sábado, 15 de agosto de 2015

Festa Filosófica nos 15 anos de Natália

Filósofos se reuniram para comemorar o aniversário de 15 anos de Natália. Num dado momento começaram os brindes. Eis o que os filósofos lhe disseram:


HERÁCLITO: Tudo flui, menina...                    ( levantando a taça) E quero brindar a vida que passa! Aproveite cada momento, pois ele é único, jamais voltará da mesma forma, porque tudo muda a todo instante. O sentido muda, a vida muda, o entendimento muda... Não voltarás a ter 15 anos, ficará apenas a lembrança de uma experiência vivida. Brindamos, portanto, o acontecimento atual que precede um outro, viva o agora como perspectiva do futuro, confie no que os sentidos te dizem. Trouxe-te como presente este isqueiro, maravilhosa invenção dos tempos modernos que não existia em minha época. Veja o fogo que produz, observe o seu movimento... ele reproduz a vida que há nos seres.
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 PARMÊNIDES: Pelo visto, Natália, depois de ouvir o colega, constato que aquilo que muda com o passar do tempo é o nível de senilidade... Não ouça as tolices de Heráclito, pois ele fala das aparências, do que ilude... O que ele chama de movimento, não passa de engano dos sentidos, por isso eles não são confiáveis. Quando eu brindar aqui os teus 15 anos, sei que junto estarei brindando os teus 40, 50, 60 anos... pois ainda serás a mesma Natália quando o futuro chegar. Rugas aparecerão, com certeza, bem como novas formas de pensar, mas lembre-se: a essência é eterna e imutável. Ela sim é confiável! Trouxe-te esta pedra ornamental como presente, para que você perceba, a cada dia, que este ser que chamamos pedra pode ter vários tamanhos, formas, cores, resistências diversas, mas será sempre pedra!



 
EMPÉDOCLES: Não precisamos brigar nobres colegas... Hoje é dia de celebrar o aniversário desta bela jovem. Cada qual, penso, tem um quinhão de razão nas coisas que disseram, pois são eternos e imutáveis os elementos que compõem a vida, como diz Parmênides; mas muda, como diz Heráclito, a quantidade destes elementos nos seres. Todos os seres são formados por quatro elementos: ar, água, terra e fogo... Observe Natália, que cada ser difere um do outro pela quantidade que há desses elementos em cada ser existente. Veja aquela lenha queimando, era é formada por ar, água, terra e fogo. Ao ser exposta a mais fogo, ela queima. O barulho que ouves, este estalar, é a água em contato com o fogo; a fumaça é o ar que havia nele e, as cinzas que se formam, a terra. Os elementos se transformaram, mas são sempre os mesmos. Trago-te como presente este cubo mágico, em que cada cor, cada lado oposto representa um desses elementos fundamentais. Este brinquedo é como a vida, se modifica a cada movimento, como diz Heráclito, mas não mudam os elementos basilares, como diz Parmênides.






DEMÓCRITO: Natália, neste momento, em pleno aniversário, deve estar se perguntando: mas de onde vem o fogo, a água, a terra e o ar? Não te pertubes, Natália, curta o momento. Esses elementos e todo ser não passam do resultado da soma de um conjunto de uma matéria indivisível, que chamo de átomo. Os átomos possuem multiplicidade de formatos, o que possibilita a formação de uma multiplicidade de seres quando unidos. Os átomos não se decompõem, apenas mudam de lugar, ajudando na existência de uma nova forma. Cada átomo é como uma peça do brinquedo "Lego", ora esta peça ajuda na formação de uma casa, por exemplo, ora é parte de um caminhão. Por isso te trouxe de presente este brinquedo, um lego, para que lembres de construir uma vida feliz e saudável.



KIERKEGAARD: Voltemos nossa atenção à Natália, senhores, afinal, ela é o centro da festa. Um brinde, Natália!... Muitos vão querer que você viva apenas de aparência, mas será pouco, pois a dimensão estética deve dar lugar à dimensão ética, do fazer, do agir. Esta, porém, deve ser superada pela dimensão de fé, pois é aí que você encontrará sentido para sua vida. Creia, sobretudo, Natália, em tua capacidade de realizar aquilo que parece impossível. Por isso, trouxe-te este cactus! A maioria das pessoas o acham feio, sem atrativos, mas ele é forte e resiste à seca por guardar em seu interior um rico tesouro. Enquanto tudo em sua volta fenece, ele reina absoluto. Aproveite o ensinamento desta vegetação, cara jovem, cultive em seu interior elementos dos quais se possa nutrir quando os tempos de seca sobrevierem. 




