma farsa. Sentia-se cosmopolita, um cidadão do mundo, pois a liberdade é o sentimento humano mais valioso, sendo a sociedade civil, com seus usos e costumes, um inibidor desta liberdade. Diógenes, portanto, ensina primeiro que o cidadão ético é inquebrantável em sua conduta e a vida boa se dá quando não há falsidade, sendo maior falsidade aquela que infringimos a nós mesmos quando aceitamos esse modelo de vida voltado a suprir as necessidades criadas a partir de uma determinação social. Ensina ainda que nossa natureza é simples e precisamos de pouco para viver. Não precisamos viver da forma como a sociedade quer que vivamos; antes, devemos viver da forma como nos agrada.



 Na Pista do DJ Diógenes


              A festa do Dj Diógenes poderia começa com a música de Baby Consuelo e Pepeu Gomes, “Sem Pecado e Sem Juízo” que, como diz o título, prega o desprezo à moral dos homens. A letra diz: “Aqui nessa cidade, o por do sol e a paisagem, vêm beijar luar, doar felicidade...”, sem preocupações com o amanhã ou o julgamento das outras pessoas.

              Seguiria com Lulu Santos e a música “Tudo Azul” que começa dizendo: “Tudo azul, todo mundo nu, no Brasil, sol de norte a sul...”  e termina: “...sou flagelado da paixão, retirante do amor, desempregado do coração.”

              Titãs teria lugar trazendo “Capitalismo Selvagem”, que diz: “...Eu me perdi na selva de pedra...”, que vem ao encontro da filosofia de Diógenes de desprezo à civilização civil e suas construções.


              A banda Ultrage a Rigor seria a estrela da festa, pois o próprio nome já é uma contestação ao modelo social com seus usos e costumes. Apresenta músicas como “Inútil”, que brinca com nossa vontade de fazer e ter as coisas, e a música “Nós Vamos Invadir Sua Praia” que diz: “...Separa um lugar nesta areia, nós vamos chacoalhar a sua aldeia, mistura sua laia ou foge da raia, sai da tocaia, pula na baia, agora, nós vamos invadir sua praia...” , além de “Pelado”, que afirma: “...Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral, a barriga pelada é que é a vergonha nacional...”.

quinta-feira, 7 de abril de 2016


O ESPELHO

Dia destes, vendo um filme de época, reparei que havia um desses espelhos que giram em que o outro lado é opaco.

Fiquei pensando: por que giram se o outro lado é inútil?

Ora, espelhos servem para que tenhamos a oportunidade de corrigir alguns detalhes fora do lugar; um fio de cabelo rebelde, sobrancelhas desalinhadas, verificar a silhueta e a combinação das roupas, assim como nos propor a fazer uma dieta que começará na segunda-feira seguinte.

Isto remete meu pensamento à uma frase muito comum de ser dita ou escrita, principalmente no facebook: “Não me interessa o que os outros pensam ou falam de mim”.

Penso que deveria! Não porque deve seguir os outros, mas como uma oportunidade de olhar para dentro de si. Até por que ninguém diz “não me interessa o que pensam de mim” respondendo a um elogio. Geralmente nós a dizemos como uma afronta, de forma orgulhosa, com a mão na cintura, corpo levemente inclinado e olhos esbugalhados… Se tal opinião for dada por uma pessoa, tipo a vizinha fofoqueira, deve ser realmente ignorada, mas quando 20, 30, 100 pessoas dizem o mesmo, aproveite e a utilize como um espelho.

Foi então que entendi a função do outro lado do espelho que gira: quando a gente não gosta do que vê, a gente simplesmente gira de lado e zupt, tudo sai de nossos olhos como um passe de mágica.

É como dizer “não interessa a opinião do espelho sobre mim”.

Não faça da opinião que tenham sobre você um espelho que gira; antes, aproveite para fazer os retoques possíveis e não espere para segunda-feira.


Como Sócrates disse: Conhece-te a ti mesmo!