terça-feira, 12 de novembro de 2024

RUSSELL E RUSSO

 Brethant Russell foi o outro filósofo, além de Rousseau a ser homenageado por Renato Manfredini Júnior quando escolheu incluir o sobrenome Russo em seu nome artístico. Foi um pensador a frente de seu tempo abraçando causas tais como o ECOcentrismo, ideia que coloca o meio-ambiente no lugar do ser humano como centro de tudo, que por sua vez se tornaria apenas parte integrante de algo maior, que lhe supera, o chamado ecosistema. 

Outra característica marcante do filósofo foi o fato de ter sido um PACIFISTA, inclusive rasgando sua carteira do partido trabalhista quando este partido deu aval para a ida de tropas lutar no Vietnã. Além disso, foi contrário às duas guerras mundiais e um opositor da construção da bomba atômica. 

Estas duas característica, porém, não o fizeram tão radical no que se refere a política ideológica. Suas lutas estavam sempre mais ligadas a causas. Algumas de suas participações políticas foram divergentes e até antagônicas em alguns casos, pois foi ora socialista, ora liberal, ora trabalhista, nunca esteve profundamente enraizado em nenhuma destas tendências.  

Com estas características: ecocêntrico, pacifista e volátil em termos de políticas partidárias (sem apego a elas), fica fácil imaginar porque Renato Russo se identificou com este filósofo... Provavelmente não foi pelo fato de Russell ser um grande matemático, uma vez que esta, pelo que se sabe, não fazia parte das matérias preferenciais de Renato.

Letras como "Angra dos Reis" trazem esta preocupação com a natureza, de colocar o ecocentrismo acima dos desvarios humanos e sua ganância. Já o pacifismo é outra característica bem marcante na obra de Renato Russo, aparecendo em canções como "Soldados" e "Canção ao Senhor da Guerra"

Quanto a política, assim como Russel, o Brasileiro era mais ligado a causas e denunciador de injustiças e maus feitos... Não era ligado a grupos partidários. O viés político ativo e não eminentemente partidário aparece em mais de uma dezena de canções, várias delas políticas, tais como "Perfeição", "Que País é Este!", " Metal Contra as  Nuvens" e "Teatro dos Vampiros", para citar alguns. Além disso, sua verve anárquica (sem apego a segmentos ideológicos) aparece em cores vivas em canções como "Gerarão Coca-Cola ". 


O ECOCENTRISMO

Angra dos Reis foi escrita num período em que a construção de usina nuclear na cidade de Angra do Reis estava em pauta e a discussão sobre os problemas ecológicos que poderiam advir deste tipo de construção para obtenção de energia estava em voga em todo o mundo, pois o desastre de Chernobyl acontecera havia pouco tempo do lançamento da canção. Esta angústia com o tema fez Renato Russo escrever:

"Mesmo que as estrelas começassem a cair

E a luz queimasse tudo ao redor

E fosse o fim chegando cedo

E você visse nosso corpo em chamas

Deixa pra lá"


Em "Fábricas" ele afirma:


"O céu já foi azul, mas agora é cinza 

E o que era verde aqui já não existe mais

Este ar me deixou minha vista cansada

Nada demais"...


Se percebe claramente a denúncia de uma ganância exploratória tanto contra o meio ambiente, quanto em torno da condição de trabalho humano em prejuízo a ambos.

Os versos irônicos "deixa pra lá" (Angra dos Reis) e "nada demais" (Fábricas) demonstram o incômodo de Renato Russo com a postura comodista que as pessoas se colocam diante destas questões que lhe são prejudiciais.

Essas canções são apenas exemplos, dentre muitas outras citações em outras canções desta verve do artista em torno do ecocentrismo e sua preocupação com o meio-ambiente. Também estava presente como lhe preocupava a forma como as pessoas colocavam a ganância acima da preservação do meio-ambiente e da saúde das espécies. 


A POLÍTICA ATIVA APARTIDÁRIA 

Do ponto de vista da política tradicional, afora seu desprezo pelas tendências fascistas, Renato Russo apresentava uma certa distância, mas extremamente político do ponto de vista de defensor de causas e das ações personalisticas, sempre guiado pela ética, ciência que as pessoas costumam relacionar apenas à corrupção monetária.  Em Renato Russo a ética ganha contornos mais abrangentes. Para ele toda ação se torna questão ética e com isso política. As relações amorosas, por exemplo, por mais íntimas que sejam  não deixam de ser políticas, uma vez que ambos os relacionantes são inseridos no meio social e, mesmo entre eles está estabelecido uma espécie de contrato do não engano, do respeito e outras definições próprias dos relacionamentos amorosos, tornando algo que é próprio de duas pessoas em um movimento que não deixa de ser político.

Se não há contradição na exigência da ética nas ações, sendo sua guia mestra, elas aparecem na obra de Renato Russo quando se trata de definições como a tendência política dos agentes políticos e suas idiosincrasias, tal como aconteceu na trajetória de Hussel. Em 1989 Renato manifestou em entrevista seu desejo em votar em Roberto Freire, então comunista (PCB) e se mostrava incomodado com o fato da pregação em voto útil em outros candidatos da mesma tendência de esquerda, uma vez que esses outros possuíam mais chances de vitória sobre os representantes da direita. Ao mesmo tempo em que declarava voto em um comunista, declarava-se capitalista numa outra entrevista, ou seja, o voto estava lincado ao seu gosto pessoal e não quanto a ideologia que o candidato representava. Renato parecia não acreditar muito nos discursos políticos como um indicador sincero das ações dos futuros governantes. De certa forma, ele acertou em termos, pois o candidato vencedor, Collor de Mello, usou entre outros argumentos para vencer a eleição, que seu oponente de segundo turno, Lula, iria bloquear a poupança. No primeiro dia de governo foi ele quem fez isso, o que motivou  Renato Russo escrever "Metal Contra as Nuvens". Aliás, esta visão de não apego a tendências partidárias, mas apegado e compromissado  às causas que julgava mais justas aparecem nos primeiros versos da cancão, que afirma por si próprio saber sobre o que lutar, ao lado de quem, sem ser um simples seguidor de um grupo guiado por alguém, postura que é na forma um gesto fascista, mesmo que o conteúdo não o seja:


"Não sou escravo de ninguém 

Ninguém senhor do meu domínio 

Sei o que devo defender 

Por valor eu tenho e temo

O que agora se defaz".


É bom frisar aqui que o discurso liberal do então candidato vencedor esteve presente nos seus dois anos de governo, o que mostra que a ligação ideológica em regra acompanha o discurso, algo que Renato parecia não confiar. Acontece que um governo na democracia, não raro tem que compor com ideias que diferem um pouco do partido no poder e ceder tem sido uma prática dominante nos governos. Talvez essa volatilidade tenha contribuído para a desilusão de Renato Russo quanto à crença nas ideologias. Sua ideologia era o fazer ético. 

E o que deve ter indignado o autor nesta questão em particular foi o fato do candidato vencedor dizer que o oponente iria fazer algo que ele próprio estava pensando em fazer caso vencesse a eleição. Por ser uma medida extremamente impopular, não teve coragem de colocar sob análise do eleitor, antes, preferiu mentir, afirmando que o outro faria. A mentira ajudou a se eleger e depois de eleito, sem que precisasse mais do voto, implantou a medida. E isto está muito longe da ética pregada por Renato Russo. Aliás, nos tempos vindouros, com as redes sociais, a faikes news se tornaram mecanismos importantes utilizados por muitos políticos antiéticos e têm motivado muitos debates. Assim, podemos perceber, Renato Russo novamente aparece atualíssimo nos assuntos a que se dispunha a defender.

Uma curiosidade se apresenta no instrumental... Fazendo jus ao nome, a canção imita uma dessas tormentas de verão. Começa com um ritmo calmo, como se mostra um céu límpido; depois avança, como se nuvens se aproximassem e, de repente, a pancadaria dos raios e trovões, para depois voltar a calmaria. Imita a vida, seja pessoal ou social, com suas idas e vindas, tormentas e posterior calmaria. Sempre na esperança de que dias melhores melhores virão, tal a sensação deixada por cada calmaria depois das tormentas. Então, surgem os versos finais imbuidos desses sentimentos:

"E nossa história não estará pelo avesso assim

Sem final feliz

Teremos coisas bonitas para contar.

E até lá vamos viver

Temos muito ainda por fazer

Não olhes pra trás 

Apenas começamos 

O mundo começa agora

Apenas começamos..."


Em outras canções aparecem outras características importantes no discurso político de Renato Russo e incluir a todos como responsáveis pelos destinos da sociedade e não somente os agentes políticos é uma dessas características. E assim coloca em "Que País é Este!":

"Nas favelas, no Senado, 

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a constituição"...

A desilusão é geral e apresenta os políticos como uma mera representação ou espelho da sociedade em geral. 

Repete a fórmula em "Perfeição", desta vez de forma mais abrangente, nomeando os diversos maus feitos e delitos sociais em suas diversas camadas, tais como os praticados por estupradores e ladrões, além de apontar sua própria responsabilidade no verso em que pede perdão pela "estupidez de quem cantou esta canção". A diferença de uma canção para outra é que Perfeição termina indicando a  esperança, depois de tantas ironias, talvez uma vazão à sua verve platônica, assunto reservado para um outro tópico adiante. Este final anuncia:

"Venha, o amor tem sempre aberta

E vem chegando a primavera

nosso futuro recomeça

venha que o que vem é perfeição."

Já  que Platão está posto para outro momento adiante, por enquanto podemos nos ater a Immanuel Kant, que afirmava existir no ser humano uma consciência imanente do que é certo e errado em se fazer. Deste modo, basta que todos ajam conforme os mandamentos e preceitos estabelecidos por esta razão universal existente na consciência para que tudo funcione como relógio e daí surja a perfeita sociedade. Por exemplo, se uma pessoa sai para caminhar com seu cachorro de estimação e limpa a sujeira que o cachorro vier a fazer e todos os outros cidadãos com seus animais fizerem o mesmo por dever de consciência e respeito para com a cidade e os demais habitantes, passaríamos a viver em uma sociedade perfeita, como sugere o título da canção. Tal e qual Immanuel Kant, Renato apela para esta consciência coletiva como meio de se construir a perfeição, o problema é que esta proposta, como as melhores já lançadoas, necessitam de uma consciência coletiva abrangente em detrimento ao individualismo que as pessoas em geral não estão propensas a seguir, ignorando a máxima "disciplina é liberdade".


O PACIFISMO

Com canções como "Soldados" e "Canção ao Senhor da Guerra", Renato Russo demonstrou todo seu repúdio às guerras, como manifestado em Bertrand Russell. 

Em "Plantas Embaixo do Aquário" termina com a frase "não deixe a guerra começar", repetidas vezes como um mantra. Porém, inicia com "provoque o desempate", numa alusão de que a apatia também não é uma solução viável frente à vida. Todavia, este processo de desempate, além de constante, deve ser um movimento como o das plantas colocadas na parte baixa do aquário, com harmonia e equilíbrio. Você já percebeu como se movimentam estas plantas?