 SÓCRATES: Aplaudo Kierkegaard  em seu brinde e me filio a ele na ideia do cultivo de um interior forte,  pois o que deve caracterizar a juventude é a modéstia, o pudor, o amor, a moderação, a dedicação, a diligência, a justiça, a educação. São estas as virtudes que devem formar o seu caráter. Uma viagem ao seu interior, Natália, é a melhor forma de conhecer-se a si mesma. Gosto de seu nome, pois como minha filosofia, a maiuêutica, significa "nascimento", nascer do conhecimento. Deves buscar sempre o conhecimento, pois a ignorância é o caminho da perdição e não há forma melhor de conhecer que buscar a verdade. A primeira verdade a ser buscada é a sua, que se encontra em seu interior, ela deve brotar, nascer e renascer através da reflexão constante. A ignorância é a treva e o conhecimento é a luz; assim, trouxe-te um diário, para que possas, dia após dia, te redescobrir, renascer...





PLATÃO: Visamos a luz, então, Natália!... O mundo quer te manter nas sombras da caverna, não quer que você atinja a luz. O mundo vai, dia após dia, te orientar para as coisas triviais e ilusórias, te encaminhar para a valorização das aparências, querendo tornar mais importante os sentidos que a razão. O caminho das sensações é fácil, cômodo e irresistível, mas é vazio de sentido. Deixe que a razão te oriente. O que faz o barco andar não é a vistosa vela, por mais grandiosa, bonita e colorida que seja; o que faz o barco andar, Natália, é o vento que não se vê. Trouxe-te de presente este barquinho, para lembrares disto...




ARISTÓTELES: Se fosse para dar-te apenas um conselho, querida Natália, eu diria: procure o caminho do meio! Pratique a virtude através da temperança, do comedimento. Devemos viver a vida tal e qual preparamos a comida; se pusermos sal demais ficará intragável, se pusermos de menos, sem sabor. Devemos buscar a felicidade, que é o fim último da vida, mas só a alcançamos se vivermos na virtude. A vida deve ser vivida de forma que não exageremos em nada, tampouco nos falte. Trouxe-te como presente esta balança, para que lembres que fazer as coisas com a medida certa.




EPICURO: Portanto, Natália, brindemos moderadamente... Por incrível que parece, controlar-se é a melhor forma de obter o prazer. É para o prazer que vivemos, que alcançamos pela moderação, para afastar o sofrimento e a dor. Se você se empanturrar de chocolate, te fará mal, mas se comer um pedacinho por dia, poderá saboreá-lo em sua totalidade. As pessoas felizes lembram do passado com gratidão, alegram-se com o presente e pensam no futuro sem medo; então, o segredo da boa vida é afastar-se das coisas que trazem sofrimento, seja físico ou emocional; e afastar-se dos medos que a humanidade carrega. Não temas o destino, pois ele não existe sem que você o faça acontecer, tampouco os deuses, que não se importam contigo, nem a morte, pois estando você viva, a morte não existe, e quando ela existir, não lhe fará diferença, pois não podes mais sentí-la. Trouxe-te como presente esta barra de chocolate, para que você possa treinar o auto-controle em busca do verdadeiro prazer.



SANTO AGOSTINHO: Viva em Deus, Natália... Ele te deu o livre arbítrio para decidir se queres caminhar segundo o bem, ou se queres afastar-se Dele. Escolha Deus sempre! Tudo o que Deus fez é bom, a maldade surgiu por nossas decisões em afastar-se da bondade construída por Ele; Deus fez o amor e se o ódio existe é porque a humanidade resolveu praticar o que vai contra a Sua criação... Escolha sempre o amor! Caminhe rumo a Pátria Celestial, praticando o bem, fugindo do que faz mal. Você tem a liberdade de escolher, portanto, escolha um caminho iluminado e renegue as trevas. Ouça sua consciência, pois não é tanto o que fazemos, mas o motivo pelo qual fazemos que determina a bondade ou a malícia. Sê humilde para evitar o orgulho, mas voa alto para alcançar a sabedoria. Faça o que fizeres, contanto que faça sempre com amor... Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos. Trouxe-te como presente este crucifixo, para lembrar-te que foi por amor que Jesus morreu por nós.

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TOMÁS DE AQUINO: Sem dúvida, Natália, devemos viver próximos a Deus através da prática da virtude, sobretudo as morais, que são a justiça, a temperança,  a prudência e a fortaleza, assim como as virtudes teologais, que são a fé, a esperança e a caridade.
Pratique-as e você viverá uma vida feliz. Três coisas são necessárias para a salvação: Saber o que deve crer, O que deve querer, O que deve fazer! Crer em Deus Pai..., Querer a Vida Eterna e fazer o bem. Nunca se esquecendo que a humildade é o primeiro degrau para a saberia. Para que lembre que Deus existe e está sempre conosco, te trouxe como presente este vaso com uma mudinha de flor, para que você se lembre, cada vez que a for regar, que ela não existe por acaso, pois para tudo existe uma causa e esta causa é Deus. Cada vez mais ela cresce e o que dá sentido a isto é o cuidado com que é regada. A beleza desta flor dependerá da maneira como você cuidará dela. Você é como esta plantinha, quanto mais você deixar que Deus cuide de você, melhor você viverá.








ZENÃO DE CÍTIO: Há no cosmos, Natália, uma ordem universal guiada pelo Logos, uma grande razão universal que a tudo controla. Veja que tudo segue um fluxo programado como nascer, crescer e morrer. Você faz parte deste universo e há uma razão para que você exista. Na vida, vamos aprendendo com os erros, eles fazem parte. Só não podemos insistir neles. Compreenda que lutar contra o destino te trará sofrimento e dor, mais que benefícios; por isso aprenda a aceitar com resignação o que não pode ser mudado. A melhor maneira de aprender é ouvindo, falando menos, pois a natureza nos deu dois ouvidos e uma só boca. Como presente te trouxe este globo terrestre, para que cada vez que olhar para ele, veja a ordem existente no universo e se sinta parte dele.


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Resultado de imagem para imagem de sartreSARTRE: Não há como acreditar nisto, Natália! Você não nasceu com um destino pré-determinado. A única condenação a que estás sujeita, menina, é a liberdade. Muitos dirão que não podes fazer isto ou aquilo, mas não lhes dê ouvidos a esta tentativa de controle. Lembre-se: qualquer ação que fizer será de sua responsabilidade e este é o preço da liberdade, do que não podes fugir, seu único destino. Muitas coisas começam sem que saibamos como acabarão, então, se tiver que amar, ame, porque o importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós. Assim trouxe-te de presente este filtro dos sonhos, para que tudo que realizares seja por ti filtrado e escolhido.


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HEGEL: Mas não esqueça que dentro do conceito de liberdade, Natália, existe o fato de que você carrega consigo uma carga histórica, genética e cultural que transcende a sua existência atual, tornando-te o ser que é. Você carrega a história de seus ancestrais e a cultura do povo em que está inserida. Mesmo assim, seja lá o que você for fazer, tudo dependerá do teu querer, da tua vontade, pois nada existe de grandioso no mundo sem paixão. Aspire apaixonadamente o bem e ele virá, pois tudo quanto se experimente do espírito é superior ao que existe na natureza. Trouxe-te um relicário para lembrares que por trás de toda existência há uma ancestralidade, um espírito anterior que nos move. 


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SHOPPENHAUER: Muito vago este pensamento de Hegel de que você é simplesmente uma soma de fenômenos e acontecimentos passados, porque tira de você o protagonismo de sua existência que é ser você mesma. Sei que é seu aniversário, Natália, mas contrariaria a minha filosofia se eu visse aqui falar-te da beleza que é viver. Por dever moral devo dizer que os desejos nos tornam infelizes e como não há vida sem desejo, não há felicidade em viver. Caminhamos para a morte, a única porta de saída possível. O que nos resta? Desejar o menos possível para diminuir nossa angústia. Se a morte é inevitável e, de certa forma, nos resgata, a boa notícia é que não há por que temê-la, pois quem não tem medo da vida também não tem medo da morte, visto que o destino embaralha as cartas, e nós as jogamos. Jogue, portanto, sem medo, pois o que tens a perder pode ser para você um prêmio. Para lembrares disto, trouxe-te como presente este jogo de baralhos.




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NIETSCHE: Parabéns, Shoppenhauer, nada como um choque de realidade em pleno dia de aniversário. Um brinde Natália! Os ressentidos falam em virtude e te colocam uma carga de deveres morais fajutos em suas costas, quando teu único dever moral é viver segundo a sua vontade expressa pelos seus instintos. Os racionalistas e cristãos querem te impor regras que te podam como ser humano completo, fazendo com que viva uma mentira. Não dê ouvidos a eles, menina, mas ao seu coração. Por que viveria um sapo num deserto se a sua natureza é feliz no pântano? Seguir o que os racionalista e ressentidos querem, é estar no deserto vivendo infeliz. Eles te falam de um Deus que te exige tudo, que reclama louvores... enfim, um Deus carrancudo. Desconfie de um Deus que não dança! Nós não nascemos para cumprir deveres, mas para sermos felizes. Por isso, trouxe-te este sapinho de pelúcia, para que lembres, sempre que olhar para ele, que teu lugar no mundo é onde te faz dançar e sorrir.