Hegel, filósofo alemão, afirmava que as coisas surgem com a tese, depois a antítese, que é uma tese alternativa, para daí surgir uma síntese. Esta síntese cria uma nova tese, e dela uma nova antítese e, com isso, outra síntese se estabelece... assim sucessivamente. Este conjunto de sínteses, embora nascidos dos conflitos entre tese e antítese, podem ser resolvidos em movimentos harmônicos, tais como o diálogo, por exemplo, e cedências de parte a parte. É como plantas no fundo do aquário. 

A guerra em si, para Renato Russo não é viável como meio de desempate que ele prega na canção... Primeiro porque a guerra já vem com interesses escusos e programados para acontecer. Existe apenas a tese, a antítese é ignorada e a síntese é o massacre de inocentes, geralmente jovens que são convencidos a lutar pelos mais variados motivos, seja patriótico ou religioso, os mais comuns. Quando não convencidos são obrigados. 

Dentro do espectro da conquista pela força, tem a questão do terrorismo, outro tema recorrente nas canções de Renato Russo. Aqui o terror aparece por vezes em sua forma tradicional, como a lembrança de um grupo terrorista da Alemanha dos anos 1970 em Baader-Meinhof Blues, outras vezes, como em A Fonte, vem lembrando as chacinas de crianças e adolescentes, outras ainda através do descaso do Estado para com seus doentes e idosos, tal como aparece em Mais do Mesmo, bem como é lembrado nos ataques a mulheres e homossexuais, duas de suas causas mais caras, em A Dança.

Assim, guerra e terrorismo são ações que fogem do escopo das boas relações humanas e nada os justificam como alternativas. Nem a conquista territorial, nem a religião, nem o patriotismo, nem ideologia... Em nada se assemeham aos movimentos das plantas nos aquários.

Chegamos então aos três conceitos que aproximam Renato Russo de Bertrand Russell: a preocupação com o meio-ambiente, o pacifismo e a forma de encarar a política por meio de causas, tendo por bússula a ética. 

sábado, 2 de novembro de 2024

ROUSSEAU E RUSSO

 Quando Renato Manfredini Jr. colocou Russo em seu nome artístico, um dos homenageados foi o filósofo francês Jean Jacques Rousseau. Em entrevista, Renato Russo, disse que gostava da ideia da bondade natural do ser humano expressa pelo filósofo. 

Mas não ficou só nisso... Muito do que escreveu nos remetem ao pensamento deste filósofo. João de Santo Cristo, de Faroeste Caboclo, não deixa de ser uma versão de Emílio, personagem de Rousseau na obra Da Educação. 

Rousseau acreditava que a essência do ser humano era naturalmente boa e a maldade surgia a partir do momento em que o ser humano se via em um ambiente em que tinha que lutar pela sobrevivência, tendo como agravante a competição que teria que travar com os outros seres humanos, que por sua vez se viam na mesma situação. Por isso as pessoas se obrigariam a firmar um contrato social. Para ilustrar a tese, Rousseau criou o personagem Emílio.

Ao nascer, Emílio foi levado para uma ilha e criado por um tutor que só lhe ensinou coisas boas estando em um lugar em que não havia motivos para competir com outras pessoas pela sobrevivência. Manteve-se bom por todo o tempo, sem criar artimanhas, sem mentir, enganar e outras atitudes que os seres humanos criados em sociedade aprendem como meio de sobrevivência. Isto comprovaria a natural bondade humana, ou seja, o homem só seria capaz de fazer o mal quando instigado ou quando julgar que fosse necessário fazê-lo. E Isto aconteceria somente quando passasse a viver em sociedade.

Esta ideia é base também para o filme "Gêmeos: mórbida semelhança", com Dani de Vitto e Arnold Shuartzeneger, onde o personagem de De Vitto foi criado em um orfanato e o de Arnold foi para uma ilha, sendo tutorado por um professor. Nasceram gêmeos e foram separados ao nascer. A criação diferente, em diferentes ambientes, contribuíram na moldura do caráter de cada um. Enquanto o personagem de Arnold, na ilha, se manteve puro e íntegro,  o personagem de De Vitto, por sua vez, criado junto com outras crianças, carente de afeto e meios materiais, tornou-se uma pessoa capaz de enganar quem fosse para conseguir o que queria. Quando se encontraram, já adultos, a diferença estava bem evidente na forma como cada qual se portava diante dos problemas e situações. 

Mas, o que tem a obra de Renato Russo que nos remete a este tema sobre a bondade natural do ser humano? Abaixo, vou levantar a reflexão apresentando quatro canções em que este tema da bondade humana como essência serviu de base para composição de suas letras,  a saber: Indios, Há Tempos, A Fonte e Faroeste Caboclo.


A FONTE

Temos nesta canção um eu-lírico que se vê diante de um mundo indiferente às tragédias alheias e que ao mesmo tempo era capaz de perguntar-se  "quantas crianças haviam sido mortas desta vez". É bom lembrar que na época em que a canção foi criada havia acontecido a chacina da Candelária, o assassinato de oito crianças de rua que ficavam em frente à igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. 

Então,  a pessoa que reflete diante deste mundo se coloca em penitência por não fazer nada e assim, vê-se parte do problema.  Apresenta uma solução aparentemente simples: "não fazer aos outros aquilo  que não quer que seja feito com você". Bom..., continua sendo uma atitude passiva diante do "fazer aos outros o que você gostaria que fizessem por você", mas pelo menos seria uma passividade do bem, onde na preservação de si, não se faria mal a outrem, numa espécie de contrato social, aliás, o que também foi proposto por Rousseau.