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DESCARTES: A emoção tem a grande contribuição de deixar a vida mais divertida, Natália, porque as pessoas que se emocionam com as paixões são capazes de ter mais doçura na vida. No entanto, a vida é como a matemática, segue uma lógica e, sendo ela racional, assim também deve ser a condução de nossa vida. Portanto, basta ajuizar bem para bem fazer, e julgar o melhor que nos seja possível para fazermos também o nosso melhor, pois não basta termos um bom espírito, o mais importante é aplicá-lo bem. Saiba que não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis, a vida te trará problemas em que devem ser calculados os riscos e ganhos. Procure aquela solução que te traga a tranquilidade e o descanso, que são os bens que os mais poderosos reis da terra não podem conceder a quem os não pode tomar pelas suas próprias mãos. Para lembrares disto, trouxe-te de presente esta calculadora como símbolo da consonância entre tuas ações e o resultado delas.


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Resultado de imagem para fotos de David HumeDAVID HUME: Natália, o hábito deve ser o grande orientador da vida. Portanto, mantenha hábitos bons para ter uma boa vida. As experiências pelas quais passares te tornarão mais ou menos feliz. Nenhuma pessoa jamais jogou fora a vida enquanto ela valia a pena ser mantida, pois tudo vale como experiência e é por isso que entre seguir a razão ou a paixão, prefira esta última, por ser mais intensa e real, por ser sentida e experimentada. Trouxe-te como presente este estojo de maquiagem, para lembrares todas as manhãs, de que a vida deve ser coloridamente vivida.


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Resultado de imagem para foto de immanuel kantIMMANUEL KANT: Natália, age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal, ou seja, siga sempre sua consciência, pois os princípios que existem nela são bons. Siga seu senso de justiça e bondade e, se algo der errado, você estará eximida de culpa, porque sua intenção foi boa. Lembre-se que a inumanidade que se causa a um outro, destrói a humanidade em si. Perdoe... lembre-se de esquecer! Você é livre no momento em que não busca fora de si mesmo alguém para resolver os seus problemas, para isto, ouse saber por si mesma. Como presente, trouxe-te este papel de teto para colocares no quarto; assim, toda vez que deitares e olhares para ele possas lembrar que duas coisas povoam a mente com uma admiração e respeito sempre novos e crescentes...o céu estrelado por cima e a lei moral dentro de nós. 


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Resultado de imagem para foto de nicolau maquiavelMAQUIAVEL: Natália, embora Kant tenha falado da intenção, sinto-me no dever de dizer que todos veem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é, então, faça por você algo que lhe seja útil, até porque, tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal. No entanto, cuide para que cada meta deva ser alcançada, pois quanto mais próximo o homem estiver de um desejo, mais o deseja; e se não consegue realizá-lo, maior dor sente. Se Kant lhe trouxe algo para ficar imaginando, eu lhe trouxe um conjunto de pintura, para que possa você mesma construir o universo ao invés de ficar contemplando-o apenas, porque é mais grandioso o que se construiu do que aquilo que ficou só na intenção.
  


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Resultado de imagem para foto de SpinozaSPINOZA: Natália, Deus é o único motivo para nossa existência e nada existe fora dele. Deus é a própria natureza. A alegria e a tristeza são as principais emoções, a primeira é ligada ao amor e conserva o ser enquanto a segunda é ligada ao ódio e o deprecia. Procure viver sempre em alegria, para isso, faça as coisas com amor. Sendo todas as outras coisas iguais, o desejo que nasce da alegria é mais forte que o desejo que nasce da tristeza. O ignorante é feliz e infeliz da mesma forma que o sábio, por isso o amor é que deve prevalecer, pois a natureza une em si Deus e o homem, sendo o homem uma parte da natureza. O desejo é a verdadeira essência do homem, Natália, então, naquilo que desejas pode te tornares. O máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão no qual quer viver! A liberdade é uma abstração! Diga-me qual é a sua tribo e eu direi qual é a sua clausura! Só há liberdade se sua vida for produzida por você mesma. Trouxe-te como presente este vai-e-vem, para lembrares de levar e trazer alegria, deixando a tristeza.


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LAO-TSÉ: Natália, o sábio não se exibe, por isso brilha. Ele não se faz notar, e por isso é notado. Ele não se elogia, e por isso tem mérito. E, porque não está competindo, ninguém no mundo pode competir com ele. Quem conhece os outros é inteligente, quem conhece a si mesmo é iluminado. Quem vence os outros é forte, quem vence a si mesmo é invencível. Pagai o mal com o bem, porque o amor é vitorioso no ataque e invulnerável na defesa. Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias, para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias. Aprenda com o rio, ele atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar obstáculos, pois uma longa viagem começa com um único passo. Deixai quieta a água lamacenta, e ela por si só se tornará transparente. Natália, sempre tive pena mim mesmo porque não tinha sapatos, até um dia em que encontrei um homem que não tinha pés. Quem se contenta com o necessário vive numa paz imperturbável. Por isso, trouxe-te uma veste, para que se lembre que não se precisa de muito para bem viver.


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Resultado de imagem para foto de confúcioCONFÚCIO: Não conheci alguém mais sábio que Lao-Tsé, Natália, e concordo com ele na questão da humildade, pois a humildade é a única base sólida de todas as virtudes. Acrescento ainda que deves ser como o sândalo, que perfuma o machado que o fere. Coloque a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não te alies aos moralmente inferiores; não receies corrigir teus erros. Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo; quando vires um homem mau, examina-te a ti mesmo. Exige muito de ti e espera pouco dos outros, assim, evitarás muitos aborrecimentos. Trouxe-te um perfume, para que se lembre de perfumar a vida de quem se aproxima de você.


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Jesus nas nuvens orandoJESUS: Natália, seja como o sal da terra e a luz do mundo. Você nasceu para ser alguém para o próximo, fazendo a diferença pelo seu exemplo. Viva para o amor! E não há maior amor do que dar a vida para seus amigos. Lembre-se que quem quiser salvar sua vida pode perdê-la, e quem perder a sua vida por causa dos irmãos pode salvá-la. Quero dizer que a vida requer sacrifícios e todas as vezes que deres do teu tempo em auxílio ao próximo, será um ganho para ti. Para que lembres de ser a luz no mundo, que sirva de inspiração aos outros, trouxe-te este abajur, representando a luz que há em ti, brotando do teu interior.

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PROTÁGORAS: Tudo é relativo, Natália, e não existem verdades absolutas. Descubra dentro de você a sua verdade e a faça resplandecer. Prepare-se para enfrentar o mundo a ponto dele fazer de você alguém importante, pois não há valor nas coisas, as coisas terão valor dado por nós. Assim como é você quem dá valor às coisas, você terá o valor que os olhos dos outros puserem. Quanto melhor a avaliação, maior poder de persuação você terá. No entanto, cuide para que a avaliação deles não seja menor que a sua verdade. Trouxe-te esta régua escolar, para que se lembre que somos nós quem damos valor as coisas e que o seu valor  para os outros estará ligado à sua preparação educacional.








Resultado de imagem para imagem de jean jacques rousseauROUSSEAU: Sua essência, Natália, como a de todo ser humano, é boa. Não te deixes nunca corromper por sentimentos mesquinhos que te façam competir a ponto de fazer com que você viva infeliz. A natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade deprava-o e torna-o miserável, assim, a espécie de felicidade de que preciso não é fazer o que quero, mas não fazer o que não quero, pois como trazemos em nossa natureza uma ideia do que é bom e justo, basta que a sigamos. A sociedade vai querer que você siga a etiqueta e seus costumes, ultrajando seu eu natural, tudo de forma artificial, tirando sua liberdade. Como presente te trouxe esta pipa, para lembrar-te que quanto mais longe das mesquinharias sociais, mais livre e feliz você será.



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Resultado de imagem para imagem de thomas hobbesTHOMAS HOBBES: Não dê ouvidos à Rousseau, Natália, pois a sociedade é quem educa a nossa vaidade e nossas inclinações naturais de fazer o mal, pois somos competitivos por natureza e é a sociedade quem faz este controle. Ao contrário do que Rousseau disse, os costumes sociais resultam do hábito convertido em caráter. Em geral as paixões humanas são mais fortes do que a razão, por isso precisamos de autoridade, é a autoridade e não a verdade quem faz a lei. Para lembrar de que sois parte da sociedade, te trouxe este jogo de xadrez, pois cada qual tem seu lugar no tabuleiro da vida e, sendo um jogo disciplinado, seguindo as regras, você será uma das peças, sendo que poderás te tornar um peão, bispo, torre... Quem sabe a rainha...








DIÓGENES: Pois eu penso, como Rousseau, que a sociedade, por si só, pelo fato de existir com seus padrões de comportamento, é corruptível, pois exige de você posturas que não são naturais, como a busca de riquezas, por exemplo. Viva com a perspectiva diária, não pensando no que pode acontecer amanhã. Natália, o que cabe num prato diariamente é o suficiente para bem viver. Não caia na armadilha sedutora da sociedade que quer tornar-te uma marionete de suas etiquetas desprezíveis. Trouxe-te como presente este prato, para que se lembre que a simplicidade do dia-a-dia é que te tornará feliz.



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Resultado de imagem para imagem marxMARX: A vida, Natália, é como uma batalha. É na luta diária que tu te tornarás aquilo que serás. Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. As ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante. Por isso, Natália, vão querer te dominar, mas tu resistirás ao assédio. Trouxe-te como presente esta bola, para lembrares, sempre que olhar para ela, que você não deve ser como uma bola em uma partida de futebol, pois esta não tem vontade própria e é chutada por todos. Você deve ser uma protagonista.