Renato Russo vai além na reflexão... Quer buscar no próprio indivíduo a solução para resolver também problemas coletivos e sociais, porque a solução de um abarca a solução de outro. Quer ir, portanto, até a fonte. 

É um título bastante sugestivo, primeiro porque nos lembra a origem (fonte) do problema, que é cada qual individualmente. Trabalhar o indivíduo "ajuda pra caramba", chegou a afirmar em certo momento Renato Russo. Identifica, portanto, a "fonte" do problema.  Alem disto, o título trabalha com a ideia de fonte (d'água) como expiação de toda culpa. A pessoa dar-se conta de que é parte do problema é um passo importante para reverter o quadro e se tornar fonte da solução. Nesta expiação de culpa tem o elemento água,  que simboliza a limpeza. Como escrevi anteriormente, Renato Russo se destaca como letrista, entre outras coisas, por ter ideias sistemáticas, e apresentar a água como elemento de purificação é uma delas, fator que aparece em diversas canções. 

A fonte é também um título sugestivo quando Renato Russo vai à mitologia grega. Os versos a seguir são referências diretas a duas fontes que se encontravam na entrada da caverna de Trofônio, em Labadeia na Beócia. Uma se chamava Lete, que fazia esquecer das coisas passadas, e outra, Mnemonese, que permitia lembrar.

"...Ao lado do cipestre branco

A esquerda da entrada do inferno 

Está a fonte do esquecimento 

Vou mais além, não bebo desta água 

Chego ao lago da memória 

Que tem água pura e fresca

E digo aos guardiões da entrada 

Sou filho da terra e do céu...

...Dá-me de beber que tenho uma sede sem fim..."

O eu-lírico recusa beber da água da primeira fonte e pede água da segunda, da qual tem "uma sede sem fim". Com isso traz a ideia de que o mal está sempre à espreita e se descuidar dele é o primeiro passo para perder a bondade natural.  Beber desta água deve ser atitude constante. A maldade começa com o esquecimento das coisas boas que habitam o ser humano (essência) e o descuido é parte da posterior passividade diante do mal aludida no início da canção (indiferença) bem como é parte das más ações praticadas...  Então, tudo isto se torna um grande câncer. É bom trazer aqui a lembrança do filósofo Sócrates de que "a maldade é mais veloz que nós". A princípio parece contrariar a tese da bondade humana de Rousseau, mas ela corrobora, uma vez que se refere ao fato de que devemos estar vigilantes para preservar a nossa boa essência. 


HÁ TEMPOS 

Esta canção começa mostrando alguns dos processos emocionais negativos que perpassam a situação humana, citando uma geração "herdeira da virtude que perdemos" enquanto humanidade. Aqui, Renato Russo volta a lembrança ao nobre selvagem de Rousseau, o ser humano puro e livre dos males, males estes advindos de uma competitiva e opressora sociedade.

O verso " Não me lembro, não me lembro", de forma repetida, aparece como tentativa desesperada de voltar a lembrança a um tempo muito, muito distante. Há Tempos a humanidade abriu mão de sua boa essência original e natural, se colocando muito distante dela.

Quando usa o verbo "disseste", no verso "disseste que se tua voz" na segunda pessoa, o eu-lírico mostra que com a outra pessoa acontece o mesmo que a si, vive o mesmo desespero. E a humanidade partilha tais dores e cada qual as sentem juntos, e dores individuais se transformam em dores coletivas.

Na parte final, o compositor tenta trazer uma solução, indicando que, ao contrário do que se possa pensar, a liberdade está na disciplina, que compaixão não é fraqueza, é antes, fortaleza, pois é preciso ser forte para perdoar e sentir a dor do outro. Por fim, indica que é preciso coragem para ser bom, quando o caminho mais fácil é buscar o mal. (Sócrates)

Então nos apresenta o poço de água limpa, onde novamente está a água como elemento de purificação. Acontece que poço nos remete a algo que é fundo,  difícil de alcançar, o que traz a humanidade dificuldades imensas para voltar às origens e encontrar novamente a bondade natural.

E o mesmo acontece com cada um individualmente, cada qual tem dentro de si este poço, cada qual já é conhecedor do bem... Difícil é chegar ao fundo dele, beber desta água e banhar-se nela.


"ÍNDIOS"

Esta é a canção mais explícita sobre o tema da perda da inocência e a relação de Renato Russo com a visão do nobre selvagem de Rousseau, ideia traduzida por versos como "não ser atacado por ser inocente".

O fato do título "índios" vir entre aspas demonstra que Renato Russo não está falando sobre índios especificamente, a figura surge como uma metáfora do ser humano ideal, por ser a vida indígena a mais aproximada do modelo de ser humano natural, portanto boa em sua essência.

A canção parte do contexto histórico de um povo, no caso, o indígena brasileiro, para falar do individual. Do mesmo jeito que nossos indígenas acreditaram no europeu que aqui chegou, recebendo com sua pureza de espírito, sendo enganado e massacrado por isso, também o engano é o método utilizado nas más ações praticadas contra os "ingênuos", cabendo também aspas, uma vez que o termo mais adequado seria genuínos.

Numa época em que se discutia na Europa se indígena era dotado ou não de alma, se era gente ou animal, Rousseau via neste povo e sua forma de viver a expressão mais humana e correta de todas as formas existentes. Sua relação com a natureza e o outro, fazia deste povo um exemplo para a humanidade. Estamos então entrando no campo da ética e da moral, sejam elas na vida social (modo de viver) ou na conduta individual (como nos colocamos diante do outro), se somos ardilosos ou genuínos, nas mais diversas situações, inclusive nos relacionamentos amorosos.

O poema Oswald de Andrade ilustra bem esta situação ao afirmar:

" Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio...

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio teria despido o português. "

Esta piada em forma de poema corrobora a ideia de que teria sido melhor para a humanidade se ao invés do europeu subjugar o índio aos seus modos, tivesse o índio convencido o europeu sobre sua forma de viver como a melhor possível,  com sua ética, seus costumes, sua genuinidade. 


FAROESTE CABOCLO

A frase "Não tinha medo o tal João de Santo Cristo era o que todos diziam quando ele se perdeu" cumpre nesta canção um início informativo importante. Aqui, Renato Russo já caracteriza o personagem principal quanto à essência e natureza. Mostra-nos um corte do momento da transformação de Santo Cristo, entre a coragem (não tinha medo) e o perder-se.

Primeiro, faz-se necessário destacar a função do substantivo medo e do verbo perder. Medo está colocado aqui como origem do mal (perder-se). Antes de perder-se, supõe-se por obviedade, que havia coragem, destemor e, junto com tais atributos, bondade, pois não conhecia o mal. A inocência fora perdida em algum momento. E o próprio autor se encarrega de esclarecer versos adiante este momento crucial de transformação quando informa a morte do pai pelos soldados. 

Curiosamente, em "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, no momento do julgamento de Lampião em que a compadecida advoga em seu favor, o próprio Cristo que julga torna seu advogado alegando que Lampião presenciara na infância a morte do pai pelos soldados do império, e muito do que fizera no futuro advinha deste momento da infância. Em outras palavras, os acontecimentos passados influenciaram no que haveria de se tornar Lampião. Renato Russo repete a compadecida ao "defender" seu personagem João de Santo Cristo, além de citar outros momentos de sua trajetória into-juvenil, tal como aconteceu com o personagem de Dani de Vitto no filme Gêmeos, Mórbida Semelhança. 

Em outras composições de Renato Russo aparece a ideia do medo como origem do mal, o que demonstra uma sistemática de pensamento. Está, por exemplo, em Há Tempos, no verso "ter bondade é ter coragem"... Raciocínio inverso nos informa que maldade é temer, ou seja, o mal origina-se nele, no medo. Em "Fátima" acusa a a humanidade de se perder no "meio de tanto medo de não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender". Já em "Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto", ele afirma que dor (mal) vem do desejo de não sentir dor (onde reside o medo). O medo antecipa a dor e o sofrimento, por consequência antecipa o mau ato.

O fato é que nesta narrativa/canção o medo sempre impulsionou João de Santo Cristo em suas ações mais moralmente questionáveis e voltadas para o mal. Os momentos livres de tais tormentos e medos foram seus momentos mais felizes e norteadores da boa conduta e da boa intenção. Mas o medo sempre voltava: o medo de perder Maria Lúcia, o medo do General (aquele de dez estrelas), o medo de Jeremias, o medo da pobreza, o medo de de ter o mesmo fim de seu pai... Cada medo antecipa algo de ruim para João de Santo Cristo. E assim acontece também com outros personagens de Faroeste Caboclo, cada qual com seus medos. Maria Lúcia ficou só quando Santo Cristo ficou fora um tempo e o medo a levou aos braços de Jeremias e, o próprio Jeremias foi levado a atirar pelas costas por covardia.

O que interessa, entretanto, para nossa reflexão, é o fato de João de Santo Cristo ser o que é com suas transformações. Ele foi moldado para lutar contra a sociedade que o fabricou para ser assim. Ter essência boa é um ponto de partida e isso precisa ser entendido quando se fala no nobre selvagem de Rousseau e não um ponto de chegada. Estamos falando em uma condição pré-existente. Assim, os versos finais também são reveladores e trazem a redenção de Santo Cristo ao informar suas intenções: "falar com o presidente para ajudar toda essa gente que só faz sofrer". Precisa intenção mais nobre?...



ESSENCIALISMO X EXISTENCIALISMO

A tradição filosófica traz vários embates teóricos e, entre eles, está a discussão sobre a condição humana. Por muito tempo os filósofos tratavam a questão sobre a perspectiva da existência de uma natureza humana pré-existente. Apenas há alguns séculos um grupo de filósofos começou a analisar a questão sob a ótica de que não possuímos natureza pré-existente, ou seja, a existência precede a essência, antes existimos e a forma de existir é que definirá o que seremos. Chegamos à escola filosófica chamada existencialismo.

Dizer que a existência precede a essência é o mesmo que negar que exista uma natureza humana pré-existente. Então, nos coloca priordialmente como um papel em branco e que, cada ação, cada passo, não são determinados por uma força ou uma consciência existentes em nós a priori antes mesmo de nascer, comum a todos. Tudo o que acontece é fruto de uma consciência a posteriori, ou seja, a partir da existência.  Assim, não havendo força pré-existente que nos conduza, não há a quem culpar senão a nós mesmos, pois não existe tendência ou propensão, seja para o bem ou para o mal, quando um ato for praticado. Nós somos sujeitos livres e conscientes de nossas ações. Então, a essência se forma de maneira individual, a partir da existência e não o contrário. Assim, para o existencialista, não é a essência um fator determinante que conduz e molda nossa existência, é antes, esta quem dará cores ao papel em branco, aplicará nuances e,  só assim, determinará então aquilo que seremos.

Rousseau pertence ao grupo dos essencialistas, dos que acreditavam que existe uma essência que precede a existência. Não só acredita nesta essência, como a coloca como base para sua construção filosófica, pois parte do princípio que a existência do sujeito o transforma em alguém "pior" do ponto de vista moral, porque se vê em constante competição com outros sujeitos, precisando inclusive de um contrato social para estabelecer limites. Em outras palavras, a sociedade corrompe o bom sujeito, a quem chamou de nobre selvagem. Quanto mais primitivo for o homem, melhor ele será, quanto mais "civilizado", pior.

Afirmava que a origem da sociedade civil começou quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: isto é meu; e não houve ninguém para contestá-lo. Ao contrário,  os outros fizeram o mesmo. Criou-se a propriedade individual, depois vilas, cidades, países... enfim, fronteiras e a defesa delas e de um povo. Vieram as guerras, cada qual defendendo o que julgava ser seu. Com a sociedade civil, então,  surgiu o grande mal. Para Rousseau, podemos dizer, existe uma boa essência, mas ela infelizmente é atropelada pela existência. 

Acontece, por outro lado,  que há filósofos essencialistas que defendem que a maldade é a verdadeira essência humana e a existência deste humano com suas escolhas apenas corrobora esta essência. A frase de Sócrates sobre a velocidade da maldade seria a aplicação prática do que verdadeiramente somos. O nome de maior vulto desta corrente de pensamento é Thomas Hobbes, que afirmou ser o "homem lobo do homem", uma alusão a esta natureza pré-existente afeita a esta entredevoração e ao que considera maldade humana natural. Assim, para Hobbes somos propensos a ser maus, a convivência com outros em sociedade é que o controla, ao contrário do que prega Rousseau. Temos então a vertente essencialista com visões contrárias sobre a natureza humana pré-existente, e a vertente existencialista, que afirma a neutralidade, quando fala da inexistência desta natureza. 

Em "Os Anjos", Renato Russo apresenta uma espécie de receita, onde usa temperos ruins, tais como estupidez, mentira, preguiça, ódio, inveja... E coloca tudo numa forma... Está fabricando o ser humano como quem faz um bolo. Parece estar concordando com Hobbes, pois a essência do ser humano é o conjunto de seus "temperos" e atributos. Chega a afirmar em um verso que "a maldade agora não tem nome", tamanho o horror que o poeta presencia.

No entanto,  o verbete "agora" no verso dá ideia de algo momentâneo, não de algo perene, como seria a essência. Esta volatilidade é atributo da existência, volúvel ao momento, mesmo que este seja um longo período. Ao afirmar que a humanidade está mau, não quer dizer que ela é mau por natureza, afinal, "não é a vida como está e sim as coisas como são", tal e qual Renato Russo afirmou em "Meninos e Meninas"?

As últimas estrofes de Os Anjos tentam trazer o ser humano para seu lugar de origem, sua essência primordial, com frases como consertar a asa quebrada (se redimir) e voar para bem longe (afastar-se da maldade e voltar ao bem, que está distante), para então afirmar: "só nos sobrou do amor a falta que ficou"

O amor é visto como algo bom, de nossa essência... Escolher não amar é afastar-se desta essência, como diria Santo Agostinho, e viver o não-amor/desamor é uma escolha que contraria esta essência. Raciocínio lógico, se o que ficou foi sua falta (do amor) é porque ele existe, pois o que falta existe em algum lugar e a sua não prática não mata sua existência, apenas está em algum lugar, amortecido ou esquecido. 

Por fim, o título "Os Anjos" nos coloca num lugar que representa pureza e bondade. A figura angelical bem poderia soar como a típica e costumeira ironia do poeta, mas não parece ser o caso. É antes a manifestação e representação de uma posição em que a humanidade poderia estar e abriu mão. Então, onde Renato Russo parece estar em concordância com as ideias de Thomas Hobbes, apresentsndo uma receita recheada de condimentos ruins, abandonando Rousseau, na verdade está reforçando seu apreço e concordância com o filósofo francês, não sem antes passar pelo existencialismo quando percebe que os temperos são escolhas feitas e não o condicionamento de uma má natureza. Renato Russo está mostrando o que vê, mas acredidando numa essência perdida que não consegue renegar como fator pré-existente e de regresso.

Obviamente, não há como afirmar que Renato Russo tenha pensado em Hobbes, Rousseau ou nos existencialistas quando compôs a canção, mas o importante aqui é que ela serve bem como ponto de partida para a reflexão sobre a condição humana e suas contradições, que tanto aparecem nas obras do compositor. 


Renato Russo: canção e filosofia

 Renato Russo e as conexões com a filosofia.

Rousseau disse que Maquiavel,  fingindo dar lições aos príncipes, dava lições ao povo. O intuito desta postagem não tem a mínima pretensão dar lições, mas quer fingir que fala de filosofia, falando de Renato Russo e fingir que fala de Renato Russo falando de filosofia. 

O intuito não é o de simplesmente interpretar canções, mas identificar quais filósofos e concepções filosóficas estão mais presente na obra.

Renato Russo foi um compositor/letrista diferente da maioria, entre outras coisas, por apresentar em sua coleção de canções algumas ideias sistemáticas, ou seja, um discurso coerente em que ideias que surgem numa canção voltam em outras. As músicas (letras) não são obras que acabam em si mesmas, as ideias repetem-se e se sustentam, alimentando uma forma de pensar como base da obra como um todo.

Em vários textos, a partir desta postagem, neste blog, vou trazer algumas destas ideias com olhar filosófico sobre a obra, trazendo quais as fontes alimentadoras e quais aspectos filosóficos são destacados na obra do letrista.

Por enquanto vou explicitar quais são esses aspectos e depois dissertarei sobre cada um separadamente em postagens diferentes, a saber:

- ROUSSEAU e a bondade natural que aparece como base de pensamento em obras como Faroeste Caboclo, Há Tempos, Indios e A Fonte.

- BERTRAND HUSSERL, o ecocentrismo, a política voltada para as causas e o pacifismo.

- NIETZSCHE e desconstrução do apego ao que faz mal, ao que nos aprisiona... Tais ideias aparecem em Sereníssima, Será, Flores do mal...

- A ÉTICA como ponto de partida da obra, sendo foco principal, e a ESTÉTICA como linha auxiliar.

- A ESPIRITUALIDADE como base da vivência. 

- O conformismo ESTÓICO no que diz respeito às coisas do amor, evidenciado na maioria das canções sobre o tema.

- A GUERRA como algo a ser combatido e inexplicável como solução para conflitos entre países. 

- POLÍTICA: o fascismo, o terrorismo, a ditadura e a indiferença social. 

- SOCIAL: a questão das crianças e das mulheres.

- HOMOSSEXUALIDADE: As dificuldades em assumir tal condição e o processo ao fazê-lo.

- PLATONISMO como inspiração mais evidente, apresentando nas canções um mundo com suas confusões e problemas, mas sempre também apresentando uma esperança, uma outra situação possível, não raras vezes buscada em outra dimensão, pois, como disse o Renato Manfredini Júnior à mãe certa vez: "eu não sou daqui".

Estes parecem ser os temas mais trabalhados por Renato Russo e é em cima deles que faremos nossa abordagem, trazendo para o enfoque da filosofia. Há muitos elementos que passam despercebidos quando ouvimos tal  e tal canção, por desconhecermos a fonte inspiradora, por isto o estudo da obra ajuda as pessoas a se conectarem melhor com ela. Com formação em filosofia, pretendo fazer este enlace e auxiliar o leitor do blog a se conectar de forma diferente a que está acostumado e oferecer uma nova forma de experimentar estas canções, com novo enfoque e entendimento. 

Para continuar vá ao próximo tópico "Rousseau e Russo"

terça-feira, 8 de outubro de 2024

A Cura

 Sei não... Diz-se que a escuridão é tão somente a ausência de luz, que as trevas em si não existem. Este é um princípio em que Santo Agostinho se baseou para explicar a presença do mal no mundo, uma vez que Deus, sendo bom, não poderia ser criador do mal.

Santo Agostinho explicou que o mal seria resultado da escolha pelo afastamento das coisas de Deus, tal e qual a luz se afasta de um ambiente. Sempre que nos afastamos do que Deus quer o mal aparece. Por exemplo: Deus criou o amor... Sempre que praticamos algo que contrarie um ato de amor, estamos na verdade nos afastando de Deus e daquilo que ele criou, que é bom, tal como a luz e seu efeito na escuridão.

Assim, um ato de violência nos afasta da paz,

O ódio nos afasta do perdão,

A discórdia nos afasta da concórdia...

E quanto aos males que independem de nossas ações, tal como uma doença?

Isto também seria um afastamento, uma vez que a normalidade estaria na saúde e não na doença, que seria uma anomalia. A volta à normalidade, portanto, seria a cura através do tratamento específico para esta doença.

O certo é que não queremos o mal... Isto é uma convenção universal. E serve também como princípio norteador àquelas pessoas que julgamos más segundo nossos princípios. Mesmo a pessoa que pratica o mal tem seus conceitos morais e os seguem.

A ideia do bem nos persegue, como ensinou Aristóteles, pois todos guardamos conosco e somos atraídos pelo que é bom e justo, ainda que estas concepções difiram de pessoa para pessoa. Para Platão, esse anseio vem da alma.

A cura é a volta à luz para as doenças da alma, e a volta à saúde para as doenças do corpo.

A cura é, portanto, um caminho de volta.

Os Desejos e arbitrariedade do controle


"Neste mundo há apenas duas tragédias: uma a de não satisfazermos nossos desejos, e a outra a de a satisfazermos."  (Oscar Wilde)


Sei não... Epicuro afirmou que o desejo é a causa de todos os males, pois, como não conhecemos o amanhã, com seus acontecimentos, se os desejos irão ou não se realizar, seria uma perda de tempo deixar de gozar os prazeres possíveis esperando o talvez ou o impossível acontecer.

A lógica é a de que gozar pequenos prazeres no tempo presente é melhor que esperar o grande desfrute acontecer num tempo futuro. Para Epicuro, esperar pelo futuro, despendendo energia nele, necessariamente é abrir mão de viver o presente com a intensidade devida.

Epicteto, o escravo, falou: "Desterra de ti desejos e receios e nada terás que te tiranize", afirmando que somos escravos dos desejos e medos, de quem devemos nos livrar.

Buda, Shopenhauer, Sócrates e outros seguem esta linha de pensamento. Benjamim Franklin chega a dizer que, mesmo realizados, os dsejos trariam mais aflições que prazeres.

Contrariando esta tese dominante, de que os desejos devem ser contidos, Jonathan Swift ressalta: "O método estoico de enfrentar as necessidades suprimindo os desejos, equivale a cortar os pés para não precisar sapatos".

Swift, com isso, afirma que o controle ao desejo é tão prejudicial a nós quanto os ditos males advindos do ato de desejar, pois isto significa contrariar a natureza humana, o que causaria mal em igual teor.

Os filósofos citados anteriormente apresentam a razão como meio de suprimir o que para eles é a fonte da infelicidade, que é o desejo, já Swift é partidário da liberdade emocional, lugar em que os sentimentos se sobrepõem  à razão.

Oscar Wilde coloca-se entre essas duas formas distintas de ver a questão e com isso nos traz mais uma angústia a respeito do tema: "Neste mundo há apenas duas tragédias: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, e a outra de os satisfazermos."

É... Não tem saída...

Podemos desejar, mas não a ponto de tornarmos escravos dele, e controlá-los, mas não a ponto de tornarmos escravos do controle.

O Vazio Existencial e a Criança que Procura




"De meros vazios se constrói o recheio da existência humana." (Hugo Hofmannsthal)

Sei não... É comum as pessoas falarem sobre o vazio existencial... No entanto, o que as pessoas na verdade estão sentindo não é um vazio, é antes uma procura sem sucesso.

Explico: As pessoas na verdade estão cheias, tão cheias que não encontram o que querem dentro de seus baús existenciais, tamanha bagunça e fastio.

Uma criança, afortunada por tê-los, vai até sua caixa de brinquedos à procura de algum brinquedo  específico. Enquanto procura por aquele que quer, vai remexendo nos outros brinquedos, colocando uns de lado, tirando outros para fora da caixa, afasta para cá e para lá...Se distrai com o processo e, ele próprio, vira uma brincadeira em si. Por vezes a criança chega a esquecer do brinquedo que queria ao pegar um outro que lhe chama a atenção.

Não existe vazio existencial em uma criança que procura.

Não existe vazio existencial para quem se diverte ou se distrai enquanto procura aquilo que deseja encontrar em seu baú abarrotado.

Procure como uma criança!


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

As Redes Sociais


 Sei não... As redes sociais assumiram, por permitirmos, não que necessariamente mereçam, grande importância em nossa vida. Uma prova dessa importância é a de que a sua leitura deste texto está ambientada em uma plataforma digital.

Não se trata aqui de demonização das redes, mas sobre a influência delas na vida social, que nada mais é do que um reflexo de nossa conduta individual. 

Certa feita, em uma parada de ônibus ouvi uma senhora falando para outra sobre uma terceira e o quanto estava desgostosa com esta última. Mas não "deixaria barato", iria castigá-la... iria bloquear a antes amiga e agora desafeta de uma de suas redes sociais. Via neste bloqueio o castigo adequado ao tamanho da ofensa sofrida.

Além desta forma de lidarmos com as redes, há que se refletir sobre o fato de muitas das plataformas imitem a conduta social ao permitir que tenhamos vários perfis e páginas. Nós as temos na vida pessoal também... e as usamos conforme as situações. Nossos perfis e páginas nas redes, não diferem de nossos perfis e páginas na vida. Quando estamos fatigados de um, trocamos para outro, até o ponto em que nos deparamos com situações em que não há como trocar o perfil ou a página como acontece nas redes digitais...

De alguma forma, na vida real, nos deparamos com o fato de que nem sempre é possível bloquear,  tampouco simplesmente virar a página ou trocar perfil. Às vezes faz-se necessário enfrentar o problema. E aí reside o problema... ou a solução. 

sábado, 5 de outubro de 2024

O valor do ócio

 Sei não... Dizem que as pessoas sempre estão em busca da felicidade. Dos gregos antigos a Betham a felicidade é vista como o objetivo último a ser alcançado. 

Talvez o que precisamos mesmo é do ócio. 

Bom, Aristóteles, um dos pregadores da felicidade como fim último da vida, determinaria o ócio como caminho possível para chegar a este objetivo.  Nesse caso, o ócio seria um mero instrumento para um bem maior, a felicidade. 

O ócio em si, mesmo sendo caminho para outros fins, por vezes é o próprio objetivo, como é o caso do trabalhador que anseia pela aposentadoria. Qual trabalhador não espera pela aposentadoria? Poder descansar, brincar com os netos, sem a angústia de ter que trabalhar para conseguir o sustento.

O ócio não é apenas um meio para se chegar à felicidade. Ele também nos leva ao prazer, a tranquilidade, à convivência familiar, aos amigos...

Muito se tem demonizado o ócio como causador de males, sendo a "oficina do diabo".

No ócio podemos encontrar muito o que fazer. Talvez seja ele aquilo que nos possibilita encontrar alegrias.

Para o bem ou para o mal, não há nada que proporcione mais ação do que o ócio.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Natália e os Doze

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sábado, 17 de fevereiro de 2018

FILOSOFIA LUNAR: 1ª LUA CHEIA



RESETAR


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Somos todos refugiados, vivendo num espaço que em determinado tempo alguém disse ser seu e, por um capricho do destino, nascemos nesse espaço.

Rousseau disse que o mal surgiu no mundo quando um primeiro cercou um pedaço de terra e disse: “isto é meu” e não houve quem tivesse clareza suficiente para arrancar as cercas. E assim surgiram propriedades, depois vilas, depois cidades, países, enfim… fronteiras. E vieram conflitos para ver quem mandava. E com isso, a luta pelo poder.

E surgiu a etiqueta, os bons costumes, a leis para proteger o poder… E veio a desigualdade, a prisão social e a repressão.


Dentro de nós há uma repetição deste modelo, pois somos criados e educados dentro dele para viver e consolidar os seus ditames. Faz-se necessário resetar nossos conceitos e reiniciar, renascer… Sem fronteiras e ideias pré-concebidas.