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Resultado de imagem para imagem de maoméMAOMÉ: Pois eu penso, Natália, que não é forte quem derruba os outros; forte é quem domina a sua ira. Reze para Deus e jejue para tornar-se uma pessoa melhor. Trouxe-te como presente este terço para lembrares de que sua vida sem Deus não é nada






Resultado de imagem para imagem de budaBUDA: Natália, sua tarefa é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se a ele. Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo. É a própria mente de um homem, e não seu inimigo ou adversário, que o seduz para caminhos maléficos. Viva para a paz. A paz vem de dentro de você mesmo, não a procure à sua volta. Persistir na raiva é como apanhar um pedaço de carvão quente com a intenção de o atirar em alguém. É sempre quem levanta a pedra que se queima. É melhor conquistar a si mesmo do que vencer mil batalhas, pois o que somos é consequência do que pensamos. Todos nós somos morte e renascimento até alcançar a iluminação, então, como presente te trago esta roda da lei, que é quem te transportará entre uma vida e outra como caminho seguro.



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Em breve novos filósofos brindarão Natália.




segunda-feira, 18 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 3: Agir Político do Governante




AGATÃO: E quanto ao governante, como deve agir?

KANT: A política e o estado de direito devem estar subordinados à moral, pois o Estado se constrói com base no imperativo moral e nas leis éticas. Existe em nossas consciências um dever daquilo que deve ou não ser feito a quem chamo de Imperativo Categórico; um conjunto de normas e prescrições morais a serem cumpridas. O governante também carrega estes deveres em sua consciência, pois ela é comum a todos, já que é a priori e universal. Assim, o governante deve agir obedecendo a esta consciência. Quando ele ou o legislador, por exemplo, criam uma lei proibindo a injúria racial, não é ao racismo que atacam, já que é permissivo que uma pessoa não goste de uma determinada raça, o que está sendo atacado, com esta lei, é o imperativo categórico de que a ofensa deve ser rechaçada por nossa consciência moral, porque ninguém, nem mesmo aquele que pratica a injúria racial, aceita uma ofensa contra si. Ofender ao outro é inaceitável em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo, em qualquer idade, sendo a ofensa criminalizada por nossa consciência. O governante deve preservar a voz de sua consciência, assim estará isento de todo mal que possa ser praticado pelas pessoas que por ventura venham a aproveitar-se dos erros existentes em tal ato ou lei; não será culpa do governante se alguma má ação for praticada por conta de um ato seu que tenha seguido os ditamos de sua consciência moral.

MAQUIAVEL: Se bem entendi, Kant, por trás do dever ético proposto por ti está a ideia de que o governante deva administrar tendo por base a boa intenção. Eu não penso que o agir do governante esteja subordinado à ética, pois acredito que os fins justificam os meios, mesmo aqueles considerados atos maus do ponto de vista ético. O que deve reger o ato do governante, portanto,  é a utilidade ao governo e o benefício que este ato trará à população e não sua intencionalidade, pois agir pela intenção ética tolhe as atitudes do governante. Para agir bem, ele deve se cercar de pessoas sábias nas diversas áreas de governo, pois penso que o primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta. O Príncipe do povo deve ser ao mesmo tempo sábio e forte, como a situação exigir; portanto, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.

ROUSSEAU: Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, acaba instruindo o povo. No entanto, Maquiavel dá demais destaque à tirania da utilidade. Assim como Kant, penso que o governante deva agir guiado por uma vontade geral que é a vontade do povo,  já que se o governante está lá é por vontade deste povo. Porém, assim como não acredito na tirania utilitarista apresentada por Maquiavel, também não acredito que o guia deva ser o imperativo categórico universal, que Kant afirma estar traduzido pela lei, pois se as coisas mudam, assim também mudam as consciências e com elas a vontade geral. O imperativo categórico proposto por Kant prende o governante num agir único e eterno, imutável, sendo ele também tirânico; já a vontade do povo muda, muda a consciência social, mudando as leis.  Digo que pelos mesmos caminhos nem sempre se chegam aos mesmos fins.

MARX: Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência. Toda a história humana está baseada nas relações econômicas e é dessas relações que surgem as outras relações: culturais, políticas e religiosas.  Eu creio na soberania do proletariado. Existe a inevitável luta de classes, então, quem deve comandar as ações governamentais são os trabalhadores se auto-representando. A luta de classes, porém, pode ser distencionada através da tomada de posse dos meios de produção pela classe operária que repassaria ao Estado encarregado de representar a coletividade, tornando mais igualitária a sociedade. Assim, deixando de haver a dominação de uma classe sobre outra, com o passar do tempo não haveria mais necessidade do Estado. Seria a consciência social trazida aos indivíduos.

EPICURO: Me parece controverso que para ter equilíbrio social deva-se ter a fronte voltada para o conflito. Quem governa deve ter serenidade e sabedoria, buscando sempre a harmonia entre todos. O bom governante ouve a todas as partes e tenta buscar o entendimento sempre.

HOBBES: O que pensas, Epicuro, é uma utopia, assim como pensa Marx ao intuir que haverá harmonia no final com o fim do Estado. O homem é lobo do homem, em guerra de todos contra todos. Este é o estado natural em que os indivíduos se encontram e sempre haverá poder porque a competição é inerente à condição humana. Assim, o Estado se faz necessário, com suas leis, a fim de obter controle social. Qualquer governo é melhor que a ausência de governo. O despotismo, por pior que seja, é preferível ao mal maior da Anarquia, da violência civil generalizada, e do medo permanente da morte violenta. Também não se pode confiar nas consciências como querem Kant e Rousseau, uma vez que estas possuem uma natureza má, competitiva e egoísta.

PLATÃO: É por isso que educar as consciências em busca da racionalidade é o melhor caminho. A passionalidade deve dar lugar à razão e esta deve ser a norteadora da ação do governante. Nem todos nasceram para governar, então, que esta tarefa seja dada aos mais instruídos, que devem ser preparados para isto no decorrer da vida.

PROTÁGORAS: O bom governante dá voz a todos, mas ele deve ser aquele com o dom da retórica, do convencimento; o melhor entre todos os debatedores. Deve buscar a aceitação da população sobre seus projetos e modo de governar. Como defendo a democracia, penso que o governante deva ser um democrata que garanta a palavra aos diversos oponentes. Todo o argumento permite sempre a discussão de duas teses contrárias, inclusive este de que a tese favorável e a tese contrária são igualmente defensáveis. É assim que o governante garante a todos o direito de expor seus pensamentos.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Reunião de Filósofos 9 : A origem da vida

        AGATÃO: Vamos começar este simpósio refletindo sobre a primeira das indagações: Como surgiu a vida?


    HERÁCLITO: Deve ter havido um elemento primeiro que deu origem a todos os outros. Pitágoras, por exemplo, acreditava ser a água, Demócrito dizia existir partículas indivisíveis denominadas átomos. Outras teses de outros filósofos foram apresentadas e eu acredito ser o FOGO este princípio, porque sua chama é a representação viva da transitoriedade da vida, porque tudo nasce, cresce e morre. Assim é o fogo! Ora está mais aceso, ora mais apagado, até que fenece quando não é mais alimentado. Tudo é transitório, o rio em que você se banhou ontem, já não é mais o mesmo se hoje entrar nele, já não será mais a mesma água.



PARMÊNIDES: Tolice o que dizes! O ser, aquilo que existe, é permanente e imutável.  O ser é e o não ser não é. O ser é desde sempre e sempre será, pois água é água e aspectos como sujeira, cor e temperatura são transitórios e não mudam o fato de que água é agua. O que dá qualidade de existência à água é a sua essência. A água de hoje será a mesma de amanhã, como a água de um copo é a mesma de outro, pois o que importa é sua essência.

          

HERÁCLITO: O mundo existe pela força dos contrários, ora é água quente, ora a água é fria. É o movimento dentro do que permanece.

PARMÊNIDES: Ainda assim será água, eterna e imutável enquanto tal. Quente e frio são atributos passageiros...

 KANT: Sobre o fogo, considero uma teoria interessante, pois suas duas atribuições básicas, luz e calor, são substâncias próprias de uma matéria sutil e elástica uniformemente difusa, que é por onde os corpos agem uns sobre os outros. Deste movimento formou-se a vida.
          

ZENÃO DE CÍTIO: Penso que uma Mente Criadora  fez tudo perfeitamente em seu devido lugar, cabendo a nós seguirmos o fluxo dos acontecimentos. Se tudo está perfeitamente posto não há porque agirmos contrariamente a eles. Vamos simplesmente aproveitar as benfeitorias da natureza.


SANTO AGOSTINHO: Pois eu acredito que Este princípio criador é Deus, onipresente e onisciente, Aquele que tudo criou...
          

ARISTÓTELES: É uma ideia plausível, a de um Deus único... Tudo o que foi gerado no mundo possui uma causa, pois nada pode existir se algo não lhe causar ou não criar tal existência. Todavia, há que existir uma causa primeira que causou todas as outras sem ser causada, a quem dei o nome de Primeiro Motor Imóvel. Ele é o supremo bem e a suprema beleza e funciona como um imã a atrair todos os outros seres, pois todos os seres são atraídos pela ideia do bem e da beleza. Ele é o ser de Demócrito, eterno e imutável; e talvez seja o Deus de Agostinho. Todas as outras coisas são passageiras como diz Heráclito.


PLATÃO: Meu querido discípulo, sempre mediando conflitos! Acredito que existam dois mundos distintos: o mundos das ideias e o mundo sensível. O mundo das ideias é representado pela alma e o mundo sensível pelo corpo. O primeiro é imutável e permanente, o segundo é transitório e passível de enganos. Para cada ser existente no mundo sensível, há um outro, perfeito e belo, no mundo das ideias. Os seres do mundo sensível são, portanto, cópias imperfeitas do mundo das ideias.
          
HUSSERL: Penso que mais importante que saber a origem das coisas é compreender o mundo.
          
PROTÁGORAS: Concordo com Husserl. Não se discute a existência ou não das coisas, nem sua origem, mas a sua relação com o homem e a forma como este as percebem.
          
SÓCRATES: O importante é conhecermos a essência das coisas...
          
JEAN-PAUL SARTRE: A essência não é tão importante quanto existir, pois nascemos do absurdo, do nada, e para o nada voltaremos. De todos que falaram até agora o mais sensato foi Heráclito, pois a transitoriedade é fato consumado, tudo nasce e morre. Não existe uma força criadora, o ser só é enquanto existe e não há essência pré-determinada nos seres. Se assim fosse, não existiria liberdade, esta sim, nossa única condenação.
          
SÓCRATES: Pode o nada criar algo? O que é o nada? Afirmar que somos gerados do nada, não seria uma forma de misticismo passivo? Acredito que devemos procurar a verdade para encontrar esta essência criadora. Você, Sartre, parece tê-la encontrado, a seu modo, quando afirma que a liberdade é nossa condenação. Talvez seja a liberdade a nossa essência, embora esta afirmação ainda careça uma averiguação mais profunda.
         
SARTRE: Volto a afirmar, não temos uma força criadora e, portanto, não temos uma essência que exista antes de nós. Nossa essência se formará conforme nossas escolhas, somos frutos delas e livres para fazer o que quisermos, estamos aí como obra do acaso. Ela própria, a essência, é mutante; muda por escolha nossa.
          
SÓCRATES: Vou aceitar, para efeitos de raciocínio, que a liberdade seja comum a todos indistintamente e nossa primeira atribuição. Nesse caso, estaria aí a nossa essência?
          
SARTRE: Agora a falácia é sua, parece um sofista! Se há uma essência, estamos presos umbilicalmente a ela. Nesse caso, como pode haver liberdade? Seria uma contradição.
           
ARISTÓTELES: Não há provas, caro Sócrates, de que a liberdade seja universal e que exista plenamente; e mesmo que exista, há outras atribuições comuns a todos os homens que estão em sua essência, como a racionalidade por exemplo.
          
SARTRE: A liberdade só existe se for plena, não se é meio-livre, como não se pode ser meio-morto.
          
SÓCRATES: Então, acabas de aceitar que a liberdade possui como atribuições a universalidade – já que é comum a todos - e a imutabilidade. Estás rejeitando, nesse caso, a transitoriedade de Heráclito, a quem elogiou.
          
SARTRE: Ao contrário, é justamente a liberdade quem nos dá a possibilidade e garantia do transitório, pois através dela escolhemos ser ou deixar de ser.
         
ROUSSEAU: Os homens nasceram livres e por toda a parte estão aguilhoados. A liberdade é parte da essência do ser humano. Foi o próprio homem quem, através de suas ações mesquinhas e egoístas, fez-se preso.
          

SANTO AGOSTINHO: Essa liberdade vem de Deus, que nos deu o livre-arbítrio.
         
NIETZSCHE: Se por todos os lados só existam homens acorrentados, como afirmou Rousseau; e a liberdade vem de Deus, como afirmou Agostinho; onde está a autoridade divina? Como este Deus, que deu a liberdade, deixou que lhe fosse tirada? Um Deus sem autoridade é um Deus fraco e um Deus fraco não sobrevive! Então, devo declarar: Deus está morto!
        
DESCARTES: É óbvio que existe Deus, o único e incontestável Ser Perfeito. A primeira prova é a de que temos uma ideia de perfeição e, como seres imperfeitos,  não poderíamos tê-la sem que algo perfeito a impusesse a nós. Outra prova de Sua existência é que se nós - que temos a ideia do que é perfeito - tivéssemos criados a nós mesmos, teríamos nos feito perfeitos. Além do mais, o imperfeito não pode criar algo perfeito, pois não está ao seu alcance. Então, apenas alguém perfeito pode ter criado a tudo perfeitamente e Este Ser é Deus.
          
NIETZSCHE: Não foi Deus quem nos criou, fomos nós quem o criamos. Desde que a razão passou a comandar nossas ações, impondo-nos regras e violentando nossa vontade, houve a necessidade da presença de um Deus forte e opressor, a fim de nos causar medo e garantir que cumpríssemos com as regras estúpidas da razão.
         
HERÁCLITO: Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro tal qual o fogo misturado aos aromas; ele é a força dos contrários, chamado como melhor agradar a cada um.
         
AGATÃO: Este é realmente um tema de complicada resolução, pois possui muitas nuances e questões intransponíveis, como a fé, por exemplo